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Aos poucos, aos palcos

Após meses de lives em plena quarentena, Tássia Reis voltou aos palcos para fazer um show ao vivo e em cores - e com nenhum contato humano

por Henrique Santiago 4 dez 2020 00h43
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Clube Lambada/Ilustração

uando Tássia Reis lançou Próspera, seu terceiro álbum, em julho de 2019, ela jamais pensaria que viria uma pandemia para interromper a divulgação do seu trabalho. Mas ontem, depois de oito meses confinada, a rapper subiu ao palco do Boiler Room x Ballantine’s True Music, no Rio de Janeiro, para se apresentar ao vivo. 

O evento In The Round retornou ao Brasil na noite de quinta-feira, 3, em um formato projetado para a realidade de um ano em que só se fala de covid-19. Uma plateia reduzida de familiares, amigos e fãs assistiu a apresentações dela e de Marcelo D2 com protocolos de saúde e segurança. Além do público presencial, os shows foram vistos on-line a partir das 19h por mil pessoas que se cadastraram gratuitamente. 

Foi com esse cenário que Tássia retomou a relação de amor que tem com palco depois de um longo hiato. Elástica bateu um papo rápido por vídeo com a artista de Jacareí a poucas horas antes de sua apresentação. Ela contou sobre a ansiedade de fazer shows novamente, as responsabilidades de um artista com seus fãs nesse momento de incertezas, a presença da mulher negra no mainstream e muito mais. Confira abaixo:  

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Instagram/Reprodução

Tássia, você está longe dos palcos desde o início da pandemia, mas agora pode tocar para o público em um ambiente repensado para os tempos de covid-19. Nesses últimos meses, você descobriu ou se redescobriu fazendo algo que não fazia antes da chegada do coronavírus?
Eu me descobri pessoalmente mais cozinheira, comecei a experimentar mais coisas que antigamente não tinha tempo de fazer. “Antigamente”, né, olha só (risos), antes da pandemia, eu não tinha tanto tempo. Outra coisa que mudou é que eu morava sozinha e decidi, há três meses, ir para o interior e ficar com a minha família porque estava me sentindo muito sozinha. Essas coisas mudaram e eu não imaginava que fosse fazer durante a pandemia. Em relação ao trabalho, teve uma coisa muito legal que eu fiz e amei: gravei um podcast, narrei uma história. Eu amei porque tem que interpretar e tal, contar a história, botar a emoção. É uma coisa que eu faria mais. Não saiu ainda, não posso falar (risos). 

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Aliás, você vai voltar a se apresentar ao vivo para seu público depois de muitos meses. Qual é a sua relação com o palco?
Tenho feito lives em casa, depois passei a fazer live em estúdio, gravar e tudo mais. É a primeira vez [na pandemia] que vou fazer [show] com pessoas, com um público reduzido. Estou um pouco ansiosa porque sinto muita falta do palco, sinto falta da interação presencial. Acho que vai ser muito especial. É até estranho, porque eu estava assim: “ah, tô tranquila sem fazer show”. Aí eu fui fazer uma gravação que era num palco, não tinha nem público, só de subir eu pensei “mas eu gosto de subir ao palco” (risos). Quando eu estiver lá, vou sentir aquela energia e me dar conta de que eu amo muito aquilo (risos). 

O trabalho de músicos foi transformado desde o início da quarentena. Mas artistas de grande apelo comercial têm feito shows ao vivo para grandes públicos sem respeitar as medidas de segurança. O que pensa disso?
Acho que é um pouco irresponsável, porque artistas grandes têm mais chance de se cuidar mais e acabam expondo um público que está carente… As pessoas estão muito carentes de encontros [presenciais]. Então, acho que é importante que artistas reflitam sobre a influência deles nas pessoas. Eu entendo que as pessoas precisam trabalhar, mas achar um meio termo nisso é importante. Só estou participando desse evento porque sei que os protocolos estão sendo atendidos, sabe, isso me preocupa bastante. E vamos fazer o máximo possível para que todo mundo esteja seguro. Cada um tem que fazer suas escolhas. A minha escolha é essa. 

