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Ainda sobre escrever

Marcelo Maluf, Paula Fábrio e Fabrício Carpinejar falam sobre literatura brasileira em tempos sombrios e como é a vida de escritores e escritoras no país

por Alana Della Nina 17 set 2020 02h53
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Clube Lambada/Ilustração

m um cenário no qual 30% da população brasileira nunca comprou nem um livro sequer na vida, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, publicada em 2016, é desanimador pensar na vida de um escritor – especialmente se você desejar viver essa vida. O levantamento ainda mostrou que 44% dos brasileiros não leram nenhum livro em, pelo menos, três meses, e a média de leitura do país é de menos de 3 livros por ano. O padrão do escritor brasileiro também não ajuda quando falamos de um país tão diverso e com dimensões continentais: um estudo feito entre 2003 e 2018 pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, coordenado pela pesquisadora Regina Dalcastagnè, identificou que, por mais de 40 anos, o perfil do romancista brasileiro publicado pelas grandes editoras foi o do homem branco, de classe média, sudestino, sobretudo do eixo Rio-São Paulo. Seus personagens têm os mesmos traços – são, na maioria, homens brancos, heterossexuais, de classe média e vivem em grandes cidades.

Na contramão desses dados todos, um punhado de evidências mostra que escrever não é paixão pequena: nunca se publicou tanta literatura brasileira, nunca se houve tantas possibilidades para se publicar um livro – de editoras independentes a ferramentas de autopublicação – e nunca se quis tanto escrever. Mais importante ainda: há cada vez mais espaço para autores e autoras fora do tal perfil tradicional – mulheres, pessoas negras, pessoas fora do eixo Rio-São Paulo e outras minorias pouco contempladas até então na literatura brasileira –, além do resgate fundamental de grandes autores e autoras historicamente negligenciados, como a mineira Carolina Maria de Jesus, que terá sua obra publicada pela Companhia das Letras.

Para entender melhor como funciona a realidade complexa e cheia de camadas da literatura brasileira e – mais que isso – de seus escritoras e escritores, principalmente em suas subjetividades (sempre mais interessantes que os números), conversei com Marcelo Maluf, Paula Fábrio e Fabrício Carpinejar. Com histórias de vida, formação e um fazer literário muito distintos, eles contam como foram suas jornadas, como se assumiram escritoras e escritores, como entendem a literatura no país hoje e suas faltas, e os caminhos possíveis para nos tornarmos uma nação mais leitora e, assim, com um maior desenvolvimento das nossas capacidades críticas e analíticas e com acesso irrestrito à nossa imaginação, além de reconhecermos e valorizarmos a imensa diversidade de autores e autoras nacionais como parte fundamental do nosso repertório cultural, artístico e político. Bati o mesmo papo com Sheyla Smanioto, Jeferson Tenório e Carol Bensimon – o resultado você confere aqui.

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Marcelo Maluf/Divulgação

MARCELO MALUF

Nascido em Santa Bárbara D’Oeste, interior do estado de São Paulo, em 1974, o ficcionista e professor de criação literária é autor dos infanto-juvenis Jorge do pântano que fica logo ali (FTD, 2008), As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013) e Meu pai sabe voar (FTD, 2009), em parceria com Daniela Pinotti. Seu primeiro romance, A imensidão íntima dos carneiros (Reformatório, 2015), foi finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, ambos em 2016.

Descobrir a escrita e se assumir escritor

A ideia de ser escritor começou a existir para mim quando eu tinha 11 anos. Eu lia as crônicas de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, naquela série de livros ‘Para gostar de ler’ e me divertia muito. A partir desse contato e do prazer com a leitura, fui buscar outros livros, outros autores e autoras. Ou seja, minhas leituras me levaram a pensar que eu também poderia escrever minhas histórias, e foi o que fiz. Frequentava a biblioteca pública da minha cidade natal no interior do Estado de São Paulo, e lá conheci muita coisa. Eu emprestava em média 3 livros por semana – não que eu lesse tudo, mas queria folhear, conhecer, saber se eu poderia gostar ou não de ler aqueles livros. Ali me formei como leitor e dei os meus primeiros passos para me tornar um escritor. Anos mais tarde, já morando em São Paulo, frequentei oficinas de criação literária que me ajudaram a organizar toda minha bagagem até ali. Mas só me assumi como escritor em 2004, quando assinei o contrato para publicação do meu primeiro livro, o infantojuvenil Jorge do pântano que fica logo ali. O livro só foi lançado em 2008, mas de qualquer maneira, a partir dali, do contrato assinado,  já me considerava escritor.”

