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Os irmãos vrum vrum

Na estreia da nossa seção de contos, Heitor Flumian conta a história de garotos malvados em uma cidadezinha pacata no meio do Brasil

por Heitor Flumian Atualizado em 5 nov 2020, 11h13 - Publicado em 2 nov 2020 22h54

1.

A primeira vez que vi os irmãos vrum vrum foi agachado atrás da mureta do portão de casa, por entre as estacas de ferro. Meu amigo Lucas também se escondeu. Uma pipa solitária cortava o céu sem nuvens, no horário em que as mães gritavam das janelas vou contar até três e ai do filho que não voltasse para tomar banho e jantar. Um bando de garotos descalços havia passado correndo alardeando, em meio a gargalhadas, as pessoas a tomarem cuidado. Foi na esquina do jardim da igreja, os dois desceram a rua tremelicando e, se não chegavam a correr, caminhavam desembestados, braços levemente retorcidos, batendo cabeça e resmungando. Vestiam calças de linho que sobravam na cintura e nos pés. Os sapatos também pareciam ser sobras. Gêmeos idênticos. Olharam três vezes antes de atravessar a rua, e viraram no quarteirão errado.

Não me recordo se alguma vez chegaram a alcançar e pegar de jeito alguém que os provocasse. Éramos muito ligeiros nessa idade, mesmo o Lucas, gordinho, e nos tornávamos mais ainda com nossos kichutes pretos com que rodávamos a cidade. E eles eram velhos na época: uns cinquenta anos. Tinham os cabelos cor de geada, cortados rente à cabeça igual ao de soldados americanos, e as barbas, que não passavam nunca de três dias, lembravam fiapos de algodão. As testas eram pequenas demais para as cabeças e as mandíbulas de cavalo abrigavam muitos dentes abandonados. Eram altos, um tanto corcundas, e as saboneteiras marcavam as camisas quase sempre surradas, mas nunca fora das calças. Quando não estavam mirando o chão, os olhos estrábicos se encontravam muito próximos ao nariz.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

Algumas mulheres diziam que tinham o físico dos homens de pau grande; fizeram até um bolão que acabou sem vencedora porque ninguém quis tirar a prova. Quem chegou mais perto foi o filho da empregada da minha vizinha, que, descobri mais tarde, fazia programa, e apesar da proximidade, quase nunca o via nos horários e nos lugares pelos quais perambulava. Era uma comunidade em que pais de família saíam com meninos mais novos e, quando bebiam demais nos churrascos, soltavam na roda dos homens que haviam comido uns viadinhos. Eu ficava imaginando se o menino era um deles, mas logo me distraía com coisas bobas, como me medir no banheiro da escola com essas réguas de trinta centímetros. Depois, era a vez do Lucas. Nos faltavam parâmetros, além de critérios. Mas foi assim a nossa descoberta do que era margem de erro e projeção de crescimento, e elas nunca importaram tanto.

Um dos irmãos vrum vrum jurava que tinha uma namorada, moraria num sítio longe dali, embora o boato fosse que já tinha sido pego traçando éguas e até ovelhas. O outro costumava ser visto com uma tampa de lata de tinta nas mãos, fingindo ser um volante, dirigia apenas na calçada. Ninguém sabia se o apelido vinha daí, mas se alguém gritasse vrum vrum perto deles, passavam a respirar mais forte, balançar a cabeça e emitir grunhidos incompreensíveis. As bocas espumavam. Uns diziam que a última coisa que ouviram do pai ao deixá-los foi o arranque do motor do carro em que se mandou; outros que, por conta das orelhas grandes, conseguiam ouvir mais, como cães, e se assustavam com receio de morrer atropelados. Não sei se fazia sentido. Mas, naquele tempo, as coisas não precisavam fazer sentido. Também não sabia se era verdade que quando chegavam em casa com raiva, um casebre de madeira na última rua de asfalto, batiam na mãe.

