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Desordem do tempo

A sensação de que as horas passam diferente na pandemia não é ilusão. Para entender o novo fluxo, é preciso abandonar a maneira como percebemos a realidade

por Nathan Fernandes Atualizado em 19 ago 2020, 12h21 - Publicado em 19 ago 2020 02h18
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Clube Lambada/Ilustração

udo recomeça, como uma cobra engolindo o próprio rabo. Desde o início do distanciamento social, decretado por conta da pandemia do novo coronavírus, os dias parecem iguais — pelo menos, para aqueles que podem fazer a quarentena em casa, claro. Se, no começo do isolamento, as provas e as votações do BBB eram o que guiavam os dias de muita gente, com o fim do programa, o calendário parece ter se dissolvido. 

Eu mesmo já me vi questionando seriamente o dia da semana, e errando feio ao confirmar no celular. Apesar do trabalho continuar remotamente, passei a dividir minha rotina entre a higienização das compras, o par ou ímpar com o marido para ver quem faz o almoço e a emanação diária de energia negativa para o presidente. Quando me dou conta, já é mais uma sexta-feira não sextada, e me sinto mais confuso do que um viajante do tempo da série Dark — que só não é mais confuso do que um espectador da série Dark. E tudo recomeça, como uma cobra engolindo o próprio rabo. 

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A sensação de que o tempo passa de maneira diferente durante a pandemia não é ilusão. Como observou a jornalista Arielle Pardes, da Wired, no “coronatempo”, não contamos dias, mas números de mortes; e Nova York não está a algumas horas a frente de São Paulo, mas semanas. 

O tempo também parece correr diferente para ricos e pobres. A ponto do presidente e fundador da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, afirmar à Folha de S.Paulo, em 5 de maio: “O pico da doença já passou quando a gente analisa a classe média, classe média alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo”. Naquele dia, o país registrava 7.958 mortes por Covid-19, segundo o Ministério da Saúde. Desde então, o número só subiu – ontem, dia 18 de agosto, o número total ultrapassou as 110 mil mortes. É verdade que as desigualdades sempre existiram, mas o vírus parece ter criado seu próprio relógio, como lembrou Pardes. 

“Como os idosos são mais vulneráveis à Covid-19 e mais propensos a viverem sozinhos, níveis mais altos de isolamento social e estresse podem tornar a distorção temporal mais provável ou mais extrema para eles do que para indivíduos mais jovens”

Ruth Ogden

A psicóloga Ruth Ogden, da Universidade John Moores de Liverpool, no Reino Unido, resolveu desmontar esse relógio e entender como o isolamento afeta a nossa percepção da realidade. Através de uma pesquisa online, ela observou que, durante o lockdown decretado na Inglaterra, o tempo pode variar conforme a idade da pessoa. “Como os idosos são mais vulneráveis à Covid-19 e mais propensos a viverem sozinhos, níveis mais altos de isolamento social e estresse podem tornar a distorção temporal mais provável ou mais extrema para eles do que para indivíduos mais jovens”, escreveu Ogden, na revista científica Plus One, constatando que a pandemia faz os idosos perceberem a passagem de tempo de forma mais rápida. 

Não é a primeira vez que uma pandemia afeta a percepção de tempo de um grupo. A epidemia de hiv/aids também demoliu a ideia de futuro de parte da comunidade LGBTQIA+, alterando a sua relação com o presente. “O tempo queer talvez se manifeste de forma mais evidente no final do século 20, de dentro das comunidades gays das quais o horizonte de possibilidades foi severamente encurtado pela epidemia de aids”, escreve Judith Halberstam (que passou a se chamar Jack Halberstam), no livro In a Queer Time and Place (sem tradução no Brasil). 

Segundo o teórico norte-americano, “as subculturas queer produzem uma temporalidade alternativa, permitindo que seus participantes acreditem que seus futuros possam ser imaginados de acordo com uma lógica que está fora daqueles marcadores paradigmáticos da experiência de vida — especificamente: nascimento, casamento, reprodução e morte”.

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Ricardo Ampudia/Ilustração

O tempo dos anjos

O tempo não é o que parece. Entendê-lo como uma seta, que parte do passado em direção ao futuro, é só uma forma de interpretação da realidade. Existem outras. 

