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‘Esses olhares me consomem. Não me veem como homem’

O cantor Nick Cruz constrói seu espaço no gênero pop e se coloca como um nome importante por maior representatividade de homens trans na música

por Heloisa Aun Atualizado em 1 abr 2021, 16h08 - Publicado em 30 mar 2021 23h54
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Clube Lambada/Ilustração

pouca idade do artista Nick Cruz, nascido em Vitória, no Espírito Santo, esconde anos de amadurecimento que vivenciou desde a adolescência, quando saiu de casa em busca de oportunidades e liberdade. Nesse meio tempo, trabalhou com diferentes funções para pagar as contas e conquistar sua independência. Hoje, aos 23 anos, encontrou uma nova trajetória em sua carreira na música pop ao assinar contrato com a gravadora Warner Music Brasil, no final de 2019, e se mudar para o Rio de Janeiro em meio à pandemia. Para o cantor, que é homem trans, a arte transforma a vida das pessoas e é a partir dela que ele busca maior representatividade à letra T da sigla LGBTQIA+.

Criado pela mãe e a esposa dela, Nick cresceu em um núcleo familiar bastante livre e já durante a infância via indícios de que não era do gênero imposto pela sociedade. Mais tarde, aos 15 anos de idade, decidiu mudar-se de sua cidade para Guarapari, no Espírito Santo. Essa nova fase abriu luz para muitos aspectos que não entendia sobre sua existência. Lá, teve contato, pela primeira vez, com um homem trans, com quem pode ouvir e trocar sentimentos. “Chegou em um ponto que falei: é isso, não existe outra coisa que eu me identifique mais”, afirma.

A autoaceitação do capixaba nos últimos anos tem reflexos em sua música, principalmente na parte da escrita. “Um papel muito importante da transição é que eu vejo que o Nick consegue enxergar o processo de vários pontos diferentes. E, a partir disso, consigo falar e me expressar mais”, diz. Seu primeiro lançamento independente, “Me Sinto Bem”, de 2019, atingiu a marca de 1 milhão de visualizações. Desde então, o cantor lançou mais duas músicas, “Até de Manhã” e “Então Deixa”, e tem outras em fase de criação.

Abordar a transfobia, seja nas letras ou nas redes sociais, tornou-se parte do trabalho do artista. A música que está atualmente “dentro de seu peito”, mas não foi lançada e nem recebeu um nome, trata sobre esse assunto, como revelou no trecho a seguir: “Esses olhares me consomem / Não me veem como homem / Onde será que o nosso mundo se perdeu? / Almas que mentem se escondem atrás de um codinome / Eles querendo consumir meu corpo / Enquanto eu só quero mudar de nome, só quero paz e respeito”.

Seu sonho de parceria para o futuro? Fazer um feat com Gloria Groove, pois ela traz a referência e a raiz musical as quais ele admira. Internacionalmente, sua escolha seria Billie Eilish. “Claro que também adoro Anitta, Ludmilla, entre outras”, completa. Em uma conversa sobre trajetória, identidade de gênero e sonhos, Nick reflete sobre a representatividade de seu trabalho às pessoas trans e à sociedade como um todo. Confira o bate-papo:

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BLACK3/Divulgação

Ainda hoje, há poucas referências de homens trans na música no Brasil e também no mundo. Como você, como trans e do gênero pop, percebe a falta de representatividade nesse mercado?
É de tamanha importância que as pessoas trans ocupem todo tipo de espaço, e eu tenho trabalhado muito para fazer isso mudar com urgência para fortalecer a cena musical. Na música, isso é mais essencial, pois a arte transforma muito a vida e a percepção das pessoas. Eu vejo que a mídia, por exemplo com as novelas, busca trazer essa mudança de alguma forma, mas é um assunto muito profundo para a gente generalizar de tal forma. Como homem trans, eu precisava ter alguém para me espelhar, mas não tive. A gente segue na luta tentando fazer nosso trampo e servir de exemplo para as gerações de agora. Tem muitas pessoas trans na música, no entanto, ainda não ganharam lugar de fala maior. Precisamos nos fortalecer. Os próprios integrantes da comunidade LGBTQIA+ precisam se fortalecer, porque existe um preconceito muito grande. É uma questão de dar as mãos de verdade.

