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“Tenho trabalhado muito, principalmente para não pirar”

Com projetos na TV, no teatro e no cinema adiados pela pandemia, Débora Falabella se lançou em webséries e no teatro digital

por Bruna Bittencourt Atualizado em 18 set 2020, 10h56 - Publicado em 18 set 2020 01h49
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Estúdio Lambada/Ilustração

atriz Débora Falabella gravava a segunda temporada da série Aruanas quando a quarentena bateu à porta, em março, e interrompeu as filmagens que seguiriam pelos meses seguintes. Neste ano, ela iria a Portugal como seu Grupo 3 de Teatro, companhia que criou com Yara de Novaes e Gabriel Paiva e que completa 15 anos neste mês, quando aconteceria uma mostra com os três últimos espetáculos do grupo. Débora também voltaria ao cinema com a estreia de Depois a louca sou eu, adaptação do livro homônimo de Tati Bernardi em que vive a protagonista. Tudo foi adiado, mas outros projetos foram criados e reinventados, até como uma forma de manter a cabeça ocupada nestes tempos mais que nebulosos. “Acho que tenho trabalhado muito, principalmente para não pirar”, conta a atriz de 41 anos.

Ao lado do namorado, o também ator Gustavo Vaz, criou Se eu estivesse aí, websérie gravada com áudio 3D em que um casal em crise e separado em meio à quarentena troca mensagens. A série, em que cinco episódios são sob a perspectiva dela e outros cinco sob a dele, foi indicada aos festivais Montréal Digital Web Festa e Sicily Web Fest. Já com as amigas Bianca Comparato, Mariana Ximenes e Andréia Horta, arquitetou o Cara palavra, em que as quatro atrizes interpretam textos em vídeos gravados à distância, numa criação coletiva e feminina. Débora ainda transpôs a protagonista cheias de neuras de Depois a louca sou eu para a pandemia, em vídeos em que ela vive as agruras da quarentena, numa espécie de spin-off do filme. 

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“A princípio, todas as ideias foram surgindo na pandemia de uma maneira despretensiosa. O Se eu estivesse aí a gente fez um piloto, não sabíamos no que ia dar nem que iria ser exibido pelo Gshow. O Cara palavra também. Você está fazendo dentro de casa, com o seu celular, não tem essa dimensão do que talvez vá atingir”, conta. Também em meio ao isolamento, a atriz experimentou o teatro digital, no projeto do Sesc ao Vivo, e vem se dedicando a entender e estudar esta nova linguagem para a mostra virtual que marca o aniversário do Grupo 3, que incluirá a adaptação de um espetáculo em série documental.

» LEIA MAIS: Bianca Comparato segue criando mesmo em meio ao isolamento, com projetos no cinema e no Instagram

Entre esses trabalhos, Débora tem sido crítica nas redes sociais sobre episódios da política nacional, sobre a crise na Amazônia ou endossando campanhas contra o assédio. “Hoje em dia, é difícil você não se posicionar em relação a algumas coisas.” Conversamos com a atriz sobre seus últimos meses, reprises de seus trabalhos na TV e os desafios da maternidade na quarentena:  

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Instagram/Reprodução

Nos últimos meses, você se lançou em projetos inovadores.Qual foi o mais interessante e o mais difícil até aqui?
Tudo foi legal, mas como eram coisas novas também tiveram seu grau de dificuldade. Entrei em quarentena com o meu namorado para as coisas ficarem mais fáceis. Somos dois atores que gostam muito de trabalhar, estamos sempre pensando em projetos e nos vimos meio parados em casa. Começamos a pensar o que poderia fazer e veio o Se eu estivesse aí. A gente contava com a dificuldade de ser uma coisa que tínhamos que fazer inteiramente sozinhos – a produção, os textos que ele escrevia, a nossa casa que virou um set de filmagem, tínhamos que saber editar, mexer nos equipamentos. Foi difícil, mas, ao mesmo tempo, foi muito bonito como a gente voltou para um lugar de aprendizado, até meio artesanal. A peça on-line para mim agora é o grande desafio. Para a gente não deixar passar em branco os 15 anos do Grupo 3, estamos com este projeto grande de um repertório on-line, pensando em como fazer essas apresentações pela internet e que causem interesse do público. É muito difícil você entreter através de uma tela. Estou fazendo curso sobre isso, estudando, tenho visto muita coisa, é uma nova linguagem que se forma. Quando as coisas voltarem ao normal, pode ser que isso continue de alguma forma, porque você atinge muita gente que está em outras cidades. Então, pode ser um outro veículo para você apresentar seu trabalho – não gosto nem de chamar de teatro…

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Como foi a adaptação para o teatro digital na apresentação que você fez para o Sesc?
O projeto do Sesc apresenta monólogos, então peguei trecho de uma peça [O Amor e outros estranhos rumores, 2010] sobre o universo do Murilo Rubião, contista mineiro de literatura fantástica, onde fazia um monólogo. Na peça, a gente tinha um cenário incrível, luz, toda uma mágica. Como trazer isso para o meu apartamento? Tive ajuda tanto da Yara, que foi quem dirigiu o espetáculo na época, quanto do Gabriel, meu companheiro do grupo, que fez a luz. Tudo é diferente. A gente foi inventando, fez uma exibição em preto e branco porque cabia uma atmosfera noir e fez algumas modificações no texto para deixar ele um pouco mais presente. Fomos tentando nos moldar a este momento. 

E o que foi mais legal dessa troca entre quatro atrizes no Cara Palavra?
Acho que, agora, as dramaturgias têm sido escritas para mais mulheres. Mas no Brasil, nas telenovelas, a estrutura da dramaturgia raramente coloca quatro mulheres juntas, sempre tem um casal, tanto que raramente trabalhei com as quatro. Trocar com mulheres que você admira é muito legal e ficamos mais amigas. 

