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Maria Bopp & o fim do mundo

Do papel de Bruna Surfistinha à série de vídeos que critica as ações do governo Bolsonaro, a atriz conta como vai sobreviver a um possível apocalipse

por Giuliana Mesquita Atualizado em 26 jun 2020, 12h32 - Publicado em 26 jun 2020 09h43
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Clube Lambada/Ilustração

o livro Metrópole à Beira-Mar, em que Ruy Castro narra as histórias de um Rio de Janeiro nos idos dos anos 1920, o autor descreve como o teatro de revista lotava a praça Tiradentes de espectadores ávidos por ouvir sobre os acontecimentos nacionais – sejam eles de política, economia ou costumes – em forma de atos de comédia espertos e sagazes. Cem anos se passaram e parece que a forma continua atraindo o público. O cenário político e a cidade são outros. Troque Rio de Janeiro por São Paulo e uma cidade que borbulhava efervescência vanguardista por outra tomada pelo medo de um vírus de ordem mundial.

Maria Bopp nasceu em junho de 1991, em São Paulo, e sempre sonhou em ser diretora de cinema. Formou-se em audiovisual até que, depois de incansáveis tentativas de diretoras e produtoras de elenco depois, se descobriu atriz – mesmo que contra sua vontade. Sua primeira protagonista foi logo Bruna Surfistinha, prostituta de quem a história já se ouviu milhares de vezes, em uma série de quatro temporadas batizada de Me Chama de Bruna. Apesar do enredo familiar, a série da diretora Márcia Faria a coloca em um contexto atual, em um mundo com smartphones, redes sociais e aliciamento infantil. Ao longo desses quatro anos de gravação, Maria Bopp cresceu junto com a personagem, mudou sua ideia sobre vivências, enxergou novos cenários, viveu outras peles – ainda que só de frente para as câmeras.

A agora auto-proclamada atriz destila sua crítica à sociedade atual atrás de um quadro de humor chamado “Blogueirinha do Fim do Mundo”, em que intercala dicas de beleza e moda com boas sacadas sobre violência feminina, o governo Bolsonaro e a quarentena que parou o mundo. “Achei o primeiro ano do governo Bolsonaro um desastre em muitos aspectos. Toda vez que ele ou um de seus ministros falava algo absurdo, eu fazia o exercício de entrar na página de blogueiras, influencers e celebridades para ver como elas se posicionavam”, conta Bopp. “E, na maioria das vezes, elas ficavam bem quietas e postavam fotos de ensaios, selfies e dicas para suas seguidoras. Isso me irritava bastante”.

Maria Bopp conversou com a Elástica sobre o sucesso da série de Bruna Surfistinha, seu novo projeto de crítica sociopolítica envolvida em comédia e as maneiras em que ela sobreviveria a vários possíveis cenários de fim do mundo.

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Pedro Nekoi/Ilustração

Conte um pouco da sua história, de como você virou atriz.
Sou formada em audiovisual. Não tenho formação de atriz, não fiz teatro, nem faculdade de artes cênicas, nada disso. Entrei em 2009 no Senac e, no meu primeiro ano, fui chamada pra fazer figuração no filme As Melhores Coisas do Mundo, da Laís Bodansky. Topei justamente porque tava entrando na faculdade e queria ver como era um set profissional com a Laís dirigindo. Era um olhar mais curioso sobre um set de filmagem. Nesse dia, a produtora de elenco me chamou pra fazer uma participação maior, que era dar um beijo em um dos personagens. Eu neguei, porque não era atriz e não queria dar um beijo na boca de alguém que eu não conhecia na época (risos).

Dai você decidiu focar no detrás das câmeras…
Continuei minha faculdade e, em 2011, a Alê Tosi [produtora de elenco] me chamou pra fazer um teste para uma série do Multishow, a Oscar Freire 279. Ela me chamou pra fazer a Zazá, um papel coadjuvante – era uma série sobre prostituição também. Minha personagem era uma prima enxerida e engraçada, mais nova, da protagonista. Falei “Alê, você lembra que eu não sou atriz, né?”, mas ela disse que o papel era minha cara. Fiz o teste e passei. Foi divertido, minha personagem era engraçada. Na época, não quis investir na minha carreira de atriz. Tinha vergonha da exposição, não divulgava. A Alê me chamou pra outros testes, eu neguei. Queria me formar, seguir na faculdade e me tornar diretora um dia.

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Pedro Nekoi/Ilustração

E depois da faculdade?
Me formei em 2012 e continuei trabalhando atrás das câmeras, como continuista, durante um bom tempo. O continuista fica na área da direção, aprendi muito sobre montagem, decupagem e sobre direção de atores. Considerava um treino pra direção. Depois de alguns anos trabalhando atrás da câmeras, a mesma diretora da série do Multishow, a Márcia Faria, me chamou pra fazer o teste do papel da Bruna. Achei que não ia passar, tava enferrujada, e dessa vez era o papel da protagonista… Fiquei meio em dúvida se fazia ou não o teste até que eu decidi fazer e passei. Depois da Bruna, estava na hora de assumir a vontade de ser atriz. Acho que eu me enganava quando dizia que não queria tanto assim. Nunca abandonei o lado de trás das câmeras, ainda trabalho como continuista, agora cada vez mais quero voltar pra direção, mas comecei a estudar atuação.


