experimentação

Eu quero me ver na vitrine

Como o empoderamento das mulheres gordas criou um mercado de lingeries à parte e fez com que as marcas tradicionais corressem atrás do prejuízo

por Giuliana Mesquita Atualizado em 3 ago 2020, 14h05 - Publicado em 16 jul 2020 10h11
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Clube Lambada/Ilustração

or muito tempo, a moda foi criada apenas para mulheres altas, magras e, em sua maioria, brancas – o que significa que grande parte da população, brasileira e mundial, era excluída. O movimento de democratização da moda se deu junto ao acesso em grande escala da internet, quando o que era colocado nas passarelas passou a existir fora dos desfiles e das revistas de moda. Resultado: muita gente não se viu representada ali. Mas a explosão da representatividade, ou seja, a inclusão de corpos, raças e gêneros diferentes nas narrativas de moda ainda demorou alguns anos para entrar em pauta, já que os padrões da sociedade machista e patriarcal ainda ditavam como a mulher “ideal” deveria ser.

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Bonjour/Divulgação

Acontece que muitas pessoas não se encaixam nesse padrão, cada vez mais excludente e cruel, e acabam ficando sem opções na hora de se vestir. O mesmo ocorre, em frequência ainda maior, quando o assunto é lingerie. “Estamos falando de algo necessário, não apenas um acessório para a autoestima, mas como vestuário essencial. Sem as marcas independentes, falamos de um mercado inacessível, tanto na limitação de tamanhos quanto no valor das peças. Muita gente tem literalmente que mandar fazer as próprias lingeries”. Quem explica é Ariane Freitas, ilustradora e produtora de conteúdo, que encontrou nas marcas independentes as peças e tamanhos que sempre quis usar. “Para mim, essas marcas que investem em tamanhos grandes foram responsáveis por uma virada na chavinha da autoestima. É bom demais vestir algo que cabe perfeitamente em você e valoriza suas formas, que não tenta esconder nem mudar meu corpo. Não tem como a gente não se sentir maravilhosa usando algo pensado pro nosso corpo”.

“Para mim, essas marcas que investem em tamanhos grandes foram responsáveis por uma virada na chavinha da autoestima. É bom demais vestir algo que cabe perfeitamente em você e valoriza suas formas, que não tenta esconder nem mudar meu corpo”

Ariane Freitas
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Bambina/Divulgação

Ariane não era a única a sentir essa falta no mercado. Aline Nascimento, dona da GG Rie, teve esse click ao procurar lingeries especiais para comemorar seu aniversário de casamento – e não encontrou nenhuma peça, nem buscando na fonte. “No interior do Rio, tem uma cidade que é pólo de lingerie. Fui até lá, conversei com o pessoal das fábricas de família, vi se alguém poderia me ajudar… A resposta era sempre de que esse tipo de peça não vendia”, lembra. Na época, Aline vestia manequim 50 e teve que mandar fazer dez modelos iguais para que pudesse ter a peça desejada. Guardou em uma mala a maioria dos sutiãs repetidos e, ao encontrá-los após algum tempo, decidiu lançar sua marca.

Em março de 2016, a GG Rie participou de sua primeira feira plus size. “Ali eu percebi que tinha público, tinha nicho, a gente só não tava sabendo chegar nas pessoas”, ela conta. A partir dali, investiu em fotos de campanha com modelos “reais”, pessoas que não são famosas e, em sua maioria, suas amigas. “Eu, como consumidora, só compro de marca em que eu me vejo. Toda nossa comunicação foca em variedade de corpos, escolhemos pelo menos duas modelos e queremos que nossas clientes entendam que o corpo delas não é errado. Ele é tão certo como um corpo 38 ou 40. Lutamos pela normalização do corpo gordo”, completa.

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Hope/Divulgação

Normal ≠ padrão

Mesmo que o termo body positive tenha se difundido nos últimos anos, ainda é muito difícil encontrar marcas que atendam as mulheres gordas maiores. O padrão de seios grandes, cintura fina, quadril largo e nada de barriga também é o mais “aceitável” e encontrado quando falamos de marcas que estão “apostando” em números maiores. Essa imagem, no entanto, não engloba a maioria das mulheres gordas. “Tem muita gente produzindo peças incríveis em tamanhos grandes, além de terem a preocupação de usar modelos fora do padrão ‘gorda sem barriga’ que a moda adotou nessa fase body positive”, explica Ariane. A preocupação de criar para e retratar corpos gordos pensando nas suas diferenças é importante e essencial quando falamos de uma parcela da sociedade que já foi tão oprimida e rebaixada historicamente. 

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Leninha Roupa de Baixo/Divulgação

A Resplandece, da baiana Verena Cid, nasceu três anos atrás sob as mesmas premissas: atender mulheres que sempre foram deixadas de lado por essa indústria. “Eu tinha muita vontade de ver mulheres de todos os corpos usando belas lingeries, afinal, essa peça deve ser feita para a mulher, não somos nós que temos que caber nelas”, explica. Apesar de ter alguns modelos pronta entrega, o diferencial da marca de Verena são as peças feitas sob medida. “Percebi, através da minha própria necessidade, que precisava trabalhar com medidas diferentes para busto e costas. Como tem muito pouco disso aqui no Brasil, fiz cursos online de produtores internacionais para aprender como oferecer esse serviço”. Hoje, a Resplandece conta com produtos que vão até o número 60/62 e as peças são todas feitas artesanalmente.

