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Paternidades possíveis

Assumir as responsabilidades, diminuir a sobrecarga dos companheires e criar uma cultura de cuidado: homens se articulam para mudar a paternidade no Brasil

por Ismael dos Anjos Atualizado em 26 out 2020, 11h29 - Publicado em 23 out 2020 00h45

Quando se é um homem-pai, um espelho imaginário se posiciona na sua frente de forma recorrente – a cada decisão, a cada bronca, a cada afago. Eu vou fazer com o meu filho o que meu pai fazia comigo ou eu vou fazer diferente? Embora ainda se trate de uma mudança tímida para um país com mais de 5 milhões de crianças que sequer têm o nome do pai na certidão de nascimento, existem cada vez mais homens dispostos a escolher o segundo caminho.

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mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento
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Embora novos referenciais estejam surgindo na cultura pop (passamos do pai que não sabe trocar uma fralda à escala Rodrigo Hilbert de pai completo), a conversa ainda precisa partir do básico. Em um contexto de ausência paterna, seja física ou emocional – herança de uma paternidade baseada tão somente em procriar, prover e proteger –, assumir as responsabilidades objetivas e demandas subjetivas que vêm com a consciência de que sim, o filho também é seu, continua a ser uma pendência para a maior parte dos homens. 

A resistência em usufruir até mesmo dos direitos garantidos por lei demonstra isso. Realizado em sete países incluindo o Brasil, o “3° Relatório Situação da Paternidade no Mundo”, do Instituto Promundo, mostra que 82% dos pais brasileiros dizem que fariam qualquer coisa para se envolverem muito nas primeiras semanas e meses de cuidado com um filho ou filha. No entanto, apenas 32% dos trabalhadores brasileiros utilizam por completo os 5 dias de licença-paternidade legalmente previstos. Ao todo, 27% não tiram um dia sequer. 

Para além de políticas públicas e econômicas que estimulem a paternidade – um homem que tem apenas 5 dias de licença remunerada para ficar próximo à família que acabou de mudar para sempre recebe indiretamente o recado de que o lugar dele não é ali — uma mudança de cultura se faz necessária. Nesse sentido, um dos primeiros passos para os pais de hoje é, justamente, sair da sombra dos pais que eles tiveram.

Consultor sênior de Programas do Promundo e pai da Laura há menos de um ano, Luciano Ramos testemunha a prática no trabalho e também vive isso na pele. “Eu não tive a presença do meu pai em todo o meu desenvolvimento, desde o meu nascimento. Essa sempre foi uma pauta difícil pra mim, e me fez não querer me conectar com a temática durante muitos anos. A naturalização e até a banalização da ausência paterna guarda em si, muitas vezes, a incapacidade que temos de lidar com toda a carga emocional que esta ausência significa. Meu pai não esteve presente no meu desenvolvimento e de minha irmã (já que somos gêmeos) por questões financeiras. A ausência dos pais pretos, em muitas situações, se conectam com o racismo estrutural que têm vários desdobramentos na vida deste homem e, por consequência, na vida de seus filhos e suas filhas. Conseguir entender isso levou muito tempo e muitas análises. Eu tento fazer diferente. Sou presente integralmente na criação da minha filha. A ausência do meu pai me fez perceber o quanto era necessário estar presente na vida dela”, diz. 

“A naturalização e até a banalização da ausência paterna guarda em si a incapacidade que temos de lidar com toda a carga emocional que esta ausência significa”

Luciano Ramos

Na pesquisa “O Silêncio dos homens”, do PapodeHomem/Instituto PdH, 68% dos entrevistados declarou ter o pai como principal referência de masculinidade. Não obstante, só 1 a cada 10 já conversou com o próprio pai sobre o que é “ser homem”. Sem diálogo, os meninos crescem construindo suas masculinidades a partir da imagem que têm do pai, seja em uma dualidade de herói ou vilão ou no vácuo da ausência.

