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Uma sociologia mais colorida

Fenômeno da internet, a drag queen Rita Von Hunty torna os estudos de ciências humanas mais gentis para uma grande audiência

por Artur Tavares Atualizado em 29 jul 2020, 11h50 - Publicado em 30 jun 2020 09h47
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Clube Lambada/Ilustração

avia algo de podre no reino da Dinamarca, notara Hamlet no início de sua jornada, um caminho tortuoso que acabaria por enlouquecê-lo completamente. A percepção da realidade sombria que se avizinha tem esse poder de mudar as pessoas, e foi em um desses lampejos que o ator e professor Guilherme Terreri jogou para o alto tudo o que vinha fazendo com sua personagem, a drag queen Rita Von Hunty, reinventando-a para lutar contra o obscurantismo que não demoraria a vir no Brasil.

Criada para ser uma sátira da hipocrisia travestida de bons costumes, Rita já tinha um canal bastante divertido no YouTube e o papel de apresentadora no programa Drag Me as a Queen, no canal de televisão E!, quando as podridões da sociedade brasileira davam os primeiros sinais de que sairiam do esgoto. Acadêmico de formação apaixonado pelas humanidades, Guilherme percebeu naquele momento que poderia contribuir na luta contra as forças retrógradas de forma diferente, e fez aquilo de menos óbvio para uma drag queen: começou a gravar vídeos que são leituras teóricas profundas por temas que passam pela sociologia, psicologia, antropologia e pelos estudos sociais e comportamentais em geral.

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André Giorgi/Fotografia

Poderia ter sido um tiro no pé para quem consolidava uma carreira de sucesso no entretenimento, mas deu muito certo. Rita foi alçada rapidamente ao posto de intelectual respeitada e nem precisou se desmontar para isso. Se a sociologia parece um lugar chato e extremamente formal, com ela o entendimento de figuras como Kant, Hegel, Marx e de Beauvoir se torna mais fácil e colorido.

Hoje, seu canal Tempero Drag já passa dos 550 mil inscritos, e esse número só aumenta a cada novo vídeo postado. A clareza de ideias de Rita e a importância de suas análises retiraram a personagem do mundo virtual e hoje ela roda o Brasil com seu Curso Revolucionário, uma série de seminários que abordam a contemporaneidade sob a ótica das ciências humanas. Elástica conversou com Guilherme/Rita sobre o estado atual do Brasil, a vida como drag e, claro, sobre a filosofia tão necessária para os tempos que vivemos.

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André Giorgi/Fotografia

Essa reportagem fica ainda mais gostosa de ler se você apertar play:

A Rita já existe há bastante tempo, desde sua época de universidade, e nesse período o Brasil mudou muito. Como você enxerga os últimos anos, e quais os principais temas de debate que temos que atacar hoje em dia para alcançar um lugar melhor?
Vejo é que agora temos o entendimento irrevogável de que uma das impossibilidades da sociologia brasileira é a conciliação de classes. Passamos por uma onda progressista encabeçada por dois mandatos do Lula, e um e outro interrompido da Dilma, em que as políticas implementadas tinham como alicerce e pressuposto uma aliança de classes. Nos encontrávamos em um momento da economia mundial em que existia um crescimento real, que acontecia no mundo todo impulsionado pela China, em que países exportadores de commodities, como o Brasil, foram puxados por esse crescimento. Essa era a época em que o bolo crescia, e naquele momento tínhamos a impressão de que era possível conciliar a burguesia, que haveria uma sorte de uma burguesia desenvolvimentista a despeito da sociologia internacional. Você pode pegar, por exemplo… ih, menina, agora tô tomando um remédio com álcool, e às vezes esqueço o nome das pessoas… o Jean-Paul Sartre tem um artigo em que fala sobre a burguesia brasileira, de quando ele esteve no país. Sartre se mostra um conhecedor da lógica de desenvolvimento nacional, talvez porque tivesse contato com intelectuais que entendessem do Brasil, talvez porque fosse um tema que o interessasse. Nesse texto, ele fala que não há burguesia desenvolvimentista versus burguesia entreguista no Brasil. O que há é uma única burguesia que muda de posição conforme seus interesses. O que vimos acontecer foi exatamente isso.

