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Tesão nas redes

O Twitter se tornou a rede social nº1 da putaria, principalmente para o público gay – e, para o bem e para o mal, vem moldando a sexualidade de jovens

por Gabriel Justo 25 set 2020 01h55
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Edu, eu estou muito constrangida. Nem sei como te falar isso, mas… tem um vídeo seu circulando na internet sem o seu consentimento”. O vídeo em questão mostrava Edu, 29, ajoelhado, se masturbando e bebendo a urina de um outro cara – um dos seus fetiches que lhe dá mais tesão. Postado em um perfil pornô do Twitter, o vídeo teve mais de um milhão de visualizações e milhares de compartilhamentos. 

A situação seria um pesadelo para qualquer pessoa mas, para Edu, não foi bem assim. Ao receber a mensagem da sua colega de profissão, Edu não sentiu vergonha por ser exposto em uma situação considerada degradante para a maioria das pessoas. Ele sentiu tesão – principalmente por ter sido reconhecido. “Na hora, fingi espanto, disse que veria o que eu poderia fazer sobre isso mas, na realidade, eu não estava nem aí!”, contou ele à Elástica, dando uma risadinha safada.

Expôr suas aventuras sexuais a um público virtualmente ilimitado na internet não era nenhuma novidade para Edu, que já cultivava um público significativo no Tumblr. Em dezembro de 2018, quando a rede decidiu banir todo o conteúdo pornográfico dos seus servidores, o publicitário achou que já era hora de excluir todas as suas postagens por conta própria para evitar possíveis implicações na vida profissional e familiar. 

Mas o fim da putaria no Tumblr não mudou em nada as taras de Edu, que sempre gostou de cruising (sexo com desconhecidos em lugares públicos) e de vários outros fetiches, como podolatria (fetiche por pés), pissing (tara por urina), humilhação… enfim, de sexo com adrenalina. Como muitos órfãos do Tumblr, Edu criou um Twitter “side b” para consumir pornografia e, principalmente, acompanhar dicas de lugares públicos onde a pegação rola solta. Um dos mais famosos Twitters desse tipo em São Paulo, o @cruisingsp, tem mais de 40 mil seguidores. 

Diferente do Tumblr e de qualquer outro site pornô da internet, o Twitter dá à pornografia uma dimensão social. A busca ativa por vídeos excitantes é substituída pela recepção passiva de conteúdos curados por algoritmos, que reforçam e moldam os gostos e preferências do usuário. Além disso, a liberdade de conversar anonimamente (ou não) com outros usuários sobre tabus de sexualidade, a possibilidade de postar conteúdo próprio e de encontrar pessoas com os mesmos gostos fez o “deep-Twitter” explodir no último um ano e meio.

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Foi nesse período de tempo que João Marcos, 27, conhecido como @naughtypuzzle, acumulou mais de 160 mil seguidores no Twitter. Habitué dos grupos de nudes no Facebook por pura diversão, ele acabou sendo banido da rede social e criou um Twitter para poder postar suas fotos e vídeos explícitos (e mostrando o rosto) sem grandes restrições – de acordo com os termos de uso, o Twitter permite conteúdo adulto desde que a conta seja marcada como “sensível” pelo próprio usuário, o que a exclui da busca pública da rede social, por exemplo.

Por conta dos vídeos que postava, João foi convidado a gravar com o seu maior ídolo da pornografia virtual, o garoto de programa e influencer Blessed Boy. O vídeo alavancou a audiência de João. Entre os novos seguidores, estava Lucas Quintanilha, 27, que acabou se tornando seu namorado e começou a aparecer nos vídeos também. “Eu sempre gravei minhas fodas para mandar para alguns contatinhos, como um nude, mas eu não publicava porque tinha receio que esses vídeos chegassem em pessoas que não aceitariam, como a minha família, que é super evangélica. Então, eu pedia para o João postar no dele”, explica Lucas, que foi se desprendendo dessa preocupação e acabou criando seu próprio Twitter. Em nove meses, já são quase 110 mil seguidores. Isso mesmo: juntos, eles somam 260 mil pessoas que gostam de seus conteúdos.

