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Uýra Sodoma: uma revolta organizada

Pelo Brasil afora, drag amazônica chama a atenção para questões ambientais e sociais por meio de sua arte

por Sofia Hermoso 13 abr 2021 00h09
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Clube Lambada/Ilustração

evolta organizada é como ela mesma se define, sem nunca se resumir a isso. Uýra Sodoma é uma entidade híbrida que mistura conhecimentos científicos e ancestralidade indígena em sua performance. Criada pelo artista e biólogo Emerson Uýra, 30 anos, são muitos os significados carregados por ela.

Natural de Santarém, Pará, Emerson é formado em biologia e mestre em ecologia. Desde os cinco anos mora em Manaus, capital amazonense. Foram dez anos de atuação entre o ambiente acadêmico e o terceiro setor até a arte transformar a vida do paraense. Com o intuito de democratizar os saberes que adquiriu ao longo dos anos de academia e estimular a discussão ambiental para toda a população, Uýra surgiu em 2017.

A presença que ocupa o corpo de Emerson é uma mistura de política, arte e meio ambiente que transforma e movimenta. Por isso, a “revolta organizada”: uma forma de explicitar a natureza de violência, degradação e abandono que circundam a vida indígena. Apesar disso, ela faz questão de frisar que não fala apenas de um lugar de dor e fúria – seu trabalho também é potência e beleza, e busca reativar a autoestima da população periférica e indígena.

“Meu trabalho com arte e educação parte um pouco disso. A Uýra, em essência, fala da floresta e também lembra de sua estética, de sua beleza. Lembrar desses processos que são íntimos e inerentes ao cotidiano, à história natural, é importante, né? Assim, eu vou juntando essas coisas”, explica.

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Série A Última Floresta – Terra Pelada.
Série A Última Floresta – Terra Pelada. Matheus Belém/Edição/Fotografia

A drag que não tem nada de queen

Entre tantas definições, Uýra muitas vezes é chamada – e já chegou a se considerar – uma drag queen. Hoje, ao compreender melhor a si mesma, ela pode até se ver como uma drag, mas não como uma queen.

“Eu não me entendo hoje como uma drag queen, principalmente a partir desse termo norte-americano e tal, que é o queen. Aqui na Amazônia, e mais concentradamente no Pará, alguns movimentos fogem da rota norte-americana do que é ser uma drag. Então, hoje, estão ocupando essas cidades outros movimentos autodenominados. Por exemplo, no Pará, tem as drags demônias, no sul e sudeste, as drags monstras.” Para ela, autodenominar-se drag faz sentido para o debate com a comunidade LGBT, por ser uma arte de muita importância e apelo. Entre as opções, Uýra prefere os termos drag demônia ou drag monstra pois, quando está montada, não se transforma em outra pessoa, mas em uma árvore.


“Tem drag queens cantoras, apresentadoras de programa, youtubers… se, por exemplo, uma delas faz um lip sync da Christina Aguilera, eu amo, mas a mim não interessa enquanto criatura transmutada. Eu nem gente viro”

É por isso que ela se apresenta como “a árvore que anda”. Em comum com as drag queens, há a prática da transmutação, ao trocar uma estrutura por outra durante um determinado período. Mas os motivos para a mudança e o que se faz a partir dela é o que de fato define quem é Uýra Sodoma. “Tem drag queens cantoras, apresentadoras de programa, youtubers… se, por exemplo, uma delas faz um lip sync da Christina Aguilera, eu amo, mas a mim não interessa enquanto criatura transmutada. Eu nem gente viro”, comenta.

Segundo a drag amazônica, como também é reconhecida, é muito comum que os indígenas tenham clãs nomeados e simbolizados por bichos e outras criaturas, que são como guias espirituais. É dessa forma que ela enxerga a entidade em que se transforma: “Uýra vem até mim e me ocupa através dessa manifestação chamada de arte, mas que em essência é vida, é espiritualidade também, como uma planta, uma árvore.”

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Série Elementar: Espíritos do que vive.
Série Elementar: Espíritos do que vive. Selma Maia/Edição/Fotografia

Além de artístico, o processo é espiritual

As diferenças em relação às drag queens não se limitam à aparência e à performance. Os elementos utilizados para a transformação também são outros e carregam um sentido poderoso. Para virar Uýra, Emerson coleta apenas materiais orgânicos, como folhas, sementes e flores, sendo eles sempre do lugar em que vai se apresentar. A intenção é que a entidade nasça a partir do solo que, pelo menos no Brasil, é sempre um solo indígena.

