evolução

Para todos os mutantes

Renovados para os tempos que vivemos, os X-Men traduzem as angústias cotidianas de viver em uma sociedade cada vez mais extremista

por Artur Tavares Atualizado em 10 nov 2020, 15h57 - Publicado em 10 nov 2020 00h00

A separação e o isolamento forçados pela pandemia do coronavírus já há oito meses foi um choque de realidade em muitas pessoas. Quando começamos a enfrentar essa crise, no primeiro semestre desse ano, imaginávamos que sairíamos dessa mais fortes, unidos e tolerantes. O tempo foi passando e, bem… estamos cada vez mais presos às nossas ilhas de pensamento, envoltos em nossos dogmas, alimentando nossas próprias convicções. Nem tudo são flores para quem não está encaixado de alguma maneira em padrões de comportamentos estabelecidos há muitas décadas (séculos?) em nossa sociedade, e o embate em quem quer sua liberdade individual e quem deseja manter o controle pela força – física ou mental – está cada vez mais evidente. Entramos nessa fraturados, e só sairemos dessa quando racharmos de vez.

Em um cenário em que a reflexão foi deixada de lado, e ganha quem grita mais, o maior ponto de análise do que estamos enfrentando se encontra em uma das mídias mais pop do planeta, as histórias em quadrinhos. Mais precisamente, nas séries de X-Men, da Marvel Comics, que passaram por uma reviravolta recente, a fim de se adequar aos novos tempos. A família mutante criada por Stan Lee e Jack Kirby nos anos 1960 evoluiu e se tornou uma nação mutante sob o comando do escritor Jonathan Hickman em 2019, um conjunto de histórias que começa a sair agora no Brasil. Nos X-Men de Hickman, o debate gira em torno de liberdade sexual, religiosa, abusos do capitalismo e da fama online, do extremismo e da constante luta evolutiva entre aqueles que estão no poder e aqueles que desejam se emancipar. De antemão, a Elástica se debruçou pelas mais de 2.500 páginas de histórias em quadrinhos já publicadas nos Estados Unidos, e agora faz um resumo do porquê elas são essenciais para superarmos os tempos que estamos vivendo.

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Marvel comics/Reprodução

Mas antes, um resumo de como chegamos até aqui…

Pode se dizer que foi o mesmo capitalismo predatório criticado hoje por Jonathan Hickman que fez os mutantes entrarem em fase tão gloriosa. Nos últimos 15 anos, a Marvel se tornou uma superpotência cinematográfica, mas os direitos autorais de alguns de seus personagens eram detidos por outros estúdios. No caso dos X-Men, a Fox. Se controle do que era feito com eles nas telonas e sem poder integrá-los ao mesmo universo dos Vingadores, a Marvel decidiu, em uma jogada estratégica, exterminar todos os personagens de suas histórias em quadrinhos, apenas para vender mais HQs do Capitão América e seus aliados. Mas, quando a Disney saiu comprando todo mundo, tanto a Marvel quanto a Fox foram integrados ao mesmo grupo de empresa, que hoje detém também a National Geographic e a ESPN.

Com a situação resolvida, os mutantes milagrosamente voltaram à vida, mas muito diferentes do que estávamos acostumados. Se pelos últimos 60 anos os mutantes eram párias da sociedade, arquétipos freaks e desajustados, agora eles são um povo unido e com um único ideal: tornar o Homo superior a espécie dominante do planeta. Isso não quer dizer que vilões como Magneto ou Apocalipse venceram, mas que suas ideologias foram incorporadas ao sonho de união de Charles Xavier. E, sim, eles são todos aliados e comandantes de uma única nação mutante, Krakoa.

“Eu gostaria de lembrar o conselho que todos os mutantes são bem-vindos em Krakoa. Até os inconvenientes”
“Eu gostaria de lembrar o conselho que todos os mutantes são bem-vindos em Krakoa. Até os inconvenientes” Marvel comics/Reprodução

“Krakoa é para todos os mutantes”

É sobre esse mote que giram as novas histórias dos X-Men. Após anos de lutas entre mutantes, Xavier conseguiu convencer seus antigos inimigos que apenas a união é capaz de fazê-los enfrentar o único vilão realmente ameaçador, a humanidade. Utilizando-se de meios nem sempre legais, o líder dos X-Men gastou sua fortuna comprando conglomerados farmacêuticos importantes, e conseguiu desenvolver medicamentos que estendem as vidas dos Homo sapiens em até cinco anos, e que curam as mais diversas doenças, do HIV ao câncer. Com a promessa de distribuir gratuitamente esses milagres, pediu em troca que a ONU aceitasse a ilha mutante Krakoa como uma nação soberana. Embaixador de Krakoa para o mundo, Magneto crava em um diálogo certeiro que “os novos deuses chegaram à Terra.”

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Marvel comics/Reprodução

Se a evolução tornou-se inevitável, Krakoa fica estabelecida como um estado utópico para todos os mutantes. As antigas desavenças não existem mais e, enquanto heróis e vilões agora são vizinhos e irmãos, a única regra estabelecida é que nenhum humano seja morto por um mutante. O primeiro mandamento de Krakoa é também o mais antigo que conhecemos, “não matarás”.

E embora esse pensamento utópico seja tão familiar a nós aqui na vida real, a distância de todos os outros conceitos humanos é o que torna essa nova fase dos X-Men tão importante. Antes, os principais personagens mutantes eram espelhos: negros, gays, lésbicas, muçulmanos, católicos fervorosos, deficientes, gordos, feios. Em Krakoa, as velhas convenções não se aplicam mais.

