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Um bate-papo com cinco PCD influenciadores

Nathalia Santos, Kitana Dreams, Mariana Torquato, Lorrayne Carolyne e Matteus Baptistella mostram que a verdadeira superação é perdermos nossos preconceitos

por Alana Della Nina Atualizado em 12 ago 2020, 11h07 - Publicado em 12 ago 2020 02h13

Para entender melhor a situação das pessoas com deficiência no nosso país – e a importância dessa representatividade –, leia a reportagem “Nós estamos aqui”

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Kareen Sayuri/Redação

Nathalia Santos

Instagram: @nathaliasantos | 44.6k seguidores

YouTube: Como assim, cega? | 8.31k seguidores

A carioca de 28 anos nasceu cega, chegou a enxergar 20% e, aos 15, ficou cega novamente. Jornalista, produtora de conteúdo do Multishow e palestrante, Nathalia produz conteúdo educativo, não apenas sobre a sua deficiência, mas também sobre outros recortes que contam sua história: ser mulher, negra e periférica.

“Nasci e cresci em uma favela do Rio de Janeiro chamada Cidade Alta. Minha vida foi repleta de muitas dificuldades, muito mais por conta de uma sociedade despreparada para lidar com a minha deficiência e por não ter dinheiro para conseguir um bom suporte tecnológico do que por ser cega. Aliás, nunca tive problema em ser cega. As pessoas sempre me perguntavam como era não enxergar, como eu vivia etc. E criei meu canal para responder a essas questões e para ter um contato mais direto com esse público. Meu conteúdo começou a ganhar mais visibilidade porque trabalhei na televisão, no programa Esquenta! (Rede Globo), como comentarista e pesquisadora, e depois como produtora e repórter na Globonews. Mas a internet é um paradoxo para pessoas com deficiência: se é um dos meios mais acessíveis, enquanto plataforma, o conteúdo produzido para ela não é. Menos de 1% dos sites brasileiros são acessíveis a pessoas com deficiência. E não é um desafio de programação, é porque, no imaginário comum, nós não consumimos. Ou somos poucos, sendo que representamos cerca de ¼ da população. As pessoas culpam o governo, o governo culpa as empresas e ninguém faz nada, quando cada um podia fazer sua parte. Se você vai abrir um site ou uma loja, por exemplo, pode entender como tornar seu espaço acessível. A gente teve um avanço muito grande em tecnologias assistivas que atendem as mais diferentes e diversas deficiências, mas não teve evolução de capital humano.”

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“Há muito tempo, o deficiente era visto como um encosto, que dava trabalho para a família, ficava dentro de casa. Hoje estamos na rua, nas faculdades, nas praças, nos trabalhos, na rede social, na internet. Acho que a rede social é, sim, um espaço em que o deficiente está aparecendo cada vez mais, mas somos poucos ainda e somos os poucos que as pessoas fazem questão de não ver. Não estamos nas novelas, propagandas e nos jornais, então representatividade é muito difícil. E quando a gente está em algum lugar é para falar da deficiência, da dor. A deficiência vem sempre antes. O Brasil precisa olhar para a população com deficiência considerando a gente como indivíduo primeiro e depois enquanto grupo, porque, como mulher cega, negra e favelada, tenho uma realidade completamente diferente de uma outra mulher cega e branca, que mora em outro lugar.”

“Temos limitações iguais, mas realidades diferentes. Mas ainda não enxergam a gente nem enquanto grupo, que dirá enquanto indivíduo. Dentro dos nossos nichos, acho que estamos fazendo diferença, mesmo que não da maneira que a gente esperava. Agora estou grávida, então qualquer conteúdo relacionado a isso faz muito sucesso, mas ainda tem muito comentário capacitista de não esperar que eu fizesse comida, me maquiasse sozinha, escolhesse minhas roupas. Mas ainda acredito que aos poucos a gente vai quebrando isso, com informação e esclarecimento.”

