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Águas calmas não mudam o mar

Nova cara do pop, a cantora Samantha Machado faz sua estreia com disco que reflete a vida mundana em busca de algo maior

por Artur Tavares Atualizado em 11 jun 2020, 17h53 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Estúdio Lambada/Ilustração

lgo de envolvente toma quem ouve a voz de Samantha Machado pela primeira vez. A harmonia com que ela constrói seu fluxo de ideias combina bem com as batidas fáceis, um convite para dar atenção às suas composições poéticas, cheias de reflexões sobre as desventuras da condição humana. Estreante no cenário musical com o recém-lançado disco MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE – uma estilização de Multifacetada em Lapidação Constante –, a cantora surge como um barulhinho bom em dias um tanto sombrios.

Paulistana de corpo e alma que nasceu e cresceu no Butantã, Samantha é uma menina-prodígio. Produto âmbar desse começo do século 21, ela soa pronta com apenas 26 anos. Se o pop de hoje se divide em músicas para cornos, hiperssexualização, ostentação e um culto ao ego, a cantora destoa completamente. Prefere cantar sobre naves espaciais imaginárias e seres místicos que trazem a iluminação, enquanto nós, aqui na Terra, buscamos uma saída para nossos erros e acertos, questões mundanas que hão de passar.

Deve ser porque sua história não tem glamour, nada de romantização. “Canto desde que comecei a balbuciar as primeiras palavras. Mais tarde, sempre fui a responsável pela trilha sonora das festas de aniversário da minha família”, ela inicia. “Gostava de compor uma música para cada ocasião, mas, quando cheguei na adolescência, tive dificuldade em me perceber como cantora e compositora, porque a música simplesmente sempre esteve muito presente na minha vida.”

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Enfrentou a separação dos pais aos 13 anos e se viu jogada no mundo. De repente, a garota de apartamento que pensava ter tudo descobriu um pouco mais da vida: “Eles acabaram focando em si próprios e esquecendo de mim. Fiquei muito livre. Tudo aquilo que eu tinha vivido trancada, cheia de regras, acabou. Ninguém mais ligava para isso. Abri a porteira. Saí conhecendo coisas boas e coisas ruins”, ela lembra.

Com a ajuda indireta do pai, Samantha encontrou refúgio no rap, um gênero que ela ainda carrega na métrica da composição até hoje, e um tanto na estética do hip-hop. Comprador inveterado de CDs piratas, um dia ele chegou em casa com três escolhas curiosas: o Acústico Kid Abelha, um álbum da banda de forró Rastapé, e um disco do 509-E, grupo de rap formado por Dexter e Afro-X quando ambos eram detentos no Carandiru. “Às vezes, meu pai comprava os CDs sem saber o que era. Mas, posso te dizer que foram os três álbuns que moldaram meu caráter musical, minha composição e minha métrica. Escutei muito cada um deles.”

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Fernando Molina/Ilustração

Trilha Sonora

A adolescência, aquele período em que tentamos encontrar nossa identidade própria, nossa voz no mundo, nunca é fácil. Samantha ficou fascinada com aquilo que aprendia com os exemplos vindos de um universo que nunca seria o dela: “O disco do 509-E tinha muitas gírias, coisas de cadeia mesmo. Eu não entendia nada, mas achava lindo. Queria aprender, anotava tudo em uns rascunhos, e quando chegava na escola saía falando: ‘aí, o barato é louco’”, ela conta, entre risos. “Nem sabia o que estava falando, mas queria usar aquilo. Meus amigos não entendiam nada. Foi aí que surgiu um apreço à rua, ao lifestyle do street, à aventura, ao viver intensamente.” Se na rua o barato era louco, em casa Samantha continuava transitando bem por tudo aquilo que chegava aos seus ouvidos: “Já fui emo, hippie, pagodeira. Já fui hiper fã da Elis Regina, a ponto de cortar os cabelos curtos, iguais aos dela. Eu parecia uma velha de 14 anos. Já tive tudo que foi fase.”