Tome por exemplo a Igreja Universal, o Edir Macedo e todo aquele povo lixão. A galera da Record foi aliada do governo PT, ocupando até cargos ministeriais. Era uma espécie de tentativa do PT de contrabalancear uma mídia hegemônica representada pela Globo. Essa burguesia dos meios de telecomunicação neopentecostais brasileiros tinha um interesse de se apropriar das políticas do PT, mas quando viu seus interesses contrariados, debandou. Do mesmo jeito que foram situação, logo se tornaram oposição, e agora aliados ferrenhos do bolsonarismo. Uma parcela dos 30% que ainda apoia o Bolsonaro é neopentecostal. Então, está escancarada a impossibilidade de conciliação da burguesia nacional e os setores progressistas, trabalhistas, e à luta de classes. Também vejo uma escancaração das dinâmicas de exploração brasileira. Nosso caráter violento, intolerante e retrógrado só era conhecido pelas minorias – os LGBTs, os pretos, os favelados – e agora começa a se escancarar para toda a sociedade. Começa a ficar latente inclusive para setores da classe média que pensam em democracia.

Quando foi que você percebeu que a figura de uma drag queen não precisava estar ligada unicamente ao entretenimento, e que também poderia estar no espaço acadêmico?
Acho que eu estava cansado de ficar acordado de madrugada fazendo shows, principalmente para pessoas que não estavam ali exatamente para ver as apresentações. Teve um dia em especial em que minha amiga Mari G, que hoje é minha assessora, percebeu esse meu desconforto e me perguntou o que eu gostaria de fazer como drag. Eu já estava apresentando um programa na televisão, mas sabia que adorava mesmo era dar aula. Veio dela essa ideia de fazer isso como drag. Então, pareceu tudo tão fácil, mas a verdade é que estava muito complexo na minha cabeça. A partir dessa provocação, criamos o curso com o qual hoje eu viajo o país, abordando as humanidades e os estudos de cultura, para falar de temas fundamentais da nossa sociedade.

“Para mim, a arte e a ciência não trilham caminhos distintos. São faces diferentes do mesmo processo civilizatório e evolutivo da humanidade”

Rita Von Hunty, professora e drag queen
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André Giorgi/Fotografia

A academia sempre veio antes do teatro no seu coração?
O teatro veio primeiro, porque comecei ainda na escola. Só que esse ambiente escolar evoluiu para o ambiente universitário, e nunca dissociei o teatro da academia. Para mim, a arte e a ciência não trilham caminhos distintos. São faces diferentes do mesmo processo civilizatório e evolutivo da humanidade.

Quem são os autores e estudiosos do teatro que estão colocados na personagem, e também nos seus próprios conceitos de vida?
São muitos. Primeiro o Augusto Boal, que é desenvolvedor do Teatro do Oprimido e um importante pensador brasileiro. Também me inspiram Jerzy Grotowski [autor de Em Busca do Teatro Pobre], Vsevolod Emilevitch Meyerhold [diretor do Teatro de Arte de Moscou], Plínio Marcos, e, sem nenhuma dúvida, Bertolt Brecht.

Justamente autores que não desassociam a arte da crítica política…
Sim, mas todo bom artista não consegue fazer isso. Eu poderia ter citado Molière, que fazia teatro no século 17, ou Gil Vicente, duzentos anos antes. São duas figuras que pensavam no teatro de maneira extremamente crítica e engajada. Não acredito em artista separado da sociedade, apenas celebridades, famosos.

