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2020: o ano que não começou

Esotéricos previram um ano maravilhoso e deu no que deu. Agora que passamos os piores dias dele, consultamos especialistas da área econômica por previsões

por Daniel Salles Atualizado em 6 ago 2020, 11h54 - Publicado em 6 ago 2020 01h08
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Clube Lambada/Ilustração

m dezembro do ano passado, um portal de notícias estampava a manchete: “2020 será maravilhoso para todos nós”. A frase dava início à previsão de Daniel Atalla para os dozes meses seguintes. “É quando a gente sai do ciclo de número 1, de 2010 até 2019, e um novo caminho se inicia”, informou o coach espiritual. “O principal é que estamos, neste momento, virando um fluxo de energia gigantesco, que é a saída de uma fase totalmente tensa e negativa”. Consultada para a mesma reportagem, a paranormal Cathia D’Gaya cravou o seguinte: “Podemos ter patinado um bocado em 2019, mas em 2020 teremos muito sucesso. Poderemos realizar projetos e finalizar o que tanto desejamos ver concretizado”.

Alguém já avisou os dois que a realidade tomou outro caminho? Carlinhos Vidente, também entrevistado pelo portal, chegou mais perto do alvo. “Eu gostaria muito de falar que 2020 vai ser melhor, mas vejo o cenário completamente diferente. O ano que vem será um dos piores para o Brasil”, resumiu, no longínquo mês de dezembro. “A cada seis lojas, três irão fechar em uma séria crise no comércio”. Pelo sim, pelo não, convém registrar mais uma de suas previsões: “Sentiremos o abalo de um terremoto na Avenida Paulista, em Santos e no Rodoanel sentido Campinas”. O astrólogo Ricardo Hida, mais um consultado, também foi certeiro: “Definitivamente, não é um ano para brincar com a saúde. Além disso, Júpiter, Plutão e Saturno trazem um ano politicamente conturbado para o Brasil. Vamos enfrentar muitas dificuldades enquanto cidadãos brasileiros”.

Terminado o primeiro semestre, o que dá para afirmar com alguma segurança sobre 2020 é que o ano só agora está começando (e a gente reclamava que era só depois do Carnaval…). Na esperança de que os piores dias ficaram para trás, pelo menos no que diz respeito à economia, consultamos especialistas da área em busca de uma previsão mais acertada para os meses que restam. Quanto ao cenário político não é preciso bola de cristal para saber que altos e baixos ainda virão.

Os números que agora regem a economia brasileira

6,54% é quanto o PIB deve cair neste ano, de acordo com o relatório Focus, do Banco Central

O tamanho do tombo do Ibovespa no primeiro semestre foi de 17,80%, contra alta de 31,5% em 2019

2,25% é o atual patamar da taxa básica de juros, a Selic, o mais baixo da história

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CottonBro / Pexels/Fotografia

Previsão de Thiago Santucci, estrategista de investimentos do banco Fator

O que futuro nos reserva: “Tudo aponta para um ano de retração econômica. Vamos produzir menos em 2020 do que em 2019. O Real também deve seguir desvalorizado. Em momentos de estresse e aversão ao risco, o fluxo financeiro global se volta para economias mais consolidadas. Isso significa que investidores estrangeiros tiram dinheiro do Brasil, ou interrompem seus planos de investir aqui, e optam por países como Estados Unidos e Japão”.

Para desatar os nós: “A Selic faz com que os investimentos mais conservadores tenham uma remuneração menor – os de renda fixa tendem a ter rendimento muito próximo ao valor dela. Já os fundos de ações que investem em empresas negociadas nas bolsas podem gerar ganhos expressivos. Mas é preciso entender os riscos envolvidos e que não dá para pensar a curto prazo”.

Meta para 2020: “Se possível, faça o que chamamos de reserva de emergência. Nada mais é do que uma parcela do seu dinheiro aplicada em investimentos de baixo risco e que seja capaz de cobrir, pelo menos, 6 meses de despesas mensais. Infelizmente, nem todo mundo tem condições de compor esta reserva. Portanto, é prudente controlar melhor as despesas, evitando gastos desnecessários”.

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Inga Seliverstova / Pexels/Fotografia

Previsão de Silvio Campos Neto, sócio da consultoria Tendência

O que futuro nos reserva: “Potencial para recuperação econômica o Brasil tem. Superada a crise, a perspectiva, não só aqui mas globalmente, é de que a expansão seja retomada, mas provavelmente só a partir do ano que vem. Claro que algum crescimento neste semestre já é esperado, salvo em caso de novas ondas de contágio. O que preocupa é a situação fiscal do país, já fragilizada antes da pandemia. E há o temor de que os ruídos políticos atrapalhem o avanço de novas reformas no Congresso”.

