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Caem as máscaras

O covid-19 escancarou a desigualdade em que vive o Brasil. Na produção do item essencial de proteção à doença, encontramos realidades difíceis de engolir

por Artur Tavares Atualizado em 11 jun 2020, 17h50 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Clube Lambada/Ilustração

nquanto estamos dentro de casa vendo os dias passarem lentamente por nossas janelas, lá fora a vida de quem está na linha de frente do combate e contenção ao covid-19 corre em tempo acelerado. Como num piscar de olhos, o dia vira noite para enfermeiros, médicos, entregadores, motoristas, catadores de lixo, cozinheiros, atendentes de farmácias e supermercados. Em suas atribuições distintas, são eles que estão impedindo o mundo de parar de vez. Se muitos deles já foram aplaudidos pela população em campanhas solidárias on-line, uma categoria não tem recebido o devido crédito durante essa epidemia. Não fossem os costureiros, máscaras de proteção não estariam sendo confeccionadas, e provavelmente nossa saúde enfrentaria uma catástrofe muito maior.

A realidade pegou todo mundo de surpresa, e as leis estaduais que obrigam o uso de máscaras não fizeram questão de prever o óbvio: nas quebradas, o acesso às máscaras, e a conscientização de sua importância, não é tão fácil. Trata-se, é claro, de um produto que viu seu preço inflar: uma caixa com 30 unidades descartáveis está custando em média R$ 85, e uma boa máscara de pano não sai por menos de R$ 25. Em uma realidade na qual a população de baixa renda está perdendo seus empregos em ritmo acelerado, ao mesmo tempo em que as mortes nas periferias aumentam a cada dia que passa, como abastecer pessoas marcadas para morrer?

O procurador Gustavo Aciolly começou seu trabalho em Alagoas, e hoje é um dos maiores especialistas em situações degradantes dentro do Ministério Público do Trabalho
O procurador Gustavo Aciolly começou seu trabalho em Alagoas, e hoje é um dos maiores especialistas em situações degradantes dentro do Ministério Público do Trabalho Gui Christ/Fotografia

“Tivemos a ideia de promover a economia solidária entre grupos historicamente vulneráveis, que tiveram sua renda reduzida devido ao covid-19, e que estavam muito mais propensos ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo”

Gustavo Accioly, procurador

Um relatório recente da Prefeitura de São Paulo prova que a situação é alarmante. Os 20 bairros com mais mortes por covid-19 estão nos extremos da cidade, entre eles Campo Limpo, na Zona Sul, Jardim Helena, na Zona Leste, e Tremembé, na Zona Norte. Se a assistência chega rápido para quem vive bem, tarda a chegar para quem sempre viveu à margem. E enquanto quem deveria estar se preocupando com a epidemia preferiu se meter em um jogo político televisionado, e extensivamente twittado, ajudar ao próximo coube justamente a quem está sofrendo para sobreviver.

Catarina Suzana<br />Sou angolana. Estou no Brasil há dois anos e na ocupação há um ano. Vim para o Brasil procurando uma vida melhor [ela ri]. Ainda não encontrei, porque não estou fazendo nada. Não estou trabalhando, apenas estou aqui. Estou vivendo de ajuda de pessoas e do governo. Deixei meu marido em Angola. Preferia passar essa situação com ele, lá. Aqui não tenho marido, e meus dois filhos maiores estão com ele. Não vou voltar para lá, ele que tem que vir para ficar comigo. Estou precisando dele aqui, porque aqui não estou conseguindo nada, está difícil para mim.
Catarina Suzana
Sou angolana. Estou no Brasil há dois anos e na ocupação há um ano. Vim para o Brasil procurando uma vida melhor [ela ri]. Ainda não encontrei, porque não estou fazendo nada. Não estou trabalhando, apenas estou aqui. Estou vivendo de ajuda de pessoas e do governo. Deixei meu marido em Angola. Preferia passar essa situação com ele, lá. Aqui não tenho marido, e meus dois filhos maiores estão com ele. Não vou voltar para lá, ele que tem que vir para ficar comigo. Estou precisando dele aqui, porque aqui não estou conseguindo nada, está difícil para mim. Gui Christ/Fotografia

Por meio de uma iniciativa do Ministério Público do Trabalho, mulheres trans e refugiados estão confeccionando máscaras e distribuindo gratuitamente para quem mais precisa. A ação social começou na capital paulista e seu sucesso fez com que o projeto fosse levado a outros estados. A solidariedade tem tons de luta social: cada uma delas é feita com tecidos de motivos africanos, que parecem nos lembrar que o Brasil foi fundado no sofrimento, e nele ainda vivemos até hoje, enquanto riem da nossa desgraça em cima de jet-skis. “Estamos produzindo as máscaras há quase dois meses. A iniciativa surgiu quando a OMS recomendou a utilização de máscaras, antes do uso ter se tornado lei. Tivemos a ideia de promover a economia solidária entre grupos historicamente vulneráveis, que tiveram sua renda reduzida devido ao covid-19, e que estavam muito mais propensos ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo“, explica o procurador Gustavo Aciolly.