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Kareen Sayuri/Redação

Kitana Dreams

Instagram: @kitanadreams | 19.6k seguidores

YouTube: Kitana Dreams | 18.5k seguidores

Kitana Dreams é a identidade criada por Leonardo Braconnot há 20 anos. Surda de nascença e oralizada (capaz de realizar leitura labial), a drag queen e maquiadora profissional mora no Rio de Janeiro com o marido, o poodle de estimação, a mãe e a avó – segundo Kitana, seus maiores fãs e incentivadores. Além de a carioca gravar seus vídeos do YouTube em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), eles também são legendados. Entre dicas de maquiagem, vídeos de montação, entrevistas com convidados, posts sobre piadas e gírias do universo das drags, não falta engajamento em pautas sobre inclusão que interessam às comunidades surda e LGBT. 

“Minha história como Kitana começou quando eu era bem jovem, com 17 ou 18 anos. Eu assistia a shows de drag nessa época e adorava. Mas, como sou surda, não podia fazer os shows, então resolvi criar um personagem. Isso aconteceu quando também comecei a aprender a arte da maquiagem. Então, me transformei na drag queen Kitana, inspirada na personagem de mesmo nome do jogo de videogame Mortal Kombat. Ela era uma lutadora incrível, vestia roxo, máscara e leque. Minha primeira montação foi assim: passei maquiagem, vesti uma roupa da minha mãe, coloquei uma peruca e pronto, fiquei linda! E assim a Kitana foi sendo criada. O canal veio muito depois disso. Fiz uma conta para poder ver vídeos no YouTube, mas um dia assisti a umas drags fazendo tutorial de maquiagem e eu quis fazer igual. Comecei, então, a criar vídeos para a comunidade surda e para surdos LGBT, mas, claro, também para os ouvintes. E, hoje, minha relação com meus seguidores é muito maravilhosa. Recebo apoio e mensagens carinhosas, é uma troca muito positiva.”

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A internet pode ser um meio de comunicação super inclusivo para os surdos, mas precisa evoluir muito ainda. Os canais de YouTube, por exemplo, poderiam colocar janelas de intérpretes em seus vídeos. As legendas precisam melhorar, deveriam sair mais sincronizadas. E os stories do Instagram deveriam adotar legenda. Mas acho que as redes sociais já ajudaram muito em termos de inclusão dos surdos na sociedade. Pela minha experiência, vejo que facilitou bastante a comunicação entre surdos e ouvintes. São meios que permitem a nós, pessoas com deficiência, transformarmos esse problema da invisibilidade, é uma ferramenta poderosa na nossa luta por um espaço na sociedade e para mostrar que não somos coitadinhos, somos pessoas normais com algumas limitações. Podemos trabalhar, estudar, nos divertir como qualquer pessoa. Não somos inválidos.”

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Kareen Sayuri/Redação

Mariana Torquato

Instagram: @marianatorquato | 67.9k seguidores

YouTube: Vai uma mãozinha aí? | 159k seguidores

A catarinense de 28 anos criou seu canal no YouTube em 2016, que, rapidamente, se tornou o maior canal de PcDs do Brasil. Mariana, que nasceu sem parte do braço esquerdo, luta na linha de frente contra o capacitismo – leva e dá porrada em uma frequência quase diária. Um dos seus posts mais recentes fala sobre a música Fica de Três, de Vitão e Luísa Sonza, que rendeu um monte de piadas preconceituosas com PcDs e alcançou os trending topics do Twitter. Mariana, no entanto, não tem medo de brigar, muito menos de hater, nem mesmo quando ouve o já cansado “descansa, militante”.

“Nasci com uma deficiência e sempre tive que viver com o fato de que eu tinha essa deficiência e ninguém falava sobre isso. Eu não tinha colegas com deficiência, não via pessoas com deficiência na televisão nem em lugar nenhum. Então, cresci me achando um ET. As PcDs nunca tiveram voz. E não me enxergava nos estereótipos da mídia. Nas raras vezes em que a mídia nos representa, é sempre como pobrezinhos que precisam de doações ou heróis, como os atletas paralímpicos. E nem assim – quem não lembra daquela campanha da Vogue na época dos Jogos Paralímpicos, em 2016, em que famosos foram photoshopados com ‘deficiências’? Foi ali que decidi criar meu canal no YouTube, como forma de poder falar as coisas que eu não ouvia serem faladas.”