“Queremos que nossas clientes entendam que o corpo delas não é errado. Ele é tão certo como um corpo 38 ou 40. Lutamos pela normalização do corpo gordo”

Aline Nascimento

Essa falta de estudo a partir do corpo gordo também foi apontado como problema por Aline, da GG Rie. “As escolas de moda não tem uma matéria de moda plus size. A ABNT só compreende até o tamanho 44, do 46 pra cima é achismo, como se fosse só ir aumentando os tamanhos. O corpo gordo tem muita variedade. Eu trabalho com uma costureira que sempre fez minhas roupas, já sabia do que eu gostava e, apesar de não ter estudo formal, tem uma experiência muito grande trabalhando com esses manequins”, explica. “Desde o começo da marca, tenho me esforçado para atender ao menos até o tamanho 60, mas até nisso o mercado nos limita, já que produz bojos de sutiã somente até o tamanho 58. Para algumas peças, a grade precisa parar por aí. É um mercado que ainda precisa vencer limitações, mas aos poucos vamos ganhando espaço”, completa. 

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Bambina/Divulgação

A Bambina, marca criada por Déborah Vinci e Karolina Bueno, traz na sua história algumas semelhanças. A marca começou com moda praia e, há dois anos, também trabalha com lingeries, se destacando no mercado independente plus size. A história é parecida com as que você já leu aqui: mulheres que não encontravam peças que gostavam e acabaram abrindo sua própria marca para satisfazer seus desejos e o de outras mulheres. A diferença é que a Bambina nasceu criando peças do 40 ao 60 mas, por conta da demanda por modelos plus size, hoje só trabalha com tamanhos grandes. Quando falamos de roupas femininas – principalmente em um âmbito que foi, por tanto tempo, excluído – a regra parece clara: só quem vive na pele entende o que é preciso para atender essas demandas e prosperar.

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“Os tamanhos carregam estigma. Em vez de aproximar a gente do nosso próprio, de fazer a gente se conhecer melhor, eles carregam pressão. Não consigo nem dizer o quanto as mulheres ficam felizes ao vestir tamanhos menores, como se isso significasse alguma coisa”

Maria Antonia Paschoal
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Hope/Divulgação

A distinção entre lingeries para mulheres magras e para mulheres gordas também foi responsável pela segregação criada no mercado. Por muitos anos, para tamanhos maiores, era possível encontrar apenas peças básicas, de algodão, sem rendas ou tecidos especiais. Marcas que trabalham com uma grade estendida que procura contemplar um número maior de mulheres se destacam por destruir essa distinção e cravar, de uma vez por todas, que as lingeries diferentes, especiais, rendadas e sensuais são para todas. É o caso da Leninha Roupa de Baixo, marca criada por Maria Antonia Paschoal em 2016. “Meu grande sonho sempre foi ter uma marca que mulheres que vestem do 36 ao 54 pudessem usar”, conta. “Mesmo modelo, mesma renda, mesma proposta. Se você é plus size, esse tipo de peça não existia no Brasil”.

Outro detalhe importante da Leninha é que suas peças não contam com uma numeração padrão (PMG) e sim de 1 a 6. “Os tamanhos carregam estigma. Em vez de aproximar a gente do nosso próprio, de fazer a gente se conhecer melhor, eles carregam pressão. Não consigo nem dizer o quanto as mulheres ficam felizes ao vestir tamanhos menores, como se isso significasse alguma coisa”, explica. Maria Antonia ainda conta que a maior parte das suas clientes não sabem direito qual o seu manequim, completamente desconectadas de seu tamanho. “Elas não querem achar que são G porque isso é um absurdo nos olhos da sociedade”, pontua.

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Leninha Roupa de Baixo/Divulgação

Mercado tradicional

Outro ponto positivo da explosão das marcas independentes foi o efeito que elas causaram no mercado de lingeries tradicional, obrigando-o a correr atrás do prejuízo para conquistar essa fatia da clientela. A Hope, um dos players mais importantes do segmento, criou uma nova marca plus size chamada Bonjour Lingeries, com peças que seguem as tendências do mercado e vão até 54. Na linha oficial, no entanto, a grade comum vai até 50, ainda bastante abaixo das outras marcas entrevistadas. “Junto com o mercado, também notamos que esse estigma não fazia sentido. Lançamos a Bonjour pensando nessa proposta. De coleção em coleção, inserimos mais peças com renda e cores tendência, assim como na grade regular. Já na Hope, estamos trabalhamos para sermos cada vez mais inclusivas e a cada coleção inserir grades maiores com novidades”, conta Sandra Chayo, diretora de marketing e estilo do Grupo Hope. “Entendemos que o estigma de mulher perfeita já não cola e não existe mais. Todas somos perfeitas à nossa própria maneira, usando da nossa intimidade como forma de empoderamento”.

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Loungerie/Divulgação

Já a Loungerie, outro importante nome do mercado, surgiu no mercado em 2009 com uma proposta inovadora de medir suas clientes para encontrar o sutiã perfeito, com peças modulares que levavam em consideração o tamanho do tórax e do busto. “Desde que implementamos o conceito do sutiã perfeito, no começo da marca, a marca trabalha com tamanhos maiores. Não rotulamos como um produto plus size, já que você pode encontrar um lindo sutiã fashion que vai do 40 ao 52, por exemplo”, explica Andrea Morales, diretora de produto da marca. Hoje com 41 lojas próprias e 27 franquias, a Loungerie conta que está trabalhando para incluir mais itens fashion até o 52/54 e adicionar o XXG nas calcinhas das linhas perenes.

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