Você acha que a arte tende a escancarar mais seus tons políticos nesse momento de efervescência social?
Acho que, em todo momento de crise, a arte ocupa esse papel de desbravamento e desnudamento das camadas mais etéreas da sociedade. Espero que haja maior exposição da arte produzida pelos movimentos LGBT e raciais, mas tudo depende da luta de classes. Primeiro porque o presidente fechou o Ministério da Cultura. Depois, o ex-secretário declaradamente nazista [Roberto Alvim] fez um pronunciamento copiando o ministro da propaganda alemão Joeseph Goebbels, falando que a arte brasileira seria patriota, da família e de Deus, ou então não seria nada. Não sei se as pessoas têm dimensão do que isso significa. Desde 2018, temos mais de 5 mil projetos paralisados na Ancine! Tivemos cortes específicos [contra LGBTs] em que o próprio Bolsonaro se pronunciou a favor. Aquela monstra, nojenta… que tenha o que merece, e não vou dizer uma morte dolorida para não parecer stalinista… a Regina Duarte piranhona deu uma entrevista para o Fantástico dizendo que se os LGBTs quisessem fazer os filmes deles, que fizessem captação privada. Mas o problema da LGBTfobia é um problema de segurança pública no Brasil. Somos o país que mais mata pessoas LGBT no mundo. Que história é essa que não vai ter política dedicada a nós? Façam captações públicas, mas por ignorância ou maldade, e eu duvido que seja ignorância… não podemos confundir o plano fascista com loucura. Ela deixa escondida a faceta de que a Lei de Incentivo é justamente para captação com empresas. É dinheiro de impostos que se torna produção cultural.

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André Giorgi/Fotografia

“Espero que haja maior exposição da arte produzida pelos movimentos LGBT e raciais, mas tudo depende da luta de classes”

Rita Von Hunty, professora e drag queen

O desmonte é crítico também no campo educacional, onde o governo recentemente passou uma medida provisória completamente ilegal dando poderes para o ex-ministro Weintraub nomear reitores das universidades federais…
A situação é crítica na democracia. O filho do presidente chegou a dizer que com um cabo e um soldado você fecha o STF. A situação é crítica não para as artes e para a educação, é para quem está vivo no Brasil.

E o pior de tudo é que essas falas passam como brincadeira, como se o cara fosse mais um engraçadão no Twitter.
Passa porque precisa passar. Porque quem financia está interessado que terminem todas as reformas. Porque temos um ‘desministro’ da economia pronto para privatizar o Banco do Brasil. Tem muita gente interessada que essas falas passem, porque o lucro dessas pessoas depende disso.

Mas não seria possível fazer todas essas reformas, da previdência, tributária, trabalhista, dentro da democracia?
Não. Me fala um país em que a democracia vigorava não apenas como uma democracia burguesa ou meramente representativa, e que vendeu tudo que tinha.

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André Giorgi/Fotografia

Então, você já considera que vivemos uma exceção à democracia.
Claro! Quantas mulheres pretas temos no Senado, e quantas temos na sociedade brasileira? [Eliziane Gama (Cidadania-MA) é a única parlamentar que se declara como parda no Senado] Que democracia é essa? O Bolsonaro não é uma exceção ao sistema, ele se advoga como tal, mas é o que o sistema precisava. Assim como o sistema precisou do Pinochet, do Trump, de um golpe contra o Evo Morales.

Por que chegamos nesse ponto?
Vivemos um momento de crise cíclica do capital. Nesses momentos, o capital precisa se reconfigurar para manter a taxa de lucro da burguesia. Essa taxa não pode ser mantida durante cenários de crise. Nesses momentos, há uma ofensiva burguesa sobre a classe trabalhadora. Aqui, na periferia do capitalismo, onde os lucros não são os mesmos que essa burguesia faz fora, a única forma de manter o lucro é cair matando em cima da classe trabalhadora.

