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A liberdade de dançar depois dos 50

As mulheres de meia-idade do Complexo da Maré estão usando movimentos do corpo para ressignificar suas vidas

por Gabriele Roza (Reportagem), Juliana Marques (Dados), Do data_labe Atualizado em 10 jan 2021, 13h14 - Publicado em 3 jun 2020 10h00
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Clube Lambada/Ilustração

ponto de ônibus na passarela dez da Avenida Brasil, zona norte do Rio de Janeiro, está lotado às 9h da manhã de segunda-feira. Seguindo a rua ao lado, em uma das entradas da favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, mototaxistas chegam e saem com passageiros. Poucos metros dali, a semana também indica seu início para mais de 25 mulheres em uma aula de consciência corporal no galpão do Centro de Artes da Maré.

A atividade começa com o professor animado pedindo para as alunas, em sua maioria de 50 a 70 anos, compartilharem umas com as outras algo que percebem em seus corpos. Os movimentos indicam que algumas delas se queixam de dores corporais. Quando a música começa, Sueli Mendes, 66 anos, pergunta se posso gravar a aula para ela: “Essa filmagem eu vou levar pro meu médico, porque estou com dor na coluna”, diz.

Há três anos, Sueli começou a fazer aula de yoga e, um ano depois, a participar das aulas de consciência corporal. “Comecei porque eu tenho síndrome do pânico e depressão”, conta. “São problemas que a gente vai tendo no passado e que vão se juntando, se juntando e uma hora explode”. O médico aconselhou, então, a fazer exercícios que não mexessem só com o corpo, mas também com a mente. “Me encontrei nessas duas atividades”, diz.

Quando pergunto quais problemas ela enfrentou no passado, Sueli fala do casamento conturbado, que durou dos seus 15 aos 38 anos: ‘‘Como fui criada de uma maneira que, quando a gente casa, não pode separar, você tem que aceitar seu marido com problema. Fui acumulando, acumulando, até que um dia resolvi me separar dele’’, conta, com a voz de quem parece estar superando o trauma. ‘‘Já não aguentava mais, as agressões estavam aumentando. Eu acho que aguentei muito, então a minha saúde ficou muito abalada. Aquilo mexeu com o meu consciente’’.

‘‘Como fui criada de uma maneira que, quando a gente casa, não pode separar, você tem que aceitar seu marido com problema”

Sueli Mendes
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Catarina Bessell/Ilustração

Três anos depois da primeira aula de yoga, Sueli sente que a atividade foi melhor para a saúde do que os remédios: ‘‘O yoga tem sido tudo, me sinto muito bem. Aconselho todo mundo a praticar. Às vezes nem tudo é remédio, eu superei muita coisa sem medicação. Quando acontece algum problema que começa a atingir a minha mente, eu começo a fazer aquela programação de respiração que aprendi na yoga e sinto que melhoro rapidinho’’, relata. ‘‘O yoga me mostrou que tenho capacidade de fazer muita coisa ainda’’.

Saúde mental

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, havia uma maior prevalência de depressão em mulheres, 10,9%, contra 3,9% dos homens. Sendo a faixa etária com maior proporção a de 60 a 64 anos de idade com 15,1%.

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elástica + data_labe/Reprodução

A rotina de atividades de Ana Lúcia Santos, 58 anos, começa às 6h da manhã no grupo de caminhada. Na mesma manhã, ela faz hidroginástica, yoga e dança rítmica. “Comecei levando a minha filha pra natação, ficava sentada e falei ‘vou fazer alguma coisa pra não ficar parada’”. Com o tempo, Ana passou a participar de nove atividades. “Eu faço isso tudo pra não ficar só fazendo os serviços de casa, senão a gente fica escrava de casa. Primeiro, eu tenho que pensar em mim, na minha saúde. Tenho que me cuidar, me dar valor”, diz Ana, que começou os exercícios há 24 anos, quando a filha mais nova tinha acabado de nascer.

Apesar de praticar atividades físicas há muitos anos, foi no grupo de dança Mulheres ao Vento que Ana Lúcia, então aos 55, se aceitou como mulher negra. Segundo a pesquisadora e professora Andreza Jorge, o grupo se inspira em Oyá, orixá responsável pelos ventos, raios e chuva: “A sexualidade, a maternidade, a coragem e tudo mais que Oyá é e representa foi o mais próximo da representação de força feminina negra que eu sempre vi nas mulheres da minha família e vizinhança”, conta Andreza, que nasceu e mora na Maré. “É a tentativa de construir e reconstruir um corpo cênico, ritualizado e carregado de mito e de recriar novas formas e leituras de mundo possíveis em que as opressões de raça, gênero, sexualidade e classe não existam. E para que as mulheres negras da Maré possam realizar uma ‘volta impossível ao que se perdeu’, uma brecha no tempo para re-existir”, completa.

