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Cinco museus em doze meses

Há exatos 50 anos, São Paulo ganhou o Museu de Arte Sacra, o MIS e outras de suas instituições culturais mais conhecidas. E nos dias de hoje?

por Daniel Salles 5 ago 2020 02h17
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Clube Lambada/Ilustração

O governador Sodré marcou um gol de bate-pronto no bico da área”, exaltou o  colunista Tavares de Miranda na Folha de S.Paulo de 1º de julho de 1970. O elogio se devia à inauguração, dois dias antes, do Museu de Arte Sacra, instalado no Mosteiro da Luz, na Avenida Tiradentes, em São Paulo. Em outro parágrafo, registrou o estado de espírito de Luiz Arrobas Martins, o secretário da Fazenda, na solenidade de abertura. Foi Arrobas quem concebeu o espaço, ainda desconhecido de boa parte dos paulistanos. “O idealizador do MAS não escondia sua satisfação, afirmando que é uma das maiores obras do governo Sodré no campo cultural, sendo que o acervo do museu a seu ver, é o mais completo, raro e autêntico das Américas. Este colunista concorda em gênero, número e caso”, escreveu.

O endereço foi criado para abrigar as quase 2 mil obras barrocas e os objetos de culto reunidos durante quase dois séculos pela Diocese de São Paulo. As imagens talhadas no século XVII pelo escultor paulista Frei Agostinho de Jesus, por exemplo, e os tocheiros doados por Dom João V em 1745, além de lampadários, cálices, coroas e joias de todo tipo. “Esta coleção de prataria só é superada pela do Vaticano”, gabou-se, no dia da inauguração, Pedro de Oliveira Ribeiro, o primeiro diretor da instituição.

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Juliana Russo/Ilustração

Mesmo com esse acervo diante dos olhos, parte dos presentes estava com a cabeça longe dali, conforme registrou Tavares de Miranda. O historiador Paulo Emílio Sales Gomes, por exemplo, e Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade, eram dois ávidos pela inauguração de outro museu paulista, o da Imagem e do Som. Só falavam sobre ele.

No que diz respeito à cultura, os paulistanos não podem reclamar de 1970. Naquele ano, São Paulo ganhou cinco museus, incluindo o de arte sacra, todos vinculados ao governo estadual, quatro deles na capital. O da Imagem e do Som, que atualmente exibe a mostra “Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio” e virou um dos mais festejados da cidade, foi instituído por decreto do governador Abreu Sodré em maio de 1970. A inspiração, mais que declarada, veio do MIS carioca, concebido por Carlos Lacerda em 1961, quando o jornalista governava o estado fluminense.

Para a inauguração da versão paulistana, programou-se uma mostra em homenagem aos 25 anos da morte de Mário de Andrade, composta por gravações de poesias e depoimentos do modernista. O objetivo da instituição, afinal, era coletar, classificar, conservar e restaurar material iconográfico e sonoro em geral, especialmente filmes, fotografias, discos e fitas de interesse artístico, histórico, sociológico ou cultural, além de promover pesquisas e palestras. O tema escolhido para a segunda exposição foi a Semana de 22, com direito a falas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e companhia. “Posteriormente, o MIS gravará os depoimentos de todas as personalidades paulistas brasileiras, entre Pelé, Adoniran Barbosa, Humberto Mauro, Aracy de Almeida, Eder Jofre, Maria Esther Bueno, Francisco Matarazzo — que deverá contar a história das Bienais de São Paulo”, adiantou à Folha de 2 de junho de 1970. 

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Juliana Russo/Ilustração

A sede atual, na Avenida Europa, só foi inaugurada em fevereiro de 1975 — antes, o MIS funcionou nos Campos Elísios, no Itaim e na região da Avenida Paulista. No novo endereço, que pertencia ao industrial Affonso Giaffone, debutou com a mostra “Memória Paulistana”, que resgatou o passado da capital por meio de fotografias da cidade clicadas entre 1860 e 1930, além de retratos de personalidades e anônimos. Dos primórdios até 1981, o diretor técnico foi Rudá de Andrade.

O MIS deu início à nova fase dividindo espaço com outra instituição cultural do governo estadual, o Paço das Artes. Instituído em março de 1970, esse último funcionou por três anos num salão na Avenida Paulista da Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo. Depois, migrou para o prédio da Pinacoteca, na Praça da Luz, de onde foi transferido para o imóvel do MIS. Em 1994, nova mudança, agora para o prédio modernista na Cidade Universitária assinado pelo arquiteto Jorge Wilheim. Calma que não acabou. Quatro anos atrás, a entidade precisou esvaziar o imóvel na USP para dar lugar, dizia-se, a uma fábrica do Instituto Butantan de vacinas contra a dengue — o espaço acabou sendo utilizado para funções administrativas. Restou ao Paço voltar ao prédio do MIS, onde funcionou até o começo do ano. Desde então, ocupa o imponente Casarão Nhonhô Magalhães, no bairro de Higienópolis, tido como a sede definitiva. 