Dona Olga. Era uma senhora mirrada, já em idade avançada, vivia com uma pensão do estado e com óculos de lentes grossas. Só saía para varrer as folhas da calçada. Não era vista nem nas concorridas quermesses, onde a cidade toda se reunia, e os irmãos apareciam de tempos em tempos. Quando isso acontecia, eram amparados por membros da pastoral que, ao passar pela mesa de canto em que os dois eram colocados, deixavam no prato pedaços de frango assado já desossados para comerem como crianças. Ao chegar ou ir embora de algum lugar, faziam questão de cumprimentar as pessoas com um aperto de mãos, abaixando a cabeça em reverência. Mas, como as mãos muitas vezes seguiam engorduradas, lhes sobravam quando muito tapinhas nos ombros. E a caminhada para casa transcorria em um silêncio que engrossava conforme a voz do bingo beneficente e o sertanejo das caixas de som se confundiam e perdiam força a cada esquina.

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Se havia um momento em que esboçavam um traço de felicidade, era quando alguém na cidade morria. Com chapéus de feltro e suas melhores camisas, desciam a rua sem saída que levava até o cemitério, uma via larga margeada por carvalhos, antes da chegada das primeiras coroas de crisântemos. Conhecessem o defunto ou não. Na sala destinada ao velório, ficavam em pé por horas, com os braços cruzados na altura do umbigo, o chapéu em uma das mãos, a outra livre para os cumprimentos.

— Meur pêsam. Meur pêsam.

Quem vinha de longe para a cerimônia, se perguntava se eram da família; quem era da família, que intimidade era essa que teriam com o morto; e, se de fato tinham alguma admiração, por que pareciam conter um riso torto incitado por uma piada muito boa? E que diabos era aquele volume que sobressaía por debaixo do chapéu? Não pode ser.

Viravam a noite em vigília, se precisasse, feito seguranças de porta dos bailes a que nunca iam. Limitavam-se a lançar olhares por cima dos ombros a quem aproveitava para botar o papo em dia do lado fora, sobretudo às crianças que não demoravam em armar um pega-pega ou um esconde-esconde. No momento do cortejo, escoltavam o caixão de perto, agarrariam uma das alças se deixassem, e gemiam fora do tom os cantos religiosos. Costumavam se emocionar nesse trecho; eu e o Lucas apostávamos que as lágrimas do olho direito escorriam pela bochecha esquerda, e vice-versa.

Em meio aos túmulos e as placas de concreto e mármore, estendiam as mãos em direção aos coveiros, ocupados e desentendidos, e se alvoroçavam com a possibilidade do morto ser maçom. Menos pelo ritual de se colocar um avental branco e ramos de acácia sobre o corpo prestes a ser lacrado que pela roda de homens, vestidos com avental semelhante, respondendo a uma espécie de chamada oral. O nome do falecido era anunciado por último e todos respondiam, com firmeza, presente, presente, presente! Os vrum vrum abafavam a voz com os chapéus: pesenti.

Na caminhada de volta, se topassem com outro velório, o que era raro mas acontecia, retornavam aos seus postos, não sem antes passar pelo banheiro que ficava nos fundos, murmurando para quem cruzasse o caminho:

— Sintu muin, sintu muin.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

2.

A ideia foi minha. Mas, o plano inicial era fazermos tudo a pé. Assim que eles entrassem na rua da feira, nos misturaríamos à multidão, gritaríamos vrum vrum pelas suas costas e correríamos; poderia ser cada um para um lado. Ainda não tínhamos feito isso nós mesmos e era quase um rito de passagem não dito. O risco de sermos pegos era pequeno, além do mais, sabia que se isso acontecesse, as chances do Lucas ficar para trás eram muito maiores; se alguém fosse se dar mal, não seria eu. Acontece que o Lucas insistiu porque insistiu que devíamos ir de bicicleta, tinha acabado de ganhar do pai que vivia no Texas uma Caloi 18 marchas, laranja e azul-escuro, tampão da Bad Boy no pneu traseiro. Uma máquina. Acabei cedendo porque também queria dar umas voltas com ela.

E assim foi. A diferença em relação ao plano original é que deixamos nossas bicicletas encostadas num caminhão carregado de melancias, e que o Lucas, não sei se pelo medo ou pela emoção em batizar o novo brinquedo, pedalou como se sua vida dependesse daquilo e sumiu no mundo; me deixou na poeira. A primeira pedra que lançaram passou de raspão na minha cabeça; a segunda, também; e a terceira quebrou o vidro do carro que me atropelou. Só me lembro de pessoas me olhando com as mãos na boca e na cabeça, legumes rolando pelo chão e gritos:

— Voltem para o “manicônio”, seus retardados!