“Tem muitas pessoas trans na música, no entanto, ainda não ganharam lugar de fala maior. Precisamos nos fortalecer. Os próprios integrantes da comunidade LGBTQIA+ precisam se fortalecer, porque existe um preconceito muito grande. É uma questão de dar as mãos de verdade”

Nick Cruz

Sem essa representatividade, quem foram e quem são atualmente suas inspirações para compor e cantar?
A minha mãe sempre curtiu muito música, por mais que não seja uma profissional. Em casa, a gente brincava de cantar no karaokê e essa era nossa diversão do fim de semana. Além disso, ela trouxe esse discurso da bandeira LGBT para a minha vida desde cedo. Eu cresci dentro de um casal lésbico, pois minha mãe foi casada com uma mulher durante oito anos e ela ajudou a me criar. Convivi com muitos amigos delas, inclusive outros casais homoafetivos e alguns que eram drags, então esse tema foi muito próximo da minha vida.

A partir da minha mãe, conheci muitos artistas. Mas quem me inspirou mesmo foram cantores cisgêneros. Na minha adolescência, gostava de ouvir música internacional, como Chris Brown e Justin Timberlake. Eu realmente não tinha referências de pessoas trans na época e só fui ter essa informação muito mais tarde. Hoje em dia, estudando todo o rolê da cena de agora, tenho muitas referências, no caso, Liniker, Gloria Groove e Linn da Quebrada, as quais acompanho e que me inspiram, tanto na música quanto em ideologia.

Seu trabalho ganhou maior visibilidade desde o início da pandemia, principalmente. Qual foi seu caminho trilhado e o que mudou desde que você lançou a sua primeira música independente, em 2019, até chegar onde está hoje, como a nova promessa da Warner para o gênero pop?
Minha vida mudou bastante nos últimos tempos. Sou um garoto que saiu de casa muito cedo, aos 15 anos, e tive poucas oportunidades, pois vim de família humilde. Não terminei o ensino médio, não tinha dinheiro para comprar passagem, por isso, tive que trabalhar com qualquer coisa. Eu fiz de tudo, ralei muito. Depois que os meus amigos abraçaram essa ideia da música, entrei para esse universo. As coisas foram caminhando e consegui lançar meu primeiro clipe, o “Me Sinto Bem”, com a ajuda de um colega que trampa com audiovisual e produziu a música. Por meio de contatos, conseguimos chegar no Rio de Janeiro. Estar na cidade e receber apoio de uma gravadora, que me dá estrutura para me preocupar somente com a música, está sendo ótimo. É o que todo mundo precisa: oportunidade para fazer o que gosta. Aqui tem pessoas que entendem e podem me encaminhar para me ajudar a desenvolver meus projetos e acreditar no meu sonho.

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Guto Costa/Divulgação

Sempre quis viver da música, mas não imaginava que seria possível. Quando tinha nove anos, falava para minha mãe: quero ser artista igual ao Chris Brown. E ela falava: não tem como, a gente não tem dinheiro. Aí ela comprava microfone, plugava no DVD e tudo mais. Nessa mesma época, via meu irmão indo para a casa de um amigo tocar. Um dia, meu pai foi embora para fora do país e perguntou: “O que você quer?”. Eu respondi: “Quero uma guitarra!”. Eu nem sabia tocar, mas ele mandou uma guitarrinha para mim. Eu gostava demais, tocava na escola e via que as pessoas gostavam do som. Aquilo fazia subir minha autoestima e me deixar bem. A gente nunca pensa que isso vai se tornar a sua vida profissional. Imaginar eu não imaginava, mas o sonho sempre existiu.

Em um momento difícil para a cultura do país, quais obstáculos você passou? Considerando que sua carreira cresceu bem nessa fase…
A gravadora chegou na pandemia. Ao mesmo tempo que fiquei angustiado, foi uma felicidade grande. Se não tivesse a gravadora, nem sei onde eu estaria. Por mais que a gente esteja nessa fase difícil, eu estou quieto, aproveitando meu tempo para produzir e inovar na minha música. Talvez eu não teria esse momento de analisar as coisas, mas é isso que tento fazer: buscar pensar mais sobre meu trabalho. No entanto, a ansiedade acompanha tudo. Por exemplo, eu poderia estar abrindo shows nacionais, teria um público maior e tudo mais.