Um dos maiores especialistas em situações de exploração humana no Brasil, Aciolly tem uma carreira de sucesso dentro do Ministério Publico do Trabalho. Há dois anos, iniciou um esforço para capacitar profissionalmente populações marginalizadas. Com o início da pandemia, levou essas pessoas para trás de máquinas de costuras e já conseguiu colocar mais de 8 mil máscaras nas ruas, em abrigos para refugiados e em asilos de idosos. O mapeamento das populações em risco foi feito em parceria com o NEPO (Núcleo de Estudos de Populações da Unicamp).

O refugiado sírio, Annas Oubeid, entregador-voluntário do projeto do Ministério Público do trabalho para a produção de máscaras sanitárias através da contratação de pessoas em condição de vulnerabilidade na oficina de costura localizada na Ocupação 9 de Julho.
O refugiado sírio, Annas Oubeid, entregador-voluntário do projeto do Ministério Público do trabalho para a produção de máscaras sanitárias através da contratação de pessoas em condição de vulnerabilidade na oficina de costura localizada na Ocupação 9 de Julho. Gui Christ/Fotografia

Grupo de risco

A rotina de Thabhatha Freire estava agitada antes do covid-19 interromper abruptamente as atividades em todo o país. Trabalhando com o mapeamento de pessoas trans na Prefeitura e fazendo faculdade de Gestão Pública a distância, a transsexual de 32 anos pensava que nunca viraria notícia novamente. Manauara de nascença que se criou em Macapá, ela passou uma década brigando contra a justiça para mudar de nome no registro civil e poder, enfim, se assumir mulher. O caso ganhou repercussão nacional, mas havia seis anos que sua vida estava tranquila em São Paulo.

Consciente da realidade brasileira, em que a expectativa de vida de uma pessoa trans não ultrapassa 35 anos, Thabhatha sentiu a necessidade de ajudar suas manas quando a epidemia começou. Foi recrutada por Accioly como uma das costureiras das máscaras africanas. “Fazer o mapeamento nesse momento dá um aperto no coração. Ouço as travestis dizendo que estão passando fome, porque dependem da prostituição”, começa a contar, emocionada. “Se elas tentam ir para a rua trabalhar, os policiais mandam voltar para casa. É uma situação de muita dificuldade, em que elas estão sem dinheiro até para pagar as diárias das casas das cafetinas onde moram.”

Gilderlane Ferreira<br />“Para mim está muito difícil. Sou mãe sozinha, tenho três filhos. Com essa quarentena, não estamos podendo sair, trabalhar. Sou auxiliar de limpeza, trabalho no Tribunal de Justiça de SP. Estou indo duas vezes por semana. Mudou a rotina, o salário. Só estou recebendo os dias que estou trabalhando. VR, a mesma coisa. Aliás, desde o mês passado que não recebo. Eu acho que o certo era estarmos recebendo normal, porque o que está acontecendo não é nossa culpa.”
Gilderlane Ferreira
“Para mim está muito difícil. Sou mãe sozinha, tenho três filhos. Com essa quarentena, não estamos podendo sair, trabalhar. Sou auxiliar de limpeza, trabalho no Tribunal de Justiça de SP. Estou indo duas vezes por semana. Mudou a rotina, o salário. Só estou recebendo os dias que estou trabalhando. VR, a mesma coisa. Aliás, desde o mês passado que não recebo. Eu acho que o certo era estarmos recebendo normal, porque o que está acontecendo não é nossa culpa.” Gui Christ/Fotografia

Thabhatha viveu na pele a mesma situação no passado, e foi resgatada pelo programa Todos Contra o Tráfico de Pessoas, do Ministério Público do Trabalho, há um ano. “As trans que participaram foram abraçadas com muito carinho, deram oportunidade de renda para nós, que vivíamos na prostituição”, ela lembra. Não que seja fácil, porque a transfobia é uma realidade latente no mercado de trabalho brasileiro: “É muito difícil você ver trans contratadas formalmente. A maioria das empresas não contrata. Eu já passei por várias experiências, inclusive em redes de supermercado. Uma amiga minha foi humilhada pelos funcionários heteros em uma dessas redes. A travesti tem que ter muita voz para ficar em uma empresa. Quando ela tem voz, é bem-vinda. Senão, não é.”