“Agora, as dramaturgias têm sido escritas para mais mulheres. Mas no Brasil, nas telenovelas, a estrutura da dramaturgia raramente coloca quatro mulheres juntas. Trocar com mulheres que você admira é muito legal”

Empreender, criar é uma característica além da pandemia?
Neste momento, acho que tenho trabalhado muito, principalmente para não pirar. Tem sido tão difícil este ano, a gente tem visto tanta coisa ruim acontecendo no entorno. Estamos vivendo em um país muito complicado e, quando veio a pandemia, as coisas se intensificaram. Não estar em movimento me deixa muito mal, prefiro trabalhar, produzir algo, talvez colocar o que esteja sentindo no que produzo. Não consegui nem aquele movimento do primeiro mês de “vamos parar, vamos aproveitar para ver todas as séries”. Ficava vendo as notícias, preocupada com as pessoas. Claro, já tenho um movimento empreendedor, já gosto do trabalho, tenho minha companhia com meus companheiros.

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Depois a louca sou eu/Divulgação

Falando em enlouquecer, você fez alguns vídeos interpretando a personagem de Depois a louca sou eu. Era uma maneira de não perder de vista a estreia do filme?
O filme estava para ser lançado, ele já tinha data de estreia. Já havia sido exibido no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo. Conversava com a Julia [Rezende, diretora do filme]: “Imagina a personagem neste momento. Vamos pedir para a Tati [Bernardi] escrever algum texto sobre ela na pandemia”. Gravei do meu banheiro e a gente foi fazendo. Fiquei com vontade de ver isso mais vezes: uma personagem de cinema deslocada, quase como se fosse um spin-off de um filme. É uma personagem que causa muita identificação, independentemente de quem a conhece. Gostei muito de fazer e foi uma forma de manter a vontade de ir ao cinema ativa.  

“Estamos vivendo em um país muito complicado e, quando veio a pandemia, as coisas se intensificaram. Não estar em movimento me deixa muito mal, prefiro trabalhar, produzir algo, talvez colocar o que esteja sentindo no que produzo”

Recentemente, você teve trabalhos seus reprisados na TV. Você assiste? Com distanciamento ou se avaliando?
Foi muito engraçado porque, de repente, estava em exibição Avenida Brasil [2012], O Clone [2001-2] e Aruanas [2019], sem eu estar trabalhando e de épocas totalmente diferentes [risos]. Assisto me divertindo, não me critico, não. Claro que quando você está fazendo o trabalho, fica muito mais crítica porque o projeto está presente. Mas no caso de Avenida Brasil, hoje vejo me divertindo muito. Na época, estava muito envolvida na história, muitas horas de gravação, não conseguia muito saber o que era bom e ruim. E acho bonito que conta um pouco sua história: O Clone foi uma das minhas primeiras novelas, eu com outra cara, muitos anos atrás; aí Avenida Brasil, mais dez anos, e Aruanas, agora. Então, sou eu em fases diferentes. Nossa carreira é muito doida.

Você tem postado sobre a crise na Amazônia, sobre questões políticas, sobre assédio. Esse engajamento cresceu em você nos últimos anos ou o mundo está mais complicado?
Acho que está complicado e, hoje em dia, é difícil você não se posicionar em relação a algumas coisas. De uns anos pra cá, acho que teve um despertar político geral, foi muito importante, claro que muitas vezes equivocado, para um lado ou para outro. Também explodiu essa nova onda feminista que tem sido importantíssima. Vejo isso na minha filha de 11 anos, como a cabeça dela já é diferente, não só em relação à questão feminista, mas à liberdade, a gênero. Ganhei um engajamento com a questão ambiental muito por conta de Aruanas [na série, líderes de uma ONG investigam crimes ambientais na Amazônia]. Aprendi muita coisa, mesmo, com os produtores da série, com os atores de Manaus, com as pessoas das ONGs que estavam ligadas a Aruanas

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Jorge Bispo/Divulgação

Você postou recentemente sobre o Me Too Brasil. Como você, que trabalha na TV há 20 anos, observa isso no país?
Acho que as mulheres ainda têm muito medo de falar, em qualquer lugar. Claro que tem e já teve [assédio]. Isso existe não só nessa indústria, mas em todos ambientes de trabalho. Precisamos estar juntas e nos observarmos. Sempre acho que é uma onda e que quando uma começa, a outra se encoraja. Acho que, hoje, o assédio está muito mais difícil de acontecer porque as mulheres estão se sentindo mais protegidas umas pelas outras, os caras estão mais ligados.

“Acho que, hoje, o assédio está muito mais difícil de acontecer porque as mulheres estão se sentindo mais protegidas umas pelas outras, os caras estão mais ligados”

Como mãe, o que foi mais desafiador nesta quarentena? O que você leva deste período?
Tem algo que é muito bonito que é você estar perto dos seus filhos como nunca esteve. Lembro que eu ficava assim com a Nina quando ela era bebê, mas depois disso, vieram escola, trabalho, não existia essas 24 horas inteiras juntas. Claro que existem momentos que não são fáceis, mas tenho tido respostas bonitas com ela. Tenho uma relação muito boa com o pai dela, que é meu amigo, o Eduardo [o músico Chuck Hipolitho], então a Nina também passa a quarentena aqui e lá. O que mais me preocupa é a falta de contato com outras crianças. A Nina quer muito ficar com os amigos, fica muito ligada a uma tela e a gente não consegue se cobrar demais. Mas a gente vai levando, tem dado certo.

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