expressão

O punk respira: The Shorts

Expoentes de uma nova geração, bandas protagonizadas por mulheres e ancoradas no espírito punk/garage promovem renascimento criativo do nosso rock

por Eduardo Ribeiro Atualizado em 17 mar 2021, 00h12 - Publicado em 10 mar 2021 02h16
-
Clube Lambada/Ilustração

s últimos tempos vêm se revelando um período promissor, do ponto de vista criativo, para o punk, o metal e o garage/indie rock brasileiros. A maioria das pessoas por aí pode estar bitolada nas tendências comerciais do momento, segundo os rankings dos serviços de streaming, as playlists das festas de reality show e até achando que o som movido por guitarras distorcidas e seu potencial de contracultura ficaram lá para trás da morte do Kurt Cobain, mas não é isso o que encontra quem se propõe a garimpar pela produção underground contemporânea.

Por causa disso, e diante do evidente protagonismo feminino (e feminista) na constituição dos mais arrepiantes conjuntos musicais que andam experimentando com as ramificações de tais gêneros, decidimos iniciar aqui uma série de entrevistas perfilando essa espécie de “renascimento” elétrico-sintetizado numa era quase sempre digital.

Para começar bem nossas conversas com nomes que despontam no cenário, levados por gente que ainda continua a sustentar mensagens politizadas contra todo tipo de opressão e preconceito, troquei uma ideia com a Natasha Durski, vocalista da The Shorts. Produto de Curitiba e dona de um estilo autorreferenciado como “bluenoise e sexy tunes”, a The Shorts é, além da Natasha, que também toca guitarra e sintetizadores, Andreza Michel (baixo e voz) Babi Age (bateria) e Daniel K. (guitarra e sintetizadores).

-
Pri Oliveira/Divulgação

A banda surgiu no começo de 2014 e se consolidou após várias jams com músicos da capital paranaense, liquidificando, na base do rock alternativo, ingredientes que vão do noise, guitar, shoegaze e soul a flertes com o blues e dissonâncias contemplativas. O grupo tem na discografia um EP, Serendipity, lançado em agosto de 2015, e o álbum Dawn, que saiu em novembro do ano seguinte.

Em 2020, os planos eram de concluir o segundo álbum, mas mudanças na formação e a subsequente pandemia do novo coronavírus vieram como um balde de água fria para a turma. Vi outro dia nas redes sociais, porém, que elas retomaram os ensaios, e quis saber mais dos novos rumos definidos para a The Shorts.

Recentemente, vocês postaram nas redes um trecho trabalhando num som novo no único encontro da banda desde a pandemia. Vocês têm material guardado?
A gente vem trabalhando nesse álbum novo já faz algum tempo, e nossa ideia era ter lançado esse álbum em 2020. Por muitas adversidades do destino, esse trabalho foi sendo prorrogado, seja devido a algumas mudanças de formação na banda durante o processo, e agora, recentemente, com a vinda da pandemia. Para a gente, foi bem complicado, porque como normalmente compomos as músicas em conjunto e todo mundo tem muita autonomia sobre a criação das suas partes, é um pouco difícil quando alguém sai e precisamos “passar” tudo que estávamos trabalhando para uma nova pessoa, do zero, rearranjar (éramos cinco, e nos últimos anos, passamos a ser quatro integrantes), pegar o feeling, entrar em sintonia etc.

Foi um processo por um lado desgastante, mas, por outro, tivemos diversas visões diferentes das músicas que estávamos criando, e as pessoas que passaram por esse processo com a gente foram acrescentando coisas que ainda são incorporadas no que estamos trabalhando no momento. A gente ainda teve o azar de a nossa última mudança de formação ter acontecido um mês antes da pandemia começar, então, a gente meio que teve que recomeçar o processo com uma nova pessoa ao mesmo tempo que fomos impedidos de engrenar, ensaiar e trabalhar esse material por não podermos mais nos encontrar. Apesar das dificuldades de estarmos trabalhando todo mundo separado, felizmente conseguimos encontrar uma sintonia legal nessa nova formação e acredito que ela trouxe mudanças interessantes para o rumo desse trabalho, que esperamos conseguir lançar esse ano (desencanta, disquinho)!

Como era a relação de vocês com a música e a cena de bandas da cidade antes da formação da The Shorts?
A Babi e a Andreza, baterista e baixista da Shorts, não só tocam há algumas décadas, como tocam juntas em boa parte desse tempo, já tiveram diversas bandas juntas e estão presentes na cena musical curitibana e brasileira já há bastante tempo. O Daniel, nosso novo guitarrista (que tocava com a gente de 2015 a 2017 também), já tocou em bandas tanto aqui em Curitiba, quanto no Rio, sua cidade natal, e está há bastante tempo envolvido com o meio musical. Eu sou a pessoa mais nova da banda, e a mais nova no meio musical enquanto musicista, já que a The Shorts é a minha primeira banda que realmente saiu do estúdio de ensaio pra desbravar o mundo [risos]. Como também sou fotógrafa, acabei me aproximando muito do meio musical por afinidade e com o meu trabalho, fotografando diversas bandas do Brasil todo.

