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TOC TOC, posso entrar?

Estudos preliminares mostram recaída nos sintomas de pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo durante a pandemia

por Lara Santos Atualizado em 7 dez 2020, 16h38 - Publicado em 7 dez 2020 01h41
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Subvida”. É assim que Sonia Oliveira, 60 anos, define o seu período mais grave com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), doença psiquiátrica com a qual convive desde pequena. Mesmo passando por tratamentos que hoje permitem que ela tenha uma vida melhor, Sonia, assim como outras pessoas diagnosticadas com TOC, se viram apreensivas com a possibilidade de voltar à estaca zero durante a pandemia do novo coronavírus.

O transtorno obsessivo-compulsivo atinge de 2 a 3% da população mundial e tem como principal característica a recorrência de pensamentos, ideias e imagens, na maior parte das vezes absurdas, e a necessidade de realizar rituais para se livrar delas. É como se a higienização extrema, a contagem e o acúmulo de objetos, três tipos de TOC comuns, aliviassem a ansiedade. Em alguns casos, para quem tem esse distúrbio psiquiátrico, não cumprir esses rituais pode significar o acontecimento de algo horrível.

“É coisa da minha cabeça, mas se eu não fizer assim, penso que vai acontecer tal coisa com aquela pessoa, se eu não fizer assado, vai acontecer para aquela outra. É muita culpa”, explica Sonia. “[Com a pandemia] eu piorei, piorei mesmo. O medo te deixa ansiosa e quando a ansiedade vem, é a hora difícil. Você começa a fazer mais rituais”, afirma.

“É coisa da minha cabeça, mas se eu não fizer assim, penso que vai acontecer tal coisa com aquela pessoa, se eu não fizer assado, vai acontecer para aquela outra. É muita culpa”

Sonia Oliveira

De acordo com a revista científica The Lancet, estudos preliminares indicaram que pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo podem mostrar uma recaída ou piora nos sintomas com a crise de saúde global de 2020. “A impressão que tenho dos meus pacientes com TOC é que existe um perfil que, com ou sem pandemia, não fez diferença nenhuma. Estavam já tão envoltos nas próprias preocupações, que a pandemia foi só mais um detalhe na vida deles”, conta Antônio Carlos Lopes, psiquiatra especialista em transtorno obsessivo-compulsivo do Instituto Psiquiátrico do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Agora, para outro grupo, piorou. Principalmente para aqueles que tinham sintomas de medo de contaminação. Ficaram mais preocupados, estressados, ansiosos.”

Outro artigo disponibilizado pela Science Direct apontou que as pessoas com esse distúrbio psiquiátrico tendem a ter recaídas em caso de estresse causado por razões externas. A recidiva dos sintomas, segundo o documento, pode demorar dias ou meses para se manifestar por completo. Isso aconteceu em epidemias anteriores como a SARS, MERS e Influenza, onde, após 6 a 12 meses do surto, notou-se uma maior presença de TOC nos pacientes.

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Para além das repetições

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, a atenção com limpeza foi redobrada. A própria OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda, como uma das prevenções à doença, que todos lavem as mãos com frequência por no mínimo 20 segundos ou utilizem álcool gel na falta de uma pia com água e sabão. Essa orientação, mesmo necessária, pode servir como gatilho e aumentar as compulsões das pessoas com TOC de contaminação, que soma por volta de 30% de todos os pacientes com o distúrbio psiquiátrico, ou autorizar esses hábitos exagerados de forma com que eles lidem bem com a crise atual, atesta um artigo da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

“As pessoas com TOC que lavavam as mãos várias vezes, passavam álcool e não entravam com sapato em casa, já tinham esses comportamentos, mas a gente não tinha o contexto da pandemia. Para a ocasião, era exagerado. Agora, é desejável”, confirma Maria Alice de Mathis, terapeuta comportamental. “A pandemia valida os comportamentos que elas têm: antes eram vistos como estranhos e hoje são adequados.”

“Quando a pessoa perceber que está excessivo e um sofrimento para ela, é hora de procurar ajuda”

Maria Alice de Mathis, terapeuta

É importante, no entanto, não fazer confusão entre o transtorno obsessivo-compulsivo e a preocupação natural com higienização que existe hoje. Ainda que o hábito de lavar as mãos esteja mais repetitivo, não é só isso que caracteriza o TOC. “Tem que tomar muito tempo da pessoa, no mínimo uma hora de sintomas por dia, e precisa trazer um prejuízo funcional, atrapalhando a vida dela de alguma forma”, exemplifica Antônio. À Elástica, o psiquiatra revelou casos extremos em que uma pessoa com o distúrbio ficava 12 horas no banho e de uma paciente que se lavava com soda cáustica, mesmo antes da Covid-19.

“Quando a pessoa perceber que está excessivo e um sofrimento para ela, é hora de procurar ajuda”, diz Maria Alice. “A primeira indicação de tratamento para o TOC é a terapia comportamental, se for leve ou moderado. Se for forte, a medicação é bem vinda, mas sempre os dois em combinação.”

A terapia comportamental analisa comportamentos, bem como sentimentos e pensamentos em determinadas situações. Esse método, diferente da psicanálise, tem um direcionamento específico e é trabalhado por atividades combinadas entre terapeuta e paciente.