A música não saiu da sua vida, mesmo quando ela precisou se virar. “Passei a escrever minhas letras nos lugares mais improváveis, nos bloquinhos de papel que eu deveria anotar os recados quando fui recepcionista, no verso dos contratos dos lugares que trabalhei.” Quando chegou à maioridade, Samantha começou a explorar a noite paulistana, cavar um espaço para mostrar seu talento. Com o skate nos pés e o violão nas costas, começou a bater de bar em bar no bairro boêmio da Vila Madalena procurando palco para cantar. “Fui trilhar meu caminho de um jeito bem despojado. Saia com essa minha amiga de skate, íamos muito ao Black Bombom. Normalmente, antes de começar a balada, ficávamos pelos bares ali. Às vezes, o cara não tinha música ao vivo todos os dias, mas tinha um microfone disponível na hora. Eu ia na cara de pau e fazia um som. Tinha vezes que nem rolava cachê. Era tudo muito informal, acontecia em dias que eu me sentia com coragem, a fim de tocar. Não era nada combinado.”


“Passei a escrever minhas letras nos lugares mais improváveis, nos bloquinhos de papel que eu deveria anotar os recados quando fui recepcionista, no verso dos contratos dos lugares que trabalhei”

Em uma dessas noites, Samantha acabou conhecendo Mydras Schimdt, compositor dos sambas-enredo da Pérola Negra. Foi apadrinhada pelo sambista, que repetia sempre que a garota deveria dar mais valor à música, levar seu talento mais a sério. Em abril de 2015, veio a tragédia. Ele e mais sete pessoas foram mortos em uma chacina policial na sede Pavilhão Nove, uma das torcidas organizadas do Corinthians, tudo por causa de uma desavença entre um dos assassinos e o ex-presidente da Pavilhão. Mydras foi um dano colateral, uma vida desperdiçada em uma briga que não era sua, enquanto comia churrasco em um aparente momento de celebração. “Isso me deixou com a missão de cumprir aquilo que ele sempre me incentivou a fazer”, conta Samantha.

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Fernando Molina/Ilustração

Entre os hits fáceis tão comuns a bares, a cantora começou a mostrar suas primeiras composições ao público. “Toquei muito ‘Nunca Vai Mudar’, e para ela dar certo, porque música que ninguém conhece não rola em bar, eu colocava no meio de dois hits conhecidos. A galera ficava animada, mexia a boca como se soubesse a letra. Eu achava engraçado”, ela conta. “Essa caminhada me moldou bastante, me ensinou a lidar com inúmeras situações. Desde aquela hora em que ninguém aplaude e você se sente mais planta do que artista até entregar um show de todo coração. Aprendi muito sobre palco, sobre público, tocando na Vila Madalena.”

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Fernando Molina/Ilustração

Mergulhando em Samantha

No ano seguinte à morte do seu padrinho, Samantha, aos 22 anos, deu à luz sua filha Isis – uma das poucas alegrias do relacionamento abusivo que a cantora teve com o pai da garota, um rapper consagrado da cena, hoje seu ex-companheiro – caso que ela preferiu não comentar durante nossa entrevista. No período em que estiveram juntos, Samantha absorveu dele lições sobre condução de carreira e também de produção musical.

Entre os programas de computador, ela conheceu a música eletrônica, um nicho pouco explorado por cantoras brasileiras: “Juntei minhas ideias espaciais, coloridas, misturando o consciente e o inconsciente, e joguei em um gênero que senti muito carente de letras em português e bons vocalistas. Parece que me caiu como uma luva”, ela conta. Não demorou para ela ser notada por nomes mais inclinados para o pop no gênero, como a produtora Groove Delight e o irreverente Mandragora. Assim, nasceu seu primeiro sucesso, “Portal do Universo”, com bases do Chapeleiro, um produtor de trance.

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Fernando Molina/Ilustração

Mas Samantha não queria ficar restrita ao universo das festas, nem ser a voz em cima de um beat assinado por outro alguém. Preferiu trilhar seu caminho em algo que tivesse mais sua cara, que lhe oferecesse mais liberdade do que um número determinado de BPMs. “Fui amadurecendo e conquistando público. Minha maior fanbase ainda é da galera do eletrônico, mas me sinto muito grata de saber que eles abraçaram esse universo multifacetado da Samantha Machado”, diz. “Porque não quero levantar a bandeira de gênero nenhum, e, sim, da música. Ser fiel a ela e aproveitar todas as possibilidades que ela tem a me oferecer para levar minhas mensagens ao máximo possível de pessoas.”