“Todos os ditadores fascistas são vedetes. Eles vivem de construir uma imagem pública, e todos são antissistêmicos, falam palavrões, têm cabelos bagunçados, não sabem se vestir, usam caneta BIC, quando tudo não passa de uma estratégia”

Rita Von Hunty, professora e drag queen

E qual a relação com um cara ser eleito através de uma campanha de fake news tão simplória a ponto de falar sobre mamadeiras de piroca, e mesmo assim uma parcela da população comprar essas histórias?
Por falta de educação. Vou soar um pouco deselegante, mas é pelo mesmo motivo que o Caio Copolla é comentarista político. É uma falência do público que acompanha a produção intelectual. Adorno, Walter Benjamin e toda a galera da Escola de Frankfurt pensavam em como havíamos engrenado no fascismo, e um dos motivos é o fato de que as massas vão se infantilizando, ou se aparvalhando. Esse tipo de alienação de pessoas que não conseguem mais fazer uma análise crítica da conjuntura resulta no surgimento de dois tipos de pessoas, o ditador e a vedete. Parafraseando o próprio Walter Benjamin, não por um acaso todos os ditadores fascistas são vedetes. Eles vivem de construir uma imagem pública, e todos são antissistêmicos, falam palavrões, têm cabelos bagunçados, não sabem se vestir, usam caneta BIC, quando tudo não passa de uma estratégia.

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André Giorgi/Fotografia

“A situação é crítica na democracia. O filho do presidente chegou a dizer que com um cabo e um soldado você fecha o STF. A situação é crítica não para as artes e para a educação, é para quem está vivo no Brasil”

Rita Von Hunty, professora e drag queen

A mudança que precisamos na educação passa por toda essa produção independente de conteúdos teóricos no meio online, como você faz?
Sem sombra de dúvidas. Os educadores como nós, que tomaram para si a função de comunicar, estão abrindo as janelas da academia e atirando para fora do muro da torre de marfim. Trata-se de uma necessidade, porque tem uma galera acordando para esse fato. Tenho muitos amigos professores universitários e intelectuais que pegaram essa função, porque é onde o povo está. Se estamos preocupados em produzir conhecimento que mude o mundo, esse conhecimento precisa estar em contato com pessoas que mudam o mundo.

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É a pedagogia do oprimido…
Paulo Freire me inspira demais, é o cerne da minha formação. E o que ele diz é que são as pessoas que mudam o mundo, e não a educação. Não são exatamente reformas educacionais, mas sim mudanças na estrutura de educação. Mas nós ainda vivemos em uma das sociedades mais desiguais do mundo, e quem tem acessos a esse tipo de conteúdo é quem tem acesso à internet. E esse tipo de conexão boa, ilimitada, não é a realidade do povo brasileiro, e sim de parcelas pequenas. Espero que, no futuro, haja entendimento de que internet é um direito universal humano, assim como água, por exemplo. Acontece que, no Brasil, nada é direito, e sim algo que se deveria ter. O saneamento básico no Brasil não existe. A Dimitra Vulcana, outra drag maravilhosa, é doutora em saúde pública. Seu doutorado é exatamente sobre esse tipo de acesso. São números estarrecedores, entre eles o da parcela de brasileiros que têm um banheiro dentro de casa.

Quanto tempo você gasta diariamente fazendo suas leituras e preparando seus vídeos? Porque seu repertório é impressionante…
Estou pesquisando em todos os momentos em que fico acordado. Porque, de certa forma, consigo transformar tudo em pesquisa. Assisto uma série e já fico pensando em coisas para falar sobre ela, por exemplo. Mas, se você quer saber, eu sou neurótico compulsivo. É uma condição psiquiátrica que tenho. Eu me perco, fico avoado, volto, me concentro, passo um dia cansado, depois outros dois pesquisando. Acho que é por isso que não vou para a academia brasileira. Não me vejo como professor universitário porque tenho menos disciplina do que gostaria de ter, e do que é necessário.

