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Vai ter bicha no rap, sim

O hip-hop brasileiro se abre finalmente para os rappers LGBTQIA+, com Rico Dalasam, Jup do Bairro, Quebrada Queer e Hiran

por Pedro Alexandre Sanches 14 out 2020 00h37
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Clube Lambada/Ilustração

istoricamente, o hip-hop brasileiro vinha sendo hostil à expressão de identidades LGBTQIA+, mas essas convenções começaram a ser contestadas com mais força em 2014, quando surgiu na cena o rapper e compositor Rico Dalasam. Os artistas gays, trans, travestis etc. passaram a rimar a céu aberto, em alto e bom som, e seguem tendo que lutar para manter o terreno conquistado até agora. Rico ganhou logo a alcunha de “o primeiro rapper gay do Brasil”, e até hoje é reconhecido como tal.

Essa matéria fica mais gostosa se você ouvir as músicas da playlist abaixo:

Os rappers gays Hiran, Harlley e Lucas Boombeat (os dois últimos, integrantes do coletivo Quebrada Queer), por exemplo, são unânimes em mencionar o autor e cantor de “Aceite-C” como referência brasileira em quem puderam se espelhar.

Rico Dalasam
Rico Dalasam Paulo Peixoto/Divulgação

Paulista de Taboão da Serra, Rico Dalasam, atualmente com 31 anos, relata o vácuo da inexisência de antecessores: “Não encontro um ancestral meu dentro da cultura. Não tem um ancestral do Rico Dalasam, com esse código, homossexual, rap. É um lugar que está sendo fundado enquanto a gente está vivendo, fazendo e lançando. Você vai achar o ancestral do Emicida no Mano Brown, o ancestral do Djonga no Emicida, essas coisas geracionais. Eu não tenho”.

“Não tem um ancestral do Rico Dalasam, com esse código, homossexual, rap. É um lugar que está sendo fundado enquanto a gente está vivendo, fazendo e lançando”

Rico Dalasam

A presença trans no cenário hip-hop encontrou um ponto alto em 2019, quando o rapper paulistano Emicida chamou a drag queen maranhense Pabllo Vittar e a trans não-binária Majur para participar do rap “AmarElo”. Elas brilharam, embora nenhuma das duas seja propriamente rapper. A “bixa preta” ou “bicha travesty” (como ela própria se descreve) Linn da Quebrada, no entanto, gravou seus primeiros e irados trabalhos um ano depois da estreia de Rico. Seria talvez a vez de a cena hip-hop encarar “a primeira rapper travesti do Brasil”, mas ela e sua companheira de palco Jup do Bairro não chegaram a ser tratadas assim, talvez porque fazem um som complexo, misturado de rap com funk.

A rapper Linn da Quebrada
A rapper Linn da Quebrada Linn da Quebrada/Divulgação

Paulistana do Capão Redondo, Jup do Bairro, 27 anos, acaba de se lançar como artista solo e aceita a classificação como rapper. “Sim, eu sou rapper. Meu berço é o rap. Ele entra por conta da minha família, primeiramente. E como aqui sempre foi muito escassa a exploração de arte e cultura, o que sempre acontecia mais próximo de alguma manifestação cultural eram as batalhas de rima, o churrasco em que meus primos se juntavam e faziam freestyle. E, bom, eu moro no Capão Redondo, né? É berço de dinossauros do rap”, diz, referindo-se à procedência do grupo Racionais MC’s.

Rico Dalasam, que mistura rap, pop, soul, axé e outros gêneros, vai em direção parecida ao se classificar musicalmente: “É rap. Sempre vai ser. Mesmo quando saem os signos norte-americanos do que se sabe sobre rap, vai ser rap. E, quando não se sabe o signo, é sinal de que a coisa está mais brasileira, mais aqui no sul da América do que nos Estados Unidos. E isso é bom”.

O rapper Hiran
O rapper Hiran Hiran/Divulgação

Baiano de Alagoinhas, autodefinido como homem cis gay, o rapper Hiran, de 25 anos, diz que não chega a haver uma convivência relevante entre os rappers heterossexuais e a nova turma de sexualidade mais aberta: “É visível que a inserção nos espaços não se dá da mesma forma. Nos grupos de apoio que os artistas de rap formam, poucos LGBTQIA+ estão inclusos. Nós nos juntamos na maior parte entre nós mesmos e nos apoiamos. Não tenho muitas perspectivas positivas, na minha visão, mas eu vou continuar invadindo e me fazendo presente em tudo que eu puder”. Sobre eleger o hip-hop como uma de suas formas de expressão (mas não a única), Hiran diz não ter uma explicação concreta. “Não foi uma escolha consciente. Eu lembro de ver e querer fazer igual. Eu morava em Alagoinhas na época. Devia ter uns nove ou dez anos”, afirma.