“O capacitismo, essa barreira que existe no imaginário popular, é uma crença social muito forte que sempre coloca as pessoas com deficiência como incapazes, que valem menos que as pessoas ‘normais’, que não são sexualmente ativas. A gente tem que se provar o tempo todo. Como mulher, ainda com essa camada da deficiência, você tem que se provar mais ainda. O corpo da pessoa com deficiência ainda é visto como uma coisa pública, que todo mundo pode opinar, rir, tirar sarro, usar para ganhar like, fazer o que bem quiser. É bem difícil fazer conteúdo informativo e ativista dentro desse contexto porque, realmente, o descaso é muito grande. Precisa batalhar, batalhar, batalhar, encher o saco. As pessoas não se interessam pelo assunto, muitas acham que é vitimismo, não entendem o que a gente quer dizer quando fala sobre preconceito porque realmente não se fala muito sobre isso.”

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“A gente vê a pauta racial ganhando força, o feminismo, as questões dos LGBT, mas a gente não ouve a voz das PcDs, que, inclusive, estão inclusas em todos esses grupos. Existem PcDs negras, homossexuais, mas elas não estão em nenhum desses palanques. A internet tem um potencial muito grande de ser inclusiva, mas as grandes empresas não estão interessadas nisso. Por exemplo, o próprio Instagram fez uma atualização recentemente que deixou as pessoas cegas sem acesso aos stories. O TikTok teve aquela questão de mexer nos algoritmos da plataforma para diminuir o alcance de perfis minoritários, porque entendeu que essas pessoas estavam sofrendo bullying. Por que não tira o acesso de quem pratica o bullying? A exclusão, mesmo em um ambiente que seria muito mais fácil acessibilizar, como é a internet, acontece. E acontece porque não há PcDs na linha de frente dos negócios, tomando decisões, participando das conversas.”

“A melhor coisa que a gente pode fazer enquanto PcD é falar. E fazer com que as pessoas entendam que o capacitismo existe. Que expressões como ‘deu uma de joão-sem-braço’ são preconceituosas. Eu mesma só descobri o capacitismo há uns 4 anos. Eu entendia que sofria um preconceito, uma opressão, mas não sabia que tinha um nome, não sabia explicar o que era. Eu só sentia na pele. Por isso comecei a falar. E mais e mais as PcDs estão se libertando do medo, da vergonha, saindo do armário com relação às suas deficiências. Mostrando pro mundo que, sim, elas têm deficiência, mas são muito mais do que isso.”

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Kareen Sayuri/Redação

Lorrayne Carolyne

Instagram: @lorrayne_carolyne | 172k seguidores

YouTube: Lorrayne Carolyne | 1.7k seguidores

Os cabelos cacheados da influencer de 17 anos de Franca, no interior de São Paulo, são os grandes protagonistas dos seus vídeos – tutoriais de penteados e tratamento lotam o feed e os stories do seu perfil. Mais que dicas de beleza, o conteúdo da Lorrayne é um reflexo do seu ativismo: o empoderamento da mulher negra e a valorização da sua beleza. Nascida com Osteogênise Imperfecta, condição conhecida como “doença dos ossos de vidro”, Lorrayne é cadeirante e também busca, por meio de seus posts, combater o capacitismo.

“Comecei a criar conteúdo em 2019, eram posts de beleza voltados para cabelos cacheados. No começo, eu postava muitas fotos e, depois de um tempo, comecei a gravar vídeos de looks. Esses vídeos foram um sucesso. Ganhei muitos seguidores, e tento sempre estar próxima a eles. É muito especial ter um público como esse. Claro, também tenho que lidar com os haters, mas prefiro pensar que é assim mesmo, sempre vai ter gente para criticar, ofender e diminuir você. Então tento não dar bola e seguir em frente.”

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“Acho que, de forma geral, as coisas evoluíram bastante para os PcDs. Mas, se por um lado, temos facilidade em criar conteúdo, gravar stories, ter o acesso às ferramentas, por outro, o reconhecimento do nosso trabalho é muito complicado, conseguir fechar parcerias com marcas etc. Foi difícil conseguir ser notada, mas sempre lutei muito e sigo lutando por esse espaço.”

“A vida fora da internet continua complicada: o Brasil é um país muito atrasado em termos de acessibilidade. Calçadas e estabelecimentos sem rampas, estações de trem e metrô sem elevadores, ruas esburacadas. E as lojas, então? Prateleiras e balcões altos, fora do alcance, provador de roupa minúsculo… Ainda falta muito, mas é maravilhoso poder começar a quebrar esse tabu sobre as PcDs. Sou muito feliz por poder inspirar pessoas por meio do meu conteúdo. E fico ainda mais feliz de ver tanta gente com deficiência nesse universo de influenciador, mostrando que temos nosso lugar e que isso independe da nossa condição.”