Não demorou muito para Ana Lúcia entender o recado e logo assumir o cabelo crespo natural: “Quando comecei a ir no Mulheres ao Vento, eu fazia alisamento no meu cabelo. Depois de um tempo, peguei e falei assim: ‘não vou passar mais nada no meu cabelo, agora vou deixar ficar duro’ e nunca mais passei nada”, diz com orgulho. “Depois, decidi que não queria mais pintar o cabelo, você vê que tá tudo branco, não quero mais pintar. Meu marido falou: ‘tem que pintar esse cabelo’. Falei ‘não, o cabelo é meu, pra que vou pintar?’ Tá bom assim.”

Ativa e enfim emancipada, Ana Lúcia questiona: “Estou satisfeita porque estou me aceitando do jeito que sou. Quando era nova, via todo mundo de cabelo liso, passava henê, esticava o cabelo, enrolava de bobs, faz isso, faz aquilo pro cabelo não ficar duro. Agora que todo mundo anda com cabelo duro, por que eu também não posso me aceitar?”

Na aula de consciência corporal, Ana segue os passos recomendados pelo professor com segurança. Nos intervalos, conversa com qualquer outra mulher que para ao seu lado. “É como se a gente ganhasse outra liberdade. A gente se vê presa só na coisa de fazer as tarefas de casa, mas quando começamos a fazer outras atividades, outras coisas, a gente vê que tem liberdade pra fazer o que quer, e sair pra onde a gente quer também.”

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‘‘Meu marido falou: ‘tem que pintar esse cabelo’. Falei ‘não, o cabelo é meu, pra que vou pintar?’ Tá bom assim”

Ana Lúcia Santos
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Catarina Bessell/Ilustração

Identidade

O percentual de mulheres negras na população brasileira cresceu 5 pontos percentuais entre 1995 e 2015, indo de 22,4% para 27,1%. Em 2018, de acordo com a PNAD – Contínua, já passava de 28%, representando  o maior grupo demográfico brasileiro. 

O aumento da população negra vem sendo apontado pelo IBGE em diversas pesquisas. Segundo Maria Lucia Vieira, gerente da pesquisa da PNAD – Contínua, um dos fatores da mudança está no maior reconhecimento da população negra em relação à própria cor.

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elástica + data_labe/Divulgação

Elza Cristina da Silveira, 61 anos, tinha apenas 11 quando chegou na Maré, em 1970, depois de a favela onde nasceu, Macedo Sobrinho, em Botafogo, ter sido removida. “Botaram a gente aqui de maneira provisória. Só que esse provisório foi ficando, ficando e virou o que é hoje”. Mais tarde, ela começou a trabalhar no Favela-Bairro, programa de urbanização gerido pela Prefeitura Municipal do Rio, iniciado em 1994. “Caí justamente num projeto que deixava as pessoas nessas comunidades, mas arrumando, botando esgoto, fazendo creche. Eu subia e descia a comunidade fazendo entrevista. Ia nas casas explicar o trabalho, tentar mobilizar as pessoas”, conta. Até se aposentar, a vida de Elza era de casa para o trabalho e do trabalho para a casa: “Quando me aposentei pra cuidar da minha mãe, aí que fui arrumar tempo”, diz. “O sofá mata, né? Eu ficava só no sofá vendo TV, assistindo novela. Aí falei: ‘não, não posso ficar nessa. Se eu parar, vou atrofiar’.”

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Catarina Bessell/Ilustração

O professor de consciência corporal pede para Elza ser a dupla de uma mulher que parece ser a mais velha do grupo. Elas fazem os movimentos com calma e com sorrisos largos no rosto. Ela abraça finalmente a colega, indicando que acertaram os passos. “Antes do yoga, eu era menos falante, tinha muita vergonha, e o yoga me soltou. Eu tinha dor na coluna também e, hoje, não sinto mais nada”, diz. “Agora, não me vejo sem a prática do yoga. Tá dentro de mim, é tudo pra mim”.

