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Teoria do apego explica como se formam as relações humanas

A resposta dos pais ou cuidadores diante das necessidades da criança podem definir como elas lidam com o outro e com o mundo no futuro

por Beatriz Lourenço Atualizado em 6 abr 2021, 22h20 - Publicado em 6 abr 2021 01h26

Os relacionamentos humanos são abordados o tempo todo na literatura, no cinema, no teatro e nas conversas do cotidiano. Isso porque é a partir deles que se formam as nossas visões de mundo e a conexão com o outro. Nas páginas do romance A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, o autor reflete que um homem sozinho é apenas um animal, tornando-se indiferenciado no planeta. “A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti”, diz Gudmundur, pai da personagem principal da obra.

Pensando na importância dessa convivência, o psiquiatra e psicanalista inglês John Bowlby criou a teoria do apego, um método que nos ajuda a identificar os diferentes padrões de comportamento nas relações interpessoais. Seu primeiro estudo, intitulado “Cuidados maternos e saúde mental”, foi publicado em 1958 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e hoje é considerado essencial para a psicanálise. Nele, o teórico explica que a família tem o papel fundamental na sensação de estabilidade dos laços afetivos desenvolvidos por uma criança – que vai levar essas ideias para o resto da vida.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Tudo começa na infância

Como ponto de partida, Bowlby baseou-se nas relações sociais durante o desenvolvimento infantil. Ele explica que o apego nada mais é do que um sentimento de confiança que se forma entre os pequenos e seus cuidadores primários, responsáveis por fornecer uma base de segurança em momentos de vulnerabilidade. Assim, é essa base que vai definir futuramente como alguém reage em momentos de tensão, nas ligações amorosas e até mesmo no trabalho.

Segundo a psicóloga Pompéia de Villachan e Lyra, isso acontece já que o cérebro da criança é “programado” conforme ela entende que os adultos são ou não acessíveis às suas necessidades através das interações, nos momentos de brincadeiras, de alimentação ou apoio emocional durante uma queda, por exemplo. “O papel dos pais, em um ambiente ideal, é estar presente e disponibilizar ajuda caso a criança precise. O estímulo da autonomia nas tarefas, mostrando suporte e acolhimento, faz com que ela cresça acreditando que pode explorar o mundo, ser independente, mas também confiar nas outras pessoas”, explica.

“O estímulo da autonomia nas tarefas, mostrando suporte e acolhimento, faz com que ela cresça acreditando que pode explorar o mundo, ser independente, mas também confiar nas outras pessoas”

Pompéia de Villachan e Lyra

Por outro lado, as falas depreciativas, a agressão e a superproteção geram sensações de ansiedade e passividade, afetando negativamente a saúde emocional. “Se, ao se deparar com uma situação de perigo, a criança procurar pelo cuidador e ele não estiver acessível, ela tenderá a enfrentar uma situação duplamente ameaçadora, sentindo-se desamparada. Quando cresce, esse indivíduo provavelmente terá problemas para confiar nos outros ou em si”, afirma a profissional. “É claro que há dias que o adulto está mais ocupado e não pode dar atenção. Mas o que define essa personalidade em formação é a recorrência dessas ações”.

Ao todo, há quatro períodos através dos quais o apego é estabelecido: o primeiro ocorre durante os primeiros três meses de vida do bebê, quando ele demonstra alguma diferenciação entre os estímulos sociais e não sociais. Aqui, os comportamentos incluem orientação do corpo, trocas de olhares, sorrisos, vocalizações e movimentos corporais. Já o segundo é observado entre os três e seis meses de vida, quando a criança entende mais claramente quem é o seu principal cuidador. Após isso, o terceiro período tem início por volta do sétimo mês e dura até os três anos e meio de idade, quando ela passa a seguir a figura de apego durante os momentos de separação e demonstrar alegria nos momentos de retorno – indicando um vínculo forte. Por fim, o último período acontece na segunda metade do terceiro ano de vida da criança, quando ela desenvolve habilidades cognitivas para entender relações de causa e efeito entre o seu comportamento e o de sua família. É durante esse momento que ela age com a intenção de alcançar um objetivo e começa a pensar com a intenção de influenciar as respostas da mãe.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Os tipos de apego

JM* sempre se sente inseguro quanto está em um relacionamento sério: “Sou muito apegado física e emocionalmente às pessoas. Quando namoro, às vezes não dou valor aos meus momentos sozinho e me perco no meu parceiro. Isso me faz mal e torna difícil a relação com o outro”.

Ciúme, ansiedade e medo de ser deixada a qualquer momento também rondam o dia a dia de Fernanda Talarico que, com ajuda de terapia, trabalha para contornar o problema. “Após passar por um término traumático, a maneira com que eu me relacionava mudou. Passei a acreditar que a pessoa me deixaria a qualquer momento e que eu poderia perdê-la. Tenho que lidar com isso até hoje, mas entendo que ninguém morre de amores e que a vida continua”.

“Após passar por um término traumático, a maneira com que eu me relacionava mudou. Passei a acreditar que a pessoa me deixaria a qualquer momento e que eu poderia perdê-la. Tenho que lidar com isso até hoje”

Fernanda Talarico

Ao contrário dos dois, Estevão Andrade prefere nem se envolver de antemão por medo de firmar um acordo emocional com outra pessoa. “Eu prefiro lidar comigo mesmo sozinho e não depender emocionalmente de ninguém”, afirma.

