evolução

Espiritual, mas não religioso

Como a Yoga se tornou uma das maiores apropriações culturais

por Juily Malani Atualizado em 30 abr 2021, 13h24 - Publicado em 30 abr 2021 00h51

Desmistificando Índia

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ara falar desse tema que pode ser um tanto quanto polêmico, preciso lembrar vocês de algumas coisas bem importantes. Uma delas é que, quando falamos de raça aqui no Brasil, frequentemente acabamos caindo em um senso comum de que se a pessoa não é branca, ela é ou preta ou indígena. Quando, na verdade, há uma série de etnias possíveis. O continente asiático, por exemplo, abriga diversos países bem diferentes. Ali, há japoneses, chineses, tailandeses, indianos, paquistaneses, sírios, turcos, libaneses, palestinos e muitos outros grupos que possuem uma imigração presente no Brasil. 

Comumente, asiáticos são enquadrados como (quase) brancos aqui no Brasil e isso distorce nossas percepções como pertencentes a um grupo racializado e que detém discussões próprias, muitas vezes pós-coloniais, de refúgio, guerras e movimentações pelo mundo. Outra noção também muito importante é deixarmos de entender culturas como exóticas. Para falar disso, preciso pontuar alguns conceitos como orientalismo. Resgato aqui alguns trechos de um texto que escrevi recentemente sobre o assunto para a plataforma The Squad, chamado Des-Oriente-Se.


“Comumente, asiáticos são enquadrados como (quase) brancos aqui no Brasil e isso distorce nossas percepções como pertencentes a um grupo racializado e que detém discussões próprias, muitas vezes pós-coloniais, de refúgio, guerras e movimentações pelo mundo”

Edward Said foi um historiador palestino que contribuiu muito para os estudos pós-coloniais e é referenciado até hoje por muitos pesquisadores. Said nos apresentou uma leitura crítica sobre a compreensão dos termos Oriente e Ocidente. Sendo assim, apresentou também a criação de uma versão exótica e mística de um oriente do qual existe até hoje como uma manobra política de diferenciação e distanciamento entre culturas, mas que, na época das colonizações, foi formulado com uma tentativa implícita de justificar o poder colonial. 

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Barah/Ilustração

No texto, aponto que “a história como conhecemos hoje, registrada e catalogada cronologicamente como documento e como narrativa única nos livros escolares, é uma criação europeia, eurocentrada e que foi fortemente implementada pelas grandes navegações e colonizações”. Nas pesquisas de Said, ele menciona que a colonização não opera somente através da força bruta, mas também por poderes coercitivos, ou seja, através de manipulações visuais, mentais e sobre o conhecimento. Com a formação da grande História, a Europa registrou sua visão sobre o leste e sul global de forma complicada, de difícil compreensão, mística, sensual e depravada, criando assim uma noção tática de Oriente. Uma polarização inversa com as crenças do capitalismo que estava se formando, através do pensamento cristão, da propriedade privada, dos bons costumes, da procriação, da binaridade de gênero, entre outros.

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Uma pergunta se instaura: Como são feitas as representações das culturas asiáticas, africanas, latinas e indígenas na cultura moderna? Quão bem controladas são essas representações a fim de manter um estereótipo e uma visão essencialista dessas culturas que são tão plurais internamente? “Precisamos entender como a ótica orientalista se coloca no discurso do dia a dia como uma consequência ainda operante do discurso colonial. Ela é uma lente, um filtro de Instagram que está nas nossas mentes desde nosso ensino básico e que a mídia perpetua”. Encontre o estereótipo, decodifique a ficção, desaprenda os mitos.

Dito isso, gostaria de falar agora sobre a Yoga ser um dos grandes domínios indianos que é exportado para o mundo todo. Vista principalmente como uma atividade física, esse treinamento religioso do corpo e mente têm sido globalmente administrado por uma elite branca e esse é um dos pontos que iremos destrinchar aqui. Vale mencionar também que, além da Yoga, outros itens culturais poderiam ser discutidos na mesma chave, como a Ayurveda ou a gigante utilização das religiões e filosofias indianas como uma forma hippie e romantizada de encarar a vida, muitas vezes utilizando-as para ofuscar e apagar as reais origens, fazendo manutenção das práticas de uma certa supremacia branca ainda muito operante. 

Há, ainda, outra discussão muito importante que está ocorrendo atualmente por conta de o governo atual indiano usar a Yoga como manobra política para uma extrema direita, colocando-a ainda mais em uma estrutura nacionalista. O fato de a Yoga estar alinhada ao sistema de castas precisa ser minuciosamente observado para que as compreensão de Karma (lei do retorno e da causa e efeito) e Dharma (propósito de vida) não sejam manipuladas de forma discriminatória. Infelizmente, não conseguiremos entrar nessa discussão nesse texto, mas também não gostaria de ignorar que essa discussão merece muita atenção. 

