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Algumas queixas sobre “Várias queixas”

Nos acostumamos a pensar no amor como uma relação que permite violência, mas será que deve mesmo ser assim?

por Roger Cipó Atualizado em 9 set 2020, 18h00 - Publicado em 4 set 2020 02h02
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Clube Lambada/Ilustração

Os homens podem retornar para o amor apenas repudiando a vontade de dominar”. Essa é uma das frases mais simples e potentes que eu já li sobre pensar e propor melhores caminhos de amar. Está no livro All about love, da filósofa e escritora bell hooks*, que tem uma obra profunda e sensível sobre questões de gênero, relações sociopolíticas, educação e sociedade a partir das perspectivas raciais.

hooks despertou muitos de nós, homens negros e mulheres negras, para a urgência de se considerar os impactos do racismo e da escravização na nossa forma de amar e no desamor que a cultura de escravização provoca em nossas subjetividades. Ela também tem um dos diálogos mais importantes sobre masculinidades que eu já li, no livro We real cool.

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Uma hora, falo sobre o quanto essa obra me aponta caminhos de tensionar e articular pensamento sobre homens, sobretudo, os pretos como eu, a ação patriarcal, racismo e amor. Hoje, quero continuar a prosa que inicie em Amor só é bom se não doer, meu último texto por aqui.

Enquanto eu escrevia essas linhas, ouvia uma playlist criada por mim mesmo, para um projeto que promovo às sextas-feiras, durante a pandemia, o #Tindó – a live tinder do Cipó. Foi assim que a própria audiência batizou o programa em que promove encontros virtuais, debate sobre formas de amor, questões de gênero, saúde e tudo que tem a ver com amor. Inclusive as violências que nos atravessam. Lá, já saiu pedido de casamento, de namoro, pedido de perdão, muito flerte e muita gente garantindo contatinhos para o pós pandemia, que espero que chegue logo. Pois é, uma hora eu preciso escrever aqui sobre essa experiência, agora preciso voltar…

Como eu falava, enquanto eu ouvia a playlist, “tropecei” em “Várias Queixas”, uma música linda do Olodum, gravada por Gilsons. Eu realmente gosto dessa música e de seu clipe estrelado por Jennifer Dias, numa atmosfera linda do subúrbio soteropolitano, que só ao assistir, você passeia em direção a um ensaio do Olodum. Foi no começo da música que eu parei e disse: “Calma, fera! Vamos de novo”. Sempre deixo passar, mas hoje o raio problematizador me chamou.


“Pode fazer o que quiser e até me machucar. Transborda no meu coração só amor…”

É assim que começa. O que eu pensei? Isso mesmo, falei disso no texto anterior, chamando atenção para o verso de Baden Powell em “Canto de Ossanha”. Não quero repetir a discussão, mas quero pensar como a gente acha bonito e até encantador as narrativas sobre amor que são atravessadas de algumas violências.

Já pensou?

A gente não pode fazer o que quiser e até machucar alguém para transbordar amor. Dor é sempre dor e, nas interações sociais, dor pressupõe alguma violência, em alguma medida. E quando violência é bom?

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Tenho analisado com muito cuidado o que músicas, filmes e outras produções artísticas dizem e ensinam sobre amor. Essas narrativas fazem parte de um imaginário problemático sobre os valores do amor produzido pelo patriarcado. E se a estrutura patriarcal se estabelece para garantir controle social e poder aos homens cisgênero-brancos, esse amor não teria o mesmo sentido? Não seria essa, talvez, a causa de tantos conflitos e de violências amorosas?

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Pensemos sobre isso para que a gente avance, em direção a relações mais humanizadas, potencializadoras e que reconheçam potência nas pessoas que amamos. Até porque, penso que amar serve para isso: expandir e nunca reter.

E eu nem estou falando de um formato de amor livre, aberto, ou outras elaborações compostas por mais de duas pessoas. Eu falo da interação com qualquer pessoa, em qualquer formato, porque no final, pouco importa a forma se o conteúdo é problemático.

Concorda?

Essas são algumas das coisas que tenho pensado e provocado discussão sobre as possibilidades de amar melhor. Nós homens devemos refletir sobre como fomos mobilizados a propor ou viver uma forma de amor pautado em domínio e controle de corpos femininos, ou que performam feminilidade. Talvez, isso explique porque são amores que não perduram, não dialogam e não se expandem. Como pode transbordar amor em lugares em que a única forma ensinada de amar é reter?

Eu deixarei essas perguntas aqui e volto já, porque a ideia é trocar, mesmo. Você pode trocar com seus pares. Homens, conversem sobre amor, com seus amigos. Sério! Sugestão de coração.

E, antes de encerrar, quero relembrar o início dessa conversa e deixar mais dois trechos importantes de bell hooks, para pensar amor e relações mais justas:

“Quando um homem decide amar mais a masculinidade do que a justiça, há consequências previsíveis em todas as suas relações com mulheres…”, e ela continua: “Aprender a viver como um homem de consciência significa decidir que sua lealdade à pessoa que você ama é sempre mais importante do que a persistente lealdade que você, talvez, sinta ao julgamento dos outros homens sobre sua masculinidade”.

Faz sentido para você? Eu espero que sim e se puder, me conta em comentários aqui, ou me escreva em @rogercipo no Instagram.

A gente segue junto.

[bell hooks*: A própria escritora opta por assinar sempre em minúsculas, pois para ela, nada tem mais do que as ideias e conhecimento. Diz, também, que em seus livros, o importante é a substância e não o seu nome]

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