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Moda em tempos de corona

Como a indústria, feita de pessoas, sensações, toques, histórias e viagens, reaprende a criar em tempos de isolamento social

por Giuliana Mesquita Atualizado em 22 jun 2020, 10h38 - Publicado em 5 jun 2020 09h45
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elástica//Ilustração

ngana-se quem acredita que a moda é feita estritamente de roupas. Moda é feita de pessoas, para pessoas. Ou seja: é claro que o isolamento social afeta especialmente a indústria, que também desce na lista de prioridades do público, tendo em vista uma pandemia mundial, recessão e desemprego. É um universo  reflexo de um tempo, conta histórias, estimula o toque. Qual história a moda vai contar durante e após a crise do coronavírus?

Fato é que a indústria precisava se reinventar há algum tempo. Há muito deixou de ser opcional pensar no fator humano, na sustentabilidade e no consumo em geral de uma cadeia que sempre pede mais, mais e mais. Nunca contente, a indústria, que antes tinha dois desfiles (e, consequentemente, duas coleções), hoje trabalha com quatro ou seis, dependendo do caso. As coleções principais, de inverno e verão, disputam espaço com as pré-coleções, que são menos midiáticas e demandam menos energia e criatividade, mas ficam mais tempo nas araras.

Para repensar o papel da moda daqui para frente, a Vogue internacional se uniu ao Vogue Runway para organizar o Vogue Global Conversations, um evento no começo de abril que discutia o futuro da moda em vários aspectos. Em conversas entre grandes nomes da indústria como Marc Jacobs, Stella McCartney e Natacha Ramsay-Levi (estilista da francesa Chloé), o panorama geral trouxe mais do que respostas concretas – impossíveis de prever –, mas teve conversas que giraram em torno do que os estilistas desejavam que mudasse depois do período de isolamento. Um foco maior em sustentabilidade e uma valorização maior do trabalho criativo dos estilistas, resultando em uma mudança no calendário de desfiles, foram as previsões mais interessantes.

“Temos que repensar o que foi feito até aqui, analisar esse mundo em que vivemos, que já vinha respirando por aparelhos”

Ronaldo Fraga, estilista
O estilista Ronaldo Fraga
O estilista Ronaldo Fraga NatyTorres/Divulgação

No Brasil, a história é parecida. Enquanto marcas grandes aproveitam de seus estoques para continuar vendendo e movimentando seu caixa, etiquetas pequenas foram forçadas a repensar sua maneira de produzir, se voltando cada vez mais para dentro, para o atemporal e para a sustentabilidade social, ética e ecológica. Para eles, os clientes devem acompanhar esse mesmo movimento. “Se essa crise durar bastante, alguns dizem dois anos, isso vai impactar bastante na cultura do consumo. A gente vai pensar melhor o que fazer com nosso tempo”, comenta Flavia Aranha, estilista de marca homônima com foco em sustentabilidade. “Meu desejo é que as pessoas comecem a comprar peças mais relevantes, com menos frequência e menos volume”, completa.

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Para Ronaldo Fraga, veterano da moda brasileira que sempre coloca o dedo nas feridas da indústria e do país, é hora de discutir tudo. Sua confecção está parada, com todos os funcionários em casa. Para ele, não é hora de pensar em novas coleções. “Temos que repensar o que foi feito até aqui, analisar esse mundo em que vivemos, que já vinha respirando por aparelhos. A moda, como reflexo retrovisor do tempo, reflete seus desejos. O que tem que mudar não é a moda, é o homem, o povo, a civilização, a sociedade. Ainda é muito cedo para falar em futuro, mas eu acho que o que eram preocupações de uma bolha vai se expandir para um número maior de pessoas. O consumo consciente, uma produção ético-social… acredito que um grupo maior de pessoas vai estar ligado na procedência de tudo que consomem”.

