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Digerir o mundo por meio da arte

É o que o artista plástico Jorgge Menna Barreto propõe com a revista “Enzyme”, o desdobramento do “restaurante-obra” apresentado na 32ª Bienal de São Paulo

por Daniel Salles 31 jul 2020 01h39
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Clube Lambada/Ilustração

scalado para a 32ª Bienal de São Paulo, que ocorreu entre setembro e dezembro de 2016, o artista plástico Jorgge Menna Barreto resolveu criar um trabalho que discutisse o quanto as florestas são afetadas pela nossa alimentação. “Mas não há nada mais oposto a elas do que o pavilhão modernista da exposição, de vidro e concreto”, acredita ele, que ainda não grafava o primeiro nome com um segundo “gê”, incorporado no ano passado. Descartado o plano de reproduzir artisticamente alimentos e afins no edifício projetado por Oscar Niemeyer, Barreto tirou do papel um “restaurante-obra”, apelidado de “Restauro”.

Em resumo, ele ocupou o refeitório da Bienal para servir receitas com ingredientes cujo plantio favorece a biodiversidade e ajuda a regenerar o solo. O projeto foi desenvolvido em parceria com a banqueteira Neka Menna Barreto, sua prima, e uma escola de gastronomia com forte preocupação ambiental, a Como Como. Os visitantes puderam provar, por exemplo, um purê de mandioca com cobertura de salada de couve-flor enquanto ouviam sons captados nas chamadas agroflorestas, as matas nas quais são adotadas práticas extrativistas sustentáveis, além de entrevistas com agricultores preocupados com o meio-ambiente.

A bem da verdade, boa parte da “clientela” do restaurante-conceitual matou a fome sem ficar a par das reflexões que deram origem a ele — propositalmente, não havia fotos ou textos explicativos. “As pessoas não se dão conta de que estão interagindo com a floresta toda vez que comem, mas queria que os alimentos fossem os protagonistas, por isso achei válido rebaixar a dimensão discursiva”, justifica o artista, que se refere aos participantes do experimento na Bienal como integrantes do que chamou de escultura ambiental.

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Ana Matsusaki/Ilustração

Para ajudar quem não entendeu o que uma coisa tem a ver com a outra, Barreto tem uma série de raciocínios na ponta da língua. “Se a gente pedir para uma criança desenhar uma árvore frutífera, ela vai escolher uma macieira e não uma de araticum”, começa, citando uma espécie comestível do Cerrado pouco conhecida. “Só que, para produzir maçã por aqui, são necessários pelo menos sessenta banhos de pesticidas e maquinário pesado, porque estamos forçando a terra a produzir algo para qual ela não tem necessariamente vocação. E tudo por conta de uma internacionalização do gosto.” Conclusão: “estamos substituindo uma paisagem florestal por uma paisagem de lavoura”. Dito de uma maneira, digamos assim, mais artística, “nos habituamos a alterar o nosso entorno a partir do sistema digestivo”. Mais uma reflexão de embrulhar o estômago: 70% da nossa alimentação é composta por cinco plantas — milho, trigo, feijão, cana-de-açúcar e soja —, sendo que há 25 mil plantas comestíveis no planeta. Sim, 24.995 espécies ficam de lado.

“Se a gente pedir para uma criança desenhar uma árvore frutífera, ela vai escolher uma macieira e não uma de araticum”

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Ana Matsusaki/Ilustração

Toda a conceituação de “Restauro” foi mantida nas entrelinhas com segundas intenções. Foi guardada para o projeto que ele desenvolveu em parceria com o artista plástico Joélson Buggilla durante a residência da dupla na academia Jan van Eyck, na Holanda, encerrada em maio. A ideia inicial era produzir um livro, logo substituído por uma revista. “Foi um aprendizado difícil, mas me dei conta do quão insignificante em termos de impacto ambiental é trazer a ecologia para as artes plásticas dentro de uma exposição que dura três meses”, diz Barreto, que acredita que a publicação poderá atingir bem mais gente que os frequentadores da Bienal.

Lançada em março com 200 exemplares, a revista ganhou o nome de Enzyme. “O corpo humano produz até 1.300 enzimas diferentes, que catalisam mais de 5.000 reações químicas”, diz o editorial da publicação. “Elas nos permitem ver, ouvir, sentir, mover, escrever, digerir alimentos e pensar”. Outro trecho diz o seguinte: “A comida sozinha não dá conta do recado, nem as enzimas. É o entrelaçamento que torna possíveis as reações de suporte à vida. Afinal, você não é o que você come. Você é o que você absorve”. No artigo principal, Barreto e Buggilla relatam um encontro com Wouter Van Eck, um dos grandes nomes da agricultura sustentável na Holanda. Em tempo: a segunda e a terceira edição de “Enzyme” já estão em produção (os interessados em receber uma cópia precisam mandar um e-mail).

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This poem was created at a workshop of non-ficion writing with Mia You @quelpart at Witte de With in Rotterdam last year. The Soup of Biodiversity is a project that consists in making a soup with all the regional and seasonal ingredients you can find at a certain location. It is sort of like a picture of a given landscape, but then to be viewed with our guts. For a work that is so site-specific, writing a poem that is page-specific seemed to be a way to tell that story, or at the least the part that is specific 🙃 🔪 We then decided to publish it at the first issue of Enzyme, which was printed with @jo.frenken and @aliceschiavonedraws at JvE’s amazing Print Lab and launched at Open Studios in the beginning of this month #soupofbiodiversity #enzymemagazine #pagetableandrarth #risograph

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Vida de artista

Barreto não gosta de ser classificado como um artista ligado à gastronomia. “Não recorro aos alimentos por questões estéticas, só os enxergo como mediadores de nossa relação com o território em que vivemos”, argumenta. Seu primeiro trabalho que reflete sobre os impactos da alimentação chama “Sucos Específicos”. Foi desenvolvido em 2014, em Florianópolis, e se resume a vidrinhos com ilustrações de autoria do artista Bil Lühmann. Os recipientes contêm sucos feitos com plantas comestíveis não convencionais colhidas na ilha de Anhatomirim, no litoral catarinense. Como “Restauro” e os textos da revista Enzyme, os líquidos convidam a refletir, embora de maneira mais hermética, sobre como escolhas alimentares sempre terão peso na transformação de alguma paisagem.

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Jorgge Menna Barreto/Reprodução

Ele também não gosta muito de ser associado aos antepassados ilustres, como João de Deus Mena Barreto (1874-1933), o general Mena Barreto, um dos membros da junta provisória que governou o país após a deposição de Washington Luís da presidência, nos anos 30. “Morro de vergonha”, assume o artista, ao ouvir o nome do ascendente distante. Nascido em Araçatuba, no interior de São Paulo, há 50 anos, ele passou a infância e a juventude em Porto Alegre. Radicado no Rio de Janeiro, é professor adjunto no Instituto de Artes da UERJ e representado pela galeria paulistana Carbono.

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Ana Matsusaki/Ilustração

Instigado a refletir sobre o impacto do novo coronavírus em seu meio, se diz otimista. “Especulo que as obras mais mercantilizadas serão as mais afetadas e aquelas que não se preocupam tanto com a materialidade, e sim em propor leituras críticas do mundo, ganharão mais importância”, afirma. “Vivemos também uma crise de valores e o papel da arte é ajudar na leitura do mundo sob outras perspectivas”. Digerido com a ajuda da arte, defende, o mundo pode ficar mais palatável.

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