Acordei no hospital e meu pai estava mais bravo do que aliviado. Perguntou, chacoalhando-me pelos braços, o distintivo pendurado no pescoço bateu no meu queixo, se eu tinha alguma culpa naquilo. Fiz que não com a cabeça, mais de uma vez. Ele me encarou por uns segundos e saiu batendo a porta. No dia seguinte, a enfermeira disse você não sabe o que aconteceu, e eu gelei. Contou que ele tinha encurralado os irmãos vrum vrum e dado um soco na cara de cada um, um com a esquerda e um com a direita. Só se fala disso na cidade, disse, em tom de lamento. Deitei de lado para esconder minha reação e falei que precisava dormir. Enfiei a cara no travesseiro e gritei. No fim da tarde, o Lucas apareceu na rua do hospital com a sua bicicleta, fez um gesto perguntando se eu queria andar com ela e me deu um joia pela janela.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

3.

O Lucas era inocente para algumas coisas e contou para sua mãe que nós tínhamos usado a régua escolar. Ela era dona de uma locadora, passava o dia atrás do balcão de top e camiseta regata, fumando e fazendo palavras-cruzadas. Falou que podia nos ajudar. Nas semanas em que usei muletas, passamos bastante tempo lá jogando videogame mas, principalmente, assistindo numa salinha dos fundos a alguns filmes pornô selecionados por ela. Dizia algo de nos preparar para a vida, que um dia a agradeceríamos. Que não contássemos a ninguém. E fechava a porta ao sair.

O Lucas não tinha tantos amigos, mas foi ficando bastante popular entre a molecada que começou a lotar a locadora; exceto com os meninos descalços, que não eram bem-vindos porque sempre davam calote. Os que entravam, consumiam mais horas de videogame, picolés, babaloos, cheetos e acabavam também com os rolos de papel higiênico. O controle do vídeo ficava com ele e eu era o único que tinha poder de voto. Por sorte, concordávamos em adiantar as fitas VHS direto para a parte que gerava mais comoção entre a maioria dos espectadores: o close nos peitos.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

Teve um feriado em que ele e a mãe viajaram para ver sua avó e eu fui pra locadora jogar Mario Bros. Havia pouco movimento e a menina que quebrava um galho de atendente fez vista grossa quando entrei na seção de adultos, separada das demais por uma cortina de veludo roxa. O acesso à salinha do 5 contra 1, como a apelidamos, se dava por uma porta mais adiante, cujo esconderijo da chave só nós três sabíamos. Aproveitei que estava sozinho para revirar o lugar: pôsteres de filmes antigos, personagens de desenhos animados feitos de papelão em tamanho real, um estoque de cigarros Hollywood, garrafas de cerveja e vinho vazias. Uma gaiola sem pássaros. Eu esperava que em algum lugar, entre os clássicos Jorrada nas estrelas e O exterminador do teu furo, deveria haver pelo menos uma fita de sadomasoquismo ou algo ainda mais pesado. O que encontrei, no entanto, foi uma câmera filmadora escondida dentro de uma mochila e apontada para o sofá em que nos sentávamos durante as sessões.

4.

Daquela vez, a ideia foi do Lucas. E era brilhante. Seu pai tinha mandado outro presente, um carrinho de controle remoto, chegava a 15 quilômetros por hora. Devia ser o primeiro daquele modelo na região. Ele disse que não ia deixar ninguém dirigir, eu perguntei nem eu, e ele desconversou. No domingo pela manhã, esperamos os irmãos vrum vrum saírem da missa e tratamos de chamar a atenção deles com o carrinho. No jardim da igreja havia um coreto erguido bem no limite do desnível que dava para uma praça na parte inferior, entre duas escadarias. Embaixo do coreto ficava um banheiro público usado apenas por andarilhos que passavam a noite ali e costumavam deixar tudo mijado, até merda já tinham espalhado pelas pias. O fedor não saía, as paredes viviam pichadas e a prefeitura acabou desistindo do lugar.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

A entrada do banheiro se dava pela praça e conseguimos fazer com que os irmãos seguissem o carrinho até lá; o Lucas foi tão rápido e preciso em dar ré e tirar o brinquedo dali quanto os meninos descalços em fechar a porta com um pedaço de madeira trancando os dois. Além do bando deles, também estavam uns garotos meio nerds que iam à locadora direto e até o filho da empregada da vizinha se acercou curioso com o movimento. Observei tudo sentado num banco, atento, também, ao redor, se nenhum adulto chegaria para acabar com a graça.

