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Deu pau

Como os videogames representam pênis, reforçam o estereótipo machista e o falocentrismo em uma indústria multimilionária

por João Varella Atualizado em 19 fev 2021, 10h54 - Publicado em 17 fev 2021 23h00
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Clube Lambada/Ilustração

Mulher, para uma cultura patriarcal, é classificada como um significante do outro masculino, presa a uma ordem simbólica que homens podem usar para fantasiar e para satisfazer suas obsessões por meio de um comando linguístico, ao impor a elas a imagem de mulher silenciosa ainda agarrada ao seu lugar de possuidora de significado, e não de criadora de significado.” Essas são palavras de Laura Mulvey no ensaio Prazer Visual e Cinema Narrativo, que nos anos 1970 ajudaram a escancarar a objetificação feminina no cinema. A visão masculinizada construiu uma feminilidade passiva no clássico cinema americano, algo que as discussões de representação de gênero se aprofundaram nas décadas seguintes.

Só recentemente essas discussões chegaram aos videogames. Mídia por anos voltada a homens jovens, a objetificação das mulheres acompanhou a evolução dos gráficos. Personagens femininas eram propensas a serem retratadas parcialmente nuas, com roupas sumárias e inadequadas. Esta publicidade do PlayStation de 1998 sintetiza o espírito da época:

“Esta é uma expectativa que existe por influência da heterossexualidade compulsória e da cisgeneridade presentes como um padrão em diversos produtos de mídia”, afirma Guilherme “Smee” Sfredo Miorando, doutorando em Ciências da Comunicação. Ele fez uma aproximação ao assunto por outro viés, analisando a representação masculina nos videogames. Enfatizou um órgão: o pênis.

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Conan/Reprodução

Pau para toda obra

Smee trabalha em uma tese sobre a masculinidade dos super-heróis e sua relação com o bolsonarismo. Para ele, o mundo cada vez mais se refere a mitos em sua organização social. “Alguns buscam explicações cada vez mais simples para questões da vida, ficam mais tranquilos com isso. Nem todo mundo consegue acompanhar a mudança cultural, sociológica, cultural”, afirmou Smee.

Para a edição de dezembro de 2020 da revista de divulgação de pesquisas científicas Antares, da Universidade de Caxias do Sul, ele fez um recorte de sua tese e analisou o game Conan: Exiles. Mais especificamente, a representação do cacete.

O jogo é mais uma criação baseada na obra do escritor norte-americano Robert E. Howard (1906-1936). Conan já foi interpretado por Arnold Schwarzenegger no cinema, gerou quadrinhos pela Marvel e virou até mesmo alguns games antes. Mas hoje em dia, Conan: Exiles é visto como O jogo referência do bárbaro.

Esse título foi lançado oficialmente pela Funcon, empresa com estúdios nos Estados Unidos e Noruega, em 2018. Sem nada de muito inovador, não obteve muito destaque no ano de Red Dead Redemption II, God of War, Celeste.

Como é comum em muitos jogos contemporâneos, Conan: Exiles abre a possibilidade do jogador modificar seu personagem. Uma inovação era a possibilidade de modificar o comprimento do pênis nos personagens masculinos, para escândalo da patrulha moral.

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Xman-2/Reprodução

Pauzinho em pixelões

Conan pode ter sido o primeiro a permitir a customização, mas não é o primeiro a mostrar o falo. Os primeiros casos de exibição gráfica de cacetes aconteceram com uma leva de jogos pornográficos que surgiram para o Atari 2600 no começo dos anos 1980. O mais famoso deles era Custer’s Revenge, de setembro de 1982. Nele, o jogador assume o papel do comandante da Guerra Civil americana George Armstrong Custer (1839 – 1876). Sem calças e com o pinto visível, o objetivo é desviar de flechas para estuprar uma índia amarrada em um poste. O criador do jogo, Joel Miller, jurou de pé junto em entrevistas na época que Custer estava “seduzindo” a mulher, que por sua vez era uma “participante disposta”. Convenceu um total de zero pessoas.

(Interrompemos este texto para uma trivia gamer: Joel Miller é homônimo ao protagonista do game The Last of Us. Era só isso mesmo, sigamos).

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Custer´s revenge/Reprodução

Custer’s Revenge era vendido por US$ 50 e ultrajou a Atari, que prometeu banir o jogo. Mas não foi o que aconteceu. Houve uma enxurrada de jogos pornográficos para o console Atari 2600, como X-Men, no qual, ao escapar de um labirinto, o prêmio é uma cena de sexo, e Beat‘ Em & Eat ‘Em, em que um homem dispara sêmen do alto de um prédio direto para a boca de mulheres na calçada. A má qualidade dos jogos da época levou a indústria do videogame à virtual falência nos Estados Unidos.