A ferramenta que usamos na agenda do celular para medir a passagem dos dias, semanas, meses e anos, por exemplo, tem nome e sobrenome: calendário gregoriano. É uma invenção, que se baseia nos ciclos da Terra, do Sol e da Lua, mas respeita a uma outra ordem. A palavra “calendário” vem do latim “calendarium”, que quer dizer livro de registros ou de impostos, a qual, por sua vez, é derivada de “calendae”, o primeiro dia do mês na contagem do Império Romano. Tem mais a ver, portanto, com a economia do que com a astronomia. 

“Subculturas queer produzem uma temporalidade alternativa, permitindo que seus participantes acreditem que seus futuros possam ser imaginados de acordo com uma lógica fora daqueles marcadores paradigmáticos da experiência de vida — especificamente: nascimento, casamento, reprodução e morte”

Jack Halberstam

O calendário gregoriano tem esse nome porque foi promulgado pelo Papa Gregório 13, no dia 24 de Fevereiro do ano 1582. Desde então, a ferramenta partiu da Europa para colonizar o mundo. Primeiro, foi incorporado pelos estados italianos e outros países católicos, como Portugal e Espanha. Só foi adotado pela Inglaterra em 1752; pela China, em 1912; e pela Rússia, em 1918. Apesar dos países islâmicos terem o seu próprio calendário, eles também se guiam pelo modelo cristão para as atividades civis. 

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Quem domina o tempo detém o poder. Não surpreende, portanto, que, ao longo de dois mil anos, ao impor seu ritmo, conciliando o “tempo de Deus” com o “tempo do capital”, a Igreja Católica tenha se firmado como uma das instituições mais sólidas da humanidade. “Foi só por volta do século 13 que, na Europa, a vida das pessoas começou a ser regulada por relógios mecânicos. Cidades e aldeias passaram a construir sua igreja, ao lado da igreja o campanário [torre de sinos], e sobre o campanário um relógio que dita o ritmo das funções coletivas”, escreveu o físico italiano Carlo Rovelli, no livro A Ordem do Tempo (Ed. Objetiva). “Aos poucos, o tempo passa das mãos dos anjos para as dos matemáticos.”

Atração fatal

Um dos principais responsáveis por roubar o tempo dos anjos, na cultura ocidental, foi Albert Einstein. Com suas teorias da relatividade (são duas), do início do século 20, o físico alemão trouxe conclusões importantes: como a de que espaço e tempo são medidas inseparáveis, e formam uma unidade conhecida pelo criativo nome de espaço-tempo.

Para enxergar o Universo como Einstein, imagine o espaço-tempo como uma espécie de tecido de cama elástica que reveste todo o Universo. Se você coloca uma bola de boliche em uma cama elástica normal, o tecido se deforma, certo? Do mesmo jeito, segundo Einstein, o tecido do espaço-tempo é deformado por objetos muito pesados do cosmos. A diferença é que, no cosmos, as bolas de boliche são corpos gigantescos conhecidos como estrelas, planetas, luas… Por serem muito pesados, esses corpos deformam o espaço e o tempo ao seu redor (já que os dois são uma única coisa), atraindo para si os objetos menores da vizinhança — um buraco negro “engole” tudo, por exemplo, porque é um dos objetos mais pesados do Universo observável, apesar de ser minúsculo. A essa força damos o nome de atração gravitacional. É isso, a gravidade, que faz a Lua girar ao redor da Terra sem cair sobre ela. Uma vez que os dois corpos têm um peso (portanto, uma atração gravitacional), ambos se dedicam a essa dança do equilíbrio na qual um atrai o outro, sem nunca se tocarem, como duas bolas girando eternamente numa cama elástica cósmica. 

“Foi só por volta do século 13 que, na Europa, a vida das pessoas começou a ser regulada por relógios mecânicos. Cidades e aldeias passaram a construir sua igreja, ao lado dela o campanário e, sobre ele, um relógio que dita o ritmo das funções coletivas. Aos poucos, o tempo passa das mãos dos anjos para as dos matemáticos”

Carlo Rovelli

A ideia é interessante porque mostra que, se quanto mais pesado o corpo, mais ele deforma o espaço e o tempo, então o tempo não pode ser o mesmo em lugares diferentes do Universo. O tempo na Terra é, relativamente, diferente do tempo em Saturno, porque eles têm pesos e atrações gravitacionais diferentes. Se você lembrou daquela cena de Interestelar, em que um jovem Matthew McConaughey encontra sua filha velhinha no leito de morte, depois de passar anos em uma viagem espacial, suas aulas de ciência estão em dia. 

