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O lacre, o duplo e a guerra

Desejo de lacrar, novo disco de Negro Leo, chega com poesia combativa no melhor estilo “faca no dente”

por Debora Pill 20 set 2020 21h23
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Clube Lambada/Ilustração

 panorama político pesadelo que vivemos hoje e as inúmeras batalhas no ambiente digital serviram de provocação para a mais nova invenção sonora do compositor, cantor e violonista Negro Leo, um dos artistas mais instigantes da música brasileira feita hoje. 

Leo nasceu em Pindaré-Mirim, no Maranhão, estado referência nacional em educação pública e majoritariamente negro, assim como o Brasil. Veio ao mundo no dia exato em que se comemorava o nonagésimo quinto ano da abolição da escravatura no país. No primeiro ano de vida, acompanhado de sua mãe, Lindomar, foi morar no Rio de Janeiro. Aos 15, comprou um violão e começou a compor. 

De lá pra cá, são oito discos lançados, todos disponíveis no Bandcamp, com as tags “canção torta”, “devocional” e “Rio de Janeiro”: Ideal primitivo (2012), The Newspeak (2012), Tara (2013), Ilhas de Calor (2014), Niños Heroes (2015), Agua Batizada (2016), Coisado (2017) e Action Lekking (2018) – esse último eleito um dos discos do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. A obra de Leo também é reconhecida lá fora, em veículos como o New York Times, Chicago Reader e The Wire.

Seu nono álbum Desejo de Lacrar acaba de ser lançado e foi composto com o baixista Fábio Sá, o tecladista Chicão Montorfano e o baterista Sérgio Machado, que também assina a produção. O disco é como um desdobramento dos experimentos de timbres e texturas psicodélicas dos dois álbuns anteriores, com referências musicais que vão de Zé Ramalho a Boogarins, passando pelo neozelandês Connan Mockasin e Tame Impala. 

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O disco abre com uma voz sufocada e engasgos. A primeira faixa imprime de cara um sentimento claustrofóbico e asfixiante. O disco nos leva então pra uma “selva de pixels”, como diz a letra de Makes e Fakes, escrita pelo poeta capixaba Tazio Zambi, inspirada pela polarização. Nesse cenário, “o presidente do partido nunca vai fazer sentido”, como bradam as vozes distorcidas de Absolutíssimo. Em Tudo Foi Feito Pra Gnt Lacrar, a primeira música que nasceu nesse disco, um emaranhado de hashtags se fazem ouvir com “vozes que pintam no vácuo das bombas”.

Enquanto isso, Michael, o guerrilheiro da capa do álbum, espera silenciosa e disciplinadamente a eclosão da guerra nas “planícies do fim” evocadas em Dança Erradassa. Essa faixa foi escrita por Leo durante uma residência artística na China, em 2019 e antecipou o isolamento social do Covid-19 com o refrão “fique em casa”. Profecia?

“Estamos numa sinuca de bico, nem é possível voltar atrás (#nenhumdireitoamenos) nem é possível que não haja guerra. Eis o dado ambivalente dessa imagem da capa”.

A gíria “lacrar” nasceu na comunidade LGBTQ+ e se instalou na política pra glorificar argumentações incontestáveis, sem brechas pra críticas. Mas Leo pensa o lacre como prática discursiva em disputa. “Lacrar é agir de forma insolente e revoltada. Vencer, se não de fato, virtualmente. Lacrar é o que nos resta”, adverte. 

Desejo de Lacrar retrata o “discurso e representação do lacre” a partir de sua captura e instrumentalização pelos movimentos de direita nos protestos de 2013, o que “resultou numa mudança de mentalidade mais abrangente que veio a dar no golpe e na ascensão do ultraliberalismo-escravocrata, que basicamente se comunica através do logos lacrador”, observa Leo. “Não por acaso Bolsonaro recebeu de seus seguidores a alcunha de Mito. É como se o argumento deles fosse incontestável. É o falseamento das lutas e disputas históricas, é o falseamento da própria realidade, da vida, da realidade”.