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Ansiedade como gatilho

Rodrigo*, 20 anos, trata o transtorno obsessivo-compulsivo desde que foi diagnosticado, em 2017, a partir da terapia comportamental e do atendimento psiquiátrico. “Meus pais perceberam que eu não conseguia ter uma conversa com alguém encostando em mim ou manter um diálogo durante um almoço. Eu ficava incomodado e tinha que lavar a mão”, relata. Seu comportamento compulsivo consistia em lavar as mãos por mais de cinco minutos por volta de 10 vezes ao dia e tomar banho com muitos movimentos repetitivos, o que atrapalhava suas interações sociais e seus estudos na faculdade de engenharia.

Com os medicamentos e o acompanhamento psicológico corretos, Rodrigo percebeu uma melhora significativa na sua qualidade de vida, cenário que mudou com a chegada do novo coronavírus ao Brasil. “O que afetou meu TOC foi a ansiedade ter aumentado muito na pandemia”, declara. “Inclusive, tive de dobrar a frequência com que vejo minha terapeuta comportamental. Ela percebeu que eu estava saindo do controle.”

“Meus pais perceberam que eu não conseguia ter uma conversa com alguém encostando em mim ou manter um diálogo durante um almoço. Eu ficava incomodado e tinha que lavar a mão”

Rodrigo

Antes do surgimento da Covid-19, o Brasil já era o país mais ansioso do mundo, com 9,3% dos brasileiros com algum transtorno de ansiedade, de acordo com a OMS. Um levantamento da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) mostrou que, com a pandemia, os casos de ansiedade aumentaram em 80%. Mas, ao contrário da maioria dessas pessoas, Rodrigo tem uma relação diferente com a ansiedade: ela é um gatilho para seu transtorno obsessivo-compulsivo.

“A carga da minha faculdade aumentou e eu ficava incomodado com a ideia de pegar o vírus, ainda que estivesse seguindo tudo à risca. A válvula de escape era o TOC”, relembra. Hoje, cuidando mais de sua saúde mental, ele já está com sua condição mais controlada.

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De “subvida” para uma nova vida

Sonia Oliveira também notou um agravamento nos sintomas de seu TOC com a pandemia do novo coronavírus. “Eu quase surtei. Muitas vezes entrava no meu quarto, fechava a porta e ficava em oração. Aumentava a dose do remédio, fazia qualquer coisa, porque foi muito difícil”, conclui.

Diferente de Rodrigo, ela demorou anos para encontrar um tratamento que a ajudasse. Conforme foi crescendo, seus pensamentos obsessivos e os acontecimentos de sua vida – como a morte do pai – a faziam sentir cada vez mais culpada, o que alimentava suas compulsões. Seus rituais variavam, mas os predominantes eram voltados à limpeza e contagem. “Comecei lavando mais as mãos, 200, 300, 400 vezes”, explica. Foi quando se casou, no entanto, que seus sintomas pioraram de vez.

“Ele não entendia e me largava muito sozinha”, conta. “Tinha um corredor no meu apartamento em que eu ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava. Tudo que eu fazia tinha uma contagem. Quando o homem com quem me casei chegava em casa, eu não tinha conseguido fazer comida, nem limpar a casa, nem fazer absolutamente nada.”

“Tinha um corredor no meu apartamento em que eu ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava. Tudo que eu fazia tinha uma contagem. Quando o homem com quem me casei chegava em casa, eu não tinha conseguido fazer comida, nem limpar a casa, nem fazer absolutamente nada”

Sonia Oliveira

Com essas crises, ela decidiu se exonerar de seu cargo como professora de escola pública. “Eu escrevia na lousa e apagava, escrevia na lousa e apagava… comecei a prejudicar meus alunos e desisti”, desabafa.

Seu ex-marido, então, decidiu interná-la em um hospital psiquiátrico em Itapira, município do estado de São Paulo, pelo período de um mês. Segundo Sonia, a instituição a colocou em uma ala com alcoólatras e depressivos, pois não havia nenhum paciente com TOC. Ao deixar o hospital, ela percebeu uma piora ainda maior.

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Os acontecimentos que vieram a seguir não a ajudaram; muito pelo contrário. Após adotarem um bebê, pois o então companheiro era infértil, ele perdeu todo seu dinheiro no jogo e a abandonou com o filho pequeno. “Não me falaram para onde ele foi e eu nunca mais o vi. Faz 28 anos”, diz. Além do transtorno obsessivo-compulsivo, Sonia teve de lidar com uma depressão profunda e uma mudança para São Paulo para ficar perto da mãe e irmã.

“Graças a Deus, foi quando encontrei o serviço público”, relata. Ao passar por diferentes médicos e psicólogos, encontrou o psiquiatra Antônio Carlos Lopes, com o qual segue tratamento até hoje no Hospital das Clínicas. Nesse momento, começou a sentir uma reviravolta em sua vida.

Voltou a atuar na educação pública, mas com readaptação, ou seja, de forma compatível às suas limitações mentais verificadas em inspeção médica, e foi selecionada para ser a segunda paciente com TOC no Brasil a passar pela radiocirurgia Gamma Knife. Essa modalidade de radioterapia é capaz de queimar uma pequena região cerebral, sem que haja abertura do crânio, e possibilita o implante de um eletrodo que estimula o cérebro. O procedimento é realizado única e exclusivamente em casos que não progridem após múltiplos tratamentos medicamentosos e a terapia comportamental.

Hoje, depois da cirurgia e ainda em acompanhamento psiquiátrico e psicológico, Sonia afirma se sentir curada, apesar de não haver cura para o transtorno obsessivo-compulsivo. “Quem tem TOC forte como eu, e eu conheci várias pessoas, é uma subvida que a gente tem. Tudo hoje tem um valor diferente, porque a gente pensa que uma hora não vai aguentar”, justifica.

*O nome do entrevistado foi alterado para preservar sua identidade

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