Todo esse auê sendo que em termos de representação do membro, beirava a abstração. O poder gráfico da época era paupérrimo, pixels gigantescos com poucas cores. Mas o rabisco no meio das pernas dos personagens estava inegavelmente lá.

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Beat em eat em/Reprodução
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Caralho

Fora esse início rudimentar e alguns outros jogos apócrifos, demorou para um pinto aparecer em um game. Há alguns rápidos frames quando um personagem de Rampage: World Tour de 1997 morre, mas é preciso pausar o jogo para poder ver o órgão sexual pixelado. Depois disso houve aparições esporádicas em games como Leisure Suit Larry, Manhunt, GTA

Enquanto o pinto começava a ensaiar sua exposição, a evolução do videogame caminhou para os jogadores poderem customizar o próprio personagem. Algumas são escolhas que afetam o jogo em si. Outras são apenas cosméticas, afetam apenas o visual do avatar do jogador. Em The Elder Scrolls V: Skyrim, por exemplo, é possível definir pelos faciais, cor de pele, até o formato do nariz, mas nada disso afeta o desenrolar da narrativa.

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Soul Calibur/Reprodução

Em jogos como Soul Calibur VI, dá para aloprar. Ao invés dos guerreiros medievais, é possível customizar personagens para eles parecerem com Thanos, o vilão dos filmes da Marvel, ou Shrek, o ogro verde dos longas de animação. E colocar um para lutar contra o outro:

Ou então, criar personagens que têm suas qualidades ainda mais explícitas:

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Dentro dessa lógica, ficou comum poder editar o tamanho dos seios das personagens femininas – Nioh 2, por exemplo, foi lançado no ano passado com essa possibilidade e ninguém deu muita bola, é normal. Basta deslizar uma barra para aumentar o peito delas. Até que Conan: Exiles deu um passo que esses jogos não tinham dado, trouxe possibilidade equivalente, porém voltada ao tamanho do pênis. Mas só o cumprimento. Espessura, formato ou outros atributos não foram contemplados. Chris Livingston, da PC Gamer, se divertiu no Twitter.

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Eba, bilau

A novidade de Conan: Exiles foi comemorada ao melhor estilo redes sociais. O músico e animador Jonti Picking, conhecido como Weebl, criou uma música celebrando a novidade. “Boing boing boing vai o saco de bolas”, diz a letra:


“Não senti incômodo”, afirma Robert Damasceno, 26 anos, membro do podcast Bota a Ficha!, que tem o jogo na versão para computador. “Para quem tem uma mente madura, no máximo vai rir do negócio balançar”. A benga respeita as leis da física com fidelidade, mas não tem efeito prático.

Porém, isso traz problemas para quem faz transmissões ao vivo. Sites como a Twitch tem regras rígidas proibindo a exibição de nudez. Xbox, o console da Microsoft, anunciou que vetaria isso em sua plataforma.


E para que isso? Apesar de o pênis ser um tema recorrente em diversos debates psicanalíticos, as conclusões a respeito de sua construção e simbologia não são unânimes. Para Smee, uma coisa é certa: foi um movimento de marketing para promover o game. “Gerou notícia, discussão”, disse o pesquisador.

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Cyberpunk 2077/Reprodução

Chamou Cyberpunk 2077?

Falou em marketing e videogame, falou em Cyberpunk 2077. Pois o game da CD Projekt causou alvoroço ao anunciar que permitiria customizar a genitália masculina e feminina.

Os jogadores, porém, não veem órgãos genitais fora do criador do personagem, nem mesmo durante as cenas de sexo ou ao tirar fotografias. O desenvolvedor de Memoirs of a Battle Brothel, um jogo de RPG cyberpunk adulto, referiu-se à customização genital como “clickbait”, um sensacionalismo para atrair a audiência.

“Colocar isso em evidência, falar, quebrar esse tabu vai ajudar a entender um pouco da masculinidade tóxica, a trazer outros públicos para essas mídias”, afirma Smee. Talvez isso ajude a dar ao pênis a importância que ele merece, de mais uma parte do corpo. Enquanto for motivo de tabu, vai continuar servindo de ferramenta de marketing.

Seria por ser esse um assunto vedado a motivação para fazer esta reportagem? Teria sido essa a motivação para o leitor ter chegado até aqui? Melhoremos.

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