A escadaria permitia que chegassem na altura das janelas do banheiro, por onde gritaram vrum vrum por longos minutos, todos eles, feito um coral desafinado, até ficarem roucos ou engasgarem com a própria risada. O eco era tremendo e os irmãos gritavam de volta, esmurravam a porta, a pia e, por fim, um ao outro. Até que silenciaram e aos poucos cada um foi tomando o seu rumo. Caminhei de volta para casa, passei os dedos pelas estacas do portão de ferro, como costumava fazer, como se tocasse as cordas de uma harpa, e fiquei sentado na área, observando de longe qualquer movimentação próxima ao banheiro. Fui tomado por uma ansiedade. Um jardineiro ouviu as batidas na porta e os ajudou a sair.

Meu pai não estava de plantão naquela noite, mas teve que sair por volta das nove da noite. Vi que levou a arma no coldre. Tentei ficar acordado para saber na volta dele o que tinha acontecido, mas fui vencido pelo sono. Tinha sido um dia e tanto. Estava tão cansado que não sonhei. Pela manhã, as olheiras do meu pai eram terríveis, e ele me contou que os irmãos vrum vrum estavam presos. E a dona Olga, morta. A socos, pontapés e com a tampa da lata de tinta afundada na testa. Quando entrou na casa, os dois estavam sentados no sofá, com sangue até nos cabelos brancos, e a televisão ligada na banheira do Gugu.

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Julia Jabur Zemella/Ilustração

Implorei a ele que me deixasse vê-los na prisão, ele perguntou se eu estava louco, que assim que a cidade acordasse e soubesse do acontecido uma multidão tentaria entrar na delegacia, que nunca tinha acontecido um crime desses na região, que quando pais começassem a matar filhos e filhos começassem a matar pais isso seria um sinal do fim dos tempos, que eu não tinha noção dos animais que eles eram, que as lentes dos óculos da velha tinham se voltado para os olhos como lâminas, que uma parte do cérebro tinha escorrido do crânio rachado e caído naqueles sapatos imundos deles, que não conseguiria mantê-los numa cela separada por muito tempo, que seriam machucados pelos outros presos de maneiras inimagináveis e ele não poderia fazer nada, que o mundo era um lugar muito, muito fodido, e que se soubesse de tudo antes não teria tido filhos. Eu ouvi tudo muito quieto, mesmo porque minha mente tinha ido para outro lugar fazia tempo. Na minha vez de falar, disse que o pai do Lucas, mesmo longe, dava mais presentes do que ele e como nunca tinha pedido nada, que poderia ao menos me deixar cinco minutos com os irmãos vrum vrum. Vai se foder, ele disse. Meia hora depois, mandou eu me trocar.

Entrei na garagem da delegacia escondido no porta-malas do carro. Pelo barulho lá fora e pelos murros no carro, devia ter muita gente. Enquanto meu pai foi checar o movimento lá na frente, para onde tinham ido a maioria dos policiais, me esgueirei para a área onde ficavam os presos. Passei pelo corredor de celas tentando olhar só para frente, até que ouvi alguém gritar meu nome, reconheci um dos meninos descalços, devia ter sido pego com maconha, e apertei o passo. Tinha ido lá apenas uma vez, mais novinho, mas me lembrava de que havia uma única cela isolada e era nela que os irmãos vrum vrum estavam de costas para quem chegasse, olhando pela pequena janela por onde entrava a luz que permitia ver que suas camisas estavam por fora das calças. Pareciam inquietos, trocavam olhares, palavras que eu não conseguia entender. Passei os dedos pela grade de ferro e, então, eles me olharam assustados, mas logo deixaram aparecer um sorriso torto. Apontaram para janela e, se entendi bem, disseram que o dia deles tinha chegado, que muita gente iria cumprimentá-los e dizer sintu muin, sintu muin.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Julia Jabur Zemella. Confira mais de seu trabalho aqui

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