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De portas abertas – e álcool em gel nas suítes

Muitos motéis estão funcionando a todo vapor na pandemia, com as devidas recomendações de higiene. Nós ouvimos histórias de quem esteve neles neste período

por Heloisa Aun 10 ago 2020 00h31
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Clube Lambada/Ilustração

telefone do motel toca.

– Oi, bom dia! Vocês estão funcionando? É possível fazer reserva de uma suíte para mais de um casal?

– Sim. Os quartos podem ser para até quatro hóspedes, mas nas suítes 21 e 22 têm uma porta entre elas que pode ser aberta, assim podem permanecer oito pessoas no total.

Apesar de não recomendados, encontros sexuais entre pessoas que não moram juntas estão a todo vapor na quarentena. Muitos motéis, enquadrados junto de outros estabelecimentos considerados essenciais, têm autorização para funcionar — uma pequena parte deles até recebeu um aumento considerável no número de clientes após mais de 100 dias de isolamento social. Alguns, inclusive, aceitam mais de um casal, como este procurado pela Elástica, localizado em uma cidade do Rio Grande do Sul. Outro, na zona sul de São Paulo, diz que, neste caso, apenas é cobrado 50% a mais para cada hóspede extra no quarto.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

A diferença, segundo profissionais que trabalham nesses locais em vários municípios do país, é a limpeza dos quartos, que está mais rigorosa, além da distribuição de álcool em gel e a recomendação do uso de máscaras — o que durante o ato em si deve ser totalmente descartada. A funcionária de um motel no distrito de Luzimangues, em Porto Nacional (TO), relata que a cobrança por higiene sempre foi grande, porém, agora, está maior ainda, com uso de equipamentos de segurança e produtos próprios para eliminar quaisquer “vestígios de bactérias” em objetos que possam ter sido tocados por clientes.

Mesmo com todos os riscos, os motéis se tornaram uma opção para “furar” a quarentena em meio às restrições de funcionamento aos demais estabelecimentos. Tais locais têm ambiente privativo e sem contato com outras pessoas, pois o hóspede chega de carro e vai direto ao quarto, muitas vezes. Para quem já utilizava esses serviços, a experiência tem sido diferente. “Entrei no quarto e ficamos um tempão passando álcool em tudo, até nos lençóis, maçanetas, banheiro e ao redor da cama. O boy que estava comigo riu porque o mandei tomar banho, embora já tivesse tomado antes de ir até lá”, conta uma cliente de um motel no Espírito Santo, que preferiu não se identificada.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

Outra funcionária, que trabalha há mais de 13 anos em um motel em Belém do Pará, conta que o estabelecimento funcionou como sempre, mas a boate localizada no mesmo terreno teve de ser fechada. Também foram intensificadas as medidas de limpeza e uso de equipamentos de proteção. No entanto, no início da pandemia, muitos clientes ainda estavam atrás das festas, porque lá era o ponto de encontro com prostitutas. Diante das portas fechadas, cerca de 300 pessoas começaram a permanecer por horas no estacionamento bebendo cerveja e outros drinks, para, depois, entrar em uma das suítes. Logo veio a denúncia sobre as aglomerações recorrentes e o motel passou a ser proibido de vender bebida no estabelecimento. As garotas de programa ficaram impedidas de voltar lá por um mês e as suítes deixaram de aceitar mais de duas pessoas. As restrições duraram pouco tempo: há cerca de duas semanas tudo retornou à normalidade: festas privadas em quartos, venda de bebidas alcoólicas e encontros dos clientes.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

A Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis) afirma que a preocupação com a proteção de clientes e colaboradores se intensificou com a pandemia, sendo disponibilizado aos associados um manual e a possibilidade de uma certificação internacional de higiene aos interessados. “Também vale ressaltar que a maioria deles utiliza aparelhos de ozônio durante a higienização de cada unidade, prática muito comum no setor nos últimos anos”, completa a instituição, em nota. Embora motéis consultados pela reportagem e citados nas entrevistas autorizem a entrada de mais de duas pessoas nas suítes, a ABMotéis declara que esses locais são, por padrão, locações privativas para um casal, onde não há aglomerações.

Há quem não acredite que as pessoas estão se expondo aos riscos na pandemia para frequentar motéis com namorados, antigos contatinhos e recém-conhecidos por aplicativos de relacionamento. Fato é que a demanda por esses estabelecimentos fez com muitos deles reduzissem os prejuízos causados pela crise do novo coronavírus. Conversamos com alguns frequentadores ou funcionários e selecionamos histórias um tanto quanto peculiares sobre quem esteve neles. Spoiler: tem desde uma embriaguez solitária na suíte até festinha particular entre amigos.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

Depois do chaveiro, vem o ménage

por Pedro Kennedy, de Limoeiro do Norte (CE)

No último final de semana, minha amiga tinha combinado com o crush, que não é daqui da nossa cidade, de se ver, já que eles não se encontravam mais por causa da pandemia. Era a rotina deles no passado: o cara vinha para cá e passavam a pernoite no motel. Como não se viam há tempos, juntaram todas as datas comemorativas, como o Dia dos Namorados, e organizaram uma noite romântica. Ao chegar no local e retirar todas as coisas do carro, como vinho e o jantar especial, o rapaz fechou o automóvel, que se trancou automaticamente. Porém, a chave ficou dentro. E é aí que eu entro nesta história.

