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Por uma memória travesti

Distribuindo camisinhas de madrugada ou fervendo na Parada LGBTQIA+, a morte de Brunna Valin lembra a importância dos movimentos trans e de hiv/aids no país

por Nathan Fernandes 11 ago 2020 01h31
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Clube Lambada/Ilustração

Acho muito triste que as outras travestis que estão chegando agora não vão ter contato com a Brunna”, lamenta a estudante de enfermagem Maria Aline Alves, sobre a morte da tetravó Brunna Valin, ativista do movimento LGBT+. “Ela deixou um legado, uma faísca. Quem conseguir pegar isso vai incendiar o mundo todo.”

Aline é parte da última geração da família construída ao longo dos anos por Brunna. Uma família que, apesar da diferença sanguínea, é unida pela semelhança de vivências. É o que explica Marianne Clemente, recepcionista bilíngue em uma multinacional, mãe de Aline e tataraneta de Brunna. “Quando uma pessoa negra sofre racismo, por exemplo, ela tem paridade dentro de casa, porque a mãe ou o pai é negro, é alguém que vai entendê-la. O gay afeminado, por outro lado, dificilmente vai ter alguém da família para falar sobre homofobia”, diz ela, lembrando que muitas das que se entendem hoje como mulheres trans ou travestis, primeiro se entenderam como gays afeminados. “É possível que a outra pessoa tenha empatia pela causa, mas não vai ter a vivência, não vai saber como é a dor.”

“O gay afeminado dificilmente vai ter alguém da família para falar sobre homofobia. É possível que a outra pessoa tenha empatia pela causa, mas não vai ter a vivência, não vai saber como é a dor”

Marianne Clemente

Ao ser levada por um câncer, aos 45 anos, no dia 1 de junho, Brunna deixou órfãs uma série de filhas. “Ela era a mãezona das travestis. Muitas a chamavam de mãe e pediam benção. Mas ela nunca permitiu que eu a chamasse de tetra, de tetravó, ela odiava. Às vezes, eu chamava de bisa só para alfinetar. Mas ela dizia que não tinha idade para ter neta velha”, brinca Aline.

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Inspiração silenciosa

Sem querer, na adolescência, Brunna Valin repetiu o roteiro comum de muitas mulheres trans e travestis, que são expulsas ou fogem de casa por conta da transfobia. Nascida em Fernandópolis, interior de São Paulo, ela fugiu, aos 14 anos, para São José do Rio Preto. Quando recebeu o diagnóstico positivo para hiv, há 23 anos, não tinha ninguém da família para poder conversar. Já em São Paulo, ocupou cargos como o de vice-presidente do Conselho Municipal de Saúde e representante do estado de São Paulo na Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (TransBrasil).

Em dezembro do ano passado, Brunna se tornou cientista social, graduação que cursou com a intenção de ampliar sua militância para o meio acadêmico. Oficialmente, em seus últimos anos de vida, ela trabalhava como colaboradora do Grupo Pela Vidda/SP e foi orientadora socioeducativa no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD). Na prática, seu trabalho era dar dignidade às pessoas. “Acolhimento não é abraçar ou beijar os outros. É olhar, perceber e respeitar”, resumiu ela, em uma entrevista à revista Marie Claire, em 2017. 

“A Brunna começou me inspirando de uma maneira muito silenciosa, através de uma campanha na qual ela falava abertamente sobre viver com hiv”, lembra a amiga Ariadne Ribeiro, assessora para apoio comunitário do UNAIDS, Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids. “Ver uma pessoa trans positiva se afirmando como ser humano foi minha inspiração para assumir o hiv como parte da minha vida e poder falar com mais liberdade sobre aquilo que me angustiava tanto”, diz ela, lembrando da época em que iniciar o tratamento era uma escolha difícil por conta dos efeitos colaterais. 

“Ver uma pessoa trans positiva se afirmando como ser humano foi minha inspiração para assumir o hiv como parte da minha vida e poder falar com mais liberdade sobre aquilo que me angustiava tanto”

Ariadne Ribeiro

Atualmente, com o avanço na medicina, pessoas diagnosticadas com hiv são orientadas a iniciar o tratamento o quanto antes, como forma de prevenção. Isso porque, ao reduzir a carga viral no sangue, a quantidade de vírus fica tão baixa que não pode ser transmitida para outra pessoa. Ou seja, pessoas que vivem com hiv, hoje, e que têm acesso ao tratamento, têm praticamente a mesma qualidade de vida de quem não tem o vírus. Não à toa, viver com hiv não é muito diferente de viver com diabetes ou hipertensão — que também são condições crônicas manipuláveis. A diferença é o estigma, causado por uma infecção historicamente (e preconceituosamente) ligada à “promiscuidade gay”. 

Entre 2007 e 2017, os casos de hiv entre jovens de 15 a 24 anos aumentaram cerca de 700% no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. É mais fácil acreditar que os adolescentes são mais inconsequentes do que assumir que o moralismo que invadiu as escolas nos últimos anos impede as discussões sobre sexualidade e gênero, fazendo com que os jovens iniciem a vida sexual sem o mínimo de informação. E muitas das pessoas infectadas sequer sabem disso, já que não fazem testagens. O governo estima que aproximadamente 135 mil brasileiros vivam com o vírus sem saber. Além disso, existe um grupo que, mesmo sabendo da sua condição, muitas vezes não pode aderir ao tratamento disponível pelo SUS por receio: são as travestis periféricas, que, na sua maioria, são negras. 

