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Nem só de fado vive Portugal

Em “Canções d’Além-Mar”, Zeca Baleiro se declara a Portugal, país que o inspira a compor e que o faz pensar em se mudar do Brasil

por Alan de Faria 28 set 2020 00h26
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Clube Lambada/Ilustração

m meados dos anos 1980, Zeca Baleiro teve o primeiro contato com a música portuguesa, sem ser o fado, quando uma amiga lhe deu uma fita k7 com canções de compositores contemporâneos lusitanos. Foi a partir deste presente que as relações entre o maranhense de São Luís e Portugal se estreitariam. 

Em 1998, em São Paulo, Zeca dividiria o palco com o português Pedro Abrunhosa no projeto Navegar É Preciso, realizado justamente para promover encontros entre artistas de lá e daqui. A partir daquele ano, passaria a fazer shows em Portugal, onde conheceria outros cantores, incluindo Jorge Palma. É deste lisboeta, por exemplo, “Frágil”, gravada como faixa-bônus na edição portuguesa do disco Baladas do Asfalto & Outros Blues, de 2005 – os dois tocaram juntos no Palco Sunset da quarta edição do Rock in Rio Lisboa, em 2010. “Em Portugal, sou tido como ‘alternativo’, enquanto aqui consigo transitar entre o alternativo e o mainstream”, afirma.

Como resultado dessa bagagem cultural adquirida ao longo das últimas quatro décadas por meio de trocas artísticas, curiosidade em conhecer diferentes trabalhos e viagens ao país europeu, de onde retornava carregado de CDs portugueses, Zeca Baleiro lançou, neste ano, o álbum Canções d’Além-Mar. Reunindo 11 canções de 13 artistas portugueses, o projeto também pode ser visto como uma declaração de amor de Zeca ao cancioneiro luso. Repertório este que, ultimamente, ele aprendeu a ouvir também por meio dos serviços de streaming, apesar de ainda adorar os suportes mais tradicionais.

“Existe uma mágica diferente na escuta pelo vinil, o k7 ou o CD, talvez porque me remeta a um tempo feliz, de infância e adolescência”, diz Zeca, que tem uma estante repleta de discos, destaque nas lives realizadas de dentro de sua casa. Para ele, as plataformas digitais permitem uma pesquisa mais ágil, porém banalizam a audição da música, que fica mais grosseira e desatenta.

Canções d’Além-Mar também joga para escanteio a ideia de que em Portugal só existe o fado. A faixa “Canção de Engate”, de António Variações, remete ao grupo brasileiro Secos & Molhados. Já “Capitão Romance”, da banda Ornatos Violeta, flerta com o ska e o reggae.  “Conhece-se muito pouco da produção contemporânea portuguesa no Brasil. Atribuo esse desconhecimento em parte à dificuldade de o brasileiro entender o português de Portugal, profundamente fechado. Se você não tem vivência com os portugueses, não entende”, explica ele, que enxerga os trabalhos dos portugueses António Zambujo, que já lançou um disco todo dedicado à obra de Chico Buarque (Até Pensei que Fosse Minha, de 2016), e Carminho, que já homenageou Tom Jobim em um de seus projetos, importantes para a diminuição da distância, vamos dizer, léxica e gramatical entre Brasil e Portugal.

Mas, Zeca, como explicar o consumo exacerbado da música em inglês, que, convenhamos, estaria muito mais distante do que falamos? “Isso talvez tenha a ver com o nosso espírito subdesenvolvido, provinciano e deslumbrado”, afirma o cantor. Ele lamenta o fato de virarmos as costas para os músicos portugueses e os de língua espanhola. Sem contar os sucessos do pop de Shakira ou fenômenos globais e temporais de reggaeton, como “Despacito”, de Luis Fonsi, é quase inexistente a relação cultural com os nossos vizinhos da Argentina, do Uruguai e do Chile, por exemplo. 

Nesta entrevista à Elástica, Zeca detalha sua paixão por Portugal, um país que, confessa, o inspira para compor e que o faz pensar em se mudar do Brasil. Mesmo que, recentemente, lá como cá, ataques racistas e extremistas estejam crescendo e ganhando as redes sociais. Em agosto, uma organização de extrema direita nacionalista, identificada como Nova Ordem de Avis – Resistência Nacional, endereçou um e-mail a três deputadas negras e a ativistas antifascistas e antirracistas exigindo que todos eles abandonassem Portugal. O mesmo grupo, também em agosto, ainda promoveu uma passeata com referências ao movimento Ku Klux Klan em frente à sede da ONG SOS Racismo, em Lisboa. 