Enquanto o noticiário e as redes sociais estão inundados com debates sobre a necessidade de manter a economia funcionando nesses tempos de pandemia, e a população de baixa renda mais uma vez é usada como escudo para discursos que são, no mínimo, oportunistas, a realidade silenciosa dos transsexuais não chega nem perto de ver a luz em rede nacional. “Sinto muito orgulho de ajudar as trans, porque elas estão passando muita necessidade”, diz Thabhatha, agora em prantos. “Ontem fui visitar uma casa com 28 travestis, elas não têm o que comer. A cafetina não ajuda na casa, está falida também. O dinheiro que ela tinha guardado, comprou de comida para a casa, mas acabou tudo. Até me envergonhei em entrevistá-las para o mapeamento, o que vou oferecer para elas? Muitas delas não têm nem documento, precisam fazer retificação de nome. Teve uma que me disse que era indigente.” Enxugando as lágrimas e tomando fôlego, ela conclui: “Agora, com as máscaras, posso abraçá-las. Porque, quando levamos uma máscara, somos mais respeitadas, elas entendem que podem ter outro foco na sociedade, que podem sair da prostituição. Elas passam a abraçar a causa LGBT conosco.”

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Pablo Liberi. Sou garçom, trabalhava com grandes eventos, buffet. A economia não é mais o principal problema no Brasil. Temos uma crise política que está agravando a crise de saúde, e vai gerar uma crise econômica pior do que poderíamos enfrentar. Parece que estamos em um avião sem piloto. Porque quem está no controle está fazendo pouco-caso. José Cícero de Sousa Neto. Sou garçom de um café. O estabelecimento está fechado há três meses. Minha rotina era bastante agitada. Diariamente, sinto falta do convívio social, das conversas triviais com clientes e colegas de trabalho. Sinto falta de ir a bares, visitar os amigos e conversar. Acho que vou adicionar mais isso na minha vida quando tudo passar.
Pablo Liberi. Sou garçom, trabalhava com grandes eventos, buffet. A economia não é mais o principal problema no Brasil. Temos uma crise política que está agravando a crise de saúde, e vai gerar uma crise econômica pior do que poderíamos enfrentar. Parece que estamos em um avião sem piloto. Porque quem está no controle está fazendo pouco-caso. José Cícero de Sousa Neto. Sou garçom de um café. O estabelecimento está fechado há três meses. Minha rotina era bastante agitada. Diariamente, sinto falta do convívio social, das conversas triviais com clientes e colegas de trabalho. Sinto falta de ir a bares, visitar os amigos e conversar. Acho que vou adicionar mais isso na minha vida quando tudo passar. Gui Christ/Fotografia

Realidades invisíveis

O tráfico de pessoas é, atualmente, a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas. Envolve cerca de 2.4 milhões de seres humanos, inclusive crianças, e movimenta em média 32 bilhões de dólares todo ano. Mas, é um submundo silencioso, em que muitas vezes a vítima não se entende dessa maneira. É o caso de muitas prostitutas, sejam elas mulheres cis ou trans. “Já conheci meninas travestis de 14 anos se prostituindo”, revela Thabhatha.

Gustavo Acciolly confirma que a prática, infelizmente, é cotidiana: “Tome como exemplo uma trans que quer colocar sua questão de gênero para fora e é expulsa de sua casa. Ela acaba na casa de uma cafetina, e então começa a dever o valor do silicone industrial, do megahair, dos tratamentos de beleza. Submete-se a uma exploração sexual sem limite e, ainda assim, não se reconhece como vítima. Às vezes, inclusive, reconhece a cafetina como a pessoa que a acolheu. Por isso, o tráfico de pessoas é um crime tão oculto.” O procurador afirma ainda que as mulheres refugiadas hoje também estão sujeitas a entrarem em um ciclo semelhante para manterem a estabilidade nas grandes cidades brasileiras.