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Negro Leo/Divulgação

Olhos e poros abertos para essa inspiradora conversa com Negro Leo:

Em que contexto nasce esse disco?
Nós temos hoje um governo que gere a saúde, a educação, que gere a política e a vida social usando desinformação massiva e fábricas de factóides. Temos uma justiça analógica, um sistema de informação digital de extrema-direita que se beneficia dos algoritmos e uma forma de governo por memes. O Brasil é um dos maiores laboratórios dos regimes de um novo populismo digital e o embrião das novas formas de regimes digitais autoritários que se beneficiam da caixa preta das plataformas no capitalismo de vigilância. A gente está vivendo um momento de alta militarização. Tem uma série de decretos e leis sendo aprovados facilitando acesso a armas. Você tem uma situação-caldo sendo criada, algo altamente tenso no Brasil. Não se sabe o quanto isso pode unir – ou não – forças obscuras, como a milícia, caçadores, atiradores profissionais. E o que você quer mostrar nesse momento? Ursinhos carinhosos, gatos felpudos e lindos pro leitor do jornal? Ou você quer mostrar isso? 

Disputa de narrativa…
Sim, e eu também tive que jogar com isso. A gente pode e deve optar como usar nossos dados. A gente tem que ser responsável por eles. São os big data das empresas, que vão ser usados a favor deles. Então, a gente tem que ser muito sagaz. Eu estou usando meus dados assim. Estou pirando a cabeça deles, da máquina. Vai ser cada vez mais difícil um big data me rastrear pelo meu comportamento online, é preciso que o artista detone isso, que seja um gatilho de um tipo de apropriação desse big dado, ou seja, de seus próprios dados.

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Como você tem feito isso?
Tenho calculado a dose do lacre. Há pouco, comecei a trabalhar com uma parada na minha rede. Há alguns anos, meus amigos Tassio Zambi e João Reinaldo abriram uma empresa de duplicidade, pra você construir um duplo, ou seja, uma outra persona no seu lugar. Eu disse pra eles que ninguém ia querer contratá-los, porque hoje em dia todo mundo só quer aparecer. Mas vi algumas experiências históricas do duplo e convidei meu grande amigo pra compor a capa do disco. Ele é ator, comediante e imitador do Michael Jackson.

Então, nas minhas redes, tenho deixado mais a experiência do Michael, com ele atuando, falando os textos, vivendo o que seria eu. Tem sido uma experiência boa. E o objetivo é confundir. O que vai acontecer com quem chegar na minha página hoje? Não sei. Assim como eu não imagino o que passa pela cabeça de um leitor da grande imprensa vendo a capa do meu disco nesse contexto que a gente está vivendo. Seja ele um cidadão comum, enfermeiro como meu pai, seja ele um general da reserva. Esse público vai olhar essa capa e vai bater um negócio. 

Fala mais sobre a capa.
Esse militar na capa é autêntico, ao mesmo tempo que é uma imagem. Depois de meditar sobre essa imagem, o Lucas Pires trouxe elementos fundamentais, como a subjetividade acentuada no cabelo e nas pulseiras, e a falta de identificação, que enfatiza a ambivalência paramilitar/guerrilheiro e corrobora o sentido geral de lacre no disco: não é mais possível não tocar em determinadas questões. A captura do logos lacrador pela máquina ultraliberal-escravocrata mostrou que a emergência do dispositivo lacrador precisou ser contida na forma de sua própria manifestação. Daí a solução genial de Lucas Pires pro letreiro do disco na contra capa, em forma de oroboro. 

O Oroboro é um símbolo milenar onde uma serpente ou dragão come sua própria cauda, formando um círculo que representa a eternidade.

Como a pandemia entra nessa história do duplo?
A pandemia foi o gatilho pra esse experimento, já que ninguém esperava ficar tanto tempo em casa. Mas isso já vem desde o surgimento das redes sociais, os robôs, os avatares falsos. E a rede vem demandando cada vez mais autenticidade, pedindo várias coisas pra saber se aquela pessoa é realmente ela. Eu já me interesso por isso há um tempo, desde 2014, quando li vários textos teóricos e muitas fichas começaram a cair. Daí veio a pandemia agora e me deu vontade de fazer isso, de começar essa experiência. Porque é uma nova experiência. 