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“É visível que a inserção nos espaços não se dá da mesma forma. Nos grupos de apoio que os artistas de rap formam, poucos LGBTQIA+ estão inclusos. Nós nos juntamos na maior parte entre nós mesmos e nos apoiamos”

Hiran
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Hiran/Divulgação

Mais próximo do rap tradicional, em termos formais, é o coletivo paulistano Quebrada Queer, formado em 2018 por cinco rappers que desenvolviam carreiras solo e continuam a seguir: Harlley, Lucas Boombeat, Guigo, Murillo Zyess e Tchelo Gomez, além da DJ (lésbica) Apuke. “Vai ter bicha no rap, sim”, dizem em “Quebrada Queer”, o rap que deu origem ao coletivo. Harlley, 22 anos, que nasceu e mora no Capão Redondo, exibe uma relação tortuosa com o rap: “Dentro do rap, infelizmente, quando se trata de Racionais, Facção Central e outros, eu nunca me senti muito representado pela música, porque algumas questões me deixavam desconfortável, desde pequeno. O rap deixou essa ferida em várias pessoas LGBTs, de ser um gênero que questionava os problemas da periferia, mas esquecia a existência de pessoas LGBTs”. E prossegue: “Na real, eu sou um artista de R’n’B, mas o rap veio para mim como uma forma de denunciar preconceitos de que eu não gostava. Com o rap, eu consigo ser mais direto no que eu quero criticar ou elogiar. Até um tempo atrás, o rap era para criticar mesmo, criticar o sistema, o racismo – e a homofobia não. Homofobia foi bem mais recente”.

Os integrantes do grupo de rap Quebrada Queer
Os integrantes do grupo de rap Quebrada Queer Quebrada queer/Reprodução

Harlley conta uma história peculiar sobre os Racionais MC’s: quando era pequeno, ele sentia medo das músicas. “Eu ficava com medo quando escutava, porque eu era muito medroso mesmo. Eu escutava RBD e Banda Calypso, olha o contraste”, conta. “Eu sinto que Racionais não me inspiraram tanto porque eu não entendia muito. E eu tinha esse medo das letras e dos beats sempre muito pesados.” A influência do grupo pioneiro é até hoje onipresente no Capão Redondo, e Harlley reconhece a importância sempre renovada do grupo: “Quem morava aqui antes dos Racionais consegue perceber que a gente começou a ficar muito mais unido aqui no Capão”.

“Com o rap, eu consigo ser mais direto no que eu quero criticar ou elogiar. Até um tempo atrás, o rap era para criticar mesmo, criticar o sistema, o racismo – e a homofobia não. Homofobia foi bem mais recente”

Harlley

Seu colega no Quebrada Queer, Lucas Boombeat, paulista de Bauru, 26 anos, fala da convivência com o hip-hop heterossexual: “Estar nesse meio nem aconteceu com a gente, para falar a verdade. A gente acabou muito mais vivenciando e sendo abraçado pela cultura LGBT em si, pelas LGBTs que não estavam dentro do universo do rap. As mulheres também não se veem tão presentes. Em playlists e lugares que falam sobre rap, sempre colocam ‘rap de mina’, ‘rap das bichas’, ‘rap gay’. Os homens hétero não estão nesse lugar. Não é ‘rap de homem’”. Ele observa que esse dado não é exclusivo do rap e perpassa todos os cantos da sociedade. “Tem outros gêneros muito mais machistas e homofóbicos e racistas. No sertanejo, pouco a gente vê representatividade queer e de pessoas pretas”, afirma.

Lucas Boombeat
Lucas Boombeat Lucas Boombeat/Divulgação

O desconforto permanece enquanto os artistas LGBTQIA+ galgam posições dentro de um cenário musical mais plural e diversificado. Diz Lucas: “Se for depender do rap, a gente nem estava existindo, porque nos lineups de rap dos festivais nem nos chamam. Não estamos num lugar confortável dentro do rap, mas estamos criando com outra gama de artistas LGBT uma cena nossa, um lugar para a gente existir, onde artistas LGBT de todos os gêneros musicais conseguem se unir, se apoiar, ter mais visibilidade e conseguir e o direito à cena”.

“Se for depender do rap, a gente nem estava existindo, porque nos lineups de rap dos festivais nem nos chamam. Não estamos num lugar confortável dentro do rap, mas estamos criando uma cena nossa com outra gama de artistas LGBT”

Lucas Boombeat
Lucas Boombeat
Lucas Boombeat Lucas Boombeat/Divulgação

Rico Dalasam não responde diretamente se o meio do hip-hop recebeu bem “o primeiro rapper gay”: “O rap não pode fazer muita coisa por muita gente. Ele faz pelo público que alcança, inspira uma galera, motiva outra, tira o ódio em uns, tira a paz em outros, faz o outro tentar mudar de vida. Mas a gente sabe que está falando com um teto bem baixo, bem específico”.

Jup do Bairro explica o porquê do nascimento dessa geração musical LGBTQIA+: “Acredito que uma parcela é da internet. É através da internet que a gente consegue criar bolhas e comunidades de reconhecimento. Hoje em dia, acaba sendo irresponsável e quase impossível não falar nos corpos que foram ignorados”. Rico Dalasam também lamenta pelos talentos desperdiçados pelo racismo, no passado e no presente: “Muita coisa que chega para mim das décadas passadas é o que permaneceu, e permaneceu porque houve um subsídio para permanecer, um subsídio para quem conseguiu não ser punido nem boicotado nem cerceado. Historicamente quem consegue isso aqui é quem tem dinheiro e é branco”.

“É através da internet que a gente consegue criar bolhas e comunidades de reconhecimento. Hoje em dia, acaba sendo irresponsável e quase impossível não falar nos corpos que foram ignorados”

Jup do Bairro

Os ignorados de que falam Jup e Rico são os pretos, os LGTBQIA+, as mulheres, os grupos marginalizados todos. Os artistas com esses perfis seguem aparecendo muito pouco em meios como os canais abertos de TV. A internet trouxe à tona a diversidade que não se via nos meios de comunicação antigos. Não é pequena a luta das rappers e dos rappers LGBTQIA+, que geralmente sofrem discriminação dupla ou tripla, como pretos, LGBTQIA+, mulheres. A nova geração tem lutado exemplarmente.

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