Com toda essa audiência, o medo de Lucas acabou se tornando realidade: alguns primos e tios viram os vídeos e ameaçaram mostrá-los para os pais dele. “Eu falei assim: olha, se isso chegar nos meus pais, eu chego na maior festa que tiver na família e conto os podres de todos vocês. Vou falar quem transou antes do casamento, quem tem filho com outra, quem tem amante…”, conta ele, que na adolescência já tinha sido expulso de casa pela mãe por ser gay. “Ninguém nem me respondeu. Morreu o assunto.”

Na loja de departamentos onde Lucas trabalha, até mesmo os clientes já o reconheceram. Inevitavelmente, sua chefe também soube do alter ego safadinho. “Eu pensei que seria demitido, mas tive uma grande conversa com a minha chefe e a única coisa que ela me pediu é que os vídeos não mostrassem o meu local de trabalho e nem o meu uniforme”, conta ele, que depois disso ficou ainda mais confiante para continuar produzindo e postando os vídeos – especialmente no OnlyFans, onde o faturamento do casal com assinaturas já passa dos 10 mil reais por mês. 

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Lado B, lado A

Apesar de estar se tornando uma prática cada vez mais comum, postar conteúdo adulto na internet sem ter prejuízos ainda é uma sorte. Algumas semanas depois de ter o seu Twitter pornô dedurado para o chefe por um colega de trabalho, o publicitário Vicente* recebeu aviso prévio no trabalho. A empresa alegou problemas de desempenho que, ele assume, realmente não estava tão bom quanto no passado – mas Vicente acredita que, ainda que os vídeos não mostrassem seu rosto, a descoberta do seu Twitter pesou na hora da demissão. “Tiveram meses para me demitir e isso só aconteceu depois que descobriram o meu Twitter. Sinto que rolaram pressões internas pela minha demissão depois desse ‘exposed’”, diz o publicitário.

Para entender melhor como as empresas de fato enxergam esse comportamento, conversei com Cláudio*, um profissional de recursos humanos com mais de uma década de experiência em grandes corporações, especialmente do setor de saúde. Para jogar a real e fugir dos clichês oficialistas comuns à área de recursos humanos, Cláudio pediu anonimato.

“Tiveram meses para me demitir e isso só aconteceu depois que descobriram o meu Twitter. Sinto que rolaram pressões internas pela minha demissão depois desse ‘exposed’”

Vicente*

“De maneira geral, uma empresa não gosta de pessoas que se expõem sexualmente, porque elas veem isso como um comportamento de risco. E se você tem o costume de assumir riscos, por que não teria esse comportamento também dentro da empresa?”, indaga ele, citando em seguida um exemplo um tanto quanto contraditório. “Um funcionário de férias, ‘dedurado’ por promover festas durante a quarentena, dificilmente seria demitido por isso, porque é a vida pessoal dele. Já a descoberta de um perfil pornográfico na internet certamente acabaria em demissão, independente do cargo, porque as empresas não querem correr o risco de ter um funcionário reconhecido por algo assim. Certamente inventariam uma desculpa e demitiriam.”

Ou seja: um profissional de saúde ser reconhecido por ter um Twitter pornô é mais grave do que se expôr ao coronavírus, por exemplo? “Sim, porque a área da saúde é especialmente conservadora”, revela Cláudio. “Infelizmente, as empresas se sentem donas das pessoas e do que elas podem fazer ou não. Existe muito preconceito e muita desinformação. É algo muito moralista, mas… é a realidade.”