Cada um deles têm tipos de apego diferentes e, para facilitar o entendimento e mostrar como identificá-los em si e na sociedade, John Bowlby estabeleceu quatro padrões recorrentes: seguro, ansioso, evitativo e desorganizado. Vale lembrar que, na prática, essas tendências podem se mostrar de forma diferente em cada vínculo e também podem ser transformadas quando há o sofrimento de algum trauma, como a morte de um ente querido ou uma separação que desorganiza o ambiente familiar.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Apego Seguro
Pode-se dizer que o apego seguro é o mais saudável. Ele se forma quando a criança sente que seus pais estarão disponíveis quando solicitados, pois vivem um modelo dominado por experiências favoráveis. Em geral, o cuidador se mostra confiável e consistente em suas respostas, estabelecendo um vínculo que proporciona sentimentos positivos de autoestima e capacidade na criança. Os adultos seguros entendem que podem dar conta dos problemas e que também podem buscar ajuda para solucioná-los.

Nos relacionamentos amorosos: É aquela pessoa que tem uma confiança alta em si mesmo e no parceiro. Ela percebe que o outro está presente quando precisa e está disponível quando ele precisa.

No trabalho: É o funcionário que consegue se jogar nos desafios com mais facilidade, se relaciona bem com a equipe e confia nos seus companheiros. Isso porque ele sabe que vai ser amparado quando solicitar.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Apego Ansioso/Ambivalente
O apego ansioso acontece quando a criança não tem certeza quanto à disponibilidade de resposta ou ajuda dos pais e tem dificuldade em lidar com esse sentimento. O comportamento dos cuidadores é instável, ora se mostrando disponível e ora não. Essa pessoa pode desenvolver sentimentos negativos de autoestima e tendência à ansiedade de separação.

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Nos relacionamentos amorosos: É aquele indivíduo muito ciumento, com a autoestima baixa e que acredita que o parceiro o deixará a qualquer momento. Ele acredita que o outro é mais capaz do que ele. Ele tem uma confiança no outro alta e em si mesmo, baixa.

No trabalho: É aquela pessoa que não se arrisca, que prefere exercer sempre a mesma função por medo de exercer uma função nova. Esse funcionário acredita que os colegas não dão conta de sua demanda emocional e, por isso, tem mais dificuldade em se destacar.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Apego Evitativo
Nesse tipo de apego, a criança parece não ter confiança de que terá resposta e ajuda quando necessitar e, antecipadamente, espera ser rejeitada. Nessa infância, os pais não ofereceram acolhimento e conforto quando a criança demonstra sentimentos de inadequação. Por isso, ela aprendeu a reprimir seus sentimentos, negando qualquer necessidade de apoio. “É aquela pessoa que fica na defensiva e evita o contato com o outro, se considerando autossuficiente”, explica a psicóloga Cibele Marras.

Nos relacionamentos amorosos: Um parceiro que não expõe suas fragilidades emocionais por medo dos vínculos mais profundos. Ele se afasta do sentimento de não-acolhimento e geralmente são mais frios e racionais. É aquela pessoa que, quando o outro diz que ama, sai correndo e nunca mais volta.

No trabalho: São os líderes mais focados, frios e calculistas. Também têm dificuldade de se relacionar com os colegas pois acreditam que as tarefas são mais importantes do que a interação e seguem sua determinação custe o que custar.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Apego Desorganizado
São os que oscilam entre o ambivalente e o evitativo. Eles não têm uma percepção nem boa de si e nem do outro, sendo tudo negativo. Também ficam com uma sensação de hipervigilância o tempo inteiro, criando um ciclo vicioso de ansiedade e tensão. “Essas pessoas nunca sabem o que podem esperar de quem está cuidando delas. São criadas por famílias com quadros de transtornos mais graves e se percebem em uma situação de desconforto diante da figura de apego”, explica Marras.

Nos relacionamentos amorosos: São pessoas que não conseguem se encaixar socialmente. Geralmente são indivíduos que não têm controle de seu próprio comportamento e de suas emoções, aumentando o risco de violência.

No trabalho: É o funcionário que não fica por muito tempo em nenhum trabalho. Também apresentam respostas contraditórias, impulsivas e têm dificuldade de desenvolver tarefas porque desconfiam de si e dos colegas.

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Herbert Loureiro/Ilustração

Reconhecer para transformar

Identificar o tipo de apego é o primeiro passo para transformar o que incomoda. Entender a recorrência de comportamentos nocivos podem transformar as relações e a forma como alguém percebe o mundo. “O primeiro cuidado na infância não é uma sentença, já que podemos atualizar esses sentimentos ao longo da vida. É como se fosse um ralado na perna que sempre estará ali, mas que é possível fazer outras coisas com ele, como uma tatuagem, por exemplo”, reflete Cibele.

“O primeiro cuidado na infância não é uma sentença, já que podemos atualizar esses sentimentos ao longo da vida. É como se fosse um ralado na perna que sempre estará ali, mas que é possível fazer outras coisas com ele, como uma tatuagem, por exemplo”

Cibele Marras

Buscar ajuda de um processo de psicoterapia é essencial para avaliar o histórico familiar e analisar como foi esse processo de desenvolvimento já que, muitas vezes, o caminho passa pelo entendimento de episódios de sofrimento e separação. A partir disso, o profissional irá conduzir e mudar os padrões de pensamento que foram construídos ao longo do tempo. Criar novas experiências de vinculação positivas também podem levar ao apego seguro: uma vez que o indivíduo se sente amado, ele entende que pode contar com as outras pessoas e explorar o mundo ao seu redor.

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Herbert Loureiro. Confira mais de seu trabalho aqui.

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