Sobreviver da escrita no Brasil

“Sobreviver dos livros, da escrita, dos direitos autorais é para bem poucos. Vejo alguns autores e autoras, em especial ligados à literatura infantil e juvenil, que conseguem essa façanha. Já quanto aos autores que apenas escrevem para adultos, não conheço nenhum. A maioria tem outras atividades para poder pagar as contas. Creio que todos os incentivos, como bolsas de criação e prêmios literários, sejam muito importantes para fomentar a literatura e dar possibilidade para novos escritores se dedicarem ao ofício. Eu, por exemplo, dou aulas de criação literária e faço clubes de leitura. Isso não significa que seja o suficiente. Fui contemplado com o Prêmio São Paulo de Literatura 2016 e foi muito importante para minha carreira, tanto financeiramente quanto em relação à visibilidade do meu trabalho.” 

Diversidade na literatura

“Esse perfil do romancista homem, branco, de classe média/alta está mudando, sem dúvida. De uns anos pra cá, esse movimento vem crescendo e autores e autoras fora do eixo Rio-SP têm conseguido a projeção de seus trabalhos. Alguns com livros publicados por pequenas editoras, outros em grandes grupos editoriais. O fato é que o cenário já é outro. Não que seja perfeito, longe disso. Mas a produção da literatura contemporânea tem se mostrado múltipla, diversa, potente, os temas têm sido ampliados. É um momento muito rico para nossa literatura.” 

O mercado brasileiro

Em primeiro lugar, falta investimento público. Falta considerar a diversidade de gêneros. Há muitas literaturas. Não há só um jeito de escrever boa literatura. É preciso ampliar nossa visão, perder preconceitos de gêneros literários. É preciso entender que há uma diversidade de produções literárias. As editoras e a mídia precisam olhar para isso. E não apenas falar, durante um tempo, de um determinado autor ou autora, de um determinado gênero, de um determinado assunto. Isso não ajuda os leitores, não ajuda os autores e autoras, não ajuda a literatura de modo geral. Quanto ao fato de que a maior parte do que é lido e publicado no Brasil seja literatura estrangeira, isso diz respeito ao mercado literário, que prefere investir no estrangeiro que já chega legitimado do que arriscar a publicação de um novo autor brasileiro. Ao mesmo tempo, nunca se publicou tanto literatura brasileira. Mas precisamos de muito mais. Precisamos que os leitores descubram a literatura brasileira e vice-versa.”

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Reformatório/Divulgação

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Paula Fábrio/Divulgação

PAULA FÁBRIO

Nasceu em São Paulo em 1970, onde mora até hoje. É doutora em Literatura pela USP e autora de Desnorteio (Editora Patuá, 2012), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e Um dia toparei comigo (Editora Foz, 2015), livro finalista do mesmo prêmio. No corredor dos cobogós (Edições SM, 2018) é sua primeira obra juvenil.

Descobrir a escrita e se assumir escritora

No momento em que lancei meu primeiro livro, Desnorteio, em 2012, o mundo começou a saber que eu era uma escritora. A palavra mundo, àquela altura, significava um círculo de cem pessoas, uma nota numa revista cultural e uma noite de autógrafos num barzinho. Talvez hoje esse mundo seja um pouco maior, só um pouco. No entanto, eu já sabia, desde o início da adolescência, que seria escritora e comentava isso com vários amigos e também com os meus pais. Alguns sorriam, outros desdenhavam, mas em casa ninguém compreendia muito bem o que isso significava. Mas quem primeiro afirmou que eu era uma escritora foi o Marcos Rey, numa carta. Muitas vezes, precisamos que alguém nos diga uma coisa dessas, para tomar coragem. Além do mais, levei um tempo para me dar conta de que ser escritora não me outorga automaticamente determinada qualidade. Há escritores muito ruins. Contudo, lembro-me que foi somente em 2013, após vencer o Prêmio São Paulo de Literatura, que preenchi uma ficha de hotel, pela primeira vez, com a palavra ‘escritora’ no campo correspondente a profissão.”

