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Sem tédio

O mercado de sex toys viu seus números dispararem por causa da pandemia de coronavírus, que obrigou grande parte da população a praticar o isolamento social

por Giuliana Mesquita Atualizado em 28 jul 2020, 17h28 - Publicado em 17 jul 2020 13h30
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Clube Lambada/Ilustração

ostar de exibicionismo foi uma das descobertas de Vinicius V* nesta quarentena. “Eu já havia feito webcam antes. Durante as orgias que participei, adorava particularmente a parte da performance”, conta ele, que se aventurou no mundo do voyeurismo online com mais profissionalidade durante o isolamento social. “Os brinquedos permitem mais possibilidades durante as performances na webcam. Existe um limite de onde você pode ir com seu próprio corpo, usando suas próprias mãos, por isso é legal ter uma variedade grande de sex toys”, explica o designer ao comentar que as gorjetas aumentam de acordo com a variedade oferecida durante o vídeo. 

Seja para quem gosta de se exibir na hora do sexo ou para quem simplesmente quer dar uma variada nos momento de prazer, uma coisa é certa: a quarentena e o isolamento social foram responsáveis por um crescimento considerável nas vendas e no lucro dos sex shops no Brasil. Mais que isso, o período em casa aumenta as possibilidades de exploração do próprio corpo e da própria sexualidade. Antes da pandemia do coronavírus, com sexo casual disponível à distância de um clique, muitos não tinham tempo, vontade ou oportunidade de se dedicar a experimentações pessoais. Durante o isolamento social, marcas do segmento apontaram um aumento de 50%, de 100% e, em alguns casos, de mais de 400% de vendas. A masturbação e o autodescobrimento viraram pauta, já que estar sozinho é estar seguro. Vale ressaltar também que o aumento das lojas online dedicadas ao prazer das mulheres e do público LGBTQI+ foi dos que mais cresceu nos últimos anos, fazendo com que, hoje, seja mais fácil encontrar informações de entendimento sobre esses corpos, com didática simples, na internet. 

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Sophia Andreazza/Ilustração

Foi assim que surgiram uma série de perfis que misturam conteúdo sobre sexo com venda de produtos. É o caso do Panty Nova, sex shop online criado por Izabela Starling e Heloisa Etelvina há oito anos, quando o mercado tratava ainda mais o prazer feminino como tabu. “Nós não conseguíamos achar nada que nos representasse. Começamos a ter uma ideia de uma marca de strap ons [as famosas cintaralhas], produzimos os dildos e fomos percebendo que havia uma lacuna muito grande no mercado”, contam. Segundo as sócias, o grande diferencial da Panty Nova é a curadoria de todos os produtos, que são testados para ver se cumprem o prometido, além do material criado para eles pensando, especialmente, no corpo feminino. Por muito tempo, existiu um tabu em torno da mulher que entrava, destemida, em um sex shop de rua – mesmo elas sendo mais de 80% das consumidoras do mercado, segundo a Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual). 

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Sophia Andreazza/Ilustração

Elas são o foco

A exploração do corpo feminino é imprescindível quando falamos de orgasmo. Diferente dos homens, o ápice da mulher é mais difícil de atingir, requerendo afinco e autoconhecimento. “Sempre fui curiosa com brinquedos sexuais e tenho vários. Durante a quarentena, aproveitei para me explorar mais com a ajuda deles, entender os tipos de orgasmos, onde mais eu posso receber estímulos e como prolongar sensações”, conta a criadora de conteúdo e diretora criativa Djully Badu, que mantém uma conversa franca com suas seguidoras sobre sexo e masturbação, mostrando – a algumas, pela primeira vez – seus sex toys favoritos. “Venho compartilhando isso com as Julietes [nome carinhoso que deu às suas seguidoras] para desmistificar o uso”, explica. 

Foi pensando na maioria esmagadora de público feminino que a maior parte dos sex shops online nasceu. Hoje, existe, também na internet, uma conversa aberta sobre a necessidade latente de ressignificar a sexualidade da mulher, tirar o status de tabu e incentivar essa exploração. “Agora que as mulheres estão produzindo os produtos e criando seus próprios sex shops, há mais identificação. Antes, elas se perguntavam se aquilo representava sua sexualidade. Nós tratamos o assunto de maneira leve, divertida, tirando o peso do marginal que o produto erótico geralmente carrega”, completam as sócias da Panty Nova.