“Nosso presente não se estende a todo o universo. É como uma bolha perto de nós”, escreve Rovelli. Assim, quando medimos o tempo, estamos, na verdade, comparando-o em relação a uma outra coisa: quando dizemos o ano em que estamos ou a hora atual, estamos analisando a posição da Terra em relação ao Sol. Para medir o tempo, precisamos sempre de dois referenciais. Mas isso só para nos situarmos em nosso planeta, uma vez que para o Universo esse tempo localizado é irrelevante. 

“Não existem dois tempos: existem legiões de tempo. Um tempo diferente para cada ponto no espaço”, analisa Rovelli. “Nas leis elementares que descrevem os mecanismo do mundo, não existe diferença entre passado e futuro — entre causa e efeito, entre memória e esperança, entre remorso e intenção.”

“Nas leis elementares que descrevem os mecanismo do mundo, não existe diferença entre passado e futuro — entre causa e efeito, entre memória e esperança, entre remorso e intenção”

Carlo Rovelli
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Ricardo Ampudia/Ilustração

O universo numa rosquinha

Em 2017, depois de morar em algumas cidades do Brasil, o belenense Gustavo Nogueira, o Gust, se mudou para a Holanda, na época do ano novo. “Em Amsterdã, tem um festejo conhecido como Oudejaarsavond, a noite de despedida do ano velho. Antes de fazer planos e criar expectativas para o ano seguinte, as pessoas olham com gratidão para o que passou”, conta ele. “Isso me fez perceber que outras relações eu podia ter com o tempo.”

As reflexões alteraram as pesquisas que Gust realizava na Torus Time Lab, um laboratório de estudos do zeitgeist, que oferece consultoria a empresas e cursos que trazem novas formas de entender o tempo. “Como alguém que trabalha com tecnologia, percebi que sempre estava muito ansioso pela próxima tendência, o próximo projeto. Notei que o tempo dessa lente específica — quem tem como um dos pilares a Singularity University, instituição que conta com o apoio da Nasa, do Google e outros gigantes do Vale do Silício — não está interessado em mudar o presente em um prol de um futuro melhor, mas, sim, em garantir que o poder que já está na mão dessas empresas continue no futuro. Não é um cenário de mudança, mas de manutenção do status quo a partir das tecnologias emergentes. A denominação correta não seria futurismo, mas tecnocapitalismo”, diz. 

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Percebi que sempre estava muito ansioso pela próxima tendência, o próximo projeto. Notei que o tempo dessa lente específica não está interessado em mudar o presente em um prol de um futuro melhor, mas, sim, em garantir que o poder que já está na mão dessas empresas continue no futuro. A denominação correta não seria futurismo, mas tecnocapitalismo”

Gustavo Nogueira

Não à toa, a Torus leva o nome de um símbolo que reflete essa ideia de mudança. A figura tem o formato de uma rosquinha, na qual a cobertura escorrega em direção ao próprio centro, e retorna para o ponto de partida num giro infinito. O centro representa o presente, e a cobertura giratória é o fluxo do tempo, com passado e futuro interagindo de forma circular (não em linha reta).

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Gust lembra que, em uma versão 2D, a figura seria como um 8 deitado, o símbolo do infinito. Algumas culturas também representam essa ideia de movimento contínuo através de uma serpente que devora a própria cauda, conhecida como Ouroboros. “Parece que estamos dando voltas em nós mesmos, nos repetindo num ciclo sem fim. A gente acha que está preso, mas, na verdade, é porque estamos vendo em 2D algo que tem mais dimensões”, explica. “São múltiplos tempos, múltiplas jornadas.”

“Muitas culturas percebem o tempo dessa maneira, menos a nossa ocidental, que tornou dominante um projeto de sociedade e de realidade que apagou a possibilidade de aprendermos sob essa perspectiva. Vários povos africanos já pensavam nessa forma circular de tempo. Os egípcios antigos, por exemplo, tinham uma linguagem similar, os maias da Mesoamérica também desenvolveram um sistema completo sobre isso, assim como os povos da região amazônica, onde nasci.”

