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King da porra toda

Stephen King vive um momento extraordinário, com 350 milhões de livros vendidos. E ele chegou aqui quebrando várias regras do mundo editorial

por Bruno Porto Atualizado em 19 jun 2020, 19h25 - Publicado em 15 jun 2020 10h15
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Estúdio Lambada/Ilustração

lgumas máximas do mercado editorial: “Escritor não tem que falar de política. Política prejudica as vendas”. “É impossível lançar um livro por ano e manter a qualidade”. “Quando um autor envelhece, naturalmente a qualidade do seu texto piora”.

Quem acompanha a carreira de Stephen King sabe que essas afirmações são tão questionáveis quanto a sanidade de Jack Torrance e o amor do palhaço Pennywise por crianças (caso o leitor ainda não tenha sucumbido ao talento do escritor, os dois estão entre os protagonistas dos dois livros mais famosos do americano, O Iluminado e It – A Coisa). Um dos autores mais conhecidos e bem-sucedidos do planeta, King está vivendo um momento profissional extraordinário – e chegou aqui contrariando o que muitos consideram verdades inescapáveis do mundo editorial.

O sucesso de King – nascido Stephen Edwin King em 21 de setembro de 1947, em Portland, Maine, nos Estados Unidos – pode ser medido de diversas formas. A mais óbvia são as vendas: mais de 350 milhões de cópias dos seus cerca de 50 títulos já foram comercializadas. Todos os seus livros vão parar automaticamente na lista de mais vendidos mais importante do mundo, a do The New York Times. No Brasil, o Grupo Companhia das Letras, que o publica, fez um “relançamento” do autor no país há poucos anos, investindo pesadamente em marketing e mostrando aos livreiros os números de King no exterior. A ideia era mostrar que ele tinha potencial para atingir outro patamar. Deu certo: seus livros passaram a frequentar as listas brasileiras de mais vendidos também.

Outro indicativo impressionante do seu sucesso é o número de livros adaptados para o cinema e a TV. Não é de hoje que os personagens e as tramas de King hipnotizam produtores, diretores e atores, com suas histórias deixando marcas no universo audiovisual já nas décadas de 1980 e 1990. O gênio Stanley Kubrick levou O Iluminado para as telas há quarenta anos, em 1980, e, 14 anos depois, Frank Darabont estreou sua adaptação de Um Sonho de Liberdade, um filme pouco falado no Brasil, mas considerado um dos melhores de todos os tempos pelo público nos Estados Unidos e na Inglaterra (segundo a revista Vanity Fair, trata-se de um dos melhores expoentes do cinema guy cry). Também é pouco conhecida no Brasil a informação de que King detestou com todas as forças a adaptação de Kubrick para o seu livro excepcional de 1977. Segundo ele, o diretor não mostrou a evolução da loucura do protagonista Jack Torrance e transformou a esposa dele, Wendy, numa personagem caricata, uma “máquina de gritar”. King cancelando Kubrick? Temos.

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Arthur Albuquerque/Ilustração

Nos últimos tempos, no entanto, o número de adaptações aumentou de modo sensível. No cinema, tivemos recentemente as duas partes de It – A Coisa (2017 e 2019), que quebraram diversos recordes de bilheteria e fizeram os estúdios surtarem atrás de mais conteúdo com a marca King, como Doutor Sono (2019), com Ewan McGregor, e o remake de Cemitério Maldito (2019). Já pela TV passaram as séries The Outsider (HBO, 2020), Castle Rock (Hulu, 2018), baseada em personagens de King e não em um livro específico, Mr. Mercedes (AT&T´s Audience Network, 2017) e o filme Jogo Perigoso, um (ótimo) longa original Netflix. Outras dezenas de produções estão em fases diferentes de desenvolvimento.

O êxito de King pode ser medido ainda pela influência crescente de sua obra no universo pop. O exemplo maior disso é o fenômeno planetário Stranger Things, série da Netflix com várias temporadas, que bebe descaradamente dos seus livros. Colocar personagens crianças inocentes, em fase de descobertas, para enfrentar o sobrenatural é uma das marcas registradas do autor. O Iluminado (mais o livro que ao filme), It, Doutor Sono… São inúmeros os livros dele que trazem essa configuração. E as semelhanças não param por aí: as referências pop oitentistas da série também estão nos livros, com descrições de roupas, músicas, programas de TV.

“Ver Stranger Things é ver um Greatest Hits de Stephen King. E eu digo isso como um elogio”, tuitou o próprio King. Um dos últimos livros de King, O Instituto (2019), traz meninos e meninas com poderes telepáticos sendo mantidos prisioneiros por uma organização secreta e faz o leitor ouvir a voz de King dizendo: “Vocês curtem crianças heroínas lutando com o mal? Deixa comigo que eu sei fazer isso antes de ser modinha”.