E sua transição de gênero? Quando você a iniciou e como foi esse período na sua vida?
Fui criado pela minha mãe e a esposa, então minha cabeça sempre foi aberta sobre esses assuntos. Nunca tivemos problemas e nunca precisei me afirmar para ela sobre isso na adolescência, pois eu não tinha informação sobre ser trans. Eu me considerava uma pessoa lésbica até esse período. Mais tarde, quando saí de casa aos 15 anos, morei em Guarapari por causa de uma namorada. A irmã dela namorava com um rapaz trans e aí tive meu primeiro contato.

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No começo, eu mesmo fui um pouco preconceituoso, como muita gente dentro da comunidade LGBT. Aí comecei a dividir a casa com esse rapaz e a conhecer mais a respeito da vivência dele. Aos poucos, fui me identificando. Chegou em um ponto que falei: é isso, não existe outra coisa que eu me identifique mais.

Por mais que eu já estivesse masculinizado, em questão de roupas e aparência, ainda tinha essa angústia dentro de mim. Ele tirou essa angústia a partir do momento em que se abriu comigo. Mas iniciei minha hormonização bem depois, em 2020. Na época, eu morava em Guarapari e só tinha uma instituição especializada em Vitória. Além disso, nem tinha dinheiro, pois pagava contas enquanto estudava e trabalhava.

“No começo, eu mesmo fui um pouco preconceituoso, como muita gente dentro da comunidade LGBT. Por mais que eu já estivesse masculinizado, em questão de roupas e aparência, ainda tinha essa angústia dentro de mim”

Nick Cruz

A primeira maior dificuldade que eu tive nesse processo foi de fato encontrar a instituição que eu poderia iniciar o tratamento. É um preconceito institucional enorme. Não tinha informações em lugar nenhum e você tem que descobrir através de amigos. Aí você chega lá e não tem cartaz nem nada. É preciso saber o que falar, como: “Eu preciso entrar para o grupo de acolhimento de pessoas trans e iniciar o tratamento de hormonização”.

Embora tenham os profissionais, como endócrinos, psicólogos etc., eles não são capacitados para trabalhar com corpos trans. Só a assistente social que faz essa parte de acolhimento. Inclusive, muitas pessoas estavam lá como eu: sem a mãe ou o pai saberem. Não me senti confortável mesmo estando dentro de uma instituição que existe para isso. O constrangimento na parte institucional é o mais difícil e é o mais importante da transição.

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BLACK3/Divulgação

Ao se entender como homem trans, como foi o processo para contar a sua mãe e ao restante da família? Você foi recebido com acolhimento?
Quando eu assumi e decidi que me afirmaria para minha mãe, era menor de idade, porém já tinha saído de casa. Como os adolescentes não têm credibilidade no que falam, eu tive a seguinte atitude antes de tudo: fui ao endócrino, peguei todos os laudos e receitas de hormônios. Aí cheguei na casa da minha avó, sentei com minha mãe e contei: “Sou um homem trans. Fui no médico, entrei para o grupo de acolhimento, passei por uma assistente social e terei acompanhamento psicológico”. Me afirmei enquanto homem trans, mostrei os papéis, ela chorou um pouco e disse: “Bom, é isso. Ninguém pode falar mais do que você. Desde criança, você sempre se afirmava como garoto, queria sair com uma roupa e eu queria colocar outra”. A própria vivência que ela tinha comigo foi o bastante para explicar aquele momento.

Nessa época, já não vivia na cidade dos meus parentes. No entanto, algumas pessoas da família são bem conservadoras, minha mãe é a menos. No primeiro dia, ninguém consegue entender muito bem e, durante todo esse processo até hoje, eu estou bem distante. Mas sempre rola um respeito por parte do meu irmão, da minha avó… A família toda sabe que estou em um processo de hormonização. Como eu sempre fui muito independente, a galera não me aponta nada e rola um respeito de forma geral.