“Eu acho que com a visão que tínhamos do ‘rock de arena’ ou das ‘grandes bandas de rock de todos os tempos’, que viraram ícones de uma era, as pessoas ficaram um pouco reféns de buscar essa identificação com algo que não faz mais parte, de todo, da nossa realidade enquanto artistas num mundo extremamente mais globalizado, e vivendo um novo momento”

A gente, em geral, sempre teve muita conexão com a música e a cena musical independente, meio em que todo mundo se encontrou e se conheceu. É algo bastante comum na vida de todo mundo ali na banda estar presente em eventos musicais, shows de amigues, ou de bandas que a gente curte, estar em contato com outras e outros musicistas e fazer parte da cena musical de Curitiba e de outras cidades, então meio que a própria banda surgiu dentro do contexto da cena musical da cidade. A gente também sempre achou importante fortalecer esse processo de divulgação e circulação de bandas, então, além de estarmos envolvidas na questão musical, também somos bastante ativas no que diz respeito a produzir eventos e trazer bandas para circular por aqui.

-
Larissa Adamowski/Divulgação

A sonoridade do grupo remete a várias vertentes do rock alternativo. Como é tocar rock hoje em dia, quando o gênero já não ocupa mais um papel dominante no mainstream?
Pergunta difícil. Eu acho que, com a visão que tínhamos do “rock de arena” ou das “grandes bandas de rock de todos os tempos”, que viraram ícones de uma era, as pessoas ficaram um pouco reféns de buscar essa identificação com algo que não faz mais parte, de todo, da nossa realidade enquanto artistas num mundo extremamente mais globalizado, e vivendo um novo momento. Temos acesso a muito mais músicas e artistas, o que torna nossa relação com a música hoje positivamente mais plural. A grande realidade, é que muitas e muitos artistas do rock nunca foram tão bem sucedidos quanto se parece, então o rock, mesmo tendo em diversos momentos da história bastante protagonismo na indústria musical, também sempre teve seu pé ali na corda bamba do sucesso e da contracultura. O mais contraditório é que o tiro no pé, enquanto estilo, foi justamente quando ele se afasta desse aspecto de contracultura, de seu poder de contrariar, de transformação da sociedade, e vira algo inofensivo e inexpressivo, no sentido de ser acomodado, e, consequentemente, dialogar com um público reacionário, conservador, que se volta a pensamentos datados de mundo, inclusive também a partir de bandas que trouxeram questões pra suas canções, que nunca deveriam ser aceitas, seja por serem misóginas, racistas etc.

“Eu não acho que o rock, em si, morreu. Eu acho que o que morreu foi essa maneira de se contar histórias, de bandas que levam consigo pensamentos que não são (e nunca deveriam ser) suportados, é a morte desse rock que hoje não dialoga mais com a nossa sociedade (ainda bem)”

Eu não acho que o rock, em si, morreu. Eu acho que o que morreu foi essa maneira de se contar histórias, de bandas que levam consigo pensamentos que não são (e nunca deveriam ser) suportados, é a morte desse rock que hoje não dialoga mais com a nossa sociedade (ainda bem). Eu acho essa “morte”, muito simbólica, porque é a morte de coisas que não podemos mais aceitar, e, nessa morte, eu enxergo como uma forma de voltarmos os nossos olhos para outras formas de ver o mundo, sem ser a contada a partir da visão masculina, por exemplo. Eu quero ver a arte a partir de outras visões, sob outros pontos de vista que sempre foram mais negligenciados. Ao mesmo tempo que isso morre, renascem outras possibilidades e nós temos que nos atentar a elas. Eu reflito muito sobre o fazer rock nesse momento em que ele nunca esteve tão impopular, e obviamente, se o seu desejo é fazer muita grana com música, talvez não seja o melhor caminho para seguir. Só que, será que o rock é apenas uma fórmula, ou ele envolve outros aspectos, que talvez deixemos de lado e simplesmente relacionamos a uma forma específica de fazer música? Acredito que o rock em si representa muito mais do que um estilo musical, e isso precisa ser resgatado. Embora eu ainda ache difícil fazer rock hoje, eu acredito que, tudo que a gente faz, independente de gênero musical, deve passar pelas nossas verdades, e meu objetivo, e de todo mundo na banda, é fazer o nosso trabalho de maneira sincera, seja trabalhando com influências dentro do rock, seja explorando outros gêneros.