“Nessa jornada, passei por vários desvios de conduta. Formei-me em publicidade, trabalhei como redatora por muitos anos, tive uma passagem meio desastrosa como revisora, abri e fechei uma livraria, fui gerente de uma biblioteca pública, e somente na casa dos quarenta anos publiquei meu primeiro romance. Nesse tempo todo, minha formação foi a leitura. Não fiz oficina, não frequentei o meio literário, aliás, àquela época, não havia youtubers, clubes de leitura, festivais, nada disso. Havia somente a Bienal e cadernos de cultura nos jornais, que eu devorava. Havia também alguns blogs, os quais eu não conseguia acompanhar, porque trabalhava demais para pagar as contas. Todavia, comecei a conhecer um pouco do mercado editorial na livraria; essa experiência foi boa porque perdi ilusões e compreendi que faria tudo sozinha e na unha.” 

Sobreviver da escrita no Brasil 

Sobreviver de direitos autorais é impossível, pois o volume de vendas de autores nacionais contemporâneos é baixo. Os prêmios e as bolsas, que estão minguando devido ao governo de extrema-direita que nos assola, ajudam bastante, mas não são suficientes para manter um indivíduo, muito menos uma família. A autopublicação é um investimento razoável e o retorno é mais alto se comparado à remuneração de uma editora pequena ou média, porém seria necessário vender cem mil livros por ano, eu acho, para sustentar uma família. Quem vende isso? Por essa razão, o escritor brasileiro precisa ter outras atividades.”

Diversidade na literatura

Editoras grandes, como a Companhia das Letras, vêm se mostrando mais combativas e plurais, estão atendendo a uma tendência da sociedade (veja: editoras pequenas estavam comendo essa fatia pelas beiradas). Movimentos de minorias sociais, como o movimento negro, conseguiram colocar em pauta para os brancos o racismo no meio literário. O que houve com a Flip foi um bom exemplo disso, sua organização foi questionada; os prêmios foram questionados. Acontece que esses movimentos já estavam organizados há anos, batendo nessas teclas, mas, talvez com a internet, as pessoas ouviram isso de modo mais sincrônico. Não desprezemos o mercado, ele percebeu esses nichos. A recepção dessas obras também se alterou. Na academia, já havia espaço para a produção das minorias, mas agora ele vem se ampliando. No entanto, o espaço no mainstream ainda é protagonizado por poucos nomes. Mas agora, com a pandemia, com as mudanças no planeta, para o bem e para o mal, o mainstream já será outro, em vários sentidos.” 

“Sou LGBTQ+, porém minha literatura não trata dessa temática diretamente, então não sinto na pele de escritora essa diferenciação, mas claro que observei nos meus anos de formação uma presença diminuta (e desprezada) de mulheres, pessoas negras, pobres e LGBTs no meio literário, e me revoltei com isso. Ainda me revolto, por exemplo, quando vejo milhares de mulheres consumindo livros de autores misóginos com textos misóginos, beijando seus pés, muitas delas feministas, mas que ainda não encararam o problema em toda a sua profundeza. Em resumo, esse caminho é cheio de armadilhas.”  

O mercado brasileiro

Falta incentivo governamental, institutos que banquem traduções e publicações de seus autores no exterior, como acontece em vários países, inclusive em países em desenvolvimento. Essa divulgação é essencial para que tenhamos um Nobel brasileiro, por exemplo, e esse nome abra portas para nossa internacionalização. Isso também vale para o nosso próprio mercado. Sem apoio, não conseguiremos nunca. Os canais recebem (ou recebiam) injeções de dinheiro, mas não há um plano que interseccione essas ações. Por exemplo, livrarias podem receber subsídios do governo, editoras, mas se elas abrem as portas e o autor nacional contemporâneo não está lá na vitrine, não adianta nada. Se o governo de fato investisse nos autores brasileiros, desde a educação do povo até a chegada às livrarias e bibliotecas, a vida seria outra. Mas nunca houve interesse nisso. Agora, então, é que não há mesmo.”