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Marvel comics/Reprodução

Os preconceitos são humanos

Tomemos como exemplo o trio mais icônico dos X-Men. Hoje, o Ciclope, sua esposa Jean Grey e Wolverine formam um trisal. Dividem o mesmo teto e dormem em quartos separados, com portas internas que os ligam entre si. Ao longo da história, Jean é vista dando amor não apenas aos dois mas também à antiga amante do Ciclope, Emma Frost. Já Cable, filho adolescente do Ciclope, é caidinho pelas mutantes Fada e Armadura, enquanto se relaciona ao mesmo tempo com as cinco Gêmeas Cuco. A putaria come solta na Casa Summers.

“Se você acha que sou boa demais para a X-Force, provavelmente você acha que eu sou boa demais para você também”, diz Jean. Wolverine responde: “Bom… sim. Mas você precisa do gosto do veneno vez ou outra. Só para manter o equilíbrio.”
“Se você acha que sou boa demais para a X-Force, provavelmente você acha que eu sou boa demais para você também”, diz Jean. Wolverine responde: “Bom… sim. Mas você precisa do gosto do veneno vez ou outra. Só para manter o equilíbrio.” Marvel comics/Reprodução

Nessa nova fase, o Homem de Gelo também é gay, e Daken, filho do Wolverine, é um bissexual exibicionista, a Vampira e Gambit são praticamente ninfomaníacos, a Mística anseia por reencontrar sua esposa, Sina. Tudo isso tratado com a maior naturalidade, quando antes essas histórias eram escritas sob forte crítica social.

No campo espiritual, Krakoa também traz um questionamento aos dogmas religiosos, principalmente do Noturno, outrora um padre católico. A ilha tem poderes que permitem a ressurreição de mutantes mortos, garantindo a vida eterna dos X-Men. “O que acontece com nossas almas?”, ele pergunta ao Ciclope em determinado momento, enquanto assiste uma garota voltar à vida. Extasiado com o milagre, conclui: “Acho que vou ter que fundar uma religião mutante.”

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Já os mutantes desajustados, violentos e perigosos, têm uma nova maneira de se integrarem à sociedade. Em vez de serem internados e passarem por terapias de choque, são convidados a integrarem o grupo dos Infernais, que são enviados em missões perigosas, em que podem descarregar toda sua raiva a fim de liberarem endorfina e outros hormônios de gratificação, exercitando a paz interior.

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“Krakoa é casa. Você está cercado por pessoas que você ama, mesmo se você nunca tiver usado essa palavra”
“Krakoa é casa. Você está cercado por pessoas que você ama, mesmo se você nunca tiver usado essa palavra” Marvel comics/Reprodução

Realpolitik

Outro grande trunfo das novas histórias dos X-Men é a coesão total entre o título principal da franquia e as outras HQs da família mutante. Duas delas, em especial, tratam da extensão política de se estabelecer Krakoa como uma nação mutante. Isso porque, assim como na diplomacia da vida real, certas nações não aceitam a soberania da ilha, entre elas a Rússia, e, vejam só, o Brasil.

Se em uma edição de X-Men há uma tentativa de assassinato contra Charles Xavier e Magneto em pleno Fórum Econômico Mundial, em Davos, são nas páginas dos Carrascos e da X-Force que a sujeira come solta. Nas HQs dos Carrascos, mutantes liderados por Kitty Pryde navegam águas internacionais contrabandeando os remédios mutantes para nações inimigas enquanto resgatam refugiados que não puderam voltar a Krakoa. Na X-Force, o Fera e Wolverine lideram uma espécie de CIA mutante, um grupo de agentes silenciosos que tentam desvendar uma conspiração de endinheirados que financiam guerrilhas anti-Homo Superior.

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Enquanto isso, no futuro…

Todas as histórias em quadrinhos tem como vantagem contarem histórias em períodos cíclicos, e quando grandes fases comandadas por uma determinada equipe criativa acabam, os personagens são retornados aos seus status mais ou menos iniciais. A exemplo disso, o Homem-Aranha já foi casado e rico, mas voltou a ser um fotógrafo com a vida toda bagunçada; o Batman já ficou paraplégico e até mesmo morreu, mas hoje continua sendo Bruce Wayne; o Capitão América se tornou o inimigo nº 1 dos Estados Unidos, e mais uma vez carrega a bandeira da nação em seu uniforme.

Sendo assim, Jonathan Hickman deixa bem claro nas primeiras edições que Krakoa é só mais um estágio antes da derrocada mutante, mas dessa vez o próprio Xavier tem conhecimento disso, em uma prova de que ele está manipulando todo o mundo em prol da sua raça. No entanto, a temática fatalista/determinista ainda passa pelas histórias dos X-Men apenas em pinceladas.

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Ao final do primeiro ano dessas novas histórias mutantes – o momento em que esse texto foi escrito –, as histórias dos X-Men têm seu primeiro grande clímax, a série “X of Swords” (cuja tradução livre seria “X de Espadas”, com o X representando o número 10). Não se trata de um embate com a humanidade, mas sim de uma luta contra mutantes da antiguidade e contra os seres mágicos do Extramundo.

Tudo isso indica que o futuro sombrio dos X-Men ainda deve demorar a acontecer. O próprio Jonathan Hickman é um autor acostumado a carregar histórias por muitos anos, tendo ficado por quatro anos no comando do Quarteto Fantástico, e por outros quatro à frente das histórias dos Vingadores. Sua história com os X-Men não deve ser diferente.

Por tudo isso, essa é a hora e a vez dos X-Men. Suas histórias não foram feitas para crianças, mas para adultos conscientes do que estamos enfrentando aqui fora, quando as páginas das HQs terminam. Porque, a cada dia que passa, todos nós que queremos um mundo diferente nos tornamos um pouco mais como esses mutantes, e nossa utopia só chegará através da união.

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