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Círculo de amizades

Em um processo totalmente colaborativo, oito artistas da cena eletrônica lançam o disco “Nós”

por Artur Tavares Atualizado em 17 jul 2020, 14h03 - Publicado em 16 jul 2020 10h11
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Clube Lambada/Ilustração

olaborar sem sair de casa. O novo normal que muitos de nós fomos forçados a assumir nunca foi novidade para quem produz música. Com a qualidade cada vez maior dos home-studios e as altas conexões, produtores de todo o planeta já compunham sons em parceria há muito tempo, ainda mais se estamos falando da cena eletrônica.

O que soa novidade agora no lançamento do EP Nós, é que os oito amigos que se reuniram para sua produção trabalharam no processo juntes: colaboraram entre si nas composições, trouxeram ideias para a identidade visual e para o texto manifesto, abriram as portas de seus selos para a divulgação. Hoje, eles realizam um debate e audição do disco em sessão para público fechado no Zoom, e a partir dessa sexta, 17, Nós estará à venda no Bandcamp.

Publicado pelo selo Baphyphyna, o EP tem músicas feitas por Érica (a dona do Baphyphyna) e Stroka, L_cio e Mari Herzer, Entropia-Entalpia e RHR, além de curadoria textual de Brune e artes de Anyll.Lynna, incluindo a capa do EP, uma tela bordada em algodão. Nomes carimbados na cena eletrônica nacional, eles conversaram conosco sobre Nós.

Érica

Minha participação é com a faixa ‘Convite’, feita com Stroka, e com o selo que abrigará a coletânea. O processo de composição foi muito tranquilo! Eu tinha uma base na qual estava trabalhando, mas não sabia para onde iria. Resolvi enviá-la para o Stroka e ele adicionou elementos bastante interessantes, que apontaram para uma direção que eu não estava pensando. Isso me fez lembrar de um vocal que eu havia criado e nunca usado e que encaixava perfeitamente.”

Sou uma pessoa hiperativa por natureza, então preencho todo meu tempo em casa produzindo. Sei que não é a coisa mais saudável, é difícil parar e descansar, sinto uma culpa tremenda quando não estou ocupada com algo ‘útil’. Minha forma de descansar é me dedicar a frentes diferentes e fazer um rodízio de foco entre elas de acordo com a época do mês ou dia da semana.

Relaxo muito enquanto cuido da minha horta, considero que seja a coisa mais útil que faço. Tenho criado bastante conteúdo para meu curso online de produção e live, WAVE Live Act, com João Pinaud, e tenho trabalhado em um projeto de álbum, ao mesmo tempo que traduzo um romance de ficção científica e faço um curso EAD de licenciatura em música. Tudo isso é movido pelo processo de criação, e requer disciplina e foco.”

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Fagner Damasceno/Divulgação

Stroka

Participei colaborando com a Érica na faixa ‘Convite’, ela mandou uma ideia que ela já havia começado, muito legal. A partir daí fiquei alguns dias ouvindo e testando caminhos, trocamos mais algumas vezes durante o processo e então ela colocou os vocais e finalizamos. O processo todo durou umas 3 semanas acho. Fizemos com calma, foi bem interessante.”

Meu processo criativo tem sido bem semelhante a antes do isolamento. A diferença é que tenho mais tempo no estúdio, o que é muito bom e tem me ensinado sobre rotina na produção. Tenho aproveitado também para me aprofundar nos instrumentos que tenho. Antes era mais difícil. mas agora faz parte da minha rotina.”

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Matheus Leston/Divulgação

Brune

Eu particularmente gosto de criar em isolamento, ainda que esse isolamento da pandemia (para quem pode se isolar, que é um sinal de privilégios) seja muito desafiador. Estar sozinha pesa em muitos aspectos nessas circunstâncias, e nem sempre conseguimos ser produtives. Mas criar alguma coisa, seja texto, seja pesquisa musical para os sets, é para mim uma forma de transformar os sentimentos terríveis em algum tipo de potência ou compartilhamento, rede de conexão.”

Fiquei responsável pela parte escrita do EP, inclusive por dar nome para as faixas, para que tudo se encaixasse conceitualmente, assim como o grupo de pessoas envolvidas se conectou artisticamente. Escrevi um poema, um release e o título das faixas.”

Para o lado de quem produz arte, criar é uma forma de ocupar o espaço do isolamento, e para quem gosta de apreciar, a arte tem sido uma forma de driblar os impactos psicológicos da quarentena. Acho que há um movimento grande para apoiar artistas independentes nesse momento, que, com certeza, tem como consequência uma conscientização de outros lados da produção artística por parte do público, além da cena de festas.”

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Pedro Pinho/Divulgação

Mari Herzer

Eu fiz uma faixa com o L_cio. Foi super legal, pois sempre admirei o trabalho dele, e, finalmente após alguns anos desde que nos conhecemos, fizemos uma colaboração. Nossa faixa, ‘Teia’, era, antes, um projeto meu que estava parado num HD antigo, desde 2018. Sempre quis finalizar essa faixa mas nunca consegui, achei que estava faltando algo. Eu tinha um carinho especial por esse trabalho, então pensei que seria uma boa oportunidade finalizá-la com um produtor musical muito talentoso e essencial para nossa cena, e o Laércio deu um toque mais rave pro som, que amei.”

