envolvimento

A dança da transformação

Ao despertar a ira dos bolsonaristas através de seu trabalho, a artista visual, ativista trans e rapper Rosa Luz decepa a transfobia entranhada na sociedade

por Nathan Fernandes Atualizado em 1 jul 2020, 18h52 - Publicado em 30 jun 2020 09h47
-
Estúdio Lambada/Ilustração

história da deusa furiosa que salva o mundo ao decepar a cabeça de um demônio é uma das mais curiosas do hinduísmo. Em uma versão conhecida, Raktabija ganha de um deus o poder de se multiplicar através de seu sangue. Antes, um “homem de bem”, com o novo poder, o devoto inicia um ciclo de violência sem fim e se transforma em um demônio. Desesperadas e sem ter como detê-lo, as divindades apelam a Durga, a deusa guerreira. Ela então luta sem parar numa batalha que dura dias. Isso porque, a cada demônio que mata, dois outros se formam quando o sangue do primeiro toca o chão. No meio da guerra, Durga chora, e de suas lágrimas surge Kali, a deusa negra.

Goddess Kali, 1910
Goddess Kali, 1910 Ravi Varma/Reprodução

Com sua língua gigante e lâminas afiadas, Kali corta cabeças e lambe todo o sangue dos demônios, impedindo que se reproduzam. Ela atinge o êxtase e dança sobre seus corpos mortos, em um movimento que reproduz o próprio fluxo da natureza. Em uma de suas representações mais famosas, a deusa aparece raivosa, segurando a cabeça decepada de Raktabija e exibindo sua língua salvadora. É uma das representações mais poderosas da vitória do ser humano sobre o próprio ego.

No dia 10 de maio, fãs familiarizados com a mitologia hindu podem ter visto Kali na capa do single Bolada, lançado pela artista visual, ativista trans e rapper Rosa Luz. Na pintura digital (abaixo) feita por sua irmã Lyv, Rosa aparece segurando a cabeça decepada de um homem branco de meia idade, que logo foi associado à figura de Jair Bolsonaro. E os ataques começaram. Como demônios que se reproduzem em progressão geométrica, Rosa se viu cercada por ameaças assustadoras.

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Rosa (@ros4luz) em

Continua após a publicidade

“Recebi muitas mensagens e comecei a perder a dimensão de tudo”, lembra ela, que passou a ser chamada de terrorista e incitadora de ódio. “No começo, parecia ser um ataque pré-programado de robôs, mas depois apareceram pessoas reais.” Segundo a artista, a investida reproduziu o modo de ataque do chamado Gabinete do Ódio — uma estrutura organizada que funcionaria dentro do Palácio do Planalto para disseminar notícias falsas e ofensas contra opositores da presidência, ação que foi denunciada pela deputada federal Joice Hasselmann e é investigada pelo STF.

“Quantos artistas não criaram obras em um contexto político similar, mas não foram perseguidos? Se eu não fosse uma travesti criadora de conteúdo e verificada no Instagram, isso teria acontecido?”

Rosa Luz, ativista trans e rapper

Com ameaças inflamadas de hackeamento e de morte, Rosa foi orientada a deixar as redes. “Minha maior fonte de renda sempre foi a criação de conteúdo para internet, então como eu poderia trabalhar se eu estava impedida?”, se questiona. “Não tive muito apoio das instituições brasileiras, mesmo com ameaças explícitas. Então, consegui ajuda da Frontline Defenders, uma organização internacional que atua na defesa dos direitos humanos de ativistas ameaçados. Eles me deram proteção digital, física e consegui um apoio emergencial para garantir minha existência básica. Além disso, o pessoal da Casa Chama também tem me dado apoio jurídico.”

No fim de junho, Rosa retornou às redes com um vídeo explicando seu sumiço e denunciando a transfobia do caso. “Acredito no poder subjetivo da imagem. Em um momento político em que o presidente dissemina fake news e discurso de ódio, basta uma pequena alternância de poder para percebermos que o Brasil é um país que foi ensinado a odiar corpos trans negros e LGBTs que se posicionam”, diz ela na gravação. “Quantos artistas não criaram obras em um contexto político similar, mas não foram perseguidos? Se eu não fosse uma travesti criadora de conteúdo e verificada no Instagram, isso teria acontecido?”