“No primeiro dia, ninguém consegue entender muito bem e, durante todo esse processo até hoje, eu estou bem distante. Mas sempre rola um respeito por parte do meu irmão, da minha avó… A família toda sabe que estou em um processo de hormonização”

Nick Cruz

Como esse processo que você citou, de se entender como homem trans, influenciou na sua carreira como músico?
Minha autoaceitação reflete na minha música, principalmente na parte da escrita. Eu venho fazendo muitas letras que têm relação com o processo da transição. Um papel muito importante que a transição tem é que eu vejo que o Nick consegue enxergar o processo de vários pontos diferentes. E, a partir disso, consigo falar e me expressar mais.

Hoje em dia, não tenho mais a necessidade de trocar meu nome de registro, pois entendi que tem muitas coisas na frente na minha vida. Entendi isso, também, como uma pressão de pessoas cis. Eu preciso ter uma passabilidade e um nome masculino para me aceitarem, pois se eu mostrar meu nome de registro e aparecer como homem, não vão me aceitar. É para agradar o padrão cis. Mas, nas minhas letras, eu escrevo sobre o assunto, uma vez que, por mais que eu me veja assim, a maioria das pessoas trans quer adotar o nome social no lugar do de registro.

Escrevi uma música agora que fala sobre esse ponto:

“Esses olhares me consomem
Não me veem como homem
Onde será que o nosso mundo se perdeu?
Almas que mentem se escondem atrás de um codinome
Eles querendo consumir meu corpo
Enquanto eu só quero mudar de nome, só quero paz e respeito…”

Fiz essa composição pensando que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans, mas que também mais consome conteúdo pornográfico com esse grupo. Essa canção fala sobre tal controvérsia: enquanto só quero, por exemplo, que minha mãe não me ligue preocupada se eu estou vivo ou mudar meu nome. A música ainda não tem um nome e nem quando será lançada. Por enquanto, está só dentro do peito.

Nesse sentido, de que forma você assimila a pauta da transexualidade na sua carreira e vida pessoal?
Esse é um assunto muito revoltante e não tem como não abordar. É uma ferida. Toda hora que abro o Instagram, vejo alguma publicação que fala sobre violência contra pessoas trans. Essa violência é diferente da que ocorre com pessoas cis, pois a violência contra transexuais e travestis é sempre uma atrocidade muito grande. É muito difícil falar sobre preconceito e transfobia sem se revoltar.

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BLACK3/Divulgação

Sobre a recepção da sua carreira, você já sofreu algum tipo de transfobia?
No meio da música, nunca sofri transfobia. Todas as pessoas com quem me aproximei estão dispostas a ajudar e fazer o projeto crescer. Mas isso não exclui o fato de que são pessoas que não têm noção de algumas coisas sobre transexualidade. Da mesma forma, muitas vezes, a gente olha para a pessoa trans e acha que tem obrigação de saber tudo e militar. Às vezes, as pessoas trans são as menos privilegiadas e podem não ter essa informação. Depois de me mudar para o Rio de Janeiro, trabalhando, continuo como Nick fazendo meu papel, tentando trazer meu discurso a quem está por perto. Talvez esse assunto esteja chegando agora e muita gente do meu lado desconhece. E estou aqui fazendo essa conscientização, por mais que ninguém seja professor de ninguém.

Como é a sua relação com seu público ao levar esse assunto para as discussões, especialmente no meio do pop?
Recebo mensagens de fãs com frequência. Meu público ainda é pequeno, mas a galera que está chegando são pessoas que têm se identificado, meninos e meninas trans. Eu tento reconhecê-los ao máximo, agradecer o apoio e trocar uma ideia. Sempre que respondo, eles e elas falam: “Não acredito que você me respondeu”. Muitas vezes chegam meninos que fazem músicas também e se sentem representados pela minha carreira. Isso, para mim, não tem preço. Saber que mesmo pequenininho já estou inspirando e representando tanta gente.

Por último, gostaria de saber: quem era o Nick de antes da música e da transição e quem é o Nick agora?
O Nick de antes da música, além de muito imaturo, era ansioso. Eu sou ansioso ainda hoje, mas é de uma maneira diferente. Aquela de antes era uma ansiedade imatura, de querer ver tudo acontecendo logo. Hoje em dia sou mais calmo e dou mais tempo ao tempo. Agradeço muito a criança que eu fui, bastante teimosa e chata. Por isso, estou aqui hoje: bati muito o pé e cresci demais para ser quem sou.

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