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Eu que não quero ser “normal”

Dos rótulos de produtos à definição do dicionário, a normalidade na nossa sociedade exclui e machuca. Será que não chegou a hora de rever o que é normal?

por Alexandre Makhlouf 19 mar 2021 01h00
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Clube Lambada/Ilustração

e teve uma palavra que a gente escutou em excesso no último ano, quase sempre mal aplicada e causando um revirar intenso de olhos, essa palavra foi “normal”. Logo no início da pandemia, nos forçaram garganta abaixo a expressão “novo normal”, que glamourizava horas eternas de trabalho em um home office forçado – para quem teve essa opção, claro – e um discurso de coach para tentarmos fazer o melhor com o que nos era entregue por um cenário pandêmico, de medo de contágio e isolamento social. Teve até revista que colocou “novo normal” na capa, tentando surfar na onda da expressão da moda e, mais uma vez, falhando miseravelmente. Especialmente porque, no Brasil, colocar Gisele Bündchen representando normalidade em meio a uma catástrofe sanitária mundial só pode ser feito se você ignorar o verbete “normal” do dicionário.

Mas, antes que isso daqui pareça um ataque direto, feito com quase 12 meses de atraso, a uma expressão que envelheceu como leite fora da geladeira, volto ao assunto da normalidade com notícias mais quentes. Há poucas semanas, a Unilever, um dos maiores conglomerados do mundo no varejo de beleza e produtos de higiene, anunciou que finalmente vai remover de todos os seus produtos pelo mundo a palavra “normal”. Isso mesmo: onde se lia antes “para cabelos normais” em um shampoo, agora eles vão usar outra definição. Ainda bem. A decisão veio junto a um comunicado do presidente de produtos de beleza e cuidados pessoais, Sunny Jain, em que ele afirma que “remover ‘normal’ dos produtos e embalagens não vai resolver o problema, mas é um importante passo à frente”.

Sabia que, no dicionário Michaelis, algumas das definições para a palavra normal são “tudo que é permitido e aceito socialmente” e “diz-se de pessoa que não tem defeitos ou problemas físicos ou mentais”?

Ainda que, para quem nunca se adequou a um discurso de normalidade, pareça que demorou muito para que uma empresa desse tamanho e cheia de profissionais capacitados tomasse uma decisão tão simples, é extremamente positivo que isso aconteça. É verdade, não resolve, mas traz representatividade. Palavras têm poder e isso daqui não é um papo místico coberto de incensos e cristais. Sabia que, no dicionário Michaelis, algumas das definições para a palavra normal são “tudo que é permitido e aceito socialmente: Divorciar-se é prática bastante normal hoje em dia” e “diz-se de pessoa que não tem defeitos ou problemas físicos ou mentais: Um aluno normal“? Você, que se encaixa nessa dita normalidade – e, por normalidade, estamos falando em pele branca, cabelos lisos, nenhuma deficiência física ou intelectual, heterossexual – já pensou o impacto que tem pegar um livro de definições e descobrir que, só porque você não se encaixa em determinadas definições, a sociedade, o mercado e os outros te consideram uma aberração?

novo normal

Você quer mesmo ser normal?

Esse papo todo sobre normalidade surgiu em uma das nossas reuniões de pauta e, desde então, ficou rondando a minha cabeça. Me peguei pensando em quantas vezes já quis me sentir normal, parte de um todo que nunca iria me aceitar de verdade, e quantas vezes foi exatamente na não-normalidade – inventando essa palavra porque eu me recuso a me chamar de anormal – que eu mais me encontrei. Acho importante lembrar que tudo isso que estou falando vem de um lugar de percepção de uma bicha branca privilegiada de São Paulo. Se, para mim, ler esse tipo de coisa já causa desconforto no estômago e vontade de xingar, posso apenas imaginar o que esse tipo de discurso não causa em pessoas pretas, transexuais, amarelas, indígenas, PCD, que são muito mais estigmatizadas e sofrem muito mais com o preconceito do que eu.

Esse, inclusive, é um dos motivos que me trouxeram para cá há pouco mais de um ano: sabia que a Elástica não teria nada de normal dentro da mídia e dentro das oportunidades profissionais que já tinham aparecido pra mim, porque iríamos contemplar toda essa galera e toda essa diversidade que citei – e já estava mais do que na hora. Diversidade essa que, mais do que discurso, é dever nosso de apoiar, principalmente no caso de quem sempre foi considerado “normal” pela sociedade. Substituir o uso dessa palavrinha que pode causar tantos sentimentos ruins nos outros por “comum” ou “mais praticado”, “de ocorrência maior” pode parecer um esforço além da conta se a normalidade sempre te serviu, mas é o tipo de cuidado que mostra atenção e consideração por quem difere de você. E, mesmo nestes casos, vale sempre pensar: essa normalidade, essa noção de que determinada coisa é mais comum, realmente se prova ou é imposta por algum preconceito da sociedade? Se você achar que tudo bem continuar usando “cabelos normais” para definir cabelos quase sempre lisos e isso estar no rótulo de um produto vendido no Brasil, país com mais da metade da população negra, me parece termos um problema bem maior do que apenas uma palavra.

Substituir o uso dessa palavra que pode causar tantos sentimentos ruins nos outros por “comum” ou “mais praticado”, “de ocorrência maior” pode parecer um esforço além da conta se a normalidade sempre te serviu, mas é o tipo de cuidado que mostra atenção e consideração por quem difere de você

Chego no fim desse texto lembrando de uma coisa que acontecia com alguma frequência antes da pandemia. Minha turma de amigos e eu tínhamos o hábito de fazer piada com isso e, numa tarde de ressaca depois de alguns drinks a mais na noite anterior, mandar uma mensagem bem humorada escrito “como será que é ser normal?”. E, na maioria das vezes, dávamos risadas e chegamos à conclusão de que ser normal, além de ser uma definição datada e um pouco cafona, deve ser um saco. Por isso, se o shampoo para cabelos normais te excluir e te causar violência de alguma forma, tente lembrar que tudo que é normal, na maioria das vezes, não é especial.

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