“A paternidade que eu experimentei quando era criança foi um tanto diferente, porque não fui criado pelo meu pai nem pela minha mãe. Meu pai abandonou minha mãe. Eles se divorciaram quando eu tinha 2 anos de idade e ele foi para outra cidade. Chegamos a ficar seis ou sete meses sem nenhuma notícia dele. A minha mãe, aos meus 8 anos (meu irmão tinha 6) conheceu um rapaz, meu atual padrasto, foi morar com ele. Quem nos criou foi a minha avó e meu tio, e o meu tio nunca se colocou como meu pai”, lembra-se André Nunes, pai do Jonathan e da Valentina e, junto com o marido Ângelo, criador da página Papai e Papia

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“Ele sempre se colocou como uma pessoa que estava me educando, e também nunca o vi como pai. Meu tio era uma pessoa muito severa com algumas coisas. Aos 12 anos, comecei a trabalhar com ele na metalúrgica fazendo carregamento de sucata de papelão, por exemplo. O que ficou da, entre aspas, paternidade que experimentei, foi a disciplina e as questões morais, de caráter, de honestidade. Só que todas as outras coisas eu deixo de lado, sabe? Disciplinar não é não ter tempo para absolutamente nada, nem para ser criança”. 

Fundador do projeto Pais Pretos Presentes, Humberto Baltar também evidencia como a paternidade que experimentou como filho influencia na paternidade dele hoje. “Tive um pai provedor, que supriu todas as minhas necessidades materiais e me ensinou a importância dos estudos. Entretanto, na relação com meu pai, não havia carinho, ‘eu te amo’ ou conversas sobre meus medos, inseguranças e fraquezas. Entendo que esse foi o modelo de paternidade que ele recebeu. Me deu o que tinha. Mas uso essa experiência para oferecer ao meu filho um modelo de paternidade que eu considero mais completo. O Apolo tem apenas um ano e meio e já desfruta de diversas coisas que eu não tive, como pais que trocam afeto na frente dele, por exemplo. Todo dia elogio meu filho, beijo, dou um cheiro nele, digo que o amo, conto histórias, canto pra ele e brincamos juntos. Faço isso também porque sei a falta que tudo isso faz. Afinal de contas, senti essa falta”.

Iniciativas como o Pais Pretos Presentes ou o grupo de Facebook e WhatsApp chamado Paternando (e outros tantos coletivos) têm surgido nos últimos anos como maneira de estabelecer referências positivas e horizontais de paternidades responsáveis, afetuosas e possíveis. Sejam em encontros presenciais ou online, esse grupos de pais oferecem aos homens a oportunidade de conversar sobre temas urgentes de forma madura, compartilhando informações que nem sempre fazem parte dos repertórios dos homens.

“Tive um pai provedor, que supriu todas as minhas necessidades materiais e me ensinou a importância dos estudos. Entretanto, na relação com meu pai, não havia carinho”

Humberto Baltar

“Até pra ser amigo é preciso presença. Você não precisa estar junto o tempo todo, mas deve estar ali quando precisam de você. Na paternidade, não é diferente. O coletivo tem mostrado que essa presença de outros pais também tem uma atuação importantíssima. Precisamos de redes de apoio. O pai preto também precisa de escuta ativa e acolhimento. A paternidade não é só sobre os filhos. Precisamos desabafar, falar das nossas alegrias, dúvidas, dores e tristezas. Ser pai presente, ativo, participativo ou afetivo não é opção. É ser pai. No nosso contexto, a palavra ‘presente’ é sobre o paternar. A ancestralidade africana ensina que paternar transcende ter filhos. Podemos exercer esse paternar inerente a nós com amigos, parentes, filhos biológicos ou não e até mesmo com os nossos pais, que em muitos casos foram criados sem qualquer referência de afeto”.

“Perdi a conta de quantas coisas já aprendi com os irmãos e irmãs do coletivo. O impacto na vida dos membros foi tão positivo que atraiu a atenção de suas companheiras, mães, filhas e amigas, que também quiseram fazer parte do grupo. Assim nasceu o Pais e Mães Pretas Presentes, onde pretos e pretas falam de suas alegrias, dores e dúvidas sobre a parentalidade e demais questões familiares”, conta Humberto. 