“Infelizmente, as empresas se sentem donas das pessoas e do que elas podem fazer ou não. Existe muito preconceito e muita desinformação. É algo muito moralista, mas… é a realidade”

Cláudio*
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Sempre alerta

Na avaliação do psiquiatra Bruno Branquinho, todos os fetiches são válidos, mas algumas consequências negativas dessas práticas, como uma demissão por ter seu Twitter pornô descoberto, são alertas de que talvez seja necessário procurar apoio. “Vale para o sexo e para tudo na vida: a gente tem que estar sempre alerta, sempre questionando se os possíveis prejuízos valem a pena em relação à excitação e à recompensa que aquela prática traz”, explica ele. “Tem que se perguntar: ‘O que eu faço tem consequências?’ ‘Eu quero fazer algo em relação a isso?’ Se as duas respostas forem ‘sim’, é hora de procurar a ajuda de um profissional de saúde mental. 

Apesar de parecer grave, passar por algum constrangimento na família ou no trabalho não necessariamente é o maior problema que o casamento da pornografia com as lógicas das redes sociais pode trazer. “A internet ampliou o acesso das pessoas, inclusive sobre tabus da sexualidade. Rola um autoentendimento, uma descoberta sobre si mesmo, e os fetiches se tornam mais normais”, explica Branquinho. “Por outro lado, isso pode marcar o sujeito negativamente.”

“Vale para o sexo e para tudo na vida: a gente tem que estar sempre alerta, sempre questionando se os possíveis prejuízos valem a pena em relação à excitação e à recompensa que aquela prática traz”

Bruno Branquinho

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Foi o que aconteceu com o Edu, personagem que abre essa matéria. Ele, que sempre se considerou “sexualmente fora da casinha” pelos seus fetiches, já chegou a desmaiar sendo sufocado durante o sexo e, de tanto apanhar do parceiro, teve que ir ao pronto-socorro. Além disso, o alto consumo de pornografia relacionada a esses fetiches na internet criou nele uma dificuldade de relacionar o sexo com o amor. Transar com alguém conhecido e com afeto envolvido tinha se tornado algo impossível. Foi aí que Edu começou a tratar do assunto na terapia e, com o tempo, entendeu que seus fetiches eram uma forma de lidar com um passado traumático para ele. 

“Eu sofri abusos quando criança. Os meninos mais velhos do prédio onde eu morava me levavam para a casa de máquinas ou para o depósito de limpeza e me sufocavam, me forçavam a fazer sexo oral e até a beber o xixi deles. E eu acho que isso explodiu em fetiches na minha vida adulta”, conta o publicitário. “No começo, eu me culpava por esses fetiches, achava que era algo que deveria ser corrigido. Mas fui aprendendo que, apesar de talvez serem herança de um trauma, tudo bem eu expurgar esses demônios praticando esses fetiches. Desde que dentro de um limite que não seja prejudicial pra mim.”

O sexo com amor, antes impossível, começou a acontecer há alguns meses, quando Edu conheceu seu atual namorado. “Completamente apaixonado”, ele excluiu permanentemente a sua conta no Twitter, que já tinha mais de 50 mil seguidores. Como os seus vídeos ainda podem estar circulando na internet, inclusive com o seu rosto, o próprio Edu os mostrou para o namorado. “Ele não gostou do que viu, mas aceitou e até ficou feliz de eu ter tido coragem de mostrar pra ele”, conta. “Às vezes bate um arrependimento de ter excluído o Twitter, porque eu ainda tenho esse tesão com a exposição e com desconhecidos. Não tenho vontade de fazer essas coisas com ele. Mas tudo pode mudar, né? Antes, eu não conseguia transar amando alguém. Hoje, eu consigo.” 

Para a sexóloga Paula Napolitano, a dissociação de sexo e afeto é fruto de uma mecânica semelhante à de um vício. Seja na internet ou em banheirões, por exemplo, a pessoa busca por conteúdos e situações cada vez mais fortes, que levam a um pico de adrenalina que reforça o prazer imediato. “Isso cria uma dificuldade na vida real, porque as relações afetivas e sexuais são construções, exigem dedicação e investimento, coisas incompatíveis com o imediatismo e que naturalmente podem trazer um certo desconforto para os envolvidos”, explica ela. “A presença do afeto pode levar a um medo de nos mostrarmos por inteiro, porque ninguém gosta de ser rejeitado.”

