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Entre reflexões e blush

Maquiadora da TV Cultura, Fernanda Mourão levou pra quebrada onde nasceu o entendimento da pele por meio da antropologia e da maquiagem

por Laís Duarte Atualizado em 21 jul 2020, 12h40 - Publicado em 21 jul 2020 09h57
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Clube Lambada/Ilustração

Triângulo da Morte era famoso, capa de revista e jornal. A região formada pelo Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim Ângela figurava nas manchetes do final da década de 1990 e começo dos anos 2000 como a mais violenta de São Paulo. No extremo sul da capital paulista estão mais de 260 favelas e a morte parecia ser vizinha de todas elas – quase 1/3 dos homicídios da cidade aconteciam ali, onde cresceu Fernanda Mourão. Na infância e adolescência, ela perdeu a conta de quantos colegas de aula, amigos e vizinhos viu partir vítimas da violência. Foram tantos crimes que Fernanda assumiu para si uma missão: tirar a sua quebrada das páginas policiais e transferi-la para as manchetes culturais.

Filha de uma costureira cearense e de um garçom do Piauí, aprendeu cedo a costurar a própria história. Trabalhando desde antes do sol nascer até bem depois de escurecer, os pais driblavam a ausência com educação. Fernanda e a irmã eram alunas de escola pública no turno regular e, nas horas vagas, da ONG Arrastão, que há décadas acolhe mais de 2 mil crianças por dia, oferecendo aulas de artes, teatro e empreendedorismo. “Era o jeito de meus pais lidarem com o medo da violência, nos obrigando a ficar na escola, na ONG e na igreja o máximo possível”, relata ela.

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Fernanda Mourão/Divulgação

Foi na sede da Arrastão que ela descobriu que poderia pintar telas em rostos de todas as cores. E faz isso tão bem que a paixão acabou virando profissão. Fernanda virou maquiadora tarimbada, de mão leve, traço fácil e boa conversa. Pelos pincéis dela, já ganharam cores rostos de artistas famosos, do rap à música clássica, do teatro ao cinema. Maquiou jornalistas, líderes espirituais, políticos, incluindo na lista um presidente da república. Mas, por muito tempo, trabalhar valorizando a estética foi, além de ganha-pão, um incômodo. “Comecei a me questionar porque estava fazendo um trabalho superficial, que poderia ser prejudicial para a autoestima das mulheres, por reforçar padrões de beleza inatingíveis. Aí, procurei estudos e referências para ressignificar isso e trazer essa história para meu trabalho. Como eu poderia fazer da melhor forma, evidenciando o belo que já está nas mulheres, sem trazê-las para um ciclo escravista de beleza irreal? Darcy Ribeiro foi uma das minhas fontes, porque ele estuda o povo brasileiro, revela como os primeiros brasileiros, os indígenas, fazem para se comunicar com imagens usando os próprios corpos, e isso é maquiagem”, conta.

Para ficar em paz com a própria consciência e feliz com os caminhos que escolheu, rasgou o manual de boas práticas da maquiagem. “Há 10 anos, quando fiz o curso, um livro de visagismo era referência. Dava dimensões de rostos, de cor de pele, de corte de cabelo. Defendia que determinadas mulheres do Brasil possuem estruturas ósseas assim, peles assim, que combinam com tais cores. Ele dava uma receita que deveria ser adotada para a harmonia daquele rosto. Hoje, não existe receita. Misturo cores, tons quentes e frios, coisa que não se fazia antes.”

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Enquanto aplica a base, corretivo e pó compacto em rostos das apresentadoras da televisão ou das mulheres da periferia, Fernanda comunica um pouco do que é. Entende o processo de pintura da pele como um meio de expressão social. “A gente tem que fazer um recorte social quando fala de beleza brasileira. São muitas realidades, vivências diferentes e elas interferem em hábitos, no dia a dia, na forma como você se veste e se pinta, assim como cada lugar interfere na forma como um povo se caracteriza perante outro povo. Se você for conhecer as minas no hip hop, verá hoje uma forte referência dos anos 1990. O contorno da boca mais escuro do que o tom dos lábios. A pintura da mulher periférica, autônoma, que usa maquiagem como forma de expressão, traz identidade diferente da mulher do centro ou da Avenida Paulista”. Até a escolha dos produtos muda de um bairro para o outro. E não só por uma questão financeira. Houve um tempo em que as marcas brasileiras nem produziam tons de base para a vasta gama de peles negras que temos por aqui. Agora, Fernanda consegue cores diversas, mas dificilmente aparece na TV uma mulher de pele bem retinta, como as belas da periferia.