“A ancestralidade africana ensina que paternar transcende ter filhos. Podemos exercer esse paternar inerente a nós com amigos, parentes, filhos biológicos ou não e até mesmo com os nossos pais, que em muitos casos foram criados sem qualquer referência de afeto”

Humberto Baltar
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Fabrizio Lenci/Ilustração

Paternidade também é uma questão de equidade de gênero

Um dos entraves para que relações paternas responsáveis e afetivas como essas se estabeleçam são os estereótipos restritivos de gênero. Muitas famílias entendem que as tarefas de cuidado são responsabilidade das mulheres ou, ainda, que elas são necessariamente cuidadoras mais capazes que os homens. Não há uma garantia biológica que determine isso. Trata-se de prática, e muita. Desde a infância, brincadeiras como mamãe e filhinha, professora e aluna, ensinam o cuidado quase de forma compulsória.

“É urgente a necessidade de mudanças quanto ao comportamento por conduta de gênero. Precisamos definitivamente desassociar tarefas, brinquedos, responsabilidades e oportunidades ao gênero. Homens que criam e educam seus filhos não são super pais, mulheres que optam pela carreira não são menos mulheres. Uma mãe solo não é guerreira, provavelmente é alguém sobrecarregada de responsabilidades que deveriam ser divididas igualmente entre os responsáveis. O homem que trabalha fora e cuida dos filhos, faz as mesmas coisas que grande parte das mães fazem há muitos anos!”, diz o produtor de conteúdo Cézar Sant’Anna, pai da Fernanda.

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Ao todo, as mulheres são responsáveis por 75% de todo o trabalho de cuidado não remunerado do mundo. De acordo com a pesquisa Tempo de Cuidar da Oxfam, divulgada em 2019, são 12,5 bilhões de horas, todos os dias, de trabalho não remunerado. Se essa contribuição fosse valorizada financeiramente, haveria uma injeção de US$ 10,8 trilhões por ano à economia global. 

A comparação feita acima por Cézar não é casual. Homem trans, ele vivenciou etapas parentais que, na maioria das vezes, são limitadas às mães. “Eu sempre digo que minha história como pai começou com minha história sendo mãe, e isso é maravilhoso! Se fosse possível, é uma experiência que gostaria que todos os homens cis ou trans pudessem ter. Gerar o filho, amamentá-lo, sentir que ele se acalma tão somente com o som da sua voz e seu acolhimento é fantástico e cria intimidade”, diz. 

“É urgente a necessidade de mudanças quanto ao comportamento por conduta de gênero. Precisamos definitivamente desassociar tarefas, brinquedos, responsabilidades e oportunidades ao gênero”

Cézar Sant'Anna

“Ser pai é aprender enquanto ensino e ensinar enquanto aprendo. Ninguém nasce com as habilidades necessárias para desenvolver um outro ser humano, mas no mesmo momento em que nasce um filho, nasce um pai. Um ponto que me incomoda é o modelo de homem virilizado que não pode expressar seu afeto e precisa ser um exemplo de perfeição, o que não existe. Quando erramos e admitimos aos nossos filhos, damos a oportunidade deles errarem. Dar a um filho um exemplo de perfeição é limitá-lo no seu desenvolvimento. Precisamos que os homens falem sobre o afeto, que cuidem de sua saúde, que amem seus filhos, que sejam parceiros de brincadeira e que os filhos respeitem por admiração e não por medo”, completa Cézar.

Embora educar os homens sobre essas possibilidades não seja uma responsabilidade das mulheres, já sobrecarregadas, é comum que as mães e esposas atuem em prol dessas transformações. O Força de Pai, por exemplo, evento nacional criado em 2017 e que nesse ano foi promovido online gratuitamente em razão da pandemia (com mesas que discutiam das masculinidades à branquitude), é uma idealização da educadora e coach Kika Moreira. Rodrigo Morais, que atuou na organização em 2020, conheceu o evento no ano de estreia graças ao incentivo da esposa, Carolina Miranda.


“Eu vi a propaganda na época, foi a Carol, minha esposa, que mostrou. Achei interessante, comprei ingresso, chamei mais dois amigos de trabalho e fomos para lá. Eram praticamente 200 caras ali juntos, e eu nunca tinha estado em um ambiente masculino com aquela tranquilidade. Não houve um empurrão, uma trombada com cara torta, ninguém gritou nome de time, ninguém fez algum comentário de julgamento. Aquilo ali para mim foi muito importante, me fez ver coisas que eram pertinentes à paternidade que eu não tinha pensado”, diz. 