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por Rosa (@ros4luz) em

Continua após a publicidade

O impacto dos ataques não foi só no bolso, mas também na mente. Trabalhando como artista desde 2013 e na internet desde 2016, Rosa conta que esta é a pior investida que já sofreu. “A estratégia desse tipo de ataque é justamente operar pela lógica do medo, entrando na nossa cabeça e abalando a nossa saúde mental”, diz. “Felizmente, minha terapeuta tem feito um trabalho incrível.”

Mulher trans eliminada ou O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo! Autorretrato, 2015
Mulher trans eliminada ou O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo! Autorretrato, 2015 Rosa Luz/Arquivo

A morte não chegou, é mais um dia de sorte

Como uma divindade de mil braços, Rosa equilibra seu ativismo em habilidades que variam entre artes visuais, fotografia, vídeo, performance, música e criação de conteúdo para internet. Aos 24 anos, a brasiliense recém-mudada para São Paulo já estudou história da arte na faculdade, mas decidiu trilhar um caminho artístico autônomo depois de passar por uma série de constrangimentos na academia — como o de professores dizendo que rezariam por ela, ou enfrentando resistência ao uso do nome social. Em 2019, foi selecionada para participar do International Visitor Leadership Program, programa de intercâmbio do Departamento de Estado dos EUA.

Rosa é uma exceção no país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O mesmo país que, ironicamente, também é o que mais busca por pornografia transexual, de acordo com dados do RedTube. Não por acaso, a artista costuma dizer que o sujeito que as assedia é o mesmo que as mata.

“Ser trans no Brasil é literalmente entender que a gente vai sair na rua sem saber se vai voltar”

Rosa luz, ativista trans e rapper
-
Rosa Luz – Instagram/Reprodução

A expectativa de vida de 35 anos também é um reflexo da violência que empurra essas pessoas para a margem. Ao desafiar a rasa lógica binária das famílias e das escolas, muitas pessoas trans e travestis são expulsas de casa e se afastam dos estudos. Sem qualificação, o único mercado que estende a mão é o da prostituição. De acordo com levantamento da Antra, essa é a principal fonte de renda de 90% da população trans no Brasil.

Continua após a publicidade

Pessoas como Rosa subvertem essa lógica genocida. Para a artista, as ameaças virtuais fazem parte de uma estratégia violenta de silenciamento, que visa manter pessoas como ela longe dos espaços de discussão, e, portanto, invisíveis aos olhos daqueles que dominam. “Ainda tenho medo, mas acho que esse medo existe desde sempre. Ser trans no Brasil é literalmente entender que a gente vai sair na rua sem saber se vai voltar. A longo prazo, estou sempre desprotegida, ao menos até que a gente mude esse cenário político.”

Para ela, um dos caminhos da mudança pode estar na subjetividade. “Acho que a arte tem esse poder de refletir a sociedade que a gente vive atualmente. Acredito também que a cultura pode definir os rumos de uma nação. Elas são ferramentas fundamentais nesse processo”, diz. Logo, se para a deusa Kali, a transformação do mundo se dá através de sua dança brutal, Rosa mostra que a arte no geral é quem tem a força e a fúria necessárias para vencer qualquer batalha.

Continua após a publicidade

mais de
envolvimento
fissura_11

Rotina fraturada

Por
Resultado de uma pesquisa de dois anos, o fotógrafo Gui Christ lança o livro “Fissura”, que retrata a vida das pessoas na Cracolândia
RITA_V_20

Uma sociologia mais colorida

Por
Fenômeno da internet, a drag queen Rita Von Hunty torna os estudos de ciências humanas mais gentis para uma grande audiência
Anielle Franco revela já ter pensado em concorrer a um cargo público para dar um cala a boca nos assassinos da irmã Marielle, mas desistiu por medo
Arte_Marielle

Elas são sementes

Por
Renata Souza, Dani Monteiro e Monica Francisco, deputadas estaduais no Rio e ex-assessoras de Marielle Franco, comentam a força política da vereadora