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Oficina PAULA FÁBRIO/Divulgação

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Fabrício Carpinejar/Divulgação

FABRÍCIO CARPINEJAR

O gaúcho nascido em Caxias do Sul em 1972 é um dos escritores mais prolíficos de sua geração: em 20 anos de carreira, escreveu 45 obras e ganhou cerca de 20 prêmios literários, entre eles o Prêmio Jabuti, o Prêmio Açorianos de Literatura e o Prêmio Cecília Meireles. Durante o isolamento, Carpinejar escreveu Colo, por favor! (Editora Planeta, 2020)

Descobrir a escrita e se assumir escritor

Eu não me assumi escritor na minha infância e adolescência porque fui desmascarado. A minha mãe encontrou poemas que eu nem sabia que eram poemas em cima da minha mesa, e, naquela indiscrição materna, ela nomeou: ‘Que bonitos versos.’ A partir dali, com uns 12, 13 anos, me dei conta de que eu poderia estar escrevendo. Sou filho de dois poetas, então o pensamento já estava à paisana, o contrabando já existia nas conversas dos almoços e jantares. Era natural passear por metáforas e eu já tinha sentido esse estranhamento, de que alguma coisa estava errada dentro de casa, porque lá todo mundo falava por figuras de linguagem. Aí cheguei na escola e ninguém me entendia.” 

“A partir dos 16, 17 anos, comecei a organizar a minha pasta. Na época, eu escrevia em máquina de escrever, catando milho. Levei 8 anos para publicar meu primeiro livro. Porque nunca que o primeiro livro é o primeiro livro. O primeiro livro é o sobrevivente dos livros anteriores. Antes dele, escrevi dois que não publiquei: um porque vi que era imaturo e o outro, o destino se encarregou – naquela época, a gente batia à máquina e só tinha aquilo lá, sem cópias. E esqueci as folhas numa lancheria. O nome desse livro era As Sobras da Sombra. Nunca vi publicado no nome de alguém, então acho que não era bom mesmo. Mas tive paciência. Participei de vários concursos e perdi todos, e ficava aliviado porque eu teria mais tempo para trabalhar na minha obra. Meu primeiro livro foi publicado em 1998 pela Bertrand Brasil, As solas do Sol. Comecei na poesia como um velho e fui fazendo o caminho inverso, fui rejuvenescendo.”

“Eu tive dificuldade de aprendizagem, recebi um diagnóstico de retardo mental na idade escolar. Isso tudo de uma certa forma catapultou a minha maneira de enxergar pelo avesso. O meu ritmo não era aceito, meu olhar não era autorizado. O que eu podia fazer? Eu tinha que trazer a normalidade para o desvio. Eu respondo a cartas de pessoas pedindo conselho nas minhas redes sociais e estou nesse lugar que não tenho legitimidade, porque não sou terapeuta. É o resgate do palpite, da amizade, da empatia. A gente profissionalizou a dor, só tratamos com especialistas. A gente precisa tratar também com quem temos afeto. Não gosto dessa profissionalização da dor como expediente comercial. Você pode apenas doer das 8 às 18 horas. Se doer depois, guarda para o dia seguinte, não vá incomodar os outros.”

“Minha formação acadêmica é de jornalista, o que foi muito importante para mim. O jornalismo me ensinou a ser invisível, a dar destaque à notícia, à informação, a não aparecer. Isso foi importante para combater o ego. Eu não era vistoso, e até hoje acho que é um feito inacreditável eu conseguir estar na TV, porque não sou bonito, não sou bem diagramado, sou estranho, para não dizer feio. E a escrita sempre foi a minha voz mais pura, minha dicção mais segura. Até nos relacionamentos pessoais, nos meus primeiros amores, eu preferia escrever a falar. É como se escrevendo eu pudesse ser mais honesto comigo. Tem que ter muito mais coragem para escrever do que falar cara a cara. É preciso escolher as melhores palavras. Uma carta é como se vestir bem para um encontro, você escolhe seus melhores vocábulos.” 

“Trabalhei muito como jornalista, na secretaria estadual de educação do governo, na câmara municipal, no grupo Sinus, na TVE, depois me tornei professor. Quando publiquei, eu estava recém-formado. Então meu início da profissão como jornalista foi simultâneo ao meu início como escritor. Mas eu pensei que já estava fazendo sucesso com meu primeiro livro, porque a primeira edição vendeu quase tudo, aí descobri que minha mãe quem tinha comprado tudo!”