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Sophia Andreazza/Ilustração

O The L Vibe nasceu de uma história parecida. Foi uma conversa entre duas namoradas, sobre os problemas ao comprar um sex toy e a falta de identificação com o conteúdo do mercado, que motivou Marcia Soares a criar o sex shop, focado em mulheres que transam com outras mulheres. O The L Vibe ainda guarda um espírito intimista, já que Soares responde as dúvidas e questionamentos de suas clientes de forma personalizada. O mesmo acontece com o Baco Eróticos, um dos poucos sex shops especializados no público gay que encontramos na internet. Criado por Nelson Pinheiro e Iago Cepp, casal que mora em Itaitinga, próximo de Fortaleza, o Baco nasceu dentro de aplicativos de relacionamento gay e hoje já cresceu para o Instagram e para o Twitter (onde o conteúdo +18 é liberado). “Temos um canal de comunicação com Whatsapp, chats do Instagram e Twitter, além do site da loja, onde é apresentado o catálogo e também onde disponibilizamos contos eróticos fictícios sobre o deus Baco”, contam. 

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“Consigo contar nos dedos quantas clientes mulheres já atendi. Agora na quarentena, tive muitas vendas, consegui trabalhar bastante”

Henrique Santiago, dono do Sann Sex

O Sann Sex, sex shop de apenas um ano de idade, é outro que vem ganhando força por conta de seu público alvo. Apesar de ser um mercado dominado por mulheres, o dono da empresa, Henrique Santiago, também atende majoritariamente homens gays. “Consigo contar nos dedos quantas clientes mulheres já atendi. Agora na quarentena, tive muitas vendas, consegui trabalhar bastante”, conta. Seu sistema de entrega também é um grande diferencial: a maioria das entregas são feitas pessoalmente, em São Paulo, com todas as medidas de segurança possíveis pelos entregadores de confiança de Henrique. “Ainda existe muito tabu. Homens gays e héteros ainda têm vergonha de receber um pacote de sex shop em casa”.

As embalagens são um assunto peculiar quando falamos dos sex shops online. Todos os entrevistados pela reportagem confirmaram que o normal no mercado são as embalagens pardas, com remetentes disfarçados e nomes discretos. “Nesse caso, não é uma questão de ser tabu. É algo que cabe ao privado. Você não quer que seu porteiro saiba que você comprou um harness ou um strap on”, comenta Izabela, da Panty Nova.

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Sophia Andreazza/Ilustração

Precisamos falar sobre sex toys

Ainda que muito do que acontece no quarto geralmente fique entre quatro paredes, Laura Magri defende que esses objetos ocupem outras partes da casa. “Outro dia, um cliente comprou um dos dildos e falou que ia pendurar na sala. O meu objetivo é que meus produtos possam circular. Um objeto desses na sala gera uma conversa que desbloqueia essa nóia, essa vergonha, esse medo de falar sobre sexo. Isso quebra uma barreira”, explica a dona da Nuasis, um sex shop diferente de tudo que já vimos aqui no Brasil.

A loja nasceu em 2017, mas a ideia vinha evoluindo na cabeça de Magri desde 2015. “A ideia era trazer marcas de fora, não criar nosso próprio produto, mas era muito caro na época. Fui pesquisar o mercado brasileiro e era muito difícil pra mim. Havia uma grande dificuldade estética com os produtos disponíveis, toda a imagem aliada àquele produto era muito tosca”, lembra. Foi assim que Laura começou a desenvolver dildos de mármore, pedras e vidro, todos com qualidade certificada e fabricados aqui no Brasil. “As pedras mais lindas do mundo estão aqui”.

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Sophia Andreazza/Ilustração

Também para desafiar o cenário estigmatizado dos sex shops no Brasil, Valéria Albuquerque decidiu tomar as rédeas da situação e criar um espaço acolhedor para mulheres – não esqueçam: a maioria esmagadora do mercado erótico. Criou o conceito de sex shop boutique com a Love Toys, espaço que fica em um dos endereços mais requisitados da capital paulistana: a esquina da Rua Augusta com a Oscar Freire. “Eu tinha outra loja em Moema, mas tive que fechá-la por falta de tempo”, comenta. Valéria reitera que, por conta de suas clientes mulheres, que variam de idade entre 25 e 80 anos, procura produtos focados neste universo. “A gente entende que sexo, além da pegada do prazer, também tem um lado de saúde, da mulher que conhece seu corpo a fim de explorá-lo melhor”.

“Nos últimos meses, os produtos que vendemos mais foram masturbadores (para homens), vibradores e os produtos de estimulação clitoriana e sucção”

Valéria Albuquerque, dona da Love Toys

A loja no coração do Jardins era o epicentro de seu negócio. Com a quarentena, o site ganhou força e dobrou seu faturamento. “Nos últimos meses, os produtos que vendemos mais foram masturbadores (para homens), vibradores e os produtos de estimulação clitoriana e sucção”, conta Valéria. Sua entrega é expressa para a cidade de São Paulo, podendo chegar em até quatro horas. “Tivemos a ideia de colocar motoboys para entregar os produtos, mas com todos os protocolos aprimorados. Tem muitos colaboradores que não querem usar máscaras, não usam álcool em gel e não se protegem. Por isso, foi difícil criar uma equipe coesa”, explica. Proteção – tanto no sexo quanto na crise de coronavírus – deve vir sempre em primeiro lugar.

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