evolução

Curtindo a rotina

Você já se acostumou com o tão falado novo normal? Como tem sido trabalhar dentro de casa?

por Artur Tavares Atualizado em 30 jul 2020, 11h03 - Publicado em 30 jul 2020 01h41
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Estúdio Lambada/Ilustração

cordar, olhar o mundo lá fora pela janela, sentar para trabalhar. Entramos no quinto mês de quarentena com o sentimento de que vai passar, mas ainda demora. Assim como as fases do luto, agora com a epidemia da covid-19 nossa estrutura emocional também experimentou momentos diferentes para lidar com a vida dentro de casa. Nos iludimos de que seria por pouco tempo; nos desesperamos com o isolamento quando caímos na real; nos resignamos em ter perdido momentos de diversão; aceitamos que somos parte do problema do mundo com nossas relações destrutivas; e agora parecemos gostar dessa nova realidade em que fomos colocados.

A primeira vez que senti prazer em trabalhar em casa nessa quarentena foi quando parei, no meio de uma tarde qualquer, para guardar a louça acumulada. Eram muitas. Os copos e pratos foram para os armários, os talheres para as gavetas. Guardei a coqueteleira usada na noite anterior e as panelas, e depois fechei as janelas da cozinha. Não demorou, mesmo tendo feito diligentemente e com calma.

Não quero soar a Marie Kondo aqui e pregar a meditação através da arrumação, longe disso. A conversa é sobre pequenos momentos que passaram a preencher nosso tempo agora que estamos longe dos escritórios, e também sobre como atividades rotineiras estão se transformando. É sobre parar para guardar a louça, brincar com seu animal de estimação, poder desligar a mente por cinco minutos, parado, olhando para a chaleira que começa a soltar fumaça da água que já já vai para o café.

Pela varanda do quarto que uso como meu escritório, vejo quase toda manhã uma vizinha tomando sol na sacada da casa dela, sempre cerca das dez e meia da manhã. Pelo horário, não parece ser uma rotina que ela tinha antes disso tudo acontecer. Conheço gente que começou a fazer pães, yoga, aula de francês, que voltou a estudar. Confesso que não consegui sequer tirar um cochilo de tarde durante a quarentena, mas de jeito nenhum condeno quem alcançou essa graça. De vez em quando paro no meio do expediente pra tomar banho, sempre causando indignação na Kareen, nossa diretora de arte.

Porque a gente acaba envolvido nas nossas rotinas profissionais da mesma maneira estando em casa, mas sem aquela rigorosidade de estar na sua mesa no escritório. Não foram poucas as vezes que eu aproveitei meu tempo preparando almoço para fazer ligações com nossos colaboradores – que também estavam na cozinha. E, o que a primeira vista parece uma situação bastante estranha, acaba se tornando confortável, e até um pouco reconfortante. É como se, forçados a ficar em casa, estivéssemos recuperando um pouco de vida, percebendo que ela está além das 9h às 18h, um PF num boteco qualquer no meio do dia, a hiper produtividade que fingimos ter enquanto passamos boas horas no Twitter.

Você é lindo (até de pijama)

Sabe como sempre achamos que os apresentadores de telejornal estão de bermuda e saia debaixo da bancada, só com a parte de cima da roupa, chique, aparecendo? A velha brincadeira acabou se tornando a realidade de muitos de nós nessa quarentena.

Conheço muita gente que é do time dos que precisam se arrumar para ter um dia produtivo pela frente, mas eu sou daqueles que está pronto pra trabalhar no minuto seguinte ao de acordar. Esse negócio de levantar cedo todos os dias, tomar um banho, enfrentar o trânsito para chegar na redação, não é pra mim. Eu levava, pelo menos, uma hora nesse ritual matinal diário, e, agora que tenho a oportunidade de dormir, vou sacrificar meu sono?