Para desatar os nós: “Para reverter de forma definitiva todo esse clima de insegurança que ainda prevalece no mundo, a descoberta de uma vacina para o novo coronavírus será um fator determinante. Mesmo o anúncio de um tratamento eficaz, à disposição num curto prazo, já seria suficiente para reverter as perdas que começaram em fevereiro. Imediatamente haveria melhorias nas bolsas de valores, nas cotações das commodities e uma queda maior do dólar”.

Meta para 2020: “No curto prazo, recomendo que todos se preocupem em preservar o próprio capital. Claro que algumas apostas mais agressivas podem ser feitas pelos investidores, mas com extrema cautela, pois não estamos a salvo de novos reveses. Para quem tem renda garantida é um bom momento para empréstimos para a compra de imóveis, por exemplo, porque as taxas de juros estão bem competitivas e é mais fácil barganhar preços. E sabe-se que taxas assim não são compatíveis com a realidade brasileira. Conforme a economia se recuperar, é natural que elas sejam ajustadas para cima”.

Previsão de Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanc

O que futuro nos reserva: “Uma retomada parcial de crescimento em 2020 é esperada, mas o saldo final do ano será de uma queda importante. As recuperações do segundo semestre não serão suficientes para compensar as perdas registradas até aqui. A lógica das bolsas é a da antecipação. Quando elas despencaram, em março, simplesmente reagiram, com um pouco de exagero, às incertezas que apareceram. Na medida que se entendeu o que viria a seguir, foram se recuperando. E vão crescer mais rapidamente que a atividade econômica”.

Para desatar os nós: “O único temor global agora é se haverá uma segunda onda de contágios ou não, e se seria forte ou não, se demandaria novas restrições ou não. É só por isso que as bolsas mundo afora não cresceram mais. O Texas, nos Estados Unidos, por exemplo, precisou voltar um pouco atrás na reabertura. Em Pequim, houve crescimento de casos de Covid-19, mas que aparentemente foram bem controlados. São fatores que aceleram ou retardam a recuperação econômica. No exterior, a recuperação já avança, pois os estímulos dos governos foram muito fortes e rápidos. E bem maiores que os disponibilizados na crise de 2008”.

Meta para 2020: “No panorama atual, organizar a vida financeira é fundamental. Também recomendo evitar gastos desnecessários, pois apesar da retomada parcial estamos num período de queda de atividade e de aumento de desemprego. Guarde todos os excedentes para formar uma reserva, aplicada de maneira conservadora e com resgate fácil. Agora, há taxas melhores para quem precisa renegociar dívidas e linhas de crédito competitivas para quem precisa de empréstimo. Para quem tem recursos para aplicar há boas possibilidades de investimentos, sobretudo os fundos multimercados, que respondem rapidamente aos altos e baixos do mercado de capitais. Investir no setor de e-commerce também se mostra uma escolha acertada. Muitas pessoas passaram a fazer compras online e isso deve crescer”.

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Inga Seliverstova / Pexels/Fotografia

Previsão de Ana Laura Magalhães, do canal @explicaana

O que futuro nos reserva: “Se compararmos a atual crise com as anteriores, a nova tem causas e consequências distintas. A da bolha inflacionária e a dos subprimes, surgida nos Estados Unidos, para citar dois exemplos, começaram na esfera do mercado financeiro e depois contaminaram a economia real. A da pandemia começou no dia a dia, nos impedindo de trabalhar. Sem trabalho não há consumo, o que criou um choque de oferta e demanda. Dito isso tudo, não dá para saber quando essa equação será de fato resolvida. Uma hora vai acabar, mas as consequências ainda são imprevisíveis”.

Para desatar os nós: “A pandemia serve de alerta para que todos se previnam contra novas situações do tipo. Quem tinha dinheiro guardado pôde aproveitar a crise de diversas formas. Em um contexto de juros baixos, é extremamente favorável a compra de um imóvel. Mas você vai se arriscar com um investimento elevado sabendo que pode não haver emprego amanhã? Por outro lado, muita gente que não dispunha de reserva financeira precisou abrir mão de bens por valores mais baratos só para fazer caixa”.

Meta para 2020: “Os brasileiros precisam aprender a guardar dinheiro, é um problema cultural. Porque antes de investir, é preciso ter dinheiro, gastar menos do que se ganha. E guardar não é deixar na poupança, no automático, só por comodidade. O retorno é muito ruim. Para quem tem receio de investir em ações, e ainda mais nesse cenário de incertezas, costumo dizer que o melhor momento para ingressar nas bolsas simplesmente não existe. O que existe são bons investimentos para cada momento. E para cada perfil e objetivo. O cenário econômico só altera as estratégias. Passada a pandemia, com certeza muitos produtos que hoje estão em alta vão deixar de fazer sentido. O futuro vai servir de prova”.

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