“Depois da Bruna, estava na hora de assumir a vontade de ser atriz. Acho que eu me enganava quando dizia que não queria tanto assim”

Como foram esses anos gravando a Bruna? É uma personagem complexa, jamais imaginaria que seria seu primeiro papel como protagonista.
Foi incrível ter feito a Bruna. Foi complexo pelo tempo e pela personagem, mas principalmente porque era a segunda vez que eu atuava, e minha primeira personagem protagonista. Foram quatro temporadas, quatro anos muito especiais da minha vida. Muita gente me pergunta e acredita que o mais difícil foram as cenas de sexo ou nudez. Eu costumo dizer que isso me surpreendeu porque eu tive muito mais facilidade do que eu achei que teria. Quando eu fiz a primeira cena de sexo, pensei: “é isso? Então, tá bom”.

Claro que tem algumas cenas mais difíceis que outras, como as cenas de violência sexual, mas o mais difícil pra mim sempre foi atuar. Lidar com sentimentos que não eram meus. Trazer sentimentos, por exemplo, ao longo de todas as temporadas, a gente fala muito sobre a sensação de abandono que a Bruna tem por conta da família. A sensação de desejo de pertencimento… São coisas que são muito distantes de mim. Eu tenho uma família estável, amorosa, que me apoia em tudo. Ela, não. A dificuldade sempre foi me entregar a esses sentimentos.

E você cresceu junto com a personagem, né?
Sinto que me tornei uma atriz melhor ao longo dos anos da Bruna e sinto que essa melhora é visível. Eu me vejo como uma atriz melhor na última temporada em relação à primeira. E isso casa com a personagem, porque a Bruna da primeira temporada é diferente da Bruna da última. Eu cresci como atriz com a Bruna.

Como foi a reação do público?
Muito boa. A série passava na Fox Premium no Brasil e, só no final do ano passado, ela entrou no catálogo do Globoplay. A partir de 2019, recebi um retorno ainda maior. A série foi muito bem na Argentina, na Colômbia e no México. O assunto Bruna Surfistinha no Brasil pode ser um pouco saturado. Já teve o blog, o livro e o filme… era quase uma história que as pessoas já conheciam. As pessoas estão assistindo cada vez mais e, cada vez mais, essa audiência tem mulheres. Isso mudou ao longo dos anos.

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Fazer esse papel e viver essa história tão de perto trouxe algumas percepções novas pra você, Maria? Pra você, por que é importante que mais mulheres vejam uma série sobre prostituição?
Esse papel me ajudou a entender novas vivências, principalmente em relação a prostituição. Estudei muito a respeito do assunto, escutei e vi de perto mulheres muito diferentes de mim, de diferentes origens, tanto mulheres de fora de São Paulo quanto mulheres de renda mais baixa que trabalhavam tanto como prostitutas de luxo como em baixo meretrício.

Abri muito minha cabeça, procurei entender os motivos pelos quais elas escolhem isso e isso foi muito esclarecedor pra mim e para construir a personagem. Também foi importante para eu, Maria, entender a noção do todo e o tamanho da responsabilidade que se tem quando você protagoniza uma série que fala de um assunto como esse. É muito fácil ele cair em algumas armadilhas, tanto de glamourizar a prostituição e romantizar e também só colocar elas à margem e num lugar de vítima.

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Pedro Nekoi/Ilustração

Como você mostrou essa dualidade na série?
A Bruna e a série são bem prismáticas. O tempo inteiro você vê a montanha russa da vida dela, as oscilações. Às vezes, ela tá por cima, às vezes, por baixo. A gente construiu muito essa dualidade entre Bruna e Raquel. A Bruna quer muito ser famosa, então o sexo e o dinheiro acabam sendo como uma compulsão. Na verdade, ela quer tapar o buraco da Raquel, que tem uma necessidade muito diferente, de ter emoções normais, ter uma família e ser amada.


“É muito fácil ele cair em algumas armadilhas, tanto de glamourizar a prostituição e romantizar e também só colocar elas à margem e num lugar de vítima”

Como esse papel te mudou?
Eu me sinto mais forte tendo feito a Bruna. Sinto que sou mais corajosa do que achei que seria. Fazer a Bruna não me exigiu tanta coragem, na verdade. Foi uma coisa que eu mastiguei muito ao longo dos dias, conversando com as pessoas e os diretores, me entendendo e experimentando no ensaio. Foi mais uma construção do que um ato de coragem. Muita gente, tanto em entrevista como na vida mesmo, me pergunta como é a exposição, o assédio, as pessoas ligando minha imagem com a Bruna… Essas, para mim, são preocupações bastante secundárias. Fico pensando que talvez eu seja mais forte do que eu imaginava… ou, talvez, eu me importe menos com opiniões externas. Claro que eu tenho fragilidades, mas a Bruna me ajudou a entender que eu também tenho forças que não sabia que eu tinha.