“Ontem fui visitar uma casa com 28 travestis, elas não têm o que comer. A cafetina não ajuda na casa, está falida também. O dinheiro que ela tinha guardado, comprou de comida para a casa, mas acabou tudo”

Thabhatha Freire

A cadeia de desafios para acabar com essa realidade é longa, explica Gustavo: “A discriminação é a exteriorização do preconceito. O Brasil é um dos países que mais mata trans no mundo. Existe uma cultura de LGBTfobia muito grande em virtude da sociedade patriarcal que vivemos. O trabalho é uma das principais formas de inclusão dessas pessoas na sociedade. O trabalho não é um mero acesso à democratização de riquezas e, sim, um acesso à construção da sua narrativa de vida, à inclusão social e cultural, ter dinamismo na sociedade, ter contato com outras pessoas, para que acabe essa cultura de medo, xenofobia e ódio.” Se antes da contratação há o preconceito, existe ainda um passo atrás, a capacitação: “Não podemos obrigar essas mulheres a entrarem em cursos ou trabalhos que o Ministério Público do Trabalho oferece sem dá-las opção de escolha.” Na linha de frente, Thabatha diz: “Muitas vezes, pergunto se elas querem fazer algum curso, e ouço que não, que o mundo delas é a prostituição. Mas, e se a prostituição acabar, vai viver de quê? Aí que refletem, pensam em fazer cursos de maquiagem, cabelo, depilação. É um investimento.”

“Vim para o Brasil procurando uma vida melhor [ela ri]. Ainda não encontrei, porque não estou fazendo nada. Não estou trabalhando, apenas estou aqui. Estou vivendo de ajuda de pessoas e do governo. Estou procurando emprego, precisando muito. Está difícil ficar em casa”
“Vim para o Brasil procurando uma vida melhor [ela ri]. Ainda não encontrei, porque não estou fazendo nada. Não estou trabalhando, apenas estou aqui. Estou vivendo de ajuda de pessoas e do governo. Estou procurando emprego, precisando muito. Está difícil ficar em casa” Gui Christ/Fotografia

Solidariedade dos refugiados

A ação social das máscaras africanas acabou envolvendo também a organização Deslocamento Criativo, que atua conectando estrangeiros à economia criativa. No Brasil há cinco anos, buscando vida nova após enfrentar a guerra civil em seu país, o sírio Annas Oubeid não hesitou em ajudar na distribuição das máscaras ao redor de São Paulo. Jornalista feito prisioneiro de guerra pelo Estado Islâmico, ele já tinha experiência com voluntariado: “Desde muito jovem, quando começou a Guerra do Iraque e muitas pessoas começaram a chegar na Síria, passei a me envolver em voluntariado. Depois, com a guerra da Síria, foi uma correria para ajudar qualquer um. Quando fugi para o Líbano, trabalhei dois anos e meio no campo de refugiados da ONU, então ajudar é algo que ficou no meu sangue”, conta.

Com português impecável, que jura ter aprendido entre karaokês e eventos que passou a participar vendendo seus perfumes caseiros, Annas encontrou uma realidade cultural completamente distinta da sua no Brasil: “Falta totalmente ao brasileiro a cultura do voluntariado. Ser voluntário é diferente de ajudar ao próximo. Ajudar é uma gentileza, mas quando você faz voluntariado, tem que ajudar comunidades, ideias, negócios. Os voluntários nascem nas guerras, nas pandemias. Estou vendo essa cultura nascer agora por aqui.”

André Chiarati<br />Eu esperava um pouco de humanidade do governo. Não esperava que fôssemos fazer frente, nem que chegaríamos a esses momentos bizarros, em que aplaudiríamos pessoas como o João Doria por serem sensatas. O governo não está fazendo nada. Achar que está fazendo é uma enganação para dormirmos bem. Quem está fazendo são os movimentos sociais, que estão se organizando para levar comida, amparo social e psicológico, atendimento imediato.
André Chiarati
Eu esperava um pouco de humanidade do governo. Não esperava que fôssemos fazer frente, nem que chegaríamos a esses momentos bizarros, em que aplaudiríamos pessoas como o João Doria por serem sensatas. O governo não está fazendo nada. Achar que está fazendo é uma enganação para dormirmos bem. Quem está fazendo são os movimentos sociais, que estão se organizando para levar comida, amparo social e psicológico, atendimento imediato. Gui Christ/Fotografia