Vamos juntes?

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Barah/Ilustração

O embranquecimento sistemático da Yoga

Nossa discussão sobre esse tema terá como fio condutor a linha de raciocínio que a pesquisadora de antropologia e professora de religião Amanda J. Lucia criou em seu livro White Utopias – the religious exoticism of transformational festivals (Utopias brancas: o exotismo religioso nos festivais de transformação, em tradução livre). Ela categoriza em três vertentes o que ocorre em grandes festivais nos Estados Unidos, mas que dialoga muito bem com essa prática em todo o mundo ocidental. 

São elas: as representações culturais; a falta de diálogo entre as origens da Yoga e os professores brancos; e a criação e sobreposição de novos discursos. Para falar de representação cultural em espaços neoliberais, as mídias têm cultivado energeticamente debates sobre políticas identitárias, cultura do cancelamento e apropriação cultural. No crescente movimento de pautas sociais que vem acontecendo nos últimos anos, era de se esperar debates em cima das estruturas institucionalizadas da branquitude colonial. Com isso, também era esperado a corrente oposta, com um levante de discursos nacionalistas conservadores.


“A busca por religiões não ocidentais vem de um exotismo religioso e, muitas vezes, para suprir uma crise do tédio e do desencanto pela modernidade em tempos de capitalismo tardio. Acredita-se que são filosofias tão antigas que possuem uma certa pureza distante da corrupta vivência ocidental”

Desde o final da década de 1960, acompanhamos movimentos de pessoas viventes nos Estados Unidos e Europa (que influenciaram muitos outros países) em busca de uma desconstrução na base do autoconhecimento, através da reconfiguração de suas “verdades”. No calor de festivais como o Woodstock em 1969; da explosão musical que foram os Beatles – e a utilização de suas leituras sobre a cultura indiana em suas músicas e roupas na mesma década –, que influenciaram o mundo todo a entender a Índia como ainda mais mística e “paz e amor”; da emergência de célebres gurus indianos nos Estados Unidos como Bikram (na Yoga) e Osho (na filosofia e comportamento) nas décadas de 1970 e 1980; até o surgimento de festivais célebres como Burning Man em 1986. Tudo isso criou um terreno fértil para a febre dos estúdios e escolas de Yoga que prevalecem até hoje. 

Nas descobertas de campo da professora Amanda Lucia, ela comenta que, regularmente, a busca por religiões não ocidentais vem de um exotismo religioso e que, muitas vezes, vem para suprir uma crise do tédio e do desencanto pela modernidade em tempos de capitalismo tardio. Nesse cenário, os sujeitos estão cansados da vida industrializada e buscam soluções espirituais que possuam uma sensação de essencialismo, profundidade, autenticidade, libertação e consciência ecológica. Eles acreditam que são filosofias tão antigas e de difícil compreensão que possuem uma certa pureza distante da corrupta vivência ocidental. E, para que elas trabalhem em antagonismo ao sistema, precisam ser colocadas em uma caixa exótica, em um imaginário imprescindivelmente romantizado. 

Isso não tem nada a ver com as realidades dessas culturas e itens religiosos. Essa idealização ocidental por culturas asiáticas e africanas datam seus períodos coloniais, com um aprofundamento sincero no século 18 na Era Romântica. E essa versão atualizada nada mais é do que uma manutenção neocolonizadora por falta de aprofundamento cultural. 


“As culturas não ocidentais estão fora das grandes referências ensinadas nas escolas de base e nos ensinos superiores tradicionais. O que ocorre, então, é que a falta de institucionalização do conhecimento não branco acaba ficando na posse dos professores e praticantes dessas atividades, que acabam se tornando os representantes dessas outras culturas”

Um dos maiores dos privilégios da branquitude é se manter distante de pautas raciais, perpetuando racismos na chave da inocência e na falta de responsabilidade sobre sua própria história. Na pós-modernidade, vemos esse crescente delírio branco, de pessoas que buscam se desvincular da própria branquitude e cadeia de hierarquia de poder, com a quebra da ideia de progresso capitalista, de processos civilizatórios vindos das culturas anglo-européias que se autodenominam donas do intelecto e da razão. Olhando por um lado positivo da situação, podemos dizer que essa população privilegiada faz parte de um projeto de reformulação de ideias já instauradas, das quais abrem espaço para que a história da evolução humana também seja contada através de narrativas não brancas. No entanto, as culturas não ocidentais estão fora das grandes referências ensinadas nas escolas de base e nos ensinos superiores tradicionais. O que ocorre, então, é que a falta de institucionalização do conhecimento não branco acaba ficando na posse dos professores e praticantes dessas atividades, que acabam se tornando os representantes dessas outras culturas.