“Artistas grandes têm mais chance de se cuidar mais e acabam expondo um público que está carente… As pessoas estão muito carentes de encontros [presenciais]. É importante que artistas reflitam sobre a influência deles nas pessoas. Eu entendo que as pessoas precisam trabalhar, mas achar um meio termo nisso é importante”

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O rap foi, por muitos anos, um lugar para homens, mas artistas como você, Karol Conká e Drik Barbosa têm conquistado o seu espaço no Brasil. Você diria que hoje é o melhor momento para mulheres fazerem rap?
Olha, é melhor do que antes, mas não acredito que é o auge. O mundo foi gerido e organizado por homens por muito tempo, então, muitas das mulheres estão fazendo algumas coisas pela primeira vez, principalmente as mulheres negras. É importante o nosso crescimento, a gente vem avançando e não só no rap, mas na música em geral. A Drika não é só rap, ela já é pop também, assim como Karol é superpop. Se a gente for pensar no rap no mundo, é a música mais ouvida. O que é mais pop do que o rap, né? Entender que é possível, que há espaço para todas, todos e todes, é o caminho para a gente alcançar nossos lugares e isso vai ser bom para todo mundo. Mas tem muito coisa ainda para se fazer, para ter um lugar confortável para mulheres e pessoas LGBTs também. Nem sempre foi um espaço permitido para elas.  

Além de música, você criou há três anos uma marca de roupas, a Xiu, que tem como manifesto a valorização de minorias historicamente silenciadas. Nos últimos dias, o Brasil viveu mais um episódio de racismo em que um homem negro foi morto dentro de uma loja do Carrefour. Você se posiciona a favor de boicote a essas marcas?
Acho que o boicote é importante porque certas empresas só entendem quando mexe no bolso delas, sabe? Mas se a gente parar para pensar, a gente vai boicotar tudo e não vai poder usar quase nada, porque a maioria das empresas tem políticas racistas de contratação e de subempregos para pessoas pretas e periféricas. Tem muita coisa que precisa mudar para além dessa ação isolada. É importante, sim, ter um caminho de mudança para entender que a vida de uma pessoa foi retirada e a diferença disso, né? Quantas pessoas brancas já deram escândalos em estabelecimentos e o segurança não tocou em nenhum fio de cabelo dessas pessoas? Enquanto mulheres e homens pretos estão sujeitos a serem violentamente abordados ou até mesmo assassinados por suspeita ou algo assim. Cabe a nós a reflexão para entender e fazer algo de diferente. 

Tássia, você já criticou a ausência de mulheres negras no mainstream. Diferentemente de artistas do meio, você não tem uma grande gravadora por trás, um time de empresários ou uma mega estrutura para seus shows. Qual é o caminho que uma artista negra independente tem que percorrer para chegar ao topo?
O caminho eu não sei, mas eu estou fazendo o melhor que posso. Quando lancei meu primeiro single, tive a oportunidade de assistir a um show da Erykah Badu. Estou com a camiseta dela aqui hoje, sou muito fã, assim como de várias outras cantoras. E perguntei o que ela indicaria para mim e para outras cantoras que estavam começando. Ela falou para eu seguir meu coração. “Follow your heart and be honest”, ela me disse (risos). É isso o que eu venho fazendo, estou seguindo meu coração e tentando ser o mais honesta possível dentro da minha caminhada, sabe? O resto é estratégia, acho que não tem certo e não tem errado. Não dá para prever muito, mas eu tenho aqui meus caminhos e minhas estratégias e estou traçando, percorrendo e espero que me dê resultados satisfatórios. Mas também entendo que sou uma artista independente, não sou do mainstream, quero ser e estou no corre. E hoje estou aqui, né, vou fazer esse show incrível que é para o mundo inteiro.

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