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Fala na cara!

Mulher, negra, bissexual, mãe solo, funkeira de proibidão. MC Rebecca pertence a muitas minorias sociais, mas não há dúvidas sobre seu lugar: o topo

por Alexandre Makhlouf Atualizado em 19 jun 2020, 19h27 - Publicado em 15 jun 2020 09h57
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clube lambada/Ilustração

Cai de boca no meu bucetão.” A frase-convite pode assustar os mais pudicos ou desavisados, mas foi a responsável por alçar MC Rebecca ao estrelato. Funkeira de proibidão – vertente do funk que não poupa palavrões, descrições sexuais detalhadas e outros fatos que não costumam atingir a nota de corte das produções musicais –, Rebecca é um exemplo do quão livre as mulheres da atual geração podem ser. E de como isso é positivo.

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Felipe Braga/Fotografia

Aos 21 anos, ela acumula uma série de características que, no Brasil, poderiam ter limitado sua criatividade e sucesso. Mulher, negra, bissexual, mãe solo, cantora de funk. Nada disso, no entanto, a impediu de fazer turnês, lançar hits ao lado de outras popstars como Anitta ou mesmo aproveitar esse período de isolamento social para produzir quatro novas músicas em um EP batizado de “Carentena”. “Imaginei que ia ficar com saudade de um carinho, de um beijo na boca, mas não que isso seria tão forte. Vi um monte de gente falando nas redes que estava se sentindo assim também, achei o máximo e resolvi me juntar a todos os solteiros e dar voz a esses sentimentos”, ela conta.

Elástica bateu um papo com MC Rebecca sobre suas novas músicas, a falta de sexo no isolamento social, sonhos e maternidade. O resultado você confere aqui embaixo.

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Felipe Braga/Fotografia

Seu novo EP fala sobre sexo na quarentena. Como você tem driblado essa carência? Tá solteira, usa apps como o Tinder? Como se manter ativa na paquera durante um período de isolamento? Aliás: é saudável se manter ativa ou é melhor encarar essa “carentena” e se resolver sozinha?
Estou solteira e por isso tô sentindo tanta falta de sexo nessa quarentena. Tá todo mundo preso em casa! Gente, não saiam de casa pra encontrar o contatinho, por favor! Se ele ou ela vale a pena, vai te esperar até o fim da ‘Carentena’, não deem mole pro vírus. Olha, já usei aplicativos, mas hoje temos mais recursos. Além dos brinquedinhos, a gente tem vídeo chamada e as lives que podem ajudar. Tem filme, tem livros… E tem meu EP ‘Carentena’ que dá uma incentivada também e ameniza, brincando com a situação.

“Falar de sexualidade é sempre delicado no Brasil, um país que ainda mata muitas pessoas LGBTQ+. Mas eu fico muito orgulhosa de ser mais uma das mulheres falando disso abertamente”

MC Rebecca

Ainda falta mais mulheres falarem abertamente sobre sexo e sexualidade? Ainda considera isso um tabu, mesmo lidando com esse assunto tão abertamente?
Para mim, sexo nunca foi tabu. Falar e cantar sobre sexo é falar sobre uma coisa que todo mundo faz e gosta. Tem gente, por exemplo, que acha que falo que sou bissexual “de onda”, ou porque meio que tá na moda. Mas sou mesmo e falo isso há muito tempo: se eu pego homens e mulheres, eu sou bi. Falar de sexualidade é sempre delicado no Brasil, um país que ainda mata muitas pessoas LGBTQ+. Mas eu fico muito orgulhosa de ser mais uma das mulheres falando disso abertamente. Desde lá de trás, a gente tem feministas tocando no assunto, mas quanto mais mulheres cantarem sobre nossas vontades, nossa vida sexual, melhor para a gente conseguir igualdade e respeito nesse cenário também.

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Felipe Braga/Fotografia

Quais foram as inspirações para as quatro faixas desse EP?
A inspiração foram as coisas que eu tô sentindo na quarentena. Imaginei que ia ficar com saudade de um carinho, de um beijo na boca, mas não imaginei que isso seria tão forte. E sempre que eu comentava com meus fãs nas redes sociais sobre essa carência, eu via um monte de gente falando que estava se sentindo assim também e que só tava esperando a quarentena passar pra transar. Achei o máximo e resolvi me juntar a todos os solteiros e dar voz a esses sentimentos em cada faixa do EP.