“Os serviços de saúde não estão preparados para lidar com pessoas trans e travestis. Na maior parte das vezes, ele afasta, em vez de se aproximar, porque não chama a pessoa pelo nome social que ela gostaria ou as atenda como coisas, não como seres humanos”, disse Brunna à Marie Claire, expondo um aspecto da transfobia do país que mais mata transexuais no mundo, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Como lembra Ariadne Ribeiro, do UNAIDS, o trabalho da Brunna prezava pelo acolhimento. “Trabalhamos compreendendo que a pessoa está naquela condição não pelas escolhas erradas que ela fez na vida, porque ela sequer teve escolha”, diz a assessora. 

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A maior travesti do mundo

Nos últimos três anos, Brunna fazia parte da coordenação do Grupo de Trabalho (GT) de Travestis, Transexuais, Intersexuais e pessoas Não Binárias da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Ela ficava na linha de frente do trio elétrico que representava o orgulho travesti em uma das maiores paradas LGBTs do mundo. “As atividades duravam junho inteiro. No dia do desfile, a Brunna ficava no chão, coordenando quem entrava e saía do trio, cuidando de quem passava mal, segurava a corda, sambava, dava entrevista, depois voltava e fazia tudo de novo”, lembra a amiga Maite Schneider, que também coordena o GT e é cofundadora do Transempregos, programa de empregabilidade para pessoas trans. 

“Quando terminava o desfile, a gente saía descalça, com o sapatinho na mão, e ia comer um podrão. Cansadas, com os pés pra cima, comentávamos: ‘Nossa, a gente é mais louca do que tem juízo”, diverte-se. 

Maite lembra ainda das vezes em que Brunna saía para distribuir camisinhas de madrugada para as mulheres que trabalhavam na prostituição e voltava sem blusa, já que a cedia para quem estivesse passando frio. “Ela fazia isso mesmo com a saúde frágil. Mas acho que esse desprendimento e essa coragem fizeram bem a ela. Foi o trabalho que a manteve viva.”

Ariadne Ribeiro se recorda do esforço que Brunna fazia para que o mercado do sexo não fosse a única opção para suas companheiras de sigla. Talvez, porque ela própria tenha conhecido de perto as questões da prostituição, como sempre falou abertamente. “Ela fazia um trabalho incrível com a população trans mais marginalizada do centro de São Paulo, essas pessoas que chegam, expulsas de casa, acreditando que vão ter uma chance e acabam se deparando com assassinatos, torturas e uma série de violações causadas pelo próprio Estado. Diante de uma vida tão difícil, o abraço da Brunna era o bálsamo que essas pessoas precisavam”, Ariadne. 

Através das oficinas que ministrava no CRD, Brunna tentava resolver um dos maiores entraves para a entrada das mulheres trans e travestis no mercado de trabalho: a qualificação. “A maioria das pessoas trans é expulsa de casa, são evadidas dos colégios por não terem apoio pedagógico, consequentemente, muitas não têm capacitação, o que dificulta a entrada nas empresas. Sem contar que ainda temos um número muito maior de brancas sendo empregadas”, explica Maite Schneider, lembrando que, mesmo com as dificuldades, já conseguiu empregar mais de 3 mil pessoas trans no Brasil inteiro. 

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“A maioria das pessoas trans é expulsa de casa, são evadidas dos colégios por não terem apoio pedagógico, consequentemente, muitas não têm capacitação, o que dificulta a entrada nas empresas”

Maite Schneider

A força para romper o ciclo de desigualdades era grande dentro de Brunna. E se manteve potente até seus últimos momentos. “Lembro de uma festa de aniversário, em que ela me chamou para avisar que iria tomar um remédio forte. Ela falou: ‘Não deixa ninguém entrar, depois que eu passar mal, vou tomar banho, me arrumar e fico lá com vocês.’ Tudo sempre estava bem para ela”, diz a bisneta Marianne Clemente. “Ela não perdeu a luta para o câncer, porque ela nunca parou de lutar.”

Essa força foi importante para o movimento trans lidar com as perdas dos últimos meses. Duas semanas antes de partir, Brunna lamentou a morte de outra ativista que a chamava de mãe, Agatha Lima, criadora da ONG ASGATTAS, vítima de uma infecção por silicone industrial. Três semanas após a partida de Brunna, a militância perdeu outra de suas amadrinhadas, Amanda Marfree, que se infectou com o novo coronavírus, ao continuar levando assistência às pessoas trans durante a pandemia. Amanda era orientadora socioeducacional e assumiu o lugar de Brunna no CRD. “No momento que eu mais precisei, a Brunna me puxou”, registrou ela, em um vídeo nas redes sociais. 

Nos últimos anos, além da família de movimento, Brunna também estava próxima da família biológica. A todos eles, ela deixa um legado de força e potência. Sentimentos que Aline precisou resgatar ao se despedir da tetravó no hospital. “Ela já estava mal, quando se foi na minha frente. Lembro de olhar para ela e falar: ‘Não vai, não, vó, tem tanta coisa ainda para lutar”, lembra, emocionada. “Foi triste, mas me sinto muito honrada, porque foi uma travesti a se despedir da maior travesti do mundo.”

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As imagens que abre essa reportagem foram feitas por Ara Teles. Confira mais de seu trabalho aqui

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