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Especial Manaus: o alien entre nós

Em ritmo de improviso, profissionais de saúde tentam salvar vidas em meio a uma pandemia que atingiu em cheio a floresta e seu entorno urbano

por Erika Sallum Atualizado em 26 ago 2020, 19h55 - Publicado em 26 ago 2020 02h47
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onforme a pequena embarcação se aproximava do cais, a cena de características tropicais começou a ganhar ares soturnos à la Coração das Trevas. “O horror, o horror…”, podia quase ser ouvido ao olhar a figura vestida inteirinha de azul, luvas brancas, máscara e um escudo facial que mais combinaria com um filme de ficção científica do que com a umidade sufocante da maior floresta do planeta.

Esta reportagem é a terceira parte de um especial que publicaremos durante toda a semana aqui na Elástica. A primeira, sobre um funeral realizado em casa contra todas as normas de segurança devido à pandemia do coronavírus, você confere aqui.

Leia também a segunda reportagem da nossa série, sobre a precariedade em infraestrutura que boa parte da capital amazonense sofre.

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Em pleno porto de Manacapuru,

município empobrecido da já paupérrima região metropolitana de Manaus, o caçador de androides saiu do barquinho — poeticamente batizado de Lady Kamille — carregando em uma maca dona Icleia Marques Rodrigues, 75 anos, moradora de capiranga, transferida em barco pelo rio Solimões para hospital de campanha. Franzina, de feições mestiças, ela respirava com dificuldade, acompanhada de perto por um tanque de oxigênio. A terceira pessoa da tripulação, toda paramentada com macacão, touca, luvas e propé, não deixava dúvidas: havia ali mais um passageiro, invisível, aterrorizante, mortal.

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Caio Guatelli/Fotografia

“Tudo lembra ficção científica quando se está fotografando a pandemia, ainda mais em um contexto tão improvável quanto Manaus. Os enfermeiros parecem saídos do desastre nuclear de Chernobyl com aquelas roupas estranhas, que dão uma falsa impressão de proteção absoluta”

Caio Guatelli

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Caio Guatelli/Fotografia

Porém, basta olhar mais de perto uma das fotos aqui selecionadas para compreender que o enredo alienígena manauara não perde seu lado Macunaíma. Próximo a Lady Kamille, um barco cheio de peixes e galhos de uma planta misteriosa precisa seguir seu rumo, mesmo sob a ameaça de seres microscópicos. Na falta de máscara, o jeito é proteger o rosto com blusa suja de horas de labuta sob o sol amazônico escaldante.

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Caio Guatelli/Fotografia
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Caio Guatelli/Fotografia

A poucos quilômetros dali, o tropicalismo fantástico hollywoodiano também se faz presente no hospital de campanha montado em uma escola. Em uma das salas, há uma UTI com seis leitos, dentre os quais apenas dois desocupados. O invasor implacável deixou em estado crítico todos os pacientes, mas mesmo assim circulavam pessoas da equipe sem qualquer equipamento de proteção — teriam eles superpoderes fantásticos anti-inimigo meu? O barulho de tantos respiradores e o vai e vem de médicos atordoa a mente. Nem a indumentária usada durante a sessão de fotos consegue afastar outra presença poderosa: o medo.

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Caio Guatelli/Fotografia

“No hospital de campanha de Manacapuru, fui logo entrando e fotografando. A UTI tinha um clima pesado, com pacientes em estado grave, o apito constante das máquinas de ventilação e a agitação da equipe médica. Havia profissionais muito protegidos, enquanto outros não usavam nem máscara nem luvas.”

Caio Guatelli

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Caio Guatelli/Fotografia

“Deu muita aflição ver tantos doentes de covid juntos, suando, respirando, urinando em uma sala fechada que, na verdade, nem hospital era.”

Caio Guatelli

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Caio Guatelli/Fotografia

Em Manaus, na periferia, um hospital de campanha com 12 leitos também traz requintes de improvisação, mas agora é preciso autorizações e assessores para acompanhar as fotos. É ali, também, que surge um aparato tupiniquim quase gambiarra, mas que se mostrou bastante efetivo na luta contra o corona. Uma estrutura feita com canos de PVC e plástico isola o paciente de tal modo que sua respiração não joga milhares de perdigotos no ambiente. Lá dentro, o doente que lide com sua própria solidão e pavor da morte, trancafiados com zíperes meio mambembes. A cápsula envolve a cabeça e a parte superior do tórax, enquanto uma bomba suga e filtra o ar contaminado. A geringonça se assemelha a um aquário de plástico, um aquário de vírus, de aliens.

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Caio Guatelli/Fotografia
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Caio Guatelli/Fotografia

Sair das UTIs é um sofrimento à parte. Primeiro você passa para uma salinha, tira toda a roupa de proteção e joga em um lixo próprio para isso. Então começa a valsa do álcool gel, não só nas mãos e partes nuas do corpo, mas em todos os equipamentos usados lá dentro, incluindo câmera fotográfica, lentes, mochila. Só depois de se certificar de que tudo foi limpo é que se pode adentrar a área descontaminada. O ritual é feito em silêncio, pois não há espaço ou clima para bate-papos informais ou sorrisos de cortesia. É tudo muito, muito estranho. E muito triste.

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Caio Guatelli/Fotografia

“Nos hospitais, me senti como se estivesse dentro de um filme. Há muita tensão no ar. Os médicos também se valem do conhecimento popular da ficção científica para se sentirem mais seguros. Seguem protocolos, vestem-se com mil e uma parafernálias. Pensam que, assim, estão conseguindo escapar desse invasor letal. Estarão mesmo?”

Caio Guatelli

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