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Fernanda Mourão/Divulgação

A pele que habito

A vontade de valorizar cada beleza e diminuir o abismo discrepante entre mulheres e homens nas oportunidades de acesso à educação e geração de renda levou Fernanda a fazer parte da União Popular de Mulheres. Testemunhou a dor de inúmeras mães, filhas e irmãs vítimas de violência doméstica e percebeu que superar os traumas, quebrar o ciclo da violência, passa necessariamente pelo autoconhecimento, pela descoberta, pela autoestima. Nesse contexto, a maquiagem era a ferramenta perfeita para permitir que aquelas mulheres, que muitas vezes sentem vergonha de si mesmas, olhassem para si. Fernanda virou professora na arte do reconhecimento, da autoaceitação. Ao ensinar a escolher o tom da base, incentivava as alunas a analisar as marcas na própria pele, a perceber a cor, os traços, a enxergar a beleza que nasceu com elas.

Ensinou muito e aprendeu que gosta mesmo de dividir o que sabe. Fundou, ao lado do marido Thiago Vinícius, a Agência Solano Trindade, para dar suporte ao empreendedorismo e a cultura da periferia. No espaço, há restaurante popular, feira de orgânicos, que aproxima o produtor rural do consumidor de baixa renda, co-working para pequenos empresários das comunidades. Ali, ela criou cursos de automaquiagem para mulheres de qualquer idade. Todas as lições são de graça, adaptadas aos produtos que cada uma tem em casa e, assim como a professora, todo item de maquiagem vira multitarefa. “Um blush pode virar sombra, um batom vira blush. Na maquiagem e na vida não devem existir rótulos, nem fórmulas. Para fazer maquiagem, a pessoa precisa se ver no espelho, se olhar, respeitar sua história. Isso é muito íntimo e cada rosto é único”, relata.


“Nos pintamos para criar uma pele social, aquela que um povo usa para se apresentar perante outro povo. Os antigos egípcios, por exemplo, pintavam os olhos para criar uma barreira física de proteção, porque acreditavam que através dos olhos você enxergava a alma das pessoas”

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Fridas Comunica e Fotografia/Divulgação

Mais de 200 mulheres já aprenderam a transformar a si mesmas com as lições de Fernanda, não sem antes reaprenderem a olhar para si mesmas. Observando a descoberta de cada uma delas, a professora Fernanda também se aprofundou num projeto de vida: o estudo da ancestralidade da pele. “Como diz Darcy, nos pintamos para criar uma pele social, aquela que um povo usa para se apresentar perante outro povo”, explica ela. Fernanda reproduziu maquiagens feitas mundo afora por diferentes etnias. Estudou o significado de cada traço marcado no rosto. “Os antigos egípcios, por exemplo, pintavam os olhos para criar uma barreira física de proteção, porque acreditavam que através dos olhos você enxergava a alma das pessoas”, explica. O resultado de anos de pesquisa e pintura virou uma exposição que rodou a capital paulista.

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Percebendo a necessidade de devolver à comunidade onde nasceram o muito do que ganharam, Fernanda e Thiago criaram o projeto “Adote uma favela”. A vaquinha virtual conseguiu recursos para manter os projetos de cultura e ativismo na quebrada e ainda arrecadou 20 mil cestas básicas e produtos de higiene para famílias dos bairros do antigo Triângulo da Morte sobreviverem em tempos de pandemia. É para ajudar para os que vivem lá hoje e garantir a boa hora aos que ainda vão chegar que a maquiadora cria rodas de conversa com gestantes sobre parto humanizado, violência obstétrica e aleitamento materno. A quebra coletiva de tabus da maternidade é uma das atrações de um grande festival cultural que une diferentes cantos, diferentes vozes e religiosidades em um só lugar. Tudo junto e misturado, com uma boa panela de feijoada ao lado para temperar. “A gente fala de intolerância, fala sobre nós mesmos e como somos marginalizados, excluídos. Somos gente que sofre genocídio”, reflete. Uma vez por ano, também há espaço para a dança, para a troca de ideias, para a reza.

E Fernanda, criada na Igreja Católica, com Primeira Comunhão e tudo, tem seu lugar de fala para se revelar. “Eu sou ateia, mas acho as religiões importantes para o ser humano. Acredito no milagre da vida. Nossas moléculas se unirem e permitirem que estejamos vivos é um milagre”.  E enquanto estiver viva, ela promete seguir resgatando raízes, promovendo inclusão e tolerância, repintando a história do Triângulo da Morte com cultura de paz, para que o amanhã seja belo, sem nenhuma maquiagem.

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