Você escolheu fazer uma quarentena super produtiva, reunindo profissionais em uma casa para gravar clipes e músicas. E a produtividade na quarentena tem sido um tema bem debatido nas redes sociais… Como você tem cuidado da saúde mental neste período?
Antes de mais nada, eu preciso dizer que era uma equipe mega reduzida, todos estavam na quarentena e fizeram o teste do covid. E assim… essa saúde mental não é fácil, mas eu não posso desmoronar. Levanto a cabeça e penso na minha carreira, que não tem nem dois anos, e na minha equipe – o funk é um sustento para muitas famílias. Então, eu procuro focar mais no meu trabalho mesmo, ocupar a mente. Minha profissão e o contato com os meus fãs me ajudam muito nesses momentos. E sigo com a minha terapia também. Que isso, sim, quem puder fazer, eu super indico.

“Quanto mais mulheres cantarem sobre nossas vontades, nossa vida sexual, melhor para a gente conseguir igualdade e respeito nesse cenário também”

MC Rebecca
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Felipe Braga/Fotografia

Voltando a falar da carência, como é se relacionar com homens e mulheres sendo famosa e mãe solo? Sente que existe preconceito ou resistência das pessoas na hora de se envolver?
Algumas pessoas ficam mais receosas de chegar, já outras, chegam com tudo. Acho isso muito engraçado. Mas eu entendo que seja assim, mesmo eu me expondo muito na internet, falando de sexo e tudo mais, acho que as pessoas têm medo de levar um fora ou até de não se acharem capazes de se aproximar. Mas isso é besteira. Sou uma pessoa como todo mundo e o principal é ter química.

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Além de cantora, você também é mãe. Como tem sido essa troca e esse aprendizado com ela?
Morena tá com dois anos e já está muito esperta, muito levada! Nessa quarentena, que a gente está mais juntas, tem sido muito bom porque nem sempre eu conseguia ficar tanto tempo com ela em casa. Mas eu sempre procuro passar pra ela tudo que eu aprendo com a minha mãe até hoje. E, sempre que vou fazer alguma coisa, em casa ou até na minha profissão mesmo, penso se aquilo vai ser um bom exemplo pra ela. Eu sei que educar uma criança não é fácil, muito menos nas condições que a gente tá vivendo. Mas penso que desde a geração da minha mãe, as mulheres já lutavam pelos direitos, a minha geração tá passando por isso também, mas com um pouco mais de espaço por causa das redes sociais. Então, acredito que a geração da minha filha vai ser ainda mais corajosa e empoderada. Pelo menos é isso que estou ensinando para ela.

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Felipe Braga/Fotografia

“Eu sei que educar uma criança não é fácil, muito menos nas condições que a gente tá vivendo. Acredito que a geração da minha filha vai ser ainda mais corajosa e empoderada. Pelo menos é isso que estou ensinando para ela”

MC Rebecca

Você é uma pessoa totalmente midiática: faz shows, é influenciadora, tem milhões de seguidores e está direto na TV – inclusive, participou do De férias com o ex. Como você administra essa exposição pensando em maternidade e relacionamentos?
É muita coisa mesmo, mas eu amo tudo que eu faço, então acabo fazendo e não olhando muito para o tanto de coisas. Só às vezes, quando bate aquele cansaço, que eu paro pra pensar a quantidade de tempo que eu estou nesse ritmo acelerado. Procuro me organizar, tenho uma equipe maravilhosa comigo, que me ajuda a pensar na agenda e me lembra das coisas. Assim, a gente vai conseguindo conciliar tudo no trabalho. Já em relação à maternidade, fico com a minha filha todo tempo que posso. Tenho ajuda da minha mãe também pra conseguir me organizar em casa e nas minhas saídas.