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André Giorgi/Fotografia

Quem são os pensadores urgentes para nossa sociedade hoje? Quem está observando esses anos 2020 e escrevendo sobre eles?
Muita gente, entre pessoas já das antigas e dessa nova geração. Com certeza, Vladimir Safatle, Judith Butler, Paul Preciado, Sabrina Fernandes, Jones Manoel, Mauro Iasi, Mike Davis, David Harvey, Slavoj Žižek. Tem muita gente tentando lançar olhares para o que está acontecendo agora, e outros que estão escrevendo coisas que só vamos entender daqui 10, 15 anos. É assim com o brasileiro Alysson Mascaro, que é professor da Faculdade de Direito da USP. Ele tem um livro chamado Crise e Golpe, que já estava lançado muito antes de termos a visualização de tudo que estava acontecendo. Existem pessoas que já captaram o espírito do tempo e a mensagem das coisas, e estão escrevendo sobre elas. O problema é que, como não vemos o que eles estão vendo, não entendemos o que eles entendem.

Você tem um crush forte no Žižek… não consigo nem pronunciar como você!
[Risos] O acento circunflexo ao contrário se pronuncia como a letra G. Então, é ‘Gigek’. A gente passeava muito no Leste Europeu e um dia, na Bulgária, ele me ofereceu uma caixa de bombons, mas antes de me dá-la, disse: ‘agora fala que você odeia o capitalismo’. Me apaixonei na hora!

Hahah. Falando sério agora, o Žižek é um cara que representa bem nosso tempo, que transita em debates que à primeira vista parecem mais amenos, como quando fala de cinema, e assim se torna palatável para uma audiência distante da academia.
Sim. Ele consegue o que acho que todo intelectual deveria conseguir, que é se tornar um pop star. Hoje, ele é o filósofo pop star. Quando isso é feito sem fins lucrativos, sem se tornar carne de vaca nem subverter suas próprias ideias… ele não se tornou como essa galera que hoje é mais coach de autoajuda do que filósofo. O corpo do trabalho dele é de excelência acadêmica e, além disso, ele é compreendido com excelência também. Porque pouco adianta ser um grandessíssimo intelectual e dez pessoas te entenderem. Aqui vou arrumar briga, mas… Hegel é um dos pensadores mais importantes da modernidade, e lê-lo é dificílimo. Heidegger, o filho da puta que assumiu a Sorbonne com a ocupação do Hitler, também é complicadíssimo de ler. Ele tem um livro chamado O Ser e o Tempo, que você fala ‘nossa, menina, o que acabei de ler?’. Mesmo a Judith Butler, que está super em voga, recebeu um título depreciativo agora, foi considerada a filósofa que pior escreve. Existe essa linha tênue entre como ser entendido e falar aquilo que quero ou preciso falar.

“Não por um acaso todos os ditadores fascistas são vedetes. Eles vivem de construir uma imagem pública, e todos são antissistêmicos, falam palavrões, têm cabelos bagunçados, não sabem se vestir, usam caneta BIC, quando tudo não passa de uma estratégia”

Rita Von Hunty, professora e drag queen
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André Giorgi/Fotografia

Como tem sido a quarentena pra você? Como isso afetou sua rotina, o que você tem tirado de bom dela, e quais aflições vieram?
Estou exausto. Não vejo a hora de acabar. Mas é porque também estamos vivendo o Mês do Orgulho, em que as pessoas lembram que estamos vivos e que trabalhamos. É um período de muitas contratações. Aliado a isso, estamos passando por essa pandemia, e o povo decidiu que quer fazer 28 mil lives por mês. Existe uma certa cobrança de participar e se engajar. Depois que junho acabar, nunca mais farei uma live enquanto estiver vivo! [risos]

A quarentena tem sido importante como período de reflexão, produção, luta e enfrentamento. Estamos passando por momentos muito sombrios, e acredito que os artistas, educadores, filósofos e todo mundo que é de bem têm como função manter as pessoas alimentados em tempos como os nossos.

Você notou um aumento no número de visitas ao canal?
Um pouco, sim. Passamos de 500 mil assinantes para pouco mais de 550 mil. Mas acho que tem mais a ver com uma construção constante que estamos fazendo já há cinco anos.

