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Tatuagem para toda pele

Tatuadores defendem traços coloridos e ousados para todos os tons e cores de pele

por João de Mari Atualizado em 15 fev 2021, 12h00 - Publicado em 9 fev 2021 22h12
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Arte/Redação

Eu tenho… espera aí, deixa eu contar quantas são”, diz a auxiliar jurídica Marcela Ramos, como se nunca antes tivesse sido questionada sobre a quantidade de tatuagens que tem. Depois de pensar por alguns segundos, a jovem negra de 22 anos revela: “São seis”. Mas, logo em seguida, ela faz uma ressalva. “As primeiras foram apenas frases escritas, porque me falaram que eu não podia fazer desenhos, ainda mais se fossem coloridos igual a última que fiz”.

“As primeiras foram apenas frases escritas, porque me falaram que eu não podia fazer desenhos, ainda mais se fossem coloridos igual a última”

Marcela Ramos, auxiliar jurídica

A arte de cerca de 15 centímetros no peito de Ramos com a figura de uma mulher de cabelos cacheados, em posição fetal, com dois galhos saindo das costas e um círculo pintado de vermelho surgindo atrás dela, como se fosse um sol nascente, é a mais recente, feita por ela em janeiro deste ano. “Eu fico emocionada, porque só foi uma bola vermelha que ela colocou na minha pele e quando eu vi aquilo foi libertador”, conta, referindo-se à tatuadora Índia que, por meio da tatuagem, constrói identidades pretas e indígenas, como a própria artista afirma em suas redes sociais.

No Instagram, a tatuadora, que tem um estúdio de tatuagens na Zona Norte do Rio de Janeiro, se divide entre publicações de fotos de trabalhos em clientes e posts explicativos sobre técnicas de tatuagem. “Recebo muitas perguntas sobre quais cursos eu fiz pra aprender a tatuar pele preta, ou sobre como desenvolvi minha técnica, e a resposta é muito simples: eu penso na tatuagem a partir da sua perspectiva original”, escreveu ela em uma publicação.

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Nascida em Guapimirim, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Marcela teve que lidar com “períodos de depressão” desde muito nova. Segundo ela, o bullying sofrido por ser uma mulher negra foi um dos motivos do seu sofrimento psíquico. Ela conta que encontrou na arte, sobretudo no desenho e na música, uma saída para suas angústias. “Vejo as tatuagens como forma de expressão. Sou apaixonada por arte e sempre fui muito reprimida por ter crescido em um lar evangélico. Quando tive depressão, uma das coisas que minha psicóloga me indicou para ‘colocar as coisas para fora’ era desenhar”, releva.

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arte/Redação

A tatuagem é uma das formas de modificação corporal mais antigas da humanidade. Mas, como é impossível encontrar corpos de eras tão remotas com a pele preservada, pesquisadores se baseiam em amostras mais recentes para definir a data precisa dos primeiros desenhos.

Registros de tatuagens foram encontrados em múmias egípcias, como a de Amunet, que teria vivido entre 2160 e 1994 a.C. e apresenta traços e pontos inscritos na região abdominal – indício de que a tatuagem, no Egito Antigo, poderia ter relação com cultos à fertilidade. Ou no Homem do Gelo, múmia com cerca de 5.300 anos descoberta em 1991, nos Alpes, com linhas azuis em seu corpo.

“Quando a tatuagem surgiu, ela apareceu como um símbolo de pertencimento e de relação com uma cultura determinada. Tinha um sentido diferente do que tem para gente hoje”

Jaqueline Gomes de Jesus, pós-doutora e professora do IFRJ

“Quando a tatuagem surgiu, ela apareceu como um símbolo de pertencimento e de relação com uma cultura determinada. Tinha um sentido diferente do que tem para gente hoje”, explica Jaqueline Gomes de Jesus, pós-doutora em Ciências Sociais e professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

“No início do século XX é que vai surgir a ideia da tatuagem como uma questão de estilo e gosto, para as pessoas se diferenciarem e se valorizarem. Antigamente, era um sinal de reconhecimento e de conquistas, seja no caso dos guerreiros, ou de pessoas que indicavam a região que moravam com a própria tatuagem”, conclui.