“Eu saí direto da casa da minha mãe para morar com ela, e tinha tudo para reproduzir várias questões machistas. Felizmente, não rolou. A Carol tem uma mentalidade muito forte e me ensina muito até hoje sobre ser homem, ser adulto, sobre ser pessoa mesmo. O meu respeito a ela se transformou em respeito à mulher de forma geral, e perdi muitos dos preconceitos com os quais a gente cresce, como objetificação da mulher. Tenho depressão diagnosticada desde 2017, e entendo que não existe saúde mental com machismo, racismo ou homofobia. Não dá para você ter uma sociedade mentalmente saudável se você tem pessoas que não podem viver uma vida tranquila sem ser abordado pela polícia, pessoas que são julgadas, apanham ou morrem pelo fato de serem gays, lésbicas ou trans. Mulheres sobrecarregadas ou que são mortas simplesmente porque o cara não aceitou que ela não é uma propriedade dele, e sim um ser humano”.

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Fabrizio Lenci/Ilustração

Informação é ferramenta… 

Refletir sobre a paternidade não é, necessariamente, um hábito tradicionalmente cultivado entre os homens. E para saltar além do cuidado meramente funcional — que cumpre tarefas, mas deixa a carga mental de pensar os cuidados a cargo das mulheres — os homens precisam ter disposição para correr atrás de informações que não costumam ser passadas de pais para filho ou mesmo entre os amigos de longa data.

“Quando estava vivenciando a gestação com minha parceira, tentei ampliar o meu repertório de conhecimento sobre essa nova jornada que eu estava começando a vivenciar. Me deparei com uma falta de rede de apoio masculina. Quando eu ia falar com meus amigos, mesmo que de muitos anos, sobre o que estava sentindo ou perguntar como tinham sido as experiências da paternidade, da gestação, como tinha sido o parto, sempre caía em um papo muito superficial. Confesso que em algum momento eu me senti um pouco sozinho, né? Fiquei sem referências, senti falta de um norte para minha própria paternidade” conta Tiago Koch, pai da Iara. A experiência pessoal serviu de fagulha para a criação do projeto Homem Paterno, que oferece suporte e orientação para homens com foco em gestação, parto e puerpério.

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“Isso ficou muito forte principalmente no puerpério. Comecei a vivenciar junto com minha parceira muitos desafios dentro da nossa relação, e mergulhei de cabeça nos estudos dessas fases. Hoje ofereço para outros homens esse suporte que fez tanta falta para mim. Acredito que seja uma experiência rica e importante para quem está em busca de ocupar esse lugar de cuidador e de pai da melhor forma possível”.

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Embora seja um médico obstetra experiente em São Paulo, Felipe Favorette só se conscientizou sobre a necessidade de preparar os pais para as mudanças significativas pelas quais as famílias passam quando ele também se tornou pai. “Tenho me preocupado com as mamães e os bebês nos últimos 15 anos. Até que nasceu Carolina, minha filha. Pude estar em casa ‘puérpero’ com minha esposa por 40 dias, um privilégio. Após voltar a trabalhar, não dormia direito. Descobri que estava hipertenso e me coloquei a pensar desde quando. Estive com minha esposa em todas as consultas do pré-natal e, mesmo estando visivelmente acima do peso (e com asma descontrolada!) A ‘saúde do pai’ nunca havia sido pauta”, diz. 

“Foi então que percebi essa enorme lacuna existente e decidi que atenderia também os pais. Criei o Paternatal. Durante a gravidez o pai tem uma consulta voltada para ele, um checkup em termos de saúde física, mas também apoio para o ‘nascer’ do pai. Afinal, todo processo que envolve o pós parto e a amamentação podem sim ser muito turbulentos na vida do casal; Temos um grupo de WhatsApp chamado ‘grávidos e recém-nascidos’ para troca de experiências e, confesso, tem sido algo muito interessante”. 

…mas o repertório precisa furar a bolha 

Alguns dados dão conta de que algumas mudanças já estão ocorrendo. Em 2019, de acordo com dados do IBGE, 80,6% dos homens brasileiros com mais de 14 anos se dedicaram a afazeres domésticos ou de cuidados com as pessoas. Trata-se de um avanço, uma vez que eram apenas 74,1% em 2016. No entanto, a discrepância ainda é grande. Os homens gastam em média 11 horas semanais com afazeres domésticos, contra 21,4 horas das mulheres. 