Sobreviver da escrita no Brasil

Agora, com a pandemia, o cenário ficou mais difícil, complexo, porque escritor não vive unicamente de direitos autorais, mas do entorno cultural, palestras, feiras, cursos. Houve a popularização dos cursos de escrita criativa, que foi importante para profissionalizar o escritor. Isso foi uma ebulição no cenário cultural e artístico do Rio Grande do Sul, ajudou a criar uma cadeia do livro. O escritor publica, tem mercado, as escolas e universidades adotam os livros. No Rio Grande do Sul, o escritor é tão popular quanto um músico. E é um estado leitor. A escola é maciça. Há o gosto de ler autores contemporâneos, toda cidade, todo colégio tem uma feira literária. Isso de uma certa forma acaba repercutindo positivamente para a independência autoral.”

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Na pandemia, está acontecendo uma migração de palestras e oficinas para as lives, mas ainda é restrito a um círculo de celebridades. Estão chamando para lives não tanto pelo seu universo ficcional, mas mais por sua influência digital.”

“Hoje, vivo exclusivamente de literatura. Evidente que faço colaborações com jornais, televisão, como o Encontro com a Fátima Bernardes (Globo), mas minha posição é literária, é de poeta. Meu ponto de vista é narrativo, de tentar descobrir um aspecto inusitado do cotidiano, de aquecer o comportamento com novas inquietações. Mesmo quando eu apresentava o programa de entrevistas Máquina (TV Gazeta), tinha como linha condutora o inesperado, o improviso, a surpresa, o estabelecimento de uma intimidade que não é usual em talk show.”

Diversidade na literatura

Hoje há mais espaço para a diversidade, para a quebra do oligopólio de raça e de gênero. Acho que existe uma injustiça histórica, por exemplo, com Cecília Meireles, que é a maior poeta, entre homens e mulheres, do Brasil. Mas ela não é reconhecida como tal. Ela foi muito amiga da Gabriela Mistral, uma poeta chilena que ganhou o Nobel. Faltou à Cecília justamente essa unanimidade no país para ter um reconhecimento internacional. O Brasil não tem até hoje um Nobel de Literatura. Por que não temos? Pela falta de diversidade. Acabaram de sair dois livros muito importantes publicados por grandes editoras, que falam justamente da invisibilidade do negro no país, que é o O Avesso da Pele, do Jeferson Tenório, que saiu pela Companhia das Letras, e Marrom e Amarelo, do Paulo Scott, pela Alfaguara. Também precisamos mencionar a Djamila Ribeiro, que é um best-seller e toca na ferida. É uma militância ensaística.”

“O poeta é feito das margens, seu olhar é minoritário, ele sofre com o seu estar no mundo, ele traz a ressaca da visibilidade, então, nesse sentido, sempre trabalhei o revés, sempre tive uma postura anti-conformista, até em plataformas. Eu escrevo em guardanapos, por exemplo, como um elogio à inutilidade. São como rascunhos, diários intermitentes. O escritor não é mais apenas o que ele publica, ele é feito de imposturas, ele é feito para confundir, para fortalecer as dúvidas.”

O mercado brasileiro

“As editoras apostam pouco em jovens autores. Contos e poesias são gêneros de iniciação e são justamente os gêneros proibidos comercialmente. Há poucos programas de incentivo, há poucos concursos, não há uma iniciativa governamental para publicar jovens autores. Deveria ter um programa do governo de intercâmbio entre autores, mas não existe isso. O jovem autor se vê bloqueado no seu início. Ele tem que fazer uma trajetória solitária.”

“Quantos abortos criativos já aconteceram pelo privilégio de romance, da narrativa longa? O escritor novo precisa fazer antes a cancha reta do conto. Tem esse divórcio entre crítica e comercial, essas fissuras que não nos ajudam em nada. E a crônica? É um patinho feio. É incensada pelo público e maldita pela crítica. Como se o coloquial não pudesse ser eterno. Um dos maiores escritores brasileiros, Rubem Braga, só escreveu crônicas, mas com um refinamento poético e encadeamento narrativo exemplares.”  

Se a gente formasse contadores de histórias, com certeza mudaríamos drasticamente o número de leitores do país. Vendo histórias sendo contadas você iria querer salvar histórias familiares que cairiam no esquecimento. A gente não dá valor justamente a descrição, narração, leitura de livros. Aí há um vazio para a poesia, porque a poesia não é lida.” 

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Editora Planeta/Divulgação

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