No material de divulgação de Canções d’Além-Mar, você comenta que a escolha do repertório não foi uma tarefa fácil, mas seguiu a estratégia de escolher produções das últimas décadas de artistas portugueses. Assim, revisitou trabalhos de nomes que já conhecia bem, como Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa, e, acredito eu, conheceu gente nova da cena portuguesa. Como foi esse processo?
Desde a origem da ideia, passaram-se 14 anos. Ouvi muitos discos e muitas canções nos últimos anos, até me resolver por esse repertório. Reuni no álbum gravações nas quais vi possibilidades de uma releitura interessante. A ideia era aproximar essas músicas do meu universo sonoro. O critério, como sempre em meus trabalhos, foi afetivo mesmo. Aqui estão faixas portuguesas de que gosto muito e que acabam por fazer um resumo razoável da produção musical portuguesa dos últimos 50 anos.

Por meio de Canções d’Além-Mar, é possível ter um panorama interessante da música contemporânea portuguesa. Como definiria a música de Portugal para os brasileiros que acreditam que lá só se ouve fado?
Há um lirismo que penso ser comum aos dois países, até porque nossas cantigas de roda, trovas, marchas, quadras, tudo isso tem origem portuguesa ou ibérica. Mas o universo melódico e harmônico da música portuguesa é muito específico, tem uma estranheza também, talvez porque eles não tenham um “vocabulário harmônico” comum como nós temos, que advém de [Dorival] Caymmi, Ary Barroso e da bossa nova. Não sei dizer, estou só especulando. Mas me atraem muito as soluções criativas que os compositores mais contemporâneos acharam para criar suas canções. E tem uma gama de ritmos e influências a ver com blues, rap e rock, que nós desconhecemos por aqui.

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Canções d’Além-Mar já estava programado para 2020?
O lançamento já estava programado e o álbum estava praticamente todo pronto. Só a mixagem que foi finalizada durante a pandemia, mas aí foi mais simples, pude acompanhar on-line. Antes da pandemia, planejávamos lançá-lo em CD e vinil, e eu tinha planos de ir a Portugal fazer o trabalho de divulgação pessoalmente. Com esse quadro, resolvemos lançar por ora apenas nas plataformas digitais. Assim que for possível, irei até lá para fazer o show do álbum [Em meio à pandemia, como muitos outros artistas, Zeca Baleiro tem promovido lives com repertório do disco e também conversas com os compositores gravados no projeto].

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Silvia Zamboni/Divulgação

Ao visitar Portugal, sua visão sobre o Brasil muda?
Muda um pouco, ganha outros contornos. Componho muito quando estou em Portugal, o país me inspira. Sinto um misto de familiaridade e estranheza, é curioso.

Em 2019, o número de imigrantes brasileiros em Portugal ultrapassou os 150 mil, um crescimento de 43% em relação a 2018, segundo dados do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) português. Já pensou em engrossar este número?
Já. Eu adoro o Brasil, mas ultimamente confesso que tenho voltado a pensar nisso. O ar daqui anda um pouco irrespirável. O diabo é que eu amo este caos, esta mixórdia cabocla. Nem sei se conseguiria viver longe daqui, o “Brasil cultural” me interessa muito. O que me levaria a morar lá tem a ver com valores que nos faltam aqui há algum tempo: segurança, qualidade de vida, maior equilíbrio social e, claro, a perspectiva de investigar também um pouco mais a produção musical de lá. O Brasil é lindo, mas cansa, dá trabalho viver aqui.

“Eu adoro o Brasil, mas ultimamente confesso que tenho voltado a pensar nisso [mudar-se para Portugal]. O ar daqui anda um pouco irrespirável. O diabo é que eu amo este caos, esta mixórdia cabocla”

Assim como aqui, em Portugal há também grupos racistas, de organizações de extrema direita, que têm realizado manifestações contra minorias. Em agosto, três deputadas negras receberam um ultimato para que abandonassem Portugal dentro de 48 horas. No Brasil, recentemente, tivemos o caso do menino Miguel, do entregador de iFood… Como tem visto a discussão deste assunto na sociedade brasileira?
Bastante oportuna. O racismo é uma questão premente no Brasil. Algo que se tentou esconder/encobrir por anos, mas agora irrompe com força máxima neste novo país que é simpático ao fascismo e ao retrocesso cultural. Mas penso que, se algum país poderia ensinar ao mundo um convívio inter-racial bonito, saudável e promissor, seria o Brasil. Se nós não conseguirmos, então desconfio que ninguém conseguirá.