Bruno Amorim, do podcast Balaio de Pais, entende que a conversa ainda é restrita a determinados círculos. “Ter grupo de pais online, rodas de conversas, homens pensando junto a suas companheiras como será a criação do filho e saindo do lugar apenas do procriador são avanços. Agora, isso tudo atinge uma parcela bem pequena de homens”, diz. 

“Levando o papo pra periferia, isso tudo se torna mais delicado. Estamos falando de pais que passam muito tempo longe de casa, que não estão discutindo bem estar social, que replicam o machismo (assim como os outros), mas que também sofrem com as estruturas capitalistas e racistas que os impedem de alcançar aquilo que pode ser melhor pra si e para os seus. Pais pretos e periféricos têm que, antes de tudo, ensinar a seus filhos como sobreviver”, explica com a ciência de quem é pai de dois meninos negros, Benício e Noah. 

“O homem preto precisa criar um repertório ainda maior que o homem branco para educar seus filhos e suas filhas, principalmente para lidar com as situações de racismo que eles ou elas venham a sofrerem”, diz Luciano, do Promundo. “Neste sentido, estou lançando em novembro um livro sobre a relação de um pai e filho pretos, onde o menino vivencia uma situação de racismo e o pai precisa cuidar e empoderar o menino. O afeto é o primeiro lugar para o empoderamento”. 

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Fabrizio Lenci/Ilustração

Um pai melhor é, por conseguinte, um homem melhor

As mudanças que precisamos experimentar como homens-pais começam no nível prático, de cuidado direto, mas passam também pela qualidade da presença emocional (conexão, afeto) antes de se efetivarem as transformações pessoais capazes de, ao se tornarem compromissos coletivos, alcançar o nível social.

“É imprescindível que as políticas públicas reconheçam o homem enquanto cuidador e apoiem o cuidado paterno para o desenvolvimento da criança pequena. Precisamos ter licenças-paternidade estendidas; políticas de transferência de renda que incentivem a paternidade cuidadosa e participativa; agentes do sistema de garantia de direitos que entendam a importância da figura paterna no desenvolvimento infantil”, enumera Luciano. “Ainda hoje, há um olhar para a figura masculina como periférica no cuidado. Isso está ligado ao modelo machista de sociedade em que estamos inseridos. Atuar nos espaços de advocacy nos faz entender que precisamos agir em todas as esferas para que todos sejam afetados por outros exercícios de masculinidades e paternidades”.

Essa relação indissociável entre o exercício consciente da paternidade e masculinidades mais benéficas é percebida por Felipe Ramos. Sócio do PapodeHomem, viu o projeto sobre masculinidades amadurecer conforme ele também se tornava pai do Noah. “A paternidade começa a ser abordada durante o processo de produção da pesquisa e documentário ‘Precisamos falar com os homens?’, construído em conjunto com a ONU Mulheres. Mapeamos os sete gatilhos da transformação dos homens, e a paternidade é um dos principais. A partir desse momento começamos a produzir o evento PAI, os desafios das paternidades atuais, que acontece todos os anos em Agosto”, diz. 

“O principal é oferecer espaços seguros para que os homens possam se vulnerabilizar, falar das dores, angústias, sem medo de julgamento. E também levar novas possibilidades, novos caminhos para paternidades mais equitativas”

Tiago Koch

“O principal é oferecer espaços seguros para que os homens possam se vulnerabilizar, falar das dores, angústias, sem medo de julgamento. E também levar novas possibilidades, novos caminhos para paternidades mais equitativas, com mais disponibilidade afetiva, com mais responsabilidade”, diz Tiago Koch, que também atua na organização do evento. 

Embora a movimentação ativa de homens em busca de transformar suas paternidades seja necessária e bem-vinda, é importante tomar cuidado para que esses espaços paternos não sirvam para garantir mais um espaço de poder aos homens dentro das famílias e, sim, endereçar mudanças urgentes de forma profunda. 

“A ‘reeducação’ de jovens e adultos que são pais mas não participam de forma igualitária na vida das crianças, sobrecarregando as mulheres, passa por ensinar o respeito e cuidados de si, mas também do outro e do ambiente que nos rodeia. Temos muito caminho a percorrer e muitos homens e pais para colocar nesse diálogo”, completa Bruno Amorim.

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