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Uma reflexão sobre maiúsculas

Alice Marcone bateu um papo com a escritora Maria Lucas, primeira mulher trans a vencer o concurso Serrote de Ensaísmos, do IMS

por Alice Marcone Atualizado em 18 jan 2021, 11h48 - Publicado em 17 jan 2021 23h18
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Clube Lambada/Ilustração

aiúsculas me assustam. Mas precisamos delas: apropriá-las, invadi-las. Arte. Filosofia. Psicologia. Universidade. Falo dessas maiúsculas com o peso e o tamanho de instituições milenares, muradas. Atravessei esses muros, a custa de muitos sacrifícios. Ali dentro, consumi e até construí saberes sobre o mundo, sobre qual práxis adotar, sobre meu corpo. Mas também destruí muitos. Saí envenenada, mas também armada. 

Agora, numa dialética de dentro e de fora desses muros, tive o prazer de encontrar uma parceira de luta e de arte. Essa troca de palavras compartilho aqui com vocês. Isso não é uma entrevista, é um diálogo. Já que a implosão de certos poderes sempre será a coletividade. 

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Nina Fachinello/Fotografia

“Dentro desses muros, o poder é ser uma Cavalona de Troia, entrar e, dentro da minha estadia, trazer as minhas, criar ranhuras e trabalhar em prol da destruição desses espaços construídos com sangue de muitos que não estão ali (estão, sim, mas nos serviços braçais, em que você encontra mais negros do que dentro da sala de aula, EM UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA!) e com a exclusão da nossa ancestralidade travesti”

Vejam, algumas letras precisam ser maiúsculas: precisam ser berro. Ou nome próprio, tão arduamente conquistado. Ou ainda, e esse talvez seja o ponto desse texto: referência socialmente reconhecida.

Então, antes de seguir, nada mais justo do que apresentar as maiúsculas que realmente importam aqui nessa coluna: Maria Lucas, artista interdisciplinar carioca, que ficou em primeiro lugar no 3° Concurso de Ensaísmo Serrote com o texto Próteses de Proteção. A Serrote é uma publicação quadrimestral do Instituto Moreira Salles. Veja quantas maiúsculas! E elas seguem: Maria, que por vezes é creditada como Ma. Ma. Horn, está com a vídeo-performance Mi Cuerpo no Es em exposição virtual pela Cuir Poetikas (Guatemala) e é artista-pesquisadora residente na parceria MAM (Museu de Arte Moderna RJ)- Capacete. Sim, muitas maiúsculas, até mesmo siglas!

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Nina Fachinello/Fotografia

O trabalho de Maria mostra como esses processos artísticos tão vitais podem atravessar os muros frios das instituições e, quem sabe, produzir maiúsculas cada vez menos esmagadoras. Mas isso tem custos:

“Bom, posso começar a falar da minha última formação, que foi no mestrado em Artes da Cena pela UFRJ. (…) Quando começo a transicionar e também a questionar métodos de ensino, textos com teor transfóbico e ‘me montar’ pra frequentar aulas, as tensões artisticas-burguesas-coloniais da branquitude cisgênera acadêmica e artística carioca caem por terra; fazendo com que a minha ex-orientadora, uma artista-cis-italiana, me fale que sou apenas mais um número para o currículo lattes dela, me excluindo do seu espaço acadêmico.”

Essas maiúsculas também nos assustam: especialmente porque tentam, o tempo todo, tornar-nos minúsculas. Ou, como disse a (d)ex-orientadora: números. Não querem nosso direito à letra, ao nome, à construção de sentido: querem que nossos corpos sirvam apenas à tecnicidade fria e cheia de bisturis dos números, querem que o corpo trans seja cifra, estatística. Objeto de estudo, nunca sujeito de saber.