Tecidos tingidos à mão pela estilista Flavia Aranha
Tecidos tingidos à mão pela estilista Flavia Aranha Flavia Aranha/Divulgação

Um novo calendário

Marc Jacobs contou, em sua participação no Vogue Global Conversations, que está vivendo uma espécie de luto pela maneira como criava antes, com uma equipe unida, buscando inspirações juntos e viajando. No entanto, alguns estilistas enxergam novas oportunidades nessa nova forma de criar. Dono de uma marca independente de streetwear masculina, Igor Dadona conta que pausou os trabalhos de sua marca até setembro. “Eu costumava trabalhar com duas coleções por ano, com foco no desfile [Dadona faz parte do line-up da Casa de Criadores]. A crise fez com que eu começasse a pensar em lançamentos menores, mais pontuais e espalhados ao longo do ano. Fiz um drop de suéteres que está sendo confeccionado e enviado para os clientes direto da casa do menino que produz e, no futuro, estou pensando em criar uma coleção de camisas com os restos de tecido que tenho no ateliê do modelista que faz minha alfaiataria. No entanto, continuo acreditando no desfile como forma de proporcionar uma experiência para o meu cliente”, explica.

Flavia Aranha também engrossa o coro por coleções menores, mais focadas e específicas. “Cada vez mais, a gente vai seguir nosso tempo. Sempre achei essa agenda [de desfiles] bizarra. Ela já não fazia sentido antes, agora menos ainda. Penso em ter coleções menores. Acabamos de lançar uma linha de algodão orgânico bem confortável usando o estoque de tecido que já tínhamos no ateliê, com as modelagens essenciais da marca, meio pijama. Esse já é o DNA da marca, mas criamos um capítulo especial e deu muito certo”.

O processo de tingimento natural de tecidos da estilista Flavia Aranha usa, entre outros componentes, folhas
O processo de tingimento natural de tecidos da estilista Flavia Aranha usa, entre outros componentes, folhas Flavia Aranha/Divulgação

Quem se beneficia do hiato no calendário são marcas que apostam em uma moda atemporal, mais lenta, sem seguir tendências passageiras. Diferente das que estão sempre de olho nos bureaus de tendências para ver o que vai ser forte na próxima estação, tais marcas seguem uma história mais linear, construindo um DNA forte e reconhecível que não muda de seis em seis meses (e a cada nova coleção), criando sempre baseadas em pilares imutáveis. “Estou trabalhando para que as pessoas entendam o que minha marca é. Sempre fui focada em produto independente de coleção e, agora, vou ser mais ainda. As peças de roupa não devem estar numa arara durante apenas uma estação, a roupa não pode ser tão efêmera”, comenta Rafaella Caniello, estilista e dona da Neriage. “A coleção que eu pulei [que seria desfilada na SPFW de abril deste ano] não quebra meu discurso. Ela até o reforça. Tanto faz se ela é de 2021, 2022 ou 2023. Eu faço roupas pensando num sentido maior”.

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“Cada vez mais, a gente vai seguir nosso tempo. Sempre achei essa agenda [de desfiles] bizarra”

Flavia Aranha, estilista

Angela Brito, estilista caboverdeana estreante do line-up da última São Paulo Fashion Week, segue o mesmo caminho. Seu trabalho é parecido com os de ateliês à moda antiga, onde cada peça é feita sob medida. “Minhas coleções são atemporais, então posso lançar quando for. Vai depender muito de como tudo vai se configurar no Brasil e no mundo. Posso passar um ano sem lançar a coleção que ela vai continuar fazendo sentido, porque ela vem de uma pesquisa pessoal, de um desejo meu”, explica.

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Ângela Brito/Divulgação

A moda e o tempo

Entre os entrevistados dessa matéria, um assunto que parece convergir entre todos é o novo significado que a moda dará ao tempo. O tempo de cada processo, o tempo que leva para o novo surgir, o tempo de construção de uma peça, de costurar ideias, para que cada look chegue em um resultado final bem feito e condizente com o que foi idealizado no começo. Os estilistas também entram em consenso sobre o que o consumidor vai procurar em cada compra, em cada vez que pensar em adquirir algo novo. “A indústria deve repensar a necessidade de tanto consumismo, do que a gente realmente precisa. Vamos focar em economias e produção local e valorizar isso”, diz Angela Brito. “As pessoas sempre falam que meu produto é caro, mas não se perguntam o porquê. Acho que, agora, elas vão aprender a valorizar. Eu tenho a esperança de que a lição que essa crise vai nos ensinar é a de olhar o tempo de outra forma. O que é o custo do nosso produto? É, acima de tudo, o tempo que demora para ele ser feito”, completa Caniello.