Ver essa foto no Instagram

Uma publicação compartilhada por The Shorts (@theshortsmusic)

Continua após a publicidade

Quais são as fontes inspiradoras para letras como “(We Can Always Count on) David Bowie”?
Eu normalmente bebo de muitas fontes, porque, antes de ser letrista, eu sempre gostei muito de escrever, tanto poesias, quanto contos, e sempre tive uma relação muito forte com outras artes, como a literatura, e as artes visuais, já que também é minha área de atuação. Eu gosto muito da ideia de provocar sinestesia, de troca de sentidos, de criar imagens para textos, dessa inter-relação entre as diversas artes, então eu busco trazer isso, do visual, da poesia, pra letras que escrevo. Também sou daquelas que pensa muito no som que as palavras vão ter dentro da construção melódica, então, às vezes certas frases que crio dialogam diretamente com a maneira com que elas serão cantadas, dando diferentes intenções às palavras. Em geral são letras com uma pegada mais melancólica, mais dedo na ferida, voltadas a questionamentos e a coisas que precisavam sair de dentro de mim, o mundo onírico etc.

No caso da “David Bowie”, por exemplo, é uma música que surgiu um pouco antes da morte dele. Ele havia lançado aquele clipe para “Blackstar”, e nós comentamos com a banda, como o Bowie era genial e a gente sempre poderia contar com a genialidade musical dele, que foi com certeza, também, muito inspirador para mim em termos de pensar na música também como performance, e de gostar de dialogar com todas as artes, de se reinventar. A partir daí, resolvemos que iríamos fazer uma música para ele, e, depois de ele acabar morrendo um mês após disso, decidimos que essa homenagem deveria rolar de verdade. Tem um easter egg bem legal sobre a letra dessa música, mas nós vamos contar em breve nas nossas redes sociais, então quem quiser saber, dá uma olhada por lá que vai rolar um desafio!

A The Shorts surgiu após várias jams. Como vocês sentiram que esta era a formação que deveria ficar?
Acho que decidimos que seria essa formação quando a Babi falou que queria tocar na banda. Antes disso, a gente (eu e a Andreza) tocávamos as músicas junto com outras pessoas de maneira despretensiosa, quando a gente se encontrava com a galera da música e fazia umas jams para se divertir. Num desses momentos, a gente resolveu brincar nessas jams com a Babi e ela curtiu o rolê, e aí a gente se tocou que poderia ser uma banda de verdade. Tanto que, mesmo após as várias mudanças de formação, nós 3 somos as únicas que estamos desde o início juntas. Acho que foi questão de sintonia, e de todas nós sermos muito dedicadas e comprometidas com a nossa vida musical e com nosso propósito nesse meio.

-
Larissa Adamowski/Divulgação

A proposta inicial era ser uma banda 100% feminina?
Sim. Logo após a gente decidir que a Shorts iria ser uma banda, de fato, a gente resolveu que queríamos encontrar uma menina para ser guitarrista. Daí, um dia, num show em que fomos assistir, vimos a Taís fumando do lado de fora da casa e pensamos: taí, a Taís toca, vamos chamar ela para tocar guitarra com a gente. E aí tudo começou a tomar mais forma. Com o tempo, a gente acabou querendo trazer mais ambiência pra canções e decidimos que precisávamos ter mais integrantes na banda. Como o Daniel já tinha visto praticamente todos os nossos primeiros shows, chamamos ele para fazer parte do rolê, e aí estamos nós novamente com ele nessa jornada.

-
Luana Tayze/Divulgação

O primeiro álbum de vocês foi mixado e masterizado pelo Mark Kramer. Vocês o procuraram pela identificação com artistas com quem ele já trabalhou, como Butthole Surfers, Galaxie 500 e Daniel Johnston? Saiu do jeito que esperavam?
A gente queria muito trabalhar com alguém que dialogasse com o estilo de som que fazemos, que traz muitas ambiências, atmosferas e efeitos, e a gente queria que isso estivesse muito presente no álbum, então conversamos com o André Ramiro do Ruído/MM, e ele acabou nos dizendo que o Kramer poderia ser uma boa opção para o que a gente estava buscando (ele também masterizou o penúltimo álbum da Ruído). Acabou que tudo meio que se conectou, porque ele havia trabalhado com muitas bandas que conversavam com o nosso som, e foi uma troca muito interessante, já que ele foi sempre muito legal em todas as nossas conversas sobre esse trabalho. Eu curto bastante o resultado, acho que o álbum tem uma qualidade sonora muito grande e me sinto feliz por isso.