Mas nós resistimos e vamos, sim, lutar com o poder das maiúsculas, para criar novas palavras, novos nomes, novas histórias:


“Precisamos não só modificar esse imaginário social colocado em nossas corpas trans, mas também sermos referências umas pras outras. No meu mestrado, precisei evocar e comprovar a importância de pesquisadoras travestis na minha bibliografia e na minha banca”

Se querem números, pois saibam que já somos maiúsculas. Insatisfeitas, pois nos queremos muitas.

“Tomando conhecimento do processo de transição de Preciado, e como ele escolheu incluir Paul ao nome que ele já tinha antes, pude pensar na possibilidade de agregar Maria, nome de minha mãe e todas suas irmãs, a Lucas, nome que ela tinha me dado no meu nascimento. Entrando em contato com os escritos de outro teórico trans, Jack Halberstam, pude compreender o quanto que esse (m)eu-nosso corpo precisa compreender a ideia de fracasso social intrínseco a uma trajetória Cuir [versão aportuguesada da palavra inglesa queer], além de associar-me ao que ele chama de Teoria Selvagem, que ‘tende a sobrepor a um certo referencial canônico uma multiplicidade de referências estranhas ao cânone’. Nesse caminho, descubro uma série de autores trans e pessoas com escritas alocadas no que temos chamado de vivências dissidentes como Viagem Solitária, de João Nery, primeiro homem trans a realizar uma cirurgia de transsexualização no Brasil, Se Eu Fosse Puta, de Amara Moira, Teoria King Kong, de Virginie Despentes, e #Soy Puto, do chileno Jose Carlo Henriquez.”

O resgate e a produção dessas histórias é uma disputa por sentido de narrativas e imaginários não só nas maiúsculas Universidades, mas também nas formas de produzir arte que se tornam maiúsculas quando engolidas pela lógica do entretenimento que, como já diz o termo, visa o MAINSTREAM.

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Nina Fachinello/Fotografia

“Comecei a pesquisar, e é o mote do meu atual trabalho de pesquisa para a residência MAM-Capacete, a construção do imaginário social colocado e construído sobre o corpo de mulheres trans e travestis na mídia brasileira. Nesse sentido, não consigo não pensar o quanto que o corpo de uma bicha não binária era tido como inofensivo quando apenas se apresentava montada de Drag em boates e estava lindíssima em sessões de fotos ou como hostess na noite LGBTQIA+, e, quando se assume travesti e inicia um processo de disputa de territórios em espaços destinados à cultura e educação, causa transtornos e é visto, de distintas formas, como estranho, abjeto e perigoso. Assim também penso que a construção do imaginário da drag, que vem ganhando espaço nas últimas décadas na cultura mainstream, está muito associada ao entretenimento. É muito interessante a figura da Pabllo Vittar em uma lata de coca-cola, mas também interessa-me questionar o quanto essa política neo-liberal, capitalista e meritocrática usurpa uma cultura oriunda de grupos marginalizados e a coloca num totem de distanciamento inalcançável associado a bens de consumo distantes da realidade social da grande maioria da população do nosso país. RuPaul, em suas 13 temporadas de Reality Show, insiste em alimentar um imaginário social que estigmatiza as artistas drags que vivenciaram suas transições de gênero durante ou depois da participação do programa, por exemplo. Basta vermos o recente documentário Disclosure, em catálogo na Netflix – em que se analisa o lugar que o corpo trans ocupa no cinema e televisão norte americano –, e olhar para o histórico das presenças trans no reality mencionado. Passo a pensar sobre isso, quando, questionando meu gênero e iniciando minha transição, ainda no meio drag, observo que a grande maioria, se não todas, drag queens cariocas produtoras de festas, fotógrafas, pessoas que estão movimentando o rolê e empregando outras, são na verdade homens cisgêneros gays que se travestem, sobretudo brancos e de classe média. (…) A cultura de massa expõe, minimiza e objetifica hábitos culturais que surgiram como resistência artística em grupos minoritários. (…). Assim, o que acaba imperando é a imagem farsesca de que uma ‘montada’ pode até ter reconhecimento, desde que por trás de tudo isso tenha um homem, não uma mulher, muito menos uma travesti. É uma visibilidade que, uma vez mais, nos distancia, apaga e estigmatiza.”