Queixas sobre o alto consumo de pornografia têm sido cada vez mais comuns no consultório da Paula. Nesses casos, o tratamento consiste em entender a vida do paciente como um todo: quais são suas outras fontes de prazer e de alívio da ansiedade, em que momentos ela se sente melhor ou pior em relação ao seu problema, quais são os gatilhos… e ir ressignificando tudo isso.

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Autoestima

Paula lembra ainda que nenhuma rede social ou tecnologia é, em si, boa ou ruim. O jeito como nós as utilizamos é que vai determinar isso. Para o empreendedor Leonardo Batista, conhecido no Twitter como Caipira, se expôr na internet foi algo benéfico. Até pouco mais de um ano, Batista se sentia preso ao seu casamento de oito anos pela sua própria baixa autoestima, que o fazia pensar que ninguém além do seu marido gostaria dele por ele ser “muito diferente do gay paulistano comum”. Foi então que sua terapeuta sugeriu que ele procurasse saber se a visão que as outras pessoas tinham sobre ele condizia com a dele própria.

Foi então que, durante uma viagem de caminhão com um amigo, Leonardo começou a postar fotos sensuais de dentro da boleia. Em poucos dias, ele já tinha 25 mil seguidores ávidos por mais conteúdo. Foi aí que ele postou seu primeiro nude, que teve 35 mil reações em menos de 24 horas. “Isso melhorou demais a minha autoestima. Eu percebi que as pessoas me apreciam mesmo eu não sendo um cara sofisticado, um modelinho padrão da internet”, conta ele, que continua casado, mas se vê bem menos dependente do companheiro para se sentir bem consigo mesmo. Os seguidores do Twitter, inclusive, migraram para o Instagram (que não é pornô), e alguns até se tornaram clientes da sua loja de roupas esportivas.

“Isso melhorou demais a minha autoestima. Eu percebi que as pessoas me apreciam mesmo eu não sendo um cara sofisticado, um modelinho padrão da internet”

Exibir a vida sexual no Twitter também fez muito bem ao @Starseed, 31. Como o Leonardo, ele também não se sentia dentro dos padrões de beleza e, com os vídeos, começou a se sentir aceito e desejado. “Quando eu descobri esse universo, pensei ‘encontrei o meu lugar!’”, conta ele, que tem 22 mil seguidores e é autor e pesquisador literário. Na contramão do senso comum, ele usa o mesmo perfil no Twitter para abordar tanto assuntos profissionais quanto sexuais.

“Eu não acredito mais numa vida compartimentada, em que a vida social é uma coisa, a profissional é outra e o sexo é sempre íntimo e privado. Nós somos tudo isso ao mesmo tempo”, explica o pesquisador que, dois anos após postar o seu primeiro vídeo, vê sua presença no Twitter como um ato de resistência política. “Não dá pra mobilizar uma identidade para cada situação. Eu sou autor, acadêmico, mas também transo e tenho meus fetiches. Eu sou tudo isso, ao mesmo tempo.”

@Starseedxxx conta que, com o aumento da sua audiência, surgem cada vez mais pessoas lhe pedindo conselhos amorosos e sexuais. E, principalmente, perguntando como é possível ter uma postura tão aberta em relação à sexualidade. Para ele, isso é um sintoma de algo maior, que está por vir.

“Eu não acredito mais numa vida compartimentada, em que a vida social é uma coisa, a profissional é outra e o sexo é sempre íntimo e privado. Nós somos tudo isso ao mesmo tempo”

@Starseed

“É uma questão de tempo até esses comportamentos se espalharem e se tornarem algo comum. As novas gerações têm outra relação com a internet e com a exposição”, explica ele. “Nossa vida está caminhando para novos lugares, e isso exige uma reconfiguração absoluta de tudo, inclusive do sexo. Eu acredito que, daqui um século, a academia certamente vai estudar ‘o fenômeno das nudes no começo do século XXI’.”

Bom… esperamos que essa matéria te ajude, pesquisador do futuro. 😉

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*A pedido dos entrevistados, alguns nomes foram alterados para preservar suas privacidades.

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