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Arte/Redação

“Prefiro desenhar em folha sulfite”

Assim como ocorreu com as primeiras tatuagens de Ramos, hoje não são todos os tatuadores que aceitam uma “tela”, como a pele dos clientes pode ser chamada, de uma pessoa negra, sobretudo as mais retintas.

Uma tatuadora, que não quis se identificar, conta que quando foi aprendiz em um estúdio famoso em São Paulo presenciou uma cena que a fez pedir as contas. Segundo ela, um casal de clientes chegou no estúdio para ser atendido por um dos tatuadores. Uma mulher branca se tatuou e o namorado dela, homem negro, agendou uma sessão para a semana seguinte.


“Ele me disse que não tatuava negros porque não ficaria bom no portfólio, chegou a chamar os tatuadores do estúdio para questionar, na frente de todo mundo, se preferiam desenhar em folha sulfite ou papel pardo”

Quando o tatuador soube que o desenho seria em uma pele escura, pediu para a então aprendiz desmarcar o horário do rapaz. “Inventa uma desculpa”, teria dito ele. “Ele me disse que não tatuava negros porque não ficaria bom no portfólio. Ele chegou a chamar os tatuadores do estúdio para questionar, na frente de todo mundo, se preferiam desenhar em folha sulfite ou papel pardo”, relembra.

Nas redes sociais, também há uma série de vídeos que orientam tatuadores a não desenharem em peles mais escuras e pessoas negras a não fazerem tatuagem, principalmente se o desenho for colorido. “Vocês têm uma limitação e não podem escolher qualquer tatuagem que quiserem; essas tintas não serão enxergadas por causa do insulfilm escuro; quem tem pele negra nunca vai poder fazer uma tatuagem dessa”, diz o tatuador e empresário Raphael Salles em seu canal no Youtube no vídeo intitulado em “Parem de Tatuar Negros”, elencando seus motivos para não tatuarem pessoas pretas.

Jaqueline Gomes de Jesus, que também é doutora em Psicologia Social, acredita que estes episódios têm a ver com o pensamento colonizado e “obviamente tem uma marca de racismo estrutural”.

“A gente vive em uma sociedade com racismo estrutural e vamos ter essas questões na vida, mas me parece também que é uma questão de estética ligada aos concursos, porque os tatuadores tem que ter uma visualização melhor do desenho e na pele negra, segundo profissionais que ouvi, os traços mais claros ficam opacos, esteticamente não agradável”, acredita.

A reportagem entrou em contato com Salles, perguntando se ele gostaria de se posicionar sobre o vídeo em que orienta profissionais a não tatuarem pessoas negras. Porém, não recebeu uma resposta até a publicação dessa matéria.

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Técnicas na tattoo

Quem concorda com a avaliação da pesquisadora é o tatuador Marcus Oliveira. Dono do projeto Arte Preta, no centro de São Paulo, que tem o objetivo de representar “Afro e Indígena para todos”, ele afirma que há algumas diferenças em tatuar pele mais escura. No entanto, segundo ele, todas se referem ao “pensar da arte” e não à cor da pessoa.

“Há diferença no momento da aplicação, porque a gente tem que se atentar que a pele não é igual uma parede, pois todo pigmento que você aplica em tatuagem se soma a cor daquela pele e tudo isso tem que ser pensado, estudado e entendido. Não sei se os tatuadores sabem ou se não sabem, se não pesquisam e não procuram entender, ou se sabem e fazem pouco caso”, diz.

“Há diferença no momento da aplicação, porque a gente tem que se atentar que a pele não é igual uma parede, pois todo pigmento que você aplica em tatuagem se soma a cor daquela pele e tudo isso tem que ser pensado, estudado e entendido”

Marcus Oliveira, tatuador

O tatuador Pablo Xamã, que atende em Belo Horizonte, em Minas Gerais, também avalia que as diferenças estão apenas no desenho que irá, posteriormente, para a pele. O artista que tatua “gente preta em gente preta”, como ele mesmo se descreve, ostenta em seu Instagram fotos de trabalhos como os rostos dos rappers Tupac, Sabotage e Kendrick Lamar, figuras de mulheres que remetem ancestralidade e desenhos de orixás, explica que a arte está “saber usar o contraste da pele”.