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Nina Fachinello/Fotografia

Visibilidade Trans

Essa ideia de “farsa” é justamente o que erige boa parte das produções cinematográficas que se propuseram alguma vez a dar “visibilidade” à narrativas trans (escritas, interpretadas e criticadas por pessoas cis). Talvez esteja na semente da cultura audiovisual brasileira se pensarmos no curta-metragem Augusto Anibal Quer Casar, de 1923, que retrata a história de um típico machão que, recebendo a punição das mulheres que sofreram na mão dele, é levado a casar-se com uma travesti – e a graça do filme aflora, justamente, quando o protagonista descobre a “verdade masculina” por trás daquele corpo “montado” com que se casou. Podemos começar por aí, mas não terminamos. Essa “verdade ontológica” sobre os corpos trans enquanto farsescos é a base de muitas produções brasileiras que tocam o assunto fazendo uso do “transfake” (quando um ator cis interpreta uma personagem trans), um tema tão bem debatido por Renata Carvalho. Vou citar algumas: Carandiru, A Força do Querer, Os Machões, entre outras.

“Enquanto tivermos homens cis ‘se montando’ para interpretar personagens trans no cinema, teatro e TV vamos apenas deseducar as questões de identidade de gênero que nos excluem desses e de outros espaços. Precisamos agir com uma nova, precisa e já atrasada educação. Para isso, é preciso incluir pessoas trans nesses espaços e reconfigurar esse imaginário… será que até em nossas histórias a cisgeneridade precisa estar como protagonista?”

“Enquanto tivermos homens cis ‘se montando’ para interpretar personagens trans no cinema, teatro e TV vamos apenas deseducar as questões de identidade de gênero que nos excluem desses e de outros espaços”

Maria Lucas
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Nina Fachinello/Fotografia

Mas isso vem mudando. Produções como Born to Fashion, Manhãs de Setembro, Noturnos e Todxs Nós, todas que eu tive o prazer de roteirizar, vem transformando essa lógica da representação da transgeneridade como “farsa”. Para além de protagonizarmos nossas próprias histórias, podemos, como qualquer corpo atuante, protagonizar outras – desde que se entenda o sentido que essa atuação constrói. Não somos farsa pois nosso corpo não está disfarçado: ele é verdade basal o suficiente para construir outras. Maria complementa:

“Acho que o meu maior sonho seria ser apenas uma artista, mas ainda sou e somos a artista ‘trans’. Enquanto tivermos sempre que ter esse rótulo alocado em nosso corpo, em nossa arte (e, pra mim, nos dias de hoje AINDA parece preciso, necessário), tenho a intenção de bagunçar a categoria de gênero, construir fricções que confundam a cisgeneridade compulsória e que constroem referências outras e múltiplas para pessoas trans, pois a gente ainda precisa se ver e (re)conhecer umes nas outres. É sobre criar redes, referências, sobre tudo para nós mesmas.”

A vitória de Maria Lucas num espaço tão intelectualizado como o concurso ensaístico da Serrote mostra como, aos poucos, podemos seguir construindo nossas maiúsculas.

“Ganhar esse prêmio me deixa ultra feliz no campo pessoal-profissional, mas mais ainda por poder deixar marcado, em mais um lugar, o nome travesti como podendo ocupar espaços de poder… além de poder citar diretamente e indiretamente outras mulheres trans e travestys no meu discurso, acadêmicas ou não, pois tudo isso vem de uma consciência de classe, de que precisamos aproveitar quando temos a oportunidade de abrir a boca para trazermos toda nossa transancestralidade.”

Em nossas maiúsculas não cabemos apenas nós. Caberemos muitas. 

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