Stephen King completa 73 anos em setembro, mas a idade não vem o impedindo de lançar no mínimo um livro por ano. E não estamos falando de obras de fôlego curto: a edição brasileira de O Instituto, por exemplo, tem 543 páginas. Outsider, de 2018, que a HBO transformou em série, traz 523 páginas. Fora os livros em que ele divide a autoria com seu filho Owen, como Belas Adormecidas, de 2017, e com outros escritores, como Richard Chizmar, co-autor de A Pequena Caixa de Gwendy, do mesmo ano.

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Arthur Albuquerque/Ilustração

Vida de best seller

Outros autores comerciais americanos, como James Patterson (que King detesta), também lançam livros a toda hora (muitos deles com a ajuda de times de ghost writers), mas a qualidade é altamente irregular. Já King tem conseguido combinar uma produção quase frenética com histórias envolventes, personagens cativantes e o texto delicioso de sempre. Tem algo de sobrenatural no meio, os fãs mais empolgados podem dizer. Os críticos não chegam a tanto, mas os elogios não são poucos. “Através da sua longa carreira, King se comprometeu com a noção pétrea de que histórias importam, que elas ajudam a entender a nós mesmos e o mundo que habitamos. ‘O Instituto’, cheio de ódio, tristeza, empatia e, sim, esperança, reitera esse compromisso com uma força que não diminuiu”, cravou o The Washington Post.

Outsider também impressiona pela maneira com a qual o mestre do terror navega suave e assustadoramente entre os gêneros policial e terror, esbarrando na tragédia grega. Ainda que em princípio o sobrenatural seja a força motriz por trás da maioria de suas tramas, os livros de King na verdade são sobre a nossa jornada contra o pior de nós mesmos: a violência, a ganância, o preconceito, todos os impulsos anti civilizatórios que vêm ganhando força, sobretudo nos palácios do poder, nos últimos tempos. Pennywise, o palhaço infernal e assassino de It, sua obra-prima máxima, é a personificação de todos os assassinatos e estupros cometidos por homens comuns em décadas na cidadezinha que ele aterroriza. O assombrado Hotel Overlook, de “O Iluminado”, é alimentado pelos vícios e crimes dos seus donos e frequentadores.

Não é de se espantar, portanto, que Stephen King não se furte a condenar e criticar publicamente quem colabora, direta ou indiretamente, com essa cruzada contra a civilização. Mesmo quando o alvo de suas críticas é o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ou uma empresa de tecnologia bilionária como o Facebook. Nessas horas, King não recorre aos seus livros e sim ao Twitter, onde quase seis milhões de pessoas o seguem. “Donald Trump: o homem é um idiota. É quem temos no comando durante essa crise: um idiota”, tuitou ele quando o presidente americano ainda negava a ameaça que o Coronavírus representava para os EUA. Bem antes disso, Trump já havia bloqueado King no Twitter. Em fevereiro deste ano, King anunciou que estava abandonando o Facebook, afirmando que não estava confortável com “a maré de falsa informação permitida nos seus anúncios de políticos”. Mestre do terror. E do bom senso.

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Arthur Albuquerque/Ilustração

Os melhores e os mais toscos

Stephen King publicou seu primeiro livro, Carrie, a Estranha, em 1974, e dois anos depois viu sua obra ser levada ao cinema por um dos maiores cineastas da época, Brian de Palma. O conto da garota inocente e telecinética foi um sucesso, com Sissy Spacek, John Travolta e Piper Laurie no elenco, elevando o autor instantaneamente ao patamar de “mestre do terror”. Desde então, mais de 70 filmes e seriados foram feitos com as obras de King, além de adaptações fidedignas de épicos como A Torre Negra e A Dança da Morte para as histórias em quadrinhos. Selecionamos algumas adaptações imperdíveis, por sua qualidade impecável ou por serem ruins demais. Não deixe de conhecê-las:

Carrie, a Estranha (1976)
Filha de uma família extremamente conservadora, a jovem Carrie White chega à época do seu baile colegial, o tradicional “prom”, com um dilema. É rejeitada por todos seus colegas em uma sociedade que está se abrindo após os horrores da Guerra do Vietnã e dos anos de ouro da psicodelia, mas ainda assim quer ser amada por alguém. A adaptação feita por Brian DePalma é fiel ao livro, catártica, sangrenta, e uma ótima metáfora sobre como traumas podem se tornar arroubos violentos na vida adulta.

A Hora da Zona Morta (1983)
Mais político do que voltado para o gênero do terror, A Hora da Zona Morta conta a história de Johnny Smith, um professor que sofre um acidente quase fatal. Após acordar do coma, Smith percebe ter um poder único: ao tocar em outras pessoas, pode prever seus futuros. Sem querer, ele conhece Greg Stillson, um político que almeja a presidência dos Estados Unidos. Mas, o que pode vir com sua vitória é o apocalipse. Que atitudes Johnny tomará para impedir o fim do mundo? A direção do filme é de outro mestre do horror, David Cronemberg, e o filme tem no elenco astros como Christopher Walker e Martin Sheen. Está disponível na plataforma de streaming Amazon Prime.