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Ricardo Ampudia/Ilustração

O equilíbrio de Exu

O conceito de Sankofa, do povo Akan, por exemplo, da região de Gana e Costa do Marfim, representa essa capacidade de construir o futuro a partir de um olhar para o passado. “Este movimento de retorno precisa estar pautado no acúmulo ancestral de conhecimentos africanos tendo como objetivo final a libertação, principalmente mental, do sequestro psicológico colonial que encarcerou as potencialidades do povo negro a imagens de miséria, destruição e tristeza”, escreveu a pesquisadora Morena Mariah, criadora da plataforma de educação Afrofuturo.

No tempo ocidental, a ancestralidade é reduzida a uma espécie de tradicionalismo elitista. Esse tempo é medido pela pressa, e na ideia de acumular no presente para aproveitar um futuro incerto. Em uma sociedade do tipo, a ansiedade e o estresse são mais comuns do que a satisfação. 

“Essa ideia de progresso atrelada ao futuro, que é focada no amanhã, na inovação, é uma característica do tempo ocidental. O tempo africano não é o tempo da pressa. E como eu me relaciono com esse tempo, sendo que estou inserida numa sociedade que preza pela correria?”

Aza Njeri

“Essa ideia de progresso atrelada ao futuro, que é focada no amanhã, na inovação, é uma característica do tempo ocidental. O tempo africano não é o tempo da pressa”, pontua a pesquisadora Aza Njeri, professora doutora em Literaturas Africanas e pós-doutora em Filosofia Africana. “E como eu me relaciono com esse tempo, sendo que estou inserida numa sociedade que preza pela correria? Sempre tento pensar que as coisas acontecem no tempo que elas têm que acontecer. Isso me deixa menos ansiosa.”

A pesquisadora lembra que a cultura ocidental é baseada num sistema que leva em conta a perspectiva européia, na qual homens brancos representam o modelo a ser seguido. Mas essa é só uma das diversas formas de enxergar o mundo. “Se a gente não incorporar a pluriversalidade das outras existências – consequentemente, da nossa própria existência – a gente não vai caminhar. As desigualdades e o genocídio vão continuar. Essa insensibilidade que faz com que algumas pessoas deem festas, enquanto outras morrem de Covid-19, reflete uma falta de humanidade que tem relação direta com o que é considerado humanidade para o ocidente.”

Como lembra Njeri, na mitologia iorubá, a divindade relacionada ao tempo é o orixá Exu Bará, também ligado à comunicação. “Ele traz uma compreensão de tempo espiralar, de movimento. É o senhor dos caminhos, das encruzilhadas. Aquele que promove o caos para trazer o equilíbrio”, explica. “É por isso que no candomblé nenhuma crise é problema. Quem é da espiritualidade africana entende esse tempo de pandemia como um tempo de respiro e de continuidade, porque sabemos que depois do caos vem o equilíbrio de Exu.” 

“É por isso que no candomblé nenhuma crise é problema. Quem é da espiritualidade africana entende esse tempo de pandemia como um tempo de respiro e de continuidade, porque sabemos que depois do caos vem o equilíbrio de Exu”

Aza Njeri

Citando o pensador quilombola Nego Bispo, a pesquisadora completa com sua filosofia circular: “Tudo é início, meio e início”.

Ao entender que o tempo não é necessariamente uma linha reta pela qual seguimos sempre em frente, a pergunta feita pelo físico Carlo Rovelli, em A Ordem do Tempo, faz cada vez mais sentido: “Somos nós que existimos no tempo, ou é o tempo que existe em nós?”. A reflexão me acompanha enquanto me arrasto pela rotina: trabalhando em casa, higienizando mais um carregamento de compras e percebendo como a novela Fina Estampa envelheceu mal. Sem conseguir chegar a uma conclusão (ou concluindo que as duas proposições de Rovelli estão certas), já é sexta-feira de novo. E, em múltiplos tempos, tudo recomeça, como uma cobra engolindo o próprio rabo.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Ricardo Ampudia. Confira mais de seu trabalho aqui

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