“Botaram a gente aqui de maneira provisória. Só que esse provisório foi ficando, ficando e virou o que é hoje”

Elza Cristina da Silveira

Similar a Elza, a vida de Maria Madalena Alves, 54 anos, quase paralisou quando ficou desempregada, há um ano: “Eu ficava só em casa esperando me ligarem pra eu poder trabalhar. Ficava tensa, nervosa, muito ansiosa, fazendo entrevista, colocando currículo e nada de ninguém me chamar. Aí pensei em me ocupar de alguma coisa enquanto não arrumava nada”, explica. “Agora me sinto mais leve, me sinto muito bem, a cabeça fica muito boa. Se eu começar a trabalhar, não vou deixar de vir, estou vendo se consigo trabalhar de noite pra continuar vindo durante o dia”, diz a colega de grupo.

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Catarina Bessell/Ilustração

Desemprego

A taxa de desemprego é maior entre mulheres do que entre homens em todas as faixas etárias. Depois dos 50 anos, a diferença diminui para cerca de 2 pontos percentuais. Poderíamos considerar esse movimento positivo, mas ao cruzar outro indicador, a taxa de participação – que compara a parcela da população que pode trabalhar com a que de fato está trabalhando –, percebemos que a participação feminina é sempre menor, independente da idade.

Não vemos essa diferença de forma tão significativa na empregabilidade na faixa dos 50+, porque essas mulheres param de buscar emprego. Variáveis como horas dedicadas a afazeres domésticos, quantidade de filhos e cuidados com idosos reduzem a tentativa de entrada na força de trabalho.

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elástica + data_labe/Reprodução
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elástica + data_labe/Reprodução

Iranilda da Silva, 52 anos, mais conhecida como Sendy, geralmente é vista nas aulas de dança com uma postura elegante, um rabo de cavalo longo preso no alto da cabeça. Quando ela se movimenta, o cabelo faz parte do espetáculo. Entre os intervalos no trabalho como faxineira, faz aulas de balé, dança afro e dança urbana, além de também fazer parte do grupo Mulheres ao Vento. “Sempre gostei muito de dança. Comecei há muitos anos a fazer jazz, só que não pude dar continuidade devido à minha situação financeira. Depois, fui ser dona de casa, mãe, tudo mais, e parei durante um tempo porque não dava pra conciliar”.

Sendy viu no crescimento dos filhos e na separação com o marido, há seis anos, a oportunidade de resgatar a vida: “E de me realizar como mulher, como ser humano, porque faz bem para a alma. Dançar é tua alma falando, é teu corpo atingindo o teu limite.” Ela é enfática em dizer porque pode dançar: “Agora sou livre, literalmente livre, tive minha vida de volta. A minha vida, a minha liberdade, meu reencontro comigo mesma, porque eu tinha uma vida…”, interrompe a frase com uma pausa e continua, “…tinha uma vida escrava, camuflada. Me libertei, graças a Deus, agora só vitória, agora só me dedicar a mim mesma”, completa.

“Eu tava me acabando, acabando pra vida e eu tenho muita vida pra viver ainda. Demorei muito pra ver isso, 20 anos pra enxergar, mas graças a Deus eu enxerguei a tempo. Eu tava toda travada, sentia dores até na alma. A dança só fez benfeitoria no meu corpo e em tudo. A dança é tudo pra mim”, diz. “É como se fosse uma borboleta que vai renascendo. É incrível, tem que ver a transformação no decorrer do tempo, como é maravilhoso”.

‘‘Eu tava me acabando, acabando pra vida e eu tenho muita vida pra viver ainda. Demorei muito pra ver isso, 20 anos pra enxergar”

Iranilda da Silva
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Douglas Lopes / fotografia / Catarina Bessell/Ilustração

Depois da aula da dança, Sendy vai direito para o pré-vestibular. Ela está estudando para entrar na faculdade de dança. “Também estou me preparando para fazer o THE, o Teste de Habilidades Específica, da UFRJ. Vou seguindo o ritmo, esse ano eu vou passar, tenho certeza”, diz ela.

Educação

Entre 1995 e 2015, mulheres na faixa etária de 45 a 59 anos e 60 ou mais aumentaram em 3,7 e 2,3 respectivamente seus anos de estudo. Com isso a média de anos de estudo de mulheres já é maior ou igual do que a de homens em todas as faixas etárias.

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elástica + data_labe/Reprodução
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A imagem que abre essa matéria é uma intervenção de Catarina Bessell sobre fotos de Douglas Lopes. 

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