-
Lyrian Oliveira/Divulgação

Gostaria que falassem da posição da The Shorts em relação ao feminismo e outras bandeiras políticas ou ideais que defendem.
Eu sou do posicionamento de que tudo é político. Todas as nossas atitudes são políticas, e se abster disso é se alienar quanto a própria vida em sociedade. Acho importante que isso também se reflita não só no nosso dia a dia, mas enquanto banda, porque, querendo ou não, quando subimos num palco, estamos proferindo um discurso e temos esse poder enquanto artistas, de trazer essas pautas para a coletividade. Enquanto uma banda formada por mulheres, duas lésbicas e uma bissexual, acredito que não trazer consigo as bandeiras do feminismo e do movimento LGBTQIAP+ é impossível, é contra a nossa própria luta enquanto individuo, numa sociedade que nos mata e nos oprime. Queremos estar do lado, tanto enquanto pessoas, como enquanto banda, de quem defende o feminismo, de quem está do lado da luta antirracista, da comunidade LGBTQIAP+ e da causa animal. Diante do cenário político que enfrentamos hoje, com a ascensão de um governo com moldes fascistas, que promove discursos de ódio e os incentiva, se torna ainda mais imprescindível nos unirmos e abraçarmos essas causas.

“Enquanto uma banda formada por mulheres, duas lésbicas e uma bissexual, acredito que não trazer consigo as bandeiras do feminismo e do movimento LGBTQIAP+ é impossível, é contra a nossa própria luta enquanto individuo, numa sociedade que nos mata e nos oprime”

O que vocês apreciam fazer além de música? Em outros campos criativos, profissionais, pessoais…
Além de musicista eu também sou fotógrafa e videomaker, então eu também acabo trabalhando nessa área, que é também meu principal sustento financeiro, e sou responsável pelo conceito estético/visual da banda. Para além do meu trabalho profissional, também desenvolvo projetos autorais e experimentais na área, e meio que gosto da ideia de artista multimeios. A Andreza recentemente criou uma marca de pedais de efeito feitos à mão, a DZ Handmade Pedals, que vem fazendo bastante sucesso, atrelando a paixão dela por pedais, com um novo hobby e uma nova profissão. A Babi divide suas 40 bandas (mentira, são seis, acho) com um trabalho numa empresa de vendas de instrumentos musicais, e fazer diversos esportes, como ciclismo, basquete e skate. Tudo isso com muitos bichinhos e companheires por perto para a gente amar. Daniel, por sua vez, está imerso no mundo da linguagem, seja ela musical, seja através do estudo de outros idiomas.

Dos shows e festivais em que já tocaram até aqui, que momentos vocês guardam com mais alegria e satisfação na memória? E o que esperam, planejam, para 2021?
Fiz uma enquete aqui com a banda e os que acabaram mais marcando a gente foram os shows em que abrimos pra bandas L7, em 2018, e para o Mac DeMarco em 2015, nossa apresentação no DoSol, no Morrostock, e no Sesc Pompéia, pois foi muito representativo para a nossa carreira subir nesses palcos, e abriram muitas portas para a gente. Também sempre me vem à mente um show que fizemos na cidade Patos, na Paraíba, de graça, na concha acústica no meio da praça principal da cidade, numa noite quente com um público que até então desconhecia o nosso som. Nesse dia, fizemos uma jam noise de alguns minutos no fim do show, e todo mundo continuou lá, vibrando e curtindo demais o rolê, um público super plural, de todas as idades. É por mais dias assim que gosto de fazer música, poder alcançar novos públicos, entreter as pessoas, mesmo que não estejam necessariamente familiarizadas com o nosso tipo de som. Para 2021, queremos VACINAAAA, poder encontrar mais as pessoas que gostamos, se encontrar, poder tocar, e se tudo caminhar certo, lançar esse álbum que estamos preparando com tanto carinho.

Continua após a publicidade
Tags Relacionadas
mais de
expressão
rico-dalasam-01

O Retorno de Rico Dalasam

Por
Depois de um hiato e um cancelamento, o rapper volta com novo álbum sobre afetividade de pessoas negras e relações interraciais
Pelo Brasil afora, drag amazônica chama a atenção para questões ambientais e sociais por meio de sua arte
Agnaldo Timóteo, cantor.

O último cantor do vozeirão

Por
Entrevistei Agnaldo Timóteo em 2018, mas apenas à luz de sua morte vejo essa conversa sobre homossexualidade e homofobia publicada
chorao03

A dualidade de um herói real

Por
Documentário "Chorão: Marginal Alado" mostra ambas as faces de um artista que marcou sua época sendo muito em todos os âmbitos de sua vida
No dia em que ele completaria 80 anos, Helio de La Peña, Jacy Lima, Yuri Marçal e outros humoristas refletem sobre o papel dos negros na comédia brasileira