Outro ponto de contato entre os estilistas ouvidos pela Elástica é que muitos estão usando esse tempo “que nos foi dado” como uma chance de tirar do papel o que antes era deixado de lado pela falta de horas no dia. Flavia Aranha, por exemplo, precisou estruturar e lançar seu site em tempo recorde, a fim de continuar vendendo. “Nosso site não tinha um e-commerce antes do vírus, nunca fomos fortes no digital, nunca tínhamos patrocinado um post e, de repente, tivemos que aprender tudo sobre esse mundo em apenas uma semana”, conta.

Croquís desenhados pela estilista Rafaella Caniello, à frente da Neriage
Croquís desenhados pela estilista Rafaella Caniello, à frente da Neriage Rafaella Caniello/Divulgação

“Eu tenho a esperança que a lição que essa crise vai nos ensinar é a de olhar o tempo de outra forma”

Rafaella Caniello, estilista

“Nossa cliente está acostumada a ir até nossa loja, ter um atendimento personalizado, conversar, tomar um café. A gente aposta muito nas relações humanas e afetivas. Mas, agora, todo mundo está comprando online. A diferença é que nós mantivemos essa experiência de compra personalizada, nossa vendedoras continuam conversando pessoalmente com cada cliente. Se alguém precisa fazer alguma troca, elas ajudam por WhatsApp a chegar na medida certa. Nossa maior questão é: como humanizar o espaço digital, mas ao mesmo tempo aproveitar essa tecnologia”. Os resultados dessa experiência já estão dando bons frutos: apesar de compras online terem alto índice de devolução, nenhuma das roupas vendidas durante a quarentena na loja de Flavia Aranha foram devolvidas. “Acho que vamos começar a pensar melhor o que fazer com nosso tempo”.

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A fila final do desfile de Ronaldo Fraga no SPFW
A fila final do desfile de Ronaldo Fraga no SPFW Ronaldo Fraga/Divulgação

Futuro do universo fashion

No Brasil, há pouca ou nenhuma organização e fomento quando falamos dessa indústria, que sempre foi vista como individualista, egóica e competitiva em níveis extremos. E essa costuma ser a verdade. No futuro, os entrevistados também esperam que haja uma coletividade maior entre as marcas e os estilistas. “Gostaria que todo mundo se aproximasse mais depois da crise, já que a gente está vendo de forma tão clara e escancarada que não tem como fazer nada sozinho. A gente não pode se ajudar só quando deu tudo errado”, opina Igor Dadona. “Espero que esse distanciamento da moda, que não é saudável, acabe e as pessoas abram os olhos pra isso. Precisamos ser mais próximos”, completa.

Outro ponto importante é o posicionamento das marcas. Muito se fala de inclusão, sustentabilidade e diversidade, no entanto, quando colocamos no papel, pouquíssimo é feito. “A maquiagem está caindo muito rápido. Você tem que se posicionar. A gente fala que pertence à profissão, mas grande parte da indústria apoiou o governo fascista que nós estamos vivendo. E estão todos, silenciosamente, esperando pra ver quem vai ganhar essa batalha para escolher com quem vai se aliar”, critica Ronaldo Fraga.

“Meu desejo é que, no futuro, as grandes indústrias assumam compromissos reais de não só mitigar seus impactos, mas de propor soluções que regenerem os estragos já feitos”, completa Flavia. “Há a certeza que a história da humanidade nunca mudou por freadinhas de leve. Sempre foi com freadas bruscas. Eu não tenho a menor dúvida de que tudo vai mudar, o mundo vai ser outro. Não entendam isso como um mundo pior ou melhor. Mas completamente diferente”, finaliza Fraga.

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