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Silvia Zamboni/Divulgação

Desde março, artistas começaram a se reinventar para, de alguma forma, monetizar o trabalho que desenvolvem ou divulgar o que estavam produzindo. Uma das primeiras lives a que assisti sua foi promovida pelo Sesc, na qual você comentou que sentia muita falta dos aplausos. Neste “novo normal”, o que deseja que deixe de existir quando a pandemia acabar?
Estamos todos buscando saídas para mantermos vivas as atividades artísticas. Todas são válidas e interessantes, embora nenhuma substitua a alegria e a vibração de um show de verdade, a troca de calor, os aplausos e a interação sempre imprevisível que acontecem em uma apresentação ao vivo. Acredito que as lives ficarão como um formato alternativo possível. Mas bom mesmo é tocar ao vivo.

“Penso que, se algum país poderia ensinar ao mundo um convívio inter-racial bonito, saudável e promissor, seria o Brasil. Se nós não conseguirmos, então desconfio que ninguém conseguirá”

Mais de 50 canções suas compõem o espetáculo “A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong”, com texto da Clarice Niskier, que também atua na montagem. Peça que, em agosto, foi apresentada por meio do Zoom. O que significa ver suas músicas ganharem novos significados por meio de outras manifestações artísticas?
Acompanhei todo o processo de criação da Clarice bem de perto, sugerindo, palpitando e executando coisas que ela me pedia, como uma versão de “Bachianas nº 5”, de Villa-Lobos, que gravei especialmente para a peça. A Clarice, além de grande atriz, é uma baita escritora de textos teatrais, uma dramaturga e tanto. Estou muito honrado de ver minha música como inspiração para o trabalho dela.

No início de agosto, você tocou no festival on-line “Mba’ e Porã”, iniciativa para ajudar as aldeias onde vivem os indígenas guarani-kaiová, do Mato Grosso do Sul. O que pensa sobre a política para os povos originários do país pelo atual governo?
Ah, não existe, né? Mas, se queremos ser justos, temos que admitir que essa questão vinha sendo negligenciada até pelos governos à esquerda. Nós, a sociedade civil, temos que nos engajar nessa causa, mas talvez não baste. É necessária uma intervenção estatal séria, honesta e consequente.

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Silvia Zamboni/Divulgação

Você está no projeto “Onze (Músicas Inéditas de Adoniran Barbosa)”, que resgata composições do sambista paulista até então nunca gravadas, cantando “Bares da Vida” (parceria de Adoniran com Maestro Portinho). Aliás, vejo muito do Adoniran em seu trabalho, em composições como “Samba do Aproach”, do disco “Vô Imbolá” (1999).
Adoniran é uma influência para qualquer músico, até para quem faz rock (risos). ​Seus sambas já estão entronizados no imaginário popular brasileiro. Sua bossa, seu português “do Bixiga”, seu jeito boêmio de fazer crônica da cidade de São Paulo… Tudo isso é vocabulário cultural brasileiro já. Conheço toda a sua discografia. 

“Temos que admitir que essa questão [indígena] vinha sendo negligenciada até pelos governos à esquerda. A sociedade civil tem que se engajar nessa causa, mas talvez não baste. É necessária uma intervenção estatal séria, honesta e consequente”

Aliás, qual a importância de artistas como você em apresentar e resgatar quem veio antes para a nova geração? Algo, inclusive, que você tem feito por meio do seu selo, o Saravá Discos.
Tem sido, sim, uma bandeira minha. É importante usar um pouco da visibilidade que conquistei para mostrar às gerações mais jovens artistas fundamentais. Essa também é a tônica do “Baile do Baleiro”, projeto de covers de música brasileira que mantenho há 16 anos e que inclusive virou programa de TV no Canal Brasil [a primeira temporada da atração foi ao ar em 2016].

Por fim, algum outro trabalho a ser lançado em breve?
Estou criando trilhas para dois filmes nacionais. Achados Não Procurados é um longa de Fabi Penna, rodado em Santa Catarina, uma sátira política bem interessante. O outro é uma animação chamada Tarsilinha, um trabalho lindo, cuja produção já dura 10 anos. Assino a trilha deste projeto com o Zezinho Mutarelli. Também estou compondo bastante: a quarentena fez com que eu me reaproximasse de alguns parceiros queridos, como Chico César, Fausto Nilo, Zélia Duncan e Wado, e conquistasse outros novos, como Vinícius Cantuária e Flávio Venturini. Aqui e ali, rascunho algumas reflexões sobre estes tempos, mas não sei se daria um livro. Por ora, é só exorcismo mesmo (risos).

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