Dessa forma, o que se inicia como uma busca por raízes mais legítimas torna-se uma forma de consumo e reprodução de uma outra cultura através da ótica branca, muitas vezes orientalista. Essa apropriação cultural pode ser facilmente nominada como colonização do conhecimento quando não há interlocução com fontes das culturas originárias. 

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Barah/Ilustração

Apropriação e novas narrativas

Nos Estados Unidos, mas também aqui no Brasil, a prática de Yoga é dominada principalmente por professores brancos, magros, urbanos e que transitam entre as elites locais. Com isso, há uma recorrente negociação entre as realidades e “verdades” operantes. Para ensinar com propriedade sobre essas atividades, há uma preocupação com a sua legitimidade, ou pelo menos o conceito dela. Mas no mundo Yogi (praticantes de Yoga), quais são os códigos reconhecidos? Na preocupação de representar a Yoga autenticamente, Amanda percebeu que há uma bifurcação em ideologias: uma delas está na busca por raízes na cultura indiana como forma de aproximação, enquanto a outra busca a autenticidade através da experiência pessoal.

O que é importante notar nessas duas ondas é que ambas se desassociaram de seus professores indianos para criar uma autoridade branca. E, embora seus professores possam ser chamados de Tirumalai Krishnamacharya, eles também são conhecidos como Marcia Oliveira, Ana Paula Ferraz, Pedro Fernandes ou qualquer outro nome que tenham fora das salas de prática de yoga. E, como diz Amanda Lucia, mesmo quando assumem nomes indianos, eles ainda são os protagonistas, o local e o meio servindo de termômetro e guia para culturas indianas, religião hindu e a herança yogue. Nada mais são do que professores brancos ensinando públicos brancos e criando narrativas que mais segregam, do que unem, o que foge do propósito inicial da Yoga, sejam elas benéficas ou não.

“A supremacia branca e capitalista quer que vejamos a Yoga puramente como um exercício, porque se percebermos que ela é projetada para a unidade e a libertação de todas as pessoas, não haverá mais corpos negros e marrons para empurrar e escalar, e não mais culturas ‘exóticas’ para exportar”

Raeeka Yassaie

Na contramão, há ativistas trabalhando para resistir ao apagamento das vozes do sul asiático na Yoga. Porém, muitas vezes, elas são cooptadas em discursos políticos. No caso da direita, há uma busca de fundamentalizar a Yoga como uma atividade estritamente hindu e, com isso, ganhar dinheiro em cima de sua exportação essencialista. Na esquerda, apesar de darem voz às pessoas indianas, há uma mistura de pensamentos que giram em torno de ideias contemporâneas, como o body positivity, discussão de traumas, igualdade de gênero, anticapitalismo, anti racismo e anti homofobia. Nesse viés, podemos entender que a Yoga está se adaptando e não é de todo mal abraçar essas novas demandas, mas é preciso ter em mente que a origem dessa prática é excludente sistematicamente de pessoas entre castas, de diferentes classes e poder aquisitivo. Já que as práticas de Yoga são quase todas feitas em sânscrito, uma língua que poucas pessoas possuem acesso e conhecimento, como também está relacionada às elites e castas mais altas.

Sem uma aproximação com congregações ou comunidades originárias, a busca pela Yoga acabou por se tornar uma trajetória independente e por meio da introspecção pessoal, através de aplicativos, experiências psicodélicas, encontros turísticos, entre outros. O que torna-se diferente de conversões religiosas tradicionais, das quais esses instrutores podem usufruir do que lhes convém sem real integração religiosa e é daí que surge esse grupo de pessoas conhecidas como EMNR – espirituais mas não religiosas.

Como bem disse Raeeka Yassaie, uma professora de Yoga que milita por um movimento anti colonial de apropriação cultural dessa atividade: “A supremacia branca e capitalista quer que vejamos a Yoga puramente como um exercício, porque se percebermos que ela é projetada para a unidade e a libertação de todas as pessoas, não haverá mais corpos negros e marrons para empurrar e escalar, e não mais culturas ‘exóticas’ para exportar.”

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Para finalizar o pensamento da Amanda, há uma crença na precarização representacional, uma manutenção de violências não somente por apropriação cultural, mas também pelas formas estereotipadas feitas inclusive para fins lucrativos. Chegamos no momento em que as comunidades brancas precisam construir espaços de convivência e troca, buscar representatividades honestas e atuar em uma solidariedade antirracista com pessoas cujas práticas espirituais admiram tanto. 

Em resumo: pode praticar? Pode, mas seja consciente!

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As ilustrações que você viu nessa reportagem foram feitas por Barah. Confira mais de seu trabalho aqui.

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