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Rap como saída para a depressão

Estreante na música, o jovem BIN canta sobre as mulheres que teve na luta para superar dias ruins

por Artur Tavares Atualizado em 28 out 2020, 12h02 - Publicado em 28 out 2020 02h01
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Clube Lambada/Ilustração

om uma cena musical que ganha cada vez mais bons artistas, o rap feito no Rio de Janeiro ganhou em setembro um novo expoente que merece ser notado pelos fãs. Trata-se do jovem BIN, um garoto de 22 anos nascido e criado em Belford Roxo, que acaba de lançar o disco “Para todas as mulheres que já rimei”. Sua pegada musical lembra o trabalho desenvolvido nos últimos anos pelo norte-americano Frank Ocean, ao mesmo tempo que não deixa de lado as influências cada vez mais latentes que o trap tem no gênero.

Por trás de BIN… bom, ninguém sabe. O lançamento do seu primeiro álbum marca uma nova fase na sua vida. Em tempos em que estamos tão expostos nas redes sociais, o cantor fez questão de apagar quaisquer rastros de sua vida anterior, e sua primeira postagem no Instagram tratava justamente de seu renascimento. O garoto, que não conta seu verdadeiro nome nessa entrevista, tentou se suicidar quando a pandemia começou, mesmo já tendo sobre si os olhares de empresários e dos fãs. Superou essa fase, gravou uma participação em uma música da Anitta, e se trancou em estúdio para produzir as nove faixas de “Para todas as mulheres que já rimei”. Confira nosso bate-papo:

Pra começar, queria que você me contasse um pouco de você. Quem é o BIN? Sei que você nasceu em Belford Roxo, tem 22 anos, mas é muito difícil encontrar informações sobre seu nome… sua conta no Instagram não existia até o lançamento desse disco… Ou, talvez a pergunta seja… Quem era o BIN antes disso tudo?
O meu Instagram até existia, mas arquivei tudo, tá ligado? Não existem mais informações sobre o que era antes desse lançamento. Acho que o BIN é essa pessoa que existe agora. Sou um artista, um personagem. O BIN é muito diferente do meu eu pessoal, que eu nem quero expor. O BIN é aquilo que as pessoas veem nas músicas: um romântico. Foi pensado assim porque realmente me vejo como outra pessoa. Não é que tenho várias personalidades, mas tem essa separação. Não curto nem que alguém que me conhecia de antes não me chame de BIN.

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BIN/Divulgação

Você é de uma geração que já nasceu com o rap sendo um gênero mainstream, mais próximo ao pop, e seu disco tem o nome de “Para todas as mulheres que já rimei”. Sobre o que te interessa cantar e ouvir?
Gosto de cantar as coisas que gosto de viver. Gosto do romance, me interesso por transmitir isso nas músicas. Mas gosto de ouvir de tudo, desde o rap romântico ao mais sujo, mais proibido. Acho que cada vertente tem um pouco a ensinar, que tem coisas que dão certo. Busco aprender que coisas são essas para trazer para a minha música. Se eu pegar um pouquinho de cada coisa que dá certo, vou fazer o meu som ter sucesso também.

Na última década, o rap deixou de ser uma instituição quase que praticamente paulista para alcançar o Rio de Janeiro e outros lugares do Brasil. Você acha que isso tem a ver com uma exaltação dos pretos, a emancipação da galera da periferia?
Vejo como crescimento da música brasileira, mesmo. O rap cresceu no Rio, em Minas Gerais, na Bahia, no Sul. É algo muito bom, tá ligado? Quanto mais crescer além de São Paulo, onde tudo surgiu, é melhor para o rap nacional. Aqui no Rio, existe uma essência muito forte da produção de beats, principalmente por causa do funk, e também da batalha de rimas.


“O BIN é aquilo que as pessoas veem nas músicas: um romântico. Foi pensado assim porque realmente me vejo como outra pessoa. Não é que tenho várias personalidades, mas tem essa separação. Não curto nem que alguém que me conhecia de antes não me chame de BIN”

Você veio das batalhas?
Nunca fui das batalhas. Sou ruim pra caraca. Eu ia muito assistir as batalhas, mas nunca soube rimar ali na hora. Preferi nunca me arriscar.