Segundo ela, a inspiração surge da observação da natureza, e o seu livro de arte é uma trilha na floresta. “Vou experimentando a partir dessa intuição, do uso de itens que estão no meu quintal, como uma manifestação estética e política a partir de um referencial de si mesmo, do próprio quintal da própria gente. Me interessam esses elementos por isso, mais do que a pegada sustentável, de usar elementos orgânicos numa montagem que é efêmera. Dentro do ecossistema, meu interesse está bastante voltado em usar o que se tem, o que se é. Eu gosto de entender e sentir a arte a partir do meu coração, sabe?”.

Aonde quer que vá, ela se encontra com os ancestrais da terra e pede licença para usar os materiais. Em média, são duas horas e meia de montagem e uma parte de seu processo artístico e espiritual é resgatar a memória local: “A minha parte preferida da transmutação é poder aprender com a textura, a sensação e a cor que habitam naquele lugar e, logo, com os saberes daquele território. Que são saberes das nossas velhas e velhos.”

No entanto, não é apenas a floresta que Uýra explora com sua arte. Mais do que isso, busca mostrar a dicotomia e a transição entre a cidade e a floresta, paisagem que faz parte de seu cotidiano em Manaus. Assim, ela destaca que as indústrias são atravessadas pelo canto dos passarinhos e que o cimento da cidade não é tão duro quanto a raíz que o perfura.

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Lisa Hermes/Edição/Fotografia

Potência e ancestralidade

Criador de uma arte única, o ativismo de Emerson também perpassa por questões de gênero, raça e classe, já que são assuntos de grande relevância para ele, como artista e indivíduo. Sua identificação de gênero é como uma pessoa trans não-binária, entre diferentes nomes e pronomes, Uýra ou Emerson, ele ou ela. Portanto, a potência de suas concepções é resultado de todos os seus traços identitários.

Potência essa que vem desde a escolha do nome. Enquanto Uýra significa bicho que voa, Sodoma é uma alusão ao termo bíblico, o local onde se habita o mal e se demoniza um território. “É interessante que nem sempre cito o sobrenome Sodoma, mas às vezes eu utilizo em alguns momentos específicos para trazer essa posição do lugar onde eu vivo. Por exemplo, a negação a uma travesti ao dizer que ela não é a natureza mostra que isso é do mal, né? A partir de um viés bem cristão, mais fundamentalista mesmo”, explica.


“A gente convive com o racismo cotidiano a partir da própria população manauara, que se amplifica com uma série de violências que afastam os parentes de suas raízes e identidades”

Além da transexualidade, uma outra questão identitária move a artista. Ela conta que faz parte do grupo de indígenas brasileiros que estão em busca de seu povo. “O que eu sei é que a minha família era do território do Cariri, que hoje é o Ceará e há duas gerações migrou para o Amazonas”, relata. Em seu trabalho, Uýra tenta cada vez mais discutir um assunto pouco falado, o da diáspora indígena. “Eu destaco o trabalho que é uma performance comissionada que fiz para o Instituto Moreira Salles. Chama Manaus, uma cidade na aldeia e, em essência, fala desse apagamento que existe dentro de uma cidade que é etnicamente indígena e que se materializa do ponto de vista físico e simbólico, né?”

Para ela, uma das consequências dessa diáspora é a negação e o desaparecimento das próprias raízes, processo enfrentado por muitos brasileiros desde a colonização. “A gente convive com o racismo cotidiano a partir da própria população manauara, que se amplifica com uma série de violências que afastam os parentes de suas raízes e identidades.”

Ao unir e se nutrir de vários temas, Uýra se vê também como um canal de comunicação sobre a natureza. Sem pretensão de falar por qualquer um deles, a conexão com os movimentos das mulheres, da população preta, indígena e LGBT surgiu por um sentimento pessoal. Sobre se enxergar como uma interlocutora dessas pautas, ela explica: “quando eu falo de canal de comunicação que aborda a questão da natureza – ou pelo menos o que se entende ou o que se deixou de entender por natureza – é para talvez reconectar esse mundo humano. Por exemplo, a percepção de nação brasileira parte do sagrado masculino, né? Dessa coisa do homem branco, cisgênero e heterossexual que tanto oprime. Tudo isso dá uma visão de que a natureza é esse padrão, quando a natureza é tudo.”

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Série Elementar: Rio Negro.
Série Elementar: Rio Negro. Ricardo Oliveira/Edição/Fotografia

A arte também é política

Motivada por tantas causas, Uýra não poderia deixar de ser também sobre política. Em todos os espaços que ocupa, os posicionamentos acerca do uso da terra e da cidade são explícitos. São gritos sobre as violências ambientais e sociais e a necessidade de proteger a natureza. “Eu tento organizar essa revolta com beleza, mesmo que seja na feiura, com beleza, sabe? Com alguma esperança, algum caminho possível.”