“Como você vai usar o contraste da pele negra, que é menor, você tem que pensar no desenho de uma forma para otimizar o contraste. O que eu costumo fazer nos meus desenhos é usar esse alto contraste, lugares com sombra e lugares sem nada no desenho, usar o vazado das composições para gerar um contraste maior na pele que não tem”, explica. “Para mim, a questão técnica é a mesma coisa”.

“Como você vai usar o contraste da pele negra, que é menor, você tem que pensar no desenho de uma forma para otimizar o contraste”

Pablo Xamã, tatuador
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Pablo Xamã/Divulgação
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“Preto tatuado, sim!”

Ainda não existe um censo brasileiro para apontar quantas pessoas têm tatuagem no Brasil. Também não há dados sobre a raça ou cor das pessoas tatuadas. Mas, em 2013, a revista Superinteressante realizou uma pesquisa com enfoque no perfil do tatuado e mostrou que mulheres representavam 59,9% das pessoas com tatuagem no país, à época. Em relação à idade, chegou-se à conclusão que as pessoas entre 19 e 25 anos correspondem a 48,2% dos tatuados.

É o caso de Ketillyn Cristina. A tatuadora de Sorocaba, no interior de São Paulo, relembra que sempre gostou de tatuagens e fez a primeira com 21 anos. Porém, ela conta que, como mulher negra, teve dificuldades para encontrar boas referências de desenhos. Há um ano, quando virou tatuadora, Ketillyn diz que foi incentivada por profissionais mais experientes a não desenhar pessoas negras por questões técnicas. “Minha família toda é negra e logo pensei ‘como assim, a pele negra não serve para ser tatuada?!’. Quando eu os questionava, eles me respondiam que, por tatuar um negro, eu não conseguiria mostrar meu trabalho, que a pigmentação é muito ruim”, relembra Ketillyn.

Por esse motivo, ela conta que decidiu “revolucionar” o cenário da tatuagem na região em que ela trabalha e que “iria ter preto tatuado sim”, como ela mesma diz. “Entrei no ramo de tatuagem com o intuito de me profissionalizar em peles negras”, revela.

“Entrei no ramo de tatuagem com o intuito de me profissionalizar em peles negras”

Ketillyn Cristina, tatuadora

O instagram @negrosdetattoo, administrado por ela, conta com mais de 5 mil seguidores que acompanham as publicações de desenhos que vão de deuses egípcios a flores e animais. Todas as fotos do feed são de pessoas negras. “Quando eu termino um trabalho e o cliente olha para mim, bobo, eu fico sem reação. É uma sensação de dever cumprido”.

Marcus Oliveira, do Arte Preta, também relembra que, quando começou a tatuar, pediam para que ele desistisse do projeto de tatuar pessoas negras. “Eu passei por uns estúdios onde me falavam para eu mudar o nome do Arte Preta, da temática do trabalho, porque eu ia afastar clientela. No começo, era tudo muito difícil: não entrava dinheiro, o seu trabalho não estava bom para vender, eu só tinha a ideia e os caras me desestimularam. E sempre eram pessoas brancas”, conta. “Mas eu dava conta de lidar e rebater até porque eu nunca deixei passar impune uma situação de racismo”, relembra ele, que hoje tem mais de 16 mil seguidores nas redes sociais.

Na visão do tatuador Evandro Rodrigues, de 38 anos, que trabalha como tatuador há mais de 20, tatuar pessoas negras não foi uma “decisão”, mas sim um processo natural de quem vive em um país com a maioria da população negra. “Não tem problema nenhum, como muitos falam por aí. A cicatrização é igual a qualquer outra. Pessoas negras, brancas, ou até com doenças de pele podem se tatuar. Em 20 anos de profissão, até hoje não tive problema com isso”, afirma ele, que atende em um estúdio localizado na Zona Norte de São Paulo.