Como foi o começo da Blogueirinha do Fim do Mundo? Acha que o papel da Bruna e o da blogueirinha podem ser comparados?
A Bruna coloca muitas questões de uma sociedade conservadora, careta, acusatória e machista à prova. Acho que a blogueirinha faz outra coisa. Elas estão num campo progressista da crítica, mas elas não tem nada a ver. A ideia da blogueirinha veio no final do ano passado, quando fiz um experimento cênico, uma montagem dirigida pelo Tomás Rezende e pelo Thiago Amaral com várias atrizes, uma montagem em cima do texto Fim de Partida, do Samuel Beckett. Resumindo bastante, é um cenário pós-apocalíptico. Ele escreveu no pós-guerra, era um cenário pessimista onde dois personagens repetiam uma rotina enfadonha todos os dias esperando o fim do mundo chegar. É muito louco como essa peça tem a ver com esse momento da quarentena que a gente está vivendo agora. Os diretores pediram pra gente levar ideias de como seria nosso fim do mundo e eu levei a ideia da blogueirinha do fim do mundo.

Você se inspirou em alguém específico pra fazer essa personagem?
Eu achei o primeiro ano do governo Bolsonaro um desastre em muitos aspectos. Toda vez que ele ou um de seus ministros falava alguma coisa absurda, eu fazia o exercício de entrar na pagina de várias blogueiras, influencers e celebridades pra ver como elas se posicionavam. E, muitas vezes, elas não falavam nada, ficavam bem quietas. Não tô falando nem só coisas do Bolsonaro: em qualquer situação política, elas continuavam postando foto de ensaios e selfies – o que me irritava bastante. Essas pessoas têm um alcance absurdo, falam com milhões de seguidores que não têm a mesma realidade que elas e elas poderiam, como agentes da cultura, ter posicionamentos, ajudar as pessoas a olharem as coisas de uma outra maneira. Não sei se é para não perder seguidores ou qual é o critério, mas isso me incomoda muito. Daí, me veio a ideia da Blogueirinha do Fim do Mundo: uma blogueira completamente alienada que, mesmo com o mundo acabando, está com a pele linda, skincare em dia e vídeos pros seus ‘seguimores’. Fiz nove vídeos até agora e sempre escrevo os roteiros antes. O terceiro, de looks para a quarentena, foi o que eu menos roteirizei. Escrevi algumas ideias e gravei. Escrevo todos sozinha, inclusive a edição, as legendas e a trilha. Minha família me ajuda com minhas ideias e eu ouço o que eles têm a dizer.

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Pedro Nekoi/Ilustração

Você sempre foi uma mulher politizada? Sua família está nesse campo progressista também?
Durante grande parte da minha vida, não fui politizada. Passei uma adolescência típica de garota paulistana de classe média alta que estudava em colégio particular. Eu tinha bolsa porque minha mãe é professora, mas convivi com muitas pessoas ricas e reacionárias e eu seguia esse tom. Não era politizada. Entrando na faculdade, eu ganhei consciência ao conhecer vivências muito diferentes da minha. Apesar de não ter sido sempre politizada, minha família é inteira de humanas, das artes. Minha irmã é jornalista; meu irmão fez direito e se tornou publicitário e escritor; minha mãe é professora e escritora. Sempre tive ao lado dessas pessoas que leem muito e que escrevem bem. Antes, não existia tanta polarização. Éramos a favor dos direitos humanos, podíamos ser conservadores, mas não éramos equivocados. Minha consciência política social e de classe foi crescendo ao longo desses últimos anos. O primeiro contato que eu tive com política foi o feminismo. Comecei a ler muito sobre: primeiro, em grupos feministas, em que me identifiquei muito, e, depois, me reconhecendo naquilo que eu via e lia e reconhecendo minhas vivências como menina/mulher. Foi através do feminismo que fui tendo consciência de classe e de raça, quando comecei a ler feministas negras e isso obviamente transbordou para assuntos de política, não só da pauta feminista.

Maria, como você acha que reagiria em vários cenários de fim do mundo?
Numa guerra química, eu morro. Num apocalipse zumbi, eu tento matar alguns zumbis, mas, eventualmente, morro. Com uma bomba atômica, eu morro. Numa falta global de água, eu substituo água por suco de maracujá, depois, por vodka e, depois, eu morro. E num governo Bolsonaro… Eu faço vídeos tirando sarro dele, bato panela até ficar rouca e depois eu, talvez, morra.

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