Antes de lançar “Para todas as mulheres”, saiu uma música sua com a Anitta e o Papatinho, “Tá com o Papato”. Me conta a história dessa parceria?
Isso ai foi um convite do próprio Papato. Eu estava indo gravar o clipe de “Assault Crime Perfeito” e recebi uma mensagem dele explicando a música, quem estava junto, e porque queria que eu participasse. Aceitei na hora, e já no caminho da gravação comecei a escrever minha parte da música, mandei para ele um áudio de dentro do carro mesmo. Ele gostou, e no outro dia já estava no estúdio. Foi uma música que ajudou muito minha carreira. Meu nome ficou mais importante, as pessoas começaram a reconhecer mais meu trabalho, passaram a me ver como artista.

Vocês conseguiram tocar juntos?
Ainda não, a parceria já aconteceu no começo da pandemia. Talvez agora, com a liberação de algumas coisas, os shows voltando aos poucos, eu cante junto com ela.

E você está ansioso para voltar a tocar, agora que já lançou o disco e todos os clipes?
Até que não estou tão ansioso. O tempo que precisar demorar é o necessário. Pode ser cinco anos ou uma semana, é o que Deus quis. Vou deixar que Ele decida o que é melhor para mim.

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BIN/Divulgação

Como você tem administrado seu tempo enquanto isso?
Estou aprendendo a ser blogueiro, a interagir com o público na internet [risos]. Acho que está dando certo. Consegui movimentar meu nome e espalhar bem meu som só usando a internet. É a única arma que temos hoje em dia. É a linguagem mais forte de comunicação da atualidade.

Você fez clipes para todas as músicas do disco. Também teve que virar ator, né? [risos]
Eu me descobri como ator, também, tá ligado? Foi um bagulho que gostei de fazer. Inclusive, estou buscando umas aulas de teatro, quero me dedicar a isso. Tentei até assinar roteiro de alguns clipes. Acho que temos que fazer um pouco de tudo para ser um artista e uma pessoa melhor. Esse lance de atuação… me descobri mesmo, vou investir nisso agora.

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Seu som vai do trap ao rap romântico, tem um quê de Frank Ocean. Como é sua composição?
Eu sento no estúdio, tá ligado, e ouço o beat ou o sample. É a melodia que vai me inspirar.

E o disco tem um monte de participações. Elas estão justamente nessa construção de beats?
Mano, todo mundo que está no meu disco são pessoas que eu gosto de trabalhar. São todos amigos meus. Justamente por isso que as músicas têm muito fit. Nós fizemos o álbum inteiro trancado no estúdio, então não são pessoas que eu convidei. Todos já estavam comigo. Eles viam eu fazendo um som, e quando gostavam já se escalavam para entrar. São todas pessoas que me apoiam e me ajudam, que estão do meu lado diariamente.

As letras também variam bastante. “Marilia Mendonça” é uma declaração de amor bem piegas, enquanto “Só Ela” já emenda que a garota sabe fazer sua vara crescer, e “Covardia” fala sobre a mina sem roupa… Como você encara a ideia de rappers, como o Emicida, que pregam o respeito à mulher, em vez de perpetuar certos tons machistas?
Eu penso, antes de tudo, em fazer arte. Se o conteúdo é pesado, com coisas que não são legais de se falar… normalmente eu faço a música pensando em algo que me faz dançar. Respeito quem não gosta dessas letras, mas respeito quem gosta, quem bota a música só para dançar, que entende que é uma maneira de se expressar. Não estou desrespeitando nenhuma mulher. As mulheres que convivem comigo sabe como eu as trato, é algo que eu nunca faria. Para mim, é só música mesmo. Acho que tem uma pegada do funk carioca também. Eu também faço funk, só não lancei, então tem um pouco disso em mim.

O lançamento do seu disco teve um tom monumental, reservado pra artistas internacionais gigantes, que é ter os clipes de todas as músicas já prontas. De onde surgiu essa ideia?
Também tem a ver com isso de querer fazer arte. Não é só fazer uma música pra virar hit, é fazer algo que realmente seja um trabalho com uma energia gasta ali. A ideia de fazer um álbum visual, com clipes para todas as músicas, era antiga, mas a ideia se perdeu. Só voltou há uma semana do lançamento do álbum, quando decidimos fazer os cinco clipes que faltavam em sete dias. Foi uma correria enorme de gravação e edição. Mas, se tornou um trabalho bonito de se ver, que deixou o público realmente preso dentro do álbum.