O rosto amassado virou a instituição máxima dessa quarentena. Pelas telas dos nossos computadores, estamos nos conhecendo novamente. Aparecemos sem maquiagem, descabelados, pegos de mau humor por calls pré-agendadas que não podem ser adiadas pra daqui quinze minutinhos, o tempo de esfriar a cabeça. Fazemos reuniões de trabalho de regata, com nossos filhos pendurados em nossos pescoços, com nossas mães vindo oferecer bolo, nossos companheiros nos interrompendo com beijos. Estamos desarmados da imagem que construímos e sustentamos perante os nossos colegas, imersos em nossas próprias vidas, completamente.

E aí, de repente, cai a ficha: as coisas não funcionam do mesmo jeito? Precisou que estivéssemos todos trancados em nossas casas pra pararmos de nos preocupar tanto em manter nossas relações tão frias, distantes, e passarmos a nos importar com os seres humanos que somos? Chega a ser cômico que precisamos ter reduzido nosso contato ao máximo para percebermos o valor de uma troca agradável entre duas ou mais pessoas.

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Sem contar o aspecto divertido. Hoje em dia, se arrumar é fazer cosplay da vida que tínhamos antes. Aparecer na estica em uma reunião no Zoom se tornou quase um happening, que serve tanto pra quebrar o gelo quanto pra levantar um pouco a autoestima.

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Laís Brevilheri/Redação

Normalizando comportamentos

Vou me dar o direito de ser controverso. A quarentena tem registrado um aumento óbvio no consumo de bebidas alcoólicas e drogas. Pode ter certeza, a nação maconheira vibrou com a notícia de que precisava ficar em casa, e quem não curte uma cervejinha na hora do almoço? Daqui onde estou, vejo que muita gente tem se divertido e relaxado mais.

Claro que essa é uma visão completamente privilegiada da história, mas é a expressão de outro aspecto que ficar em casa nos trouxe. Alguns dos caras que mais admiro no jornalismo, como Juca Kfouri e Reinaldo Azevedo, já apareceram fumando em lives ou fazendo seus programas, e eu, com certeza, também já apareci fumando um cigarro em muitas das reuniões que fiz. Porque eu fumo, as pessoas que trabalham comigo sabem, e agora podemos fazer encontros assim sem que a minha fumaça incomode ninguém.

Gim tônica naquela última reunião da quinta-feira? Já rolou. Feijoada com caipirinha no almoço de quarta? Pode ter certeza. Uma taça de vinho enquanto escrevo mais um texto? Tá tendo. Será que sou a exceção? Conta pra mim…

Outra coisa que deixamos de gastar tempo mantendo nessa quarentena foi o verniz da ética. Só que, dessa vez, não resolvemos o problema preenchendo com pequenos espaços, louças e pães, e sim atuando de maneira ética de verdade. Porque, sem a vigilância de olhos alheios no ambiente de trabalho, é muito fácil desandar e desempenhar menos. No salve-se quem puder dos cortes de gastos nas empresas, sobra quem performa melhor, não quem tem a melhor postura.

Em outras palavras, relevância tem a ver com conduta, não com regras, espaços e hábitos. Cada um sabe onde o calo aperta, dizem, e sempre vai existir a lei da seleção natural para regular o mercado quando as linhas forem cruzadas pelos indivíduos.

Tire proveito da situação. E seja otimista

Pode soar um pouco cara de pau, mas é verdade. Estamos presos a um momento extremamente adverso, privados de contato social devido a um vírus de fácil contágio. Aquilo que nos faz maiores, que é a troca nas nossas relações, está praticamente suspenso enquanto temos que lidar com nossas individualidades. Sem uma atitude positiva em relação às coisas, é fácil de se perder.

Essa é a conclusão dessa trajetória de 120 dias forçados a ficar em casa, os estágios que enfrentei nesse mundo novo e desconhecido. Até agora. Porque o amanhã ainda é bastante nebuloso. Ficaremos mais quanto tempo privados de um convívio normal? Manteremos o otimismo diante de uma perspectiva onde não há cura, prevenção, nem boas ações de quem está nas mais altas esferas de poder? Aguentaremos as más decisões?

Se você ainda não encontrou seu lugar nesse novo mundo, esse é meu convite. Procure inspiração nas pequenas coisas, perceba os momentos de tranquilidade que surgem nas coisas mais imprevisíveis. Cultive-as.

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Laís Brevilheri/Redação
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