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Tenho feito muito mais música. Eu trabalho em estúdio, faço mixagem e composição de faixas eletrônicas para alguns clientes e também dou aulas. Por isso, estava muito atribulada, com pouco tempo para meus projetos pessoais. Então finalmente me vi obrigada a ficar em casa, com um tempo de sobra pra finalizar trabalhos e começar novas músicas. Compus 10 faixas do meu álbum que será lançado ainda esse ano, então foi superprodutivo.”

As notícias ruins, as políticas de austeridade que assolam esse país extremamente desigual que é o Brasil, são fatores desmotivantes, mas também a força motriz do meu trabalho. Me vejo obrigada a desaguar todas emoções e questionamentos do dia a dia na minha música.”

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Camila Padilha/Divulgação

L_cio

Meu processo de criação tem sido muito mais frequente, pois estou realmente colaborando com o isolamento. Assim, continuou tudo muito parecido, porém tenho ficado muito mais tempo fazendo música, e com muito mais regularidade. Um fato é que fiz muito mais parcerias e remixes nesse contexto tão infeliz.”

Colaborei na curadoria inicial do projeto e trabalhei com a Mari Herzer em uma das faixas do EP. A experiência com ela foi supertranquila, fomos bem rápidos no processo de composição da faixa. A Mari tinha um rascunho, trabalhei um pouco nele, fiz criação, gravação de mais elementos e arranjo. Voltou para ela, que finalizou o arranjo de ‘Teia’ lindamente, e ainda fez a mix da faixa. Tudo online, rolou demais.

Acho que ainda não dá pra avaliar esse momento porque todxs estamos nos adaptando, inclusive o público. O que percebo é que todxs estamos buscando saídas para sobreviver e para manter a sanidade (o que inclui o lazer das pessoas). Mas certamente o olhar/escutar/sentir/experienciar a arte alcançará novos desafios.”

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Vinicius Gabriel/Divulgação

Annyl.Lynna

Entrei no projeto com os visuais, ajudando desde o conceito – Nós – à criação da tela, feita manualmente para tecer o EP, artistas e momento social. Explorei através das conexões criadas e meus processos experimentais, outras formas de exposição e valorização da arte. O conceito que absorvi aqui foi a desconstrução territórios inexistentes, que em meio ao caos se unem e se interligam de diferentes formas, resinificando o que antes era o nó que paralisava, ao conjunto entrelaçado que tece a superfície onde podemos dar continuidade ao nosso caminhar.”

Nesse caos, assim como quase todos artistas independentes do país, me vi em um difícil momento, entre o desapego do passado e medo do futuro, ainda mais pelo descaso do governo com os artistas. Em parte isso alavancou a experimentações maravilhosas e completamente dignas, mas por outro gerou bombardeamento nas redes sociais, pois muitos artistas acabaram fazendo esses trabalhos sem receber por eles, e isso acarreta em infinitas pressões cobranças pessoais, levando nossa classe a um nível desesperador.”

No início da pandemia revisei vários dos meus valores pessoais, como artista, produtora e performer, que me fez questionar muito as perspectivas de futuro. Respirei, e tentei encontrar a minha solução nisso tudo. Meu processo então vem sendo criar conexões entre os artistas independentes, sendo com gráfico, track, curadoria, performance ou troca de informações, e o que fazer a partir delas eu acredito ser a resposta.”

Depois dos CDs e o início dos streamings, o mercado nacional de música, principalmente alternativa, ainda sofre muito para sobreviver com a venda de seus álbuns ou apresentações. O nosso público está acostumado ao contato, apresentações, e muitas vezes não tem o hábito de comprar EPs. Mas podemos ver que a atenção está sendo trabalhada, tanto do nosso público, como projetos que estão surgindo, como festas, festivais com bilheteria, e projetos colaborativos, EPs em busca de remuneração aos profissionais envolvidos em prol dessa cultura.”

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Ariana Milliorini/Divulgação

Entropia-Entalpia

Estou criando constantemente. Para mim, é minha forma de fugir um pouco dessa realidade que estamos vivendo e não entrar em desespero! Em momentos como este é meu lugar seguro. Participar do EP foi muito especial para me reconectar com estes amigos que estão longe nesse momento de pandemia, compartilhar nossas ansiedades, angústias e experiências nesse período.”

Percebo que o público anda consumindo mais o formato live act e até os lives mais experimentais durante esse período. Os sets já não tem mais tanto aquela obrigação de cumprir a função do horário que rolava muito nos eventos, então o público busca algo interessante e imersivo pra assistir. Além disso vejo que o público anda comprando bastante música, quando antes quem comprava mais eram os DJs.”

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Gabriel Koi/Divulgação

RHR

O Entropia me mandou uma música dele bem jazzy e tivemos a ideia de fazer um trip-hop. Mas, aí, acabou virando um cyborg hahaha.”

Não mudou muito pra mim. É o mesmo de sempre, consumo algum tipo de conhecimento ou ideia e vou anotando e criando. Não consigo ser aficionado e terminar um som por dia, vários amigos fazem isso e eu admiro, mas eu não consigo. Tenho outros métodos.”

Acho que essa fita aí do público consumir música online foi um bagulho natural. Se você fica em casa sem ter o que fazer, não vai ficar olhando pro teto. Alguns até manjam, meditam e pá, mas maioria vai ouvir um som, ler um livro, ver filme, ou falar com amigos e a família. O ser humano consume bastante informação e também arte no geral. Consumir/fazer é um laço que tá intrínseco em nós, acho que tem a ver com isso também.”

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