A minha amiga me ligou, pois eu era a única pessoa que sabia onde e com quem ela estava. “Pedro, você tem que trazer um chaveiro para cá. É domingo à noite e ninguém nos responde”, pediu. Por ser já tarde da noite, era difícil arranjar uma pessoa para abrir aquele carro. Consegui um chaveiro, por sorte, e ainda tinha toda aquela desconfiança: a gente tinha medo do cara e ele da gente, uma vez que o motel não está localizado dentro da cidade, mas sim na estrada, em uma zona afastada. Ao chegarmos lá, a situação foi resolvida em poucos minutos. Eu, o chaveiro e o boy dela usávamos máscaras, enquanto a minha amiga se escondeu dentro do quarto mesmo. A essa altura, ela já tinha perdido todo o tesão, só que logo depois que tudo ficou bem, o fogo voltou, literalmente.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

E a melhor parte é que eu ainda fui chamado para ser “pago” por causa de toda a minha disposição de levar um chaveiro até lá. Leia-se: me convidaram para ficar por lá e participar de um ménage com essa minha amiga e o crush. Não estava preparado psicologicamente para aceitar uma proposta daquela, até porque foi a primeira vez que vi o boy dela frente a frente. E bem nessas circunstâncias. Mesmo com a minha recusa, já deixamos combinado o nosso sexo a três para a próxima vez que o cara vier à cidade. E sem um chaveiro envolvido.

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Sozinha, fumando um

por Ester Gomes, de Samambaia Sul (DF)

Na quinta-feira, 26 de junho, saí da minha casa, na Samambaia Sul (DF), e me encontrei com duas amigas, a Ana e a Bianca. A gente foi para a Asa Norte, no Plano, para comprar um fumo, mas a responsável não estava lá. Ligamos para a tal pessoa, às 21h, e ela ainda estava no Gama. Quando ela chegou, umas 23h, não daria mais para fazer qualquer outra coisa. O plano inicial de todas era o seguinte: eu iria para o Cruzeiro, ali perto do Plano, para dormir na casa do menino com quem estava ficando, o Thiago, enquanto a Bianca se encontraria com o namorado e a Ana veria uma outra amiga dela. Como enrolou no horário e eu não tinha dinheiro, apenas cartão, não tinha mais como chegar de ônibus no Cruzeiro.

Ao me tocar dessa questão, avisei o Thiago que não conseguiria ir até lá e ele ficou com raiva, porque pensou que eu fazia pouco-caso. Por isso, parou de me responder. Foi então que o namorado da Bianca chegou, viu que eu estava “meio assim”, perguntou o que tinha acontecido e expliquei a situação. Ele logo falou: “te levo para o Cruzeiro, Ester”. Mandei mensagem para o crush de novo, no entanto, ele respondeu, totalmente seco, que não tinha mais como eu ir. Aí falei: “e agora?”. Ele não me respondeu mais, ou seja, deu a entender que não queria que eu fosse. Mudei de humor no mesmo segundo e o namorado da Bianca percebeu que não estava bem. Em seguida, sugeriu: “estou indo para o motel com a Bianca. Se você quiser, pago a pernoite para você e depois você me transfere esse dinheiro”. Não pensei duas vezes e assim acabou que fui parar em um motel, pela primeira vez sozinha.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

Quando chegamos, eles foram para o quarto deles e eu fui para o meu. Estava com um pensamento triste e pensei que ia só fumar, chorar e dormir. Só que, após tomar um banho, bolei o fumo e percebi que não tinha isqueiro. Cacei um isqueiro no quarto, mas não tinha, e também liguei na recepção, mas eles não vendiam. Resultado: tive que sair para procurar onde comprá-lo, e, no meio desse perrengue todo, fiquei pensando se valeria a pena estar triste por causa de homem, o que é nada a ver. Voltei para a suíte, entrei, fumei e coloquei uma lingerie bem linda que tinha preparado para o boy (não deu, né?). Nesse momento, passei um tempo me admirando e tirando umas fotos. Foi uma noite em que pude me colocar em primeiro lugar. Era uma experiência que eu jamais imaginei que teria e, agora, quero vivenciar de novo o mais rápido possível. Acho que todas as mulheres deveriam viver isso porque é uma ótima oportunidade para você se amar, sabe?