É muito bacana ver você falar orgulhosa que canta proibidão, porque ainda existe muita gente que torce o nariz para o funk. Você encontrou um espaço bacana na música para falar sobre empoderamento feminino de um jeito que todo mundo entende. Qual a importância de ter, hoje, uma MC Rebecca na mídia falando sobre tudo isso?
Fico muito feliz de ser reconhecida desse jeito, cantando proibidão e falando de feminismo, que é uma luta que sempre vou defender. A importância é enorme. Eu me sinto muito grata de estar nesse lugar e olhar pro lado e ver que não estou sozinha. Temos outras meninas na pista também que fortalecem o funk e o proibidão. Isso acontece há muito tempo. Sempre foi e sempre vai ser importante, porque a música tem poder de alcançar muitos lugares que a gente nem imagina. E poder inspirar e lutar a favor das mulheres com a minha música é muito bom.

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Felipe Braga/Fotografia

Desde os 11 anos, você é passista do Salgueiro. Li também que você gostaria de voltar ao samba e cantar mais nesse gênero. Tem algum plano traçado de fazer essa guinada na carreira?
Amo o samba, sempre fez parte da minha vida e, se depender de mim, sempre farei coisas relacionadas a isso – como no carnaval desse ano, que fui rainha das passistas, uma experiência que eu não vou esquecer nunca mais! Tô muito feliz no funk, me sinto em casa. Óbvio que não vou dizer que nunca faria, mas no samba prefiro me expressar dançando mesmo.

“Fico muito feliz de ser reconhecida cantando proibidão e falando de feminismo, que é uma luta que sempre vou defender. Eu me sinto grata de estar nesse lugar, olhar pro lado e ver que não estou sozinha”

MC Rebecca

Você é de uma nova geração de artistas que entende muito mais as redes sociais, sabe trabalhar com singles e EPs mais do que com álbuns. Como vê o futuro da música em relação aos streamings e quais os próximos passos que pretende dar na carreira?
Sim, gosto muito de redes sociais, ainda mais agora neste período de quarentena. Acho que isso de lançar single e EP vem muito por conta das pessoas terem coisas novas o tempo todo e todos os dias pra escutarem, então, a gente acaba lançando aos pouquinhos, ou num EP, em que o volume é menor. Acredito que, na minha geração, poucas pessoas param a vida pra escutar um álbum inteiro de dez, 15 músicas, a não ser que seja muito fã mesmo ou se for um CD nostálgico, que mesmo assim, vai pulando as músicas e colocando logo nas que mais gosta (risos). Amo trabalhar com single porque consigo saber exatamente o efeito daquela música nas pessoas, diferente de lançar um álbum inteiro que o público reage a tudo de uma vez.

Você estourou rapidamente com “Cai de boca” e, de lá pra cá, as conquistas não pararam. O que você ainda sonha em conquistar?
Acho que sou muito jovem e ainda tenho muitos sonhos pra realizar, mas atualmente, tenho pensado bastante no meu DVD que sempre quis muito e vou conquistar. Acho difícil separar sonho profissional do sonho pessoal, porque eu diria que o meu pessoal é ser realizada profissionalmente, então, as coisas meio que se misturam, mas com certeza sonho também em continuar tendo condição de educar minha filha e ser o melhor exemplo possível para ela.

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Felipe Braga/Fotografia

Quem são as suas maiores inspirações na música?
De primeira, já me vem na cabeça Normani e Rihanna. Duas rainhas, divas, que eu gosto muito e me inspiro sempre. Mas também tem a Alcione e a Beyoncé, que cantam muito. Alcione escuto desde nova, que voz que aquela mulher tem! E a Beyoncé, que canta, dança, pula, sobe desce…. Incrível! Elas me inspiram muito a seguir e conquistar cada dia mais minha carreira.

Qual vai ser a primeira coisa que você vai fazer quando a quarentena acabar.
Beijar na boca! (risos) Tô brincando, acho que vou ficar alguns diazinhos em casa ainda. Para sentir como as coisas vão ficar, ver se todo mundo está bem para se encontrar de novo… Ficar mais observando mesmo. Mas quero encontrar meus amigos e depois organizar um show incrível pra encontrar com meus fãs, que também tô sentindo muita falta.

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