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Kareen Sayuri/Redação

Matteus Baptistella 

Instagram: @vireiadulto | 1m seguidores

YouTube: Virei Adulto | 7.19k seguidores

O economista de Pirajuí que se mudou para São Paulo há um ano acorda todos os dias às seis da manhã, trabalha até cinco e meia da tarde, chega em casa – ele mora sozinho – e pensa no conteúdo que vai postar. Se for receita, ainda tem que preparar. Aí grava, edita, posta e limpa toda a bagunça. Com mais de 1 milhão de seguidores, Matteus, hoje com 29 anos, tem uma produção de conteúdo intensa que se divide em diversos temas: receitas, looks, esquetes de humor – a maioria dos posts carrega suas mensagens de auto aceitação e amor-próprio. O influencer também expõe mensagens preconceituosas e divide com o público, além das alegrias, suas angústias. 

“Nasci em Pirajuí, interior de São Paulo, e aos 19 mudei para uma cidade vizinha para fazer a faculdade de Economia. Foi quando criei o blog Virei Adulto e comecei a compartilhar receitas, dicas para limpar a casa, lavar roupa e essas coisas que você descobre que precisa fazer quando vai morar sozinho. Em 2012, fui para o Instagram. Naquela época, as pessoas só postavam foto de paisagem, depois é que começou a moda das selfies. Só que eu ainda tinha muito problema em me aceitar por ser anão. Todas as minhas selfies eram de rosto e eu nunca saía em fotos com amigos, nem tirava, aliás, porque eu era menor que todos e isso me incomodava. Foi muito difícil essa saída da adolescência para a fase adulta.”

“Com o tempo, o blog começou a ter leitores e eles queriam saber mais sobre mim. Resolvi, então, expor quem eu era: uma pessoa de 1.40m de altura que estava aprendendo a se aceitar. Postei minha primeira foto de corpo inteiro. A foto viralizou, as pessoas começaram a marcar outras pessoas que tinham problema de aceitação, não só com nanismo, mas com outras características fora do padrão. Aí fui crescendo no Instagram e, em 2014, comecei a imitar os looks dos famosos com roupas de papel crepom, foi meu boom real. Depois veio a fase do humor. Eu queria mostrar para as pessoas que dava para rir com as minhas piadas, com o meu senso de humor, não por eu ser anão. Eu já estava cansado de ver o anão ser ridicularizado na televisão. O anão era engraçado quando apanhava, passava vergonha. Quando os stories surgiram, comecei a fazer a série Virei Adulto na Cozinha, com receitas. Sou muito desastrado e, volta e meia, minhas receitas dão errado. Então, as pessoas se identificavam com esse cenário super real.”

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“A realidade é importante. A gente está em uma época difícil, no meio de uma pandemia, não é real ver uma blogueira feliz, linda, super maquiada. A gente só consegue criar conexão sendo de verdade. Já sofri muito com haters, dormia chorando, não queria mais ter que passar por aquilo. Foi com a ajuda da terapia que consegui superar. A internet pode ser muito pesada. E ainda é terra de ninguém, é difícil identificar quem está por trás daqueles comentários, brigar, processar etc. Hoje, acho que sofro menos preconceito, rolam mais casos de assédio, uns stalkers, também recebo nudes de homens e mulheres – mas aí entendo como elogio, né? E faço questão de expor as mensagens preconceituosas, acho que é um alerta importante.”

“O nanismo foi considerado uma deficiência física em 2004 e isso foi uma conquista, mas somos uma minoria, minoria mesmo. Dentro das redes sociais, os anões têm muito pouco espaço. Luto pelo respeito ao nanismo. Não posto vídeo me ridicularizando, não tento me sexualizar. Só que ainda é muito difícil. Todo mundo fala em diversidade, mas quando você vê um anão estrelando uma campanha? Mesmo com muitos seguidores, as marcas não querem ser associadas a anões. Já ouvi até: ‘se você tivesse 10cm a mais’… O discurso evolui, mas, na prática, a sociedade ainda prefere gente padrão.”

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