“Eu penso, antes de tudo, em fazer arte. Se o conteúdo é pesado, com coisas que não são legais de se falar… normalmente eu faço a música pensando em algo que me faz dançar. Respeito quem não gosta dessas letras, mas respeito quem gosta, quem bota a música só para dançar”

O que foi gravado durante a pandemia deu muito trabalho, principalmente nos cuidados necessários. Muita coisa não pudemos fazer, mano. Nós queríamos que todos os clipes tivessem uma unidade, que contassem uma história da primeira até a última. Tinha clipe que queríamos gravar com bastante gente, e isso também se perdeu porque tivemos que evitar aglomerações. Perdemos algumas locações, também.

Por falar em pandemia, como tem sido esse período pra você? Seu primeiro post nessa nova fase do Instagram fala sobre tentar desistir, suicídio. Como foi isso?
Foi uma das fases ruins que já passei na minha vida. Estava meio desacreditado, cheio de problemas. Fiquei pensando demais nesses problemas, mas não em tentar solucionar. Teve um dia que surtei. Era mais fácil eu não estar mais aqui. Tentei me suicidar, mas agora estou com outra cabeça, estou bem melhor. A música foi minha psicóloga, meu remédio. Ficar trancado no estúdio me ajudou demais. Me deu a chance de conversar com a música, foi como desabafei, botei meus sentimentos para fora. E a partir daí passei a acreditar mais em mim, criei mais força de vontade, que vi começar a acontecer. Hoje tenho muitos motivos para querer vencer. O suicídio é um caso passado.

Quanto mais acesso ao conhecimento, mais chances nós temos de se surpreender de maneiras negativas com o que acontece, de se decepcionar. A gente acaba esperando muito de algumas coisas. E, a internet dá muito acesso ao que está acontecendo, às notícias ruins, ao ódio gratuito. É um lugar onde muitas pessoas podem falar mal de você, te atacar. As coisas acontecem sempre muito na internet, não é pouco. Se não temos a cabeça forte, se é um dia que você está mais frágil… isso ajuda a te desestabilizar, a deixar que as coisas ruins entrem na sua mente. Acho que a internet ajuda muito a causar depressão.

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BIN/Divulgação

Hoje, com o sucesso chegando, você se sente confortável de falar sobre isso com os fãs, trocar ideia com quem passa pela mesma situação?
Eu falo sobre isso, mas principalmente digo para as pessoas procurarem a ajuda de profissionais. Querendo ou não, a melhor escolha é essa. A ajuda de quem sabe do que está falando, de quem sabe como nos ajudar. É legal desabafar com os amigos, com as pessoas que gostamos, em uma música ou em um carta, mas a melhor coisa é procurar um profissional, mano. Quando postei o meu caso, alguns fãs vieram falar comigo, e acabei aconselhando dessa maneira, além de incentivar a querer melhorar. A depressão tem que ser tratada como uma coisa normal, sabe? Quanto mais tratar como uma aberração, mais as pessoas vão ter medo, e mais as pessoas vão cair nesse lugar.

E falar em internet… estamos em ano eleitoral agora, o Brasil vive uma crise profunda. Você vai aproveitar o espaço cada vez maior que tem ganhado nas mídias para fazer alguns posicionamentos sobre questões políticas e sociais latentes da nossa sociedade, ou então escrever letras mais voltadas para o social?
Já fiz, mas hoje em dia não é uma coisa que quero para mim. Só estou evitando o estresse mesmo [risos]. Quando eu ficava muito nesses papos de política, de ficar debatendo na internet, era muito estresse. Você vai agradar um lado e o outro vem te perturbar. Prefiro só fazer o meu, mesmo, ficar tranquilo. Tenho minha opinião, mas guardo para mim, não quero ficar discutindo.

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BIN/Reprodução

Agora, com o disco lançado, como anda seu processo criativo? Você quer fazer mais músicas, ou dar um tempo?
Tem um pouco dos dois. Tem dia que acordo e não quero fazer nada, e outros que quero fazer um álbum novo. Tenho mais de 100 músicas guardadas, agora é só selecionar para ir saindo com o tempo. Mas, antes, vou deixar os fãs digerirem um pouco mais o disco. Acho que não deu tempo de eles pegarem a visão de tudo, não.

Você pensa em fazer algo além da música, expandir esse personagem que é o BIN para coleções de roupas, ou algo parecido com isso?
Pretendo investir em algumas coisas, mas não em roupas. Nem consegui fazer dinheiro para investir, tá ligado? [risos] Mas assim que eu tiver mais confortável, quero abrir um salão de beleza, que é algo que todo mundo vai. Ou então uma padaria, uma marca de maquiagem. Pretendo investir em negócios que são necessários e acessados por muita gente, sempre.

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BIN/Divulgação
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