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Evandro Rodrigues/Divulgação

Rodrigues, no entanto, alerta que não são todos os tatuadores que estão aptos a fazer tatuagens. “Tem quem se negue a fazer o trabalho porque tem alguma dificuldade ou por preconceito mesmo. Hoje em dia, é a profissão dos sonhos e muita gente entra achando que é dinheiro fácil, então a pessoa tem que procurar um profissional qualificado”, conclui.

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Adaptar as tecnologias

Nas aulas de psicologia da moda dos grupos de estudo do campus de economia criativa do Instituto Federal do Rio de Janeiro, Jaqueline Gomes de Jesus afirma que a temática da construção de identidade e imagem por meio da modificação corporal e da moda é assunto frequente com os alunos.

Ela avalia que existe uma questão do “sistema” que coloca um padrão na estética, no que vai ser lido como bonito por uma determinada parcela da população, e é necessário refletir para adaptar as tecnologias que tem “poucas atualizações”.

Tatuagens Pablo Xamã
Tatuagens Pablo Xamã Pablo Xamã/Divulgação

“Lembrando que antigamente quem se tatuava eram pessoas de pele negra, e tem essa questão para se pensar o que significa essa estética numa cultura como a nossa, racista”

Jaqueline Gomes de Jesus

“Lembrando que antigamente quem se tatuava eram pessoas de pele negra, e tem essa questão para se pensar o que significa essa estética numa cultura como a nossa, racista e que os símbolos trazem essas marcas que não favorecem pessoas de pele negra”, diz.

A professora cita exemplos que vão além da tatuagem, como iluminação em vídeos e fotografias, imagem para TV e cinema. Para ela, uma discussão importante, que foge do senso comum da discriminação, é entender como se podem adaptar as técnicas para a pele negra para qual, “recentemente na humanidade, não foi tão valorizada nesse sentido”, como ela mesma diz, sendo que historicamente a tatuagem foi construída sobre corpos de pessoas negras. “A iluminação não funciona tão bem para pele negra, tem que fazer maquiagens e posições específicas. Então, a pessoa que trabalha com isso tem que ter ciência dessas questões para não prejudicar a imagem da pessoa negra na televisão. Em geral, não existem tecnologias e a própria pessoa vai ter que se adaptar”.

A professora, que não tem tatuagens, ressalta que é importante olhar para o “bonito” e o “não bonito” com base na determinada cultura. O que pode ser belo para alguns povos, não necessariamente agrada outro. “As imagens e os marcos nos corpos foram construídos visualmente e, por isso, podem ser desconstruídos também. Tudo isso depende da própria categoria [os tatuadores] refletir a respeito”.

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Arte/Redação

“Será que minha tatuagem está feia?!”

Não publicar a foto da tatuagem nas redes sociais, causando sentimento de frustração e ansiedade, foi uma das falas mais comuns entre os entrevistados pela reportagem. Ou pior, quando postam a imagem com edições que alteram a cor real da pele.

“Antes de conhecer a Índia, as tatuagens que eu fiz e eram publicadas foram colocadas no perfil da pessoa ou em preto e branco ou editada com a cor da pele da foto diferente da minha. Isso sempre me deixava incomodada”

Marcela Ramos, auxiliar jurídica

“Antes de conhecer a Índia, as tatuagens que eu fiz e eram publicadas foram colocadas no perfil da pessoa ou em preto e branco ou editada com a cor da pele da foto diferente da minha. Isso sempre me deixava incomodada”, lembra Marcela. “Eu tenho 50 tatuagens e lembro de duas que foram publicadas”, pontua Marcus, do Arte Preta.

“Eu tenho 50 tatuagens e lembro de duas que foram publicadas”

Marcus Oliveira, do Arte Preta

Outra perspectiva

Separamos também 10 artistas negros espalhados pelo Brasil que pensam na tatuagem com outras perspectivas. Corre para dar uma olhadinha no feed do Instagram deles e, quem sabe, não agendar uma tattoo.

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