De acordo com o relatório mais recente da Agência da ONU para Refugiados, de 2018, o Brasil é lar de 11 mil migrantes reconhecidos pelo governo, cujos sírios são maioria, 36%. A realidade, porém, é muito diferente, já que, no mesmo ano, mais de 60 mil venezuelanos se submeteram à condição, e nossos vizinhos continuam entrando em massa no país, fugindo da ditadura de Nicolás Maduro. Entre os africanos, os congoleses registram 15% dos refugiados reconhecidos, e os angolanos, 9%. A compaixão pelos companheiros de luta pela sobrevivência também motivou Annas a distribuir as máscaras: “Gostei das máscaras com motivos africanos porque elas mostram nossa resistência. Fugimos de diversos lugares, passamos as piores coisas possíveis, e ainda temos tempo para refletir sobre nossas vidas, acordar para fazer algo, e não desistir. Quando vejo uma mulher africana que enfrentou guerra, fome, pobreza, ou alguém da Síria, percebo que essas pessoas não têm medo da pandemia, que estão enfrentando, procurando algo para fazer. Para mim, isso é um incentivo para entregar essas máscaras, vesti-las. São feitas por mulheres guerreiras, que não se desesperaram, que procuraram uma forma de fazer renda, um caminho melhor para seguir em frente.”

“Fugimos de diversos lugares, passamos as piores coisas possíveis, e ainda temos tempo para refletir sobre nossas vidas, acordar para fazer algo, e não desistir”

Annas Oubeid

Embora tenha encontrado um sem-número de pessoas gratas por receberem as máscaras nas comunidades, Annas também notou uma situação de completo descuido pelo poder público: “Percebi o quanto os moradores precisam de cuidados, de capacitação, de amparo. As pessoas não têm informações, chegaram a me perguntar se na Síria tinha coronavírus.” Mais do que isso, Annas descobriu que o brasileiro não é tão cordial assim: “Eu acho que vocês precisam dar valor na vida do próximo, principalmente às pessoas de idade. Foram elas que criaram esse mundo para nós. Não somos ninguém sem pai nem mãe. Só porque eles são velhos agora, não precisam de cuidados? Nunca! Eles plantam coisas para colher depois de 50 anos. Não se pode minimizar a morte de mil pessoas porque todas elas eram de grupos de risco. E daí? O grupo de risco vale mais do que eu! São eles que plantaram essas vidas para nós. O brasileiro é um pouco egoísta, pensa muito em si mesmo, acha que o mundo tá caindo só para ele. O mundo está caindo para todo mundo.”

“Meus filhos estão tendo aulas pelo site. Tenho uma filha de onze anos, uma de seis anos, e outra de três anos. Notei mudanças no comportamento deles, estão muito estressados dentro de casa”
“Meus filhos estão tendo aulas pelo site. Tenho uma filha de onze anos, uma de seis anos, e outra de três anos. Notei mudanças no comportamento deles, estão muito estressados dentro de casa” Gui Christ/Fotografia

Depois da pandemia

O aumento vertiginoso de casos de covid-19 no Brasil não parece dar sinais de reversão, enquanto o país continua sem um ministro da saúde, uma coordenação entre os governos federais, estaduais e municipais, uma palavra de alento sequer do presidente da República. Não há verniz para esconder a situação de 20 mil novos casos confirmados diariamente, cerca de mil mortes por dia: quem se fode é o povo. “Quando fizemos a primeira entrega das máscaras, ainda estava no início da pandemia, então era tudo muito novo, inclusive para nós. As pessoas estavam ainda em uma situação mais tranquila, foi a primeira vez que eu usei máscara”, diz Gustavo Accioly. “Hoje, encontramos pessoas desesperadas, sem emprego, em trabalhos informais, situação de fome. É necessário preservar a saúde da população, não sobrecarregar o contágio para não sobrecarregar o SUS. É difícil conscientizar a população que está sem dinheiro.”

Para o procurador, a maneira mais efetiva de conter o avanço da epidemia a níveis ainda mais críticos é o lockdown – medida oposta à flexibilização da quarentena anunciada por João Dória no dia 27 de maio. “A população ainda não têm consciência do que está acontecendo. Isso porque não temos uma abordagem consensual da pobreza estrutural, que leva as pessoas a não terem educação básica, a entender quais são seus direitos, quando exercê-los, e quando melhor efetivar esses direitos, e quando cobrá-los. Na minha opinião, o lockdown é uma medida restritiva muito mais rígida, que serve para não sobrecarregar ainda mais o sistema de saúde pública.”

Sobre o que virá quando o covid-19 não for mais uma ameaça, ele faz uma previsão: “Acho que daremos uns passos para trás, veremos de novo a necessidade de uma política assistencialista, para depois ver a inclusão social de fato. É muito difícil, em um país marcado por desigualdades e contrastes econômicos estarrecedores, você não adotar uma política assistencialista nesse momento, acreditar que as pessoas vão, de maneira autônoma, não cair em estado de coisificação, como já tem acontecido. As pessoas não são descartáveis, não são coisas.”

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