Produto da nossa era virtual, Samantha tornou-se incansável nas redes sociais, até que um dia recebeu uma mensagem inusitada em sua conta no Instagram. Os executivos da Warner Music descobriram seu trabalho e a chamaram para conversar. Foi preciso apenas uma reunião com o presidente Sergio Affonso para sair com um contrato assinado e todo o suporte que precisava para gravar um disco só seu – MVLTIFVCETVDV EM LVPIDVCVO CONSTVNTE é o resultado desse encontro fortuito.

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“Não quero levantar a bandeira de gênero nenhum, e, sim, da música. Ser fiel a ela e aproveitar todas as possibilidades que ela tem a me oferecer para levar minhas mensagens ao máximo possível de pessoas”

São 14 músicas no álbum, canções profundas que refletem de maneiras subliminares as angústias de uma menina que se viu obrigada a tornar-se mulher em meio aos sonhos de mostrar sua arte para o mundo enquanto lutava para se manter sã na sua vida particular. Atenta ao seu redor, um dia ela ouviu sua filha Isis cantar algo que dizia “uma cigana bonita…” Lembrou-se de quando ela própria era uma criança que cantava enquanto aprendia as mesmas palavras, e tornou a frase no primeiro verso da música “Cigana”. Na canção que abre o disco, “Pirata”, ela fala de uma “sereia serenata” que acaba se envolvendo com o marujo errado, e em “Controle”, a última a entrar no álbum, ela manda o recado: “Essa vontade de sempre estar no controle só ilude você, só atrasou você, só distraiu você.”

“Acho que o disco veio a calhar também nesse período que o mundo está vivendo”, conta Samantha. “A música ‘Humanos’ conversa bastante com o momento atual. Fala sobre essa condição de sermos humanos, de estarmos tentando acertar. Esse momento trouxe muitas situações para abrir nossos olhos aos males do individualismo, de quanto precisamos do outro, da falta que nossos amigos fazem, do valor de um abraço e de um beijo.” Na busca pela própria iluminação, ela afirma que a percepção da sociedade já está mudando com tudo o que está acontecendo. “Sinto uma atmosfera de solidariedade começando a pairar, e mais vontade das pessoas de viver no agora, de fazer acontecer enquanto ainda é possível. Ficamos cientes da brevidade da vida, da nossa fragilidade. Mas não é uma situação resolutiva, não é algo que trará a paz mundial. Ainda temos um caminho bem longo para trilhar.”

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Fernando Molina/Ilustração

Completamente despreocupada com o futuro, Samantha diz não estar ansiosa para voltar para a rotina de shows agora que lançou seu álbum: “Como boa sagitariana, gosto de olhar as situações sempre pelo lado positivo. A quarentena foi favorável para mim no campo digital, todo mundo está online. Não teve ninguém que perdeu os avisos, as notificações e as músicas novas. A galera foi só ouvidos, estava afim de ouvir músicas novas, que caíram muito bem nesse momento em que precisamos sentar e ouvir uma ideia nova, pegar uma mensagem. Me favoreceu bastante.”

Por enquanto, a melhor chance de ver Samanta Machado realmente é no mundo virtual, e oportunidades não têm faltado para os fãs: “Criei um projeto muito legal para trazer meus amigos artistas sem muita visibilidade para a cena, pessoas que mereciam muito mais. Abri um espaço no meu perfil para entrevistá-los. Não tem roteiro, é algo com muita verdade. Estou me sentindo muito grata de poder proporcionar essa união, porque o que estou conquistando não é para mim, e sim para nós.”

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Sobre essa conexão que tem estabelecido com o público, ela conclui: “Fazer live tem sido bem gostoso. Já cantei meu disco acústico, e também em versões trap. Fizemos rave. Ficamos até 6 horas da manhã. Está sendo divertido, estou adorando. E me trouxe muitas ideias de ações digitais para trazer o público para perto. Minha capacidade criativa triplicou. Quando somos colocados nesse tipo de situação, precisamos fazer algo novo. Águas calmas não mudam o mar.”

Não mudam, Samantha, mas você merece um pouco de águas calmas depois de tantas tempestades.

Gostou? Então, se liga nessa playlist inspirada na reportagem:

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