Emerson acredita que, no atual cenário político-ambiental, este é o pior momento que sua geração já enfrentou. Segundo o artista, o caminho escolhido pelo governo vigente é o de naturalização da desgraça, apresentado como um projeto de opressão sobre a população. “Vivemos tempos hediondos. Se a natureza brutal que criou e é mantida por este país mais uma vez se manifesta sem pudor, no governo de Bolsonaro, ela vem acompanhada de farsas como a fé numa terra plana, que somente desviam os olhos do cotidiano repugnante e oficializado de desmonte de direitos e da destruição ambiental com acentuação das violações sociais. A pandemia veio para agravar a situação inteira, mas mostrou o quanto este país já estava adoecido.”

Uýra é tão política que o seu surgimento teve início após o episódio do Ocupa Minc, em 2016. A mobilização nacional protestava contra a decisão do ex-presidente Michel Temer (MDB), de extinguir o Ministério da Cultura e reivindicava políticas públicas voltadas para a cultura. Em Manaus, a classe artística ocupou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Foi a partir daí que Emerson começou a se entender como artista, após trabalhar seis anos como pesquisador no meio acadêmico.

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Encanto e espanto democratizados

No início, as produções de Uýra foram voltadas exclusivamente para as redes sociais. Emerson não pensava em produzir para o que chama de “sistemão” de arte – circuitos tradicionais de museus e exposições – mas tem aprendido a pisar e a se colocar nesses espaços. A experiência gerou reconhecimento e bons resultados no meio artístico, mas ainda toca em um ponto delicado para ele, que justifica: “a gente trata de coisas muito importantes sobre ancestralidade e cultura. São as mirações dos nossos sonhos que viram arte. E elas falam de vovó, né? Da floresta, das coisas vivas. Então, são negociações que para a gente podem ser muito caras, se essas obras ou falas chegam a locais que são de violência. Nós não queremos isso.”

A drag enxerga a negociação de seu trabalho em espaços formais como uma de suas vulnerabilidades, mas não a única. Por ter a fotoperformance como sua principal linguagem artística, a exposição física e espiritual é grande. Principalmente, durante os ensaios que muitas vezes são feitos na rua e em meio ao lixo. Ela lida, ainda, com comentários desagradáveis, gravações e divulgações irresponsáveis de suas performances.

A artista alcança cada vez mais o objetivo de democratizar seus conhecimentos, seja através das exposições formais, dos lambe-lambes nas ruas ou do Instagram, que conta com mais de 21 mil seguidores. O reconhecimento de seu talento, no entanto, veio como uma resposta da visibilidade internacional que recebeu por participar de exposições na França e no Canadá. “Pelo próprio processo colonial a gente tende, em grande parte do Brasil, a valorizar o que é de fora, né? Hoje já tenho um carinho dos artistas da cidade e agora começo a adentrar outros espaços, principalmente do ano passado para cá”, afirma.

Tão grande é a aprovação que muitos eventos já estão marcados na agenda da paraense durante este ano. Já são pelo menos duas exposições internacionais confirmadas, uma em São Francisco (EUA) e a outra na Holanda. No Brasil, seu trabalho estará presente na 34ª Bienal de São Paulo, que acontece de 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021. Serão apresentados no evento duas séries fotográficas já produzidas e dois trabalhos inéditos. Um deles é a série fotográfica “Retomada” e o outro é a instalação “Malhadeira”.

“Pelo próprio processo colonial a gente tende, em grande parte do Brasil, a valorizar o que é de fora, né? Hoje já tenho um carinho dos artistas da cidade e agora começo a adentrar outros espaços, principalmente do ano passado para cá”

Em suas criações de foto performance, Uýra atua na pesquisa, concepção visual, montagem e convida um profissional para realizar a parte fotográfica. Ela destaca o fotógrafo Matheus Belém como um superparceiro que produziu a maior parte de seu acervo e a artista visual Keila Serruya, como grande apoiadora de suas missões.

Atualmente, sua instalação “Mãe da Lua” faz parte de uma exposição que dura até o fim de março, na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro. Além de relevância no meio artístico, a paraense já recebeu menção honrosa pelo trabalho com arte e educação ambiental feito com as comunidades ribeirinhas de Manaus.

Fato incontestável é que, por onde passa, seja por meio de fotografias ou pessoalmente, todos os olhares se voltam para Uýra Sodoma. Por encanto ou espanto, o que ela faz é crucial: “Eu entendo que essa imagem carrega força e tem potência para captar olhares para as questões que me atravessam e que são urgentes de compreensão a nível coletivo. Às vezes as pessoas olham para o que é necessário, né? Esse é o meu trabalho, assim, enquanto Uýra.”

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