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Juliana Russo/Ilustração

A entidade tem como meta organizar exposições temporárias de nomes contemporâneos, promover cursos, palestras e afins e ajudar na formação de novos artistas, críticos e curadores. Quem estreou a nova sede foi a gaúcha Regina Silveira, com a mostra “Limiares”, em cartaz até 10 de maio. Com o casarão em mente, a artista elaborou uma espécie de banco distorcido e alongado, e uma obra que replica as janelas do casarão. Suas videoinstalações “Limiar” e “Lunar”, também em cartaz, foram doadas para a instituição. Com elas, o Paço das Artes começou a formar um acervo — no caso, digital — e já pode ser considerado um museu propriamente dito. Talvez assim deixe de ser desalojado.  

Todas as instituições culturais ligadas ao estado surgidas em 1970 tiveram dedo de Luiz Arrobas Martins. Confiante no potencial turístico do Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, erguido para servir de residência de inverno dos governadores paulistas, o secretário obteve aval para reformá-lo e recheá-lo de obras de arte e móveis históricos — antes, cogitou transformar o edifício em hotel, hospital ou escola. O acervo formado por ele soma 3.500 itens, que inclui desde um armário colonial no qual Alberto da Veiga Guignard pintou flores até a conhecida tela “Operários”, de Tarsila do Amaral.

O Palácio Boa Vista foi aberto para visitação em abril daquele ano. Na cerimônia que marcou a nova etapa do cartão-postal, o secretário derreteu-se em elogios a Abreu Sodré. “Este governo lançou a semente para que São Paulo vença não pelas armas mas pela grandeza de sua cultura e da sabedoria de seus homens”, declamou. O Palácio abriu ao público com uma segunda função: ser uma das sedes do Festival de Inverno de Campos de Jordão, mais uma novidade de 1970 e também creditada a Arrobas. O Festival Mozart, organizado em Salzburgo, na Áustria, serviu de inspiração.

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Juliana Russo/Ilustração

“Pela primeira vez na história da música brasileira vários artistas nacionais participarão de um festival realmente importante e nenhum deles terá o direito de se queixar que está tocando de graça ou que está sendo mal pago”, entusiasmou-se um jornalista de “O Estado de S.Paulo” em matéria publicada em 19 de julho daquele ano. “Camargo Guarnieri, coordenador da Comissão Organizadora do certame, teve o cuidado de moralizar de uma vez por todas o profissionalismo musical brasileiro, sugerindo o pagamento de cachês dignos que chegassem até a surpreender alguns dos convidados”. Desde 1978, por decisão da Assembléia Legislativa, o nome completo do evento é Festival de Internacional de Inverno de Campos do Jordão Dr. Luís Arrobas Martins.

Outra iniciativa do secretário fascinado pela cultura saiu do papel nos últimos meses de 1970, o Museu do Mobiliário Artístico e Histórico Brasileiro. Instituído em teoria meses antes, hoje é conhecido como Museu da Casa Brasileira. Desde 1971, ocupa o casarão construído por Fábio da Silva Prado, ex-prefeito de São Paulo, e sua mulher, Renata Crespi, na Avenida Faria Lima. Não é à toa que faz parte da rotina cultural dos paulistanos. 

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Juliana Russo/Ilustração

Passados cinquenta anos, é injusto dizer que novos endereços do tipo já não nascem como antes. Em novembro último, a prefeitura inaugurou o Centro Cultural da Diversidade, no Itaim, dedicado à cultura LGBT+ do Brasil. Engloba as instalações do Teatro Décio de Almeida Prado e da Biblioteca Anne Frank e dá prosseguimento ao trabalho desenvolvido pelo espaço expositivo do Museu da Diversidade Sexual, no Metrô República. Oito meses antes, entrou em cena a Casa do Parque, uma iniciativa da colecionadora paulistana Regina Pinho de Almeida. Instalada em um casarão em frente ao Parque Villa-Lobos, abriga mostras temporárias de arte contemporânea e sedia cursos e eventos. Em 2017, entrou em operação a Japan House e a nova sede do Instituto Moreira Salles. 

E há novidades no horizonte. Para 2021 está prevista a inauguração do complexo Cidade Matarazzo, instalado no  Hospital Umberto I. Fundado por Alex Allard, abrigará uma unidade do Hotel Rosewood e a Casa Bradesco da Criatividade, cuja mostra inicial será dedicada ao artista Anish Kapoor. A Pinacoteca promete inaugurar mais um prédio no número 273 da Avenida Tiradentes. Será a Pina Contemporânea — inicialmente, a inauguração estava marcada para o ano passado. Destruído por um incêndio em 2015, o Museu da Língua Portuguesa, vizinho à Pinacoteca, volta a receber visitantes Quando a pandemia permitir. Que as novidades estejam ativas e integradas ao dia a dia da população daqui a cinquenta anos.

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As imagens que você viu nessa reportagem foram feitas por Juliana Russo. Confira mais de seu trabalho aqui

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