E quando foi que você percebeu que tinha estourado pela primeira vez?
Quando me convidaram para dar uma entrevista para a Carta Capital, e essa reportagem se desdobrou em um convite para escrever uma coluna semanal na revista. Foi aí que mais pessoas tiveram acesso à minha produção.

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André Giorgi/Fotografia

“Todas as minhas roupas são de brechó. Acho que nunca paguei mais do que R$ 50 em uma peça. O que não é meu, é empréstimo. Como menino, tenho 17 peças de roupa, e acho que tenho muita. Como drag, tenho uns 20 lookinhos, mas que são muito versáteis.”

Rita Von Hunty, professora e drag queen

Como é sua rotina? Você se monta todos os dias?
Não. Só me monto para gravar. O que, agora, tem sido sempre às quintas-feiras.

A Rita é uma mulher já na melhor idade, mas quando você desliga as câmeras a Rita também vai pra balada?
Não, credo! [risos] A Rita está preocupada com outras coisas…

Mas o Guilherme vai?
Não. Também não gosto.

O que você faz nos seus momentos livres, o que fazia quando podia sair?
Isso é uma cantada? [ri alto] Eu gosto de teatro, cinema, exposições, museu, parques, conhecer lugares. Sou vegano, amo descobrir restaurantes novos. Gosto de tudo, menos de ficar acordado de madrugada com putz putz na cabeça. Não sou muito diurno, gosto de ficar até tarde assistindo filmes ou lendo, mas não gosto de barulheira, nem de muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

Quantos figurinos e quantas perucas você tem?
Todas as minhas roupas são de brechó. Acho que nunca paguei mais do que R$ 50 em uma peça de roupa. O que não é meu, é empréstimo. Pego muitas coisas das minhas amigas, e do brechó Minha Vó Tinha. Eu, como menino, tenho 17 peças de roupa, e acho que tenho muita. Como drag, tenho uns 20 lookinhos, mas que são muito versáteis. Ontem, fui fazer as fotos para vocês com duas saias que ganhei da cineasta Sandra Werneck quando estávamos gravando um filme juntas, e também com um vestido que coloquei dentro de uma das saias, transformando-a numa blusa preta, e uma blusa de crochê da Mari G. Nos dois looks, gastei R$ 10.

Você é adepto do minimalismo?
Sou adepto de chegarmos ao século 22. E, com 20 pares de sapato cada um de nós, não chegaremos lá.

Você tem alguma espiritualidade?
Estou no campo do materialismo histórico e dialético. [risos]

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André Giorgi/Fotografia

O quanto essa identidade da Rita, de uma mulher mais velha, é um reflexo do Guilherme, que é um cara jovem?
A Rita é, de certa forma, meu senso de humor. Acho que tenho o senso de humor de uma mulher mais velha.

E como é fazer uma mulher mais velha em uma sociedade que tem um culto ao jovem, que de certa forma esquece das atrizes quando elas envelhecem?
Acho que sempre existe espaço para essa mulher mais velha, mas não existe esse espaço que as pessoas esperam. Embora seja uma gata, você não vai ver a Christiane Torloni fazer uma cocotinha. E, como é a cocotinha que vende, porque é a cocotinha quem consome, existe essa defasagem. Mas, toda vez que tem a Marília Pêra, tem a Marília Pêra. O mesmo com a Fernanda Montenegro, ou a Marília Gabriela, ou a Zezé Mota…

A Regina Duarte…
Credo. Essa pode ir embora. Ela já está fazendo hora extra no planeta.

Para terminar, como tem sido pra você a experiência de levar a Rita para seminários, leituras, palestras e debates no mundo físico, fora da internet?
Quero fazer para sempre, igual a Cacilda Becker. Até estourar uma veia na minha cabeça e eu morrer em cena.

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As inspirações de Rita

Para você não se perder no mar de ideias de Rita Von Hunty, separamos alguns livros imprescindíveis de autores citados nessa entrevista.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por ANDRÉ GIORGI. Confira mais de seu trabalho aqui.

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