Christine, o Carro Assassino (1983)
Um clássico nas tardes do SBT nos anos 1990, quando a televisão ainda não tinha muito critério de dividir sua grade de programação por faixas etárias, Christine, o Carro Assassino é um dos muitos contos de King que coloca objetos inanimados como monstros; nesse caso, um belíssimo Plymouth Fury 1958 vermelho. O veículo é encontrado em um estado de ferro velho pelo jovem nerd Arnie Cunningham, que desenvolve um espírito obsessivo por sua restauração. Com a vida de Arnie melhorando, Christine (o carro) passa a apresentar um ciúme doentio de seu dono, a ponto de cometer crimes macabros para não ser rejeitada. O filme tem direção de John Carpenter, a mesma mente doentia por trás de Halloween, O Enigma do Outro Mundo, e Eles Vivem, todos clássicos que merecem ser revistos.

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Conta Comigo (1986)
Colocar crianças diante de horrores sobrenaturais tornou-se a marca registrada por King com It – A Coisa, mas nenhuma de suas outras histórias com a mesma temática alcançou tanto sucesso de crítica quando Conta Comigo. Descolado da temática do terror, esse filme conta a história de quatro garotos que encontram um cadáver na cidadezinha de Castle Rock, no Oregon, durante o feriado do Dia do Trabalho, em 1959. Fala sobre boas lembranças e amizades que se perdem com tempo. Poético, marcou a carreira do jovem River Phoenix, que morreu de overdose em Hollywood anos depois. Sua história original, O Corpo, está em uma das melhores coletâneas de contos de King, o livro Quatro Estações, de onde também foram tirados A Espera de um Milagre e O Aprendiz, que também se tornaram grandes filmes.

Louca Obsessão (1990)
A atuação frenética da atriz Kathy Bates em Louca Obsessão resultou a ela um Oscar, e colocou o filme como a única adaptação de King a levar uma estatueta da premiação até hoje. Fã do escritor Paul Sheldon, a solitária Anne Wilkes vê sua vida mudar quando seu ídolo sofre um acidente de carro diante de sua porta. Ela passa a cuidar de Sheldon, mas os cuidados começam a se tornar um terrível jogo de poder.

O Passageiro do Futuro (1992)
Se nos anos 1980 a grande maioria das adaptações de King são boas, a década seguinte não foi tão bondosa assim com o autor norte-americano. Um dos exemplos que ainda se salvam é a ficção científica O Passageiro do Futuro, a história de um cientista que desenvolve um ambiente macabro de realidade virtual. Tem no elenco Pierce Brosnan alguns anos antes de ele se tornar James Bond. Além de bom filme, se tornou um ótimo jogo de plataforma para o videogame SuperNes (talvez até melhor que a película em si).

Mangler, O Grito do Terror (1995)
Depois que Christine deu certo por colocar um carro assassino no papel principal, que ideia seria melhor do que uma máquina de passar roupa industrial assassina? Uma das maiores manchas na carreira do diretor Tobe Hooper, de O Massacre da Serra Elétrica e Poltergeist, Mangler é o filme Z perfeito. É gore, tem roteiro pífio, e uma ideia absurda demais para ser verdade. Nem Robert Englund, o eterno Freddy Krueger, salva o filme.

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A Maldição (1996)
Filme de baixo orçamento que adapta uma das histórias mais viscerais de King, A Maldição do Cigano. Nela, um advogado obeso e de condutas duvidáveis atropela a filha de um cigano, e foge sem prestar socorro. Pouco depois, o patriarca do clã faz uma visita, amaldiçoando-o a emagrecer até morrer. Não foi bem transposto para o cinema, mas é um belo livro.

Janela Secreta (2004)
Johnny Depp está no auge da sua carreira quando fez Janela Secreta, um dos primeiros filmes a colocar em xeque sua verdadeira capacidade como ator. Quase uma profecia do que a vida de Depp viria a se tornar, o filme conta a história de Mort Rainey, um autor de livros de mistério que começa a sofrer bloqueio criativo, ao mesmo tempo que começa a sofrer uma perseguição, em uma trama que envolve sua ex-mulher. Atenção para a trilha sonora composta por Philip Glass.

Desespero (2006)
Um filme protagonizado por Ron Perlman raramente dá errado. Desespero, deu. Baseado no livro aterrorizante de mesmo nome, o filme conta a história do casal Peter e Mary Jackson, presos por um estranho xerife à beira de uma estrada por posse de maconha. Levados para a delegacia de uma cidade-fantasma, eles entram em uma trama sobrenatural, descobrindo que o policial na verdade foi possuído por um espírito maligno que se chama Tak.

O Nevoeiro (2007)
Depois de levar Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre para os cinemas, o diretor Frank Darabont completa sua tríade de ótimos filmes baseados em histórias de King com O Nevoeiro. Filme de monstro como poucos, conta a história de uma família presa em uma loja de conveniência enquanto uma estranha névoa assassina toma conta do mundo exterior.

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