Era só um social entre amigos

por Adriana*, de Campinas (SP)

No início da quarentena, lá para o fim de março, quando tudo começou a fechar aqui na minha cidade, estava ficando com um menino e ele me chamou para uma festa na casa de uns amigos. Sem saber muito a realidade da pandemia, eu aceitei, ainda mais porque não moro com ninguém do grupo de risco e tinham muitos poucos casos confirmados de coronavírus até então. Ao chegar lá, havia umas 15 pessoas, todas conversando e bebendo. Para animar a noite, decidimos fazer um daqueles jogos com bebida. Nisso, começamos a ficar mais e mais bêbados, mas muito, de verdade.

Uma hora um amigo próximo desse meu crush tentou me beijar. Eu, a princípio, disse que não, porque imaginava que esse cara com quem estava ficaria bravo. Nisso, ele mesmo falou: vai em frente. Eu, que não sou boba nem nada, comecei a ficar com o outro e o meu contatinho também entrou no beijo. Aí você já sabe. Ficamos os três durante um bom tempo, depois entrou outra garota e assim seguimos até os donos da casa nos “expulsarem”. Estávamos cheios de vontade de continuar de onde paramos, mas não tínhamos para onde ir, pois nenhum dos quatro morava sozinho. Nisso, o meu contatinho teve a ideia de procurar algum motel que estivesse aberto e aceitasse mais de um casal em um único quarto.

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

Por ocasião do destino, logo no primeiro deu certo. Pagamos um valor a mais e escolhemos a maior suíte, que também não era lá muito boa, não. Passado um pouco do efeito do álcool, eu, que nunca tinha tido relações com mais três pessoas, fiquei meio assustada e queria fugir. Não sabia bem como agir, o que fazer. Como já estava lá, só fui. O que teria a perder, não é? A sorte foi que o álcool fez eu me soltar e não pensar tanto na loucura que faria. Até hoje não sei o que significou aquela noite e nem me lembro de muitos detalhes. Só tenho noção que serviu como “despedida” e ficou na minha imaginação por todos esses meses seguintes dentro de casa. Após disso, eles até tentaram marcar mais um encontro, mas caí na realidade e não quis arriscar. Acho melhor esperar o fim desse isolamento para qualquer outra festinha privada.

Noites de embriaguez

por Bruna*, funcionária de um motel em Luzimangues, em Porto Nacional (TO)

Durante uma madrugada de trabalho na quarentena, chegou um cliente embriagado e falando tudo enrolado. Não dava para entender nada. O homem pediu um quarto e liberamos, mas, alguns minutos depois, ele ligou na recepção e explicou que a esposa o havia colocado para fora de casa porque estava bebendo com os amigos. Detalhe: aqui é um distrito pequeno em Tocantins, porém a capital fica a uns 13 km de distância.

Com raiva da mulher, ele atravessou a ponte à noite para a região onde está o motel, o que é um trajeto meio perigoso. Em seguida, tomou algumas doses de [cachaça] 51 em um bar e, como estava tarde, resolveu dormir aqui. Então, o cliente perguntou se poderíamos ligar para sua mulher com o nosso telefone para falar que a amava, que não era para se preocupar e que estava no “motelzinho” onde haviam feito amor mais cedo. Eu respondi que, infelizmente, não poderia usar o telefone da empresa, pois já era bem tarde e não tinha autorização para isso. Na verdade, eu não queria arranjar encrenca, [risos].

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Jazzie-Br Motels/Reprodução

Ele agradeceu e falou que iria dormir. Minutos depois, ligou mais uma vez na recepção e perguntou como fazia para assistir desenho animado na televisão. Tentamos explicar por telefone, mas, após pouco tempo, voltou a nos chamar, desta vez pedindo uma folha de papel de caderno, especificamente com listras. Respondi que tinha apenas papel branco, e o cliente aceitou, dizendo que faria uma carta para a esposa, pedindo desculpas e contanto tudo o que tinha feito no dia. Achei fofo e engraçado, por isso acabei levando o que ele pediu. Finalmente, o homem nos deixou em paz, até umas 6h da manhã, quando fechou a conta.

Na semana seguinte, ele retornou ao motel falando que havia sido expulso mais uma vez. A diferença é que, agora, estava bem mais tranquilo. Talvez até tenha se acostumado a dormir fora de casa.

*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas

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Jazzie Moyssiadis e Alexandre Furcolin viajavam bastante pelo Brasil em 2015, quando namoravam. Percorriam longas distâncias de carro e, quando anoitecia, paravam para dormir em algum motel na estrada, por conta do preço e para evitarem de entrar nas cidades. Essa era uma das partes preferidas de Jazzie, escolher onde passar a noite. Ambos eram apaixonados pela estética e pelo universo desses espaços. cada noite em um cenário diferente, lúdico, colorido, divertido. E eles se dispuseram a fazer essa curadoria.

Jazzie e Alexandre são fotógrafos e o projeto fez parte de um edital da Feira Plana, e foi assim que surgiu o @brmotels. Produziram novas imagens e fizeram um coração no mapa do Brasil com percursos de viagem para fotografar motéis por todo o país. O @brmotels também virou um livro e as imagens que ilustram essa matéria são parte desse projeto. Siga o perfil deles no insta para conferir imagens exclusivas 😉

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