“Telecomunicação, a chegada dos 5G… A gente não sabe bem o que vai ser, além de mais veloz e dinâmico. Tá tudo ali nesse oroboro e na imagem do militar, plasmados. Na imagem do militar, que é o terceiro milênio de certa forma, e oroboro”

E o lacre no meio disso?
O lacre, o conceito do disco, é impreciso. Não digo isso pra diminuir a qualidade do pensamento que foi investido. Ele se pretende sair do senso comum, estar acima do pragmatismo com o qual se lida com conceitos. É uma palavra que é também uma ferramenta. Quando uso lacre, estou dizendo um bocado de coisa. Tem conceitos que são até dissonantes e que exigem sagacidade pra serem usados. O que quero dizer é que é uma ferramenta imprecisa, que nem a Coca-Cola: você não sabe se toma ou usa pra desentupir a pia.

Para muita gente, eu acabei criando um uso impróprio da ferramenta. Eu peguei o lacre, um conceito que surge no contexto da comunidade LGBTQ+. Quer dizer, “ultrajou”, surpreendeu, arrasou, acabou! E também revolta. Imagina uma trans entrando num restaurante tipo Rubaiyat, ela lacra aquele ambiente macho, branco, cis, opressor. Surge com essa pegada de encerrar o assunto: “incontestavelmente estou aqui, estou viva, brilhando, não vou me botar pra baixo”. E isso começa a ganhar força no contexto da sociedade. 

Já no contexto tecnológico, das redes sociais, em que a pessoa se comunica, é diferente. Disputas, tribunal do Facebook. Isso tudo virou um grande negócio e o Tom Zé sacou isso lá atrás e fez um disco. Esse foi o lado fraco desse lance. Você tem sempre a força e a fraqueza. A força é colocar incontestavelmente a lição “ não passarão, estou aqui, vou brilhar, a despeito de você gostar ou não”. Atura ou surta. Isso é forte e definitivo. 

Por outro lado, se você confunde atacado com varejo… Porque eu não vou lacrar o cara que trabalha no IMS (Instituto Moreira Salles), sabe? Eu vou lacrar o próprio Moreira Salles, o banco. É isso que a gente não pode perder a visão.

Essa é a graça do dispositivo artístico estético. Não estou nem falando de conforto ou desconforto. Caramba! Você tem que abrir um espaço pra dúvida e se manter vivo! Se for muito fácil, sem espaço nenhum pra dúvida, é só o fluxo. A gente tem que parar, interromper certos fluxos e criar confusões, sabe? Criar, estancar determinados pontos. E interromper, até explodir.

Como eu consigo tornar uma coisa irrelevante em relevante? Essa capa, essa figura esquisita, Negro Leo, negócio de exército… Ninguém entende direito. Quando lê a matéria, muita gente não entende porque o lacre é um termo muito jovem, dependendo da idade do leitor fica difícil conectar. Tudo isso acho fascinante, porque cria um dispositivo errático, confuso, capaz de mobilizar uma série de coisas no leitor, dúvidas. Fazer ele pensar, em última instância. 

“Parte da minha estratégia é criar confusão, caos. A rede é rápida, é muito efêmera, tudo se vai. Se você posta hoje, no máximo em dois dias vai ter um like. Depois, esquece”

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Negro Leo/Reprodução

Como você se atualiza?
Com os mais jovens, sempre mais espertos. Eles usam a rede de uma forma muito mais caótica, eles sabem usar melhor. Mesmo que esses jovens tenham experiências sociais, econômicas e de universos diferentes, eles passam por uma coisa singular que é o mundo. Então eu vou me atualizando com eles. Vou convivendo com artistas amigos muito jovens, de 20 e poucos anos, como Saskia, Ana Frango Eletrico, Guilherme Lirio, Caio Paiva, o pessoal do Ovo ou Bicho, o Paulo Emmery. Tem o Adel (Duarte) e Cainã (Bomilcar) do Tantão e os Fita. Todo mundo transita e convive. Eles são nossa luz.

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