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Perder os cabelos, ganhar aceitação

A artista Lolla Angelucci fala sobre como a alopecia transformou sua vida, e de muitas outras mulheres carecas a seu redor

por Lolla Angelucci Atualizado em 20 jun 2020, 15h11 - Publicado em 1 jun 2020 08h00
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Estúdio Lambada/Ilustração

i, eu sou a Lolla e eu sou careca. É assim que eu me apresento em uma sala cheia de gente e fica parecendo que estou começando um número de stand up, como aquela comediante baixinha que fala que tem 1,49 m na maior parte das piadas, mas não é isso. As pessoas sempre me contam que eu sou careca, então acho importante deixar claro que eu já sei, saí de casa assim.

Se te causa algum espanto ouvir que gente desconhecida me para na rua para dizer que eu sou careca, peraí que tem mais: o povo grita “careca” do outro lado da rua. Ou grita “câncer” que, na cabeça de muita gente, é a mesma coisa. Há quem venha me abraçar de surpresa na rua porque, né, gente careca precisa de abraços surpresa de pessoas desconhecidas. Será que o COVID-19 vai acabar com essa mania de vez?

Eu tenho alopecia areata, que é um tipo de calvície autoimune. Nasci com alopecia, mas tem gente que desenvolve ao longo da vida. Eu cresci tendo falhas no cabelo e só fiquei careca mesmo no começo da faculdade. Não foi fácil. Lembro que contei para um colega que estava no segundo ano de Biologia que meu cabelo estava caindo e ele me chamou de mentirosa, disse que eu tinha raspado porque cabelo não caía naquele padrão. Pois é, todo mundo é um especialista.

Depois da alopecia, Lolla experimentou, mas descobriu que ficava linda sem cabelos
Depois da alopecia, Lolla experimentou, mas descobriu que ficava linda sem cabelos Valda Nogueira/Divulgação

Passei um bom tempo achando que eu tinha cabelo o suficiente para esconder as falhas, mas quando reconheci que estava parecendo o Sméagol, de O Senhor dos Anéis, pedi ajuda. Ela veio na forma de uma peruca caríssima feita sob encomenda, que era o modelo padrão das judias ortodoxas da região. Não gostei, tinha um volume de cabelo que eu nunca tinha tido e era apertada na cabeça de um jeito que eu não esperava. O peruqueiro disse que era assim mesmo, para ela ficar firme, mas firme mesmo ficou meu mau humor. Cara, como alguém pode ser feliz com a cabeça sendo apertada o tempo todo?

Um dia, desisti, raspei a cabeça e comecei a usar lenço. Para minha surpresa, fui super bem recebida, aceita. Podia ter economizado o dinheiro da peruca cara desde o começo. Foi na época em que atacaram o World Trade Center e o Brasil tinha acabado de descobrir o islamismo. As pessoas confundiram tudo, acharam que eu era muçulmana. Lembro que, uma vez, estava alongando na academia e um professor perguntou se a Meca ficava naquela direção…

Sabe quando as pessoas começaram a gritar na rua que eu era “bem feia”? Quando resolvi que não precisava do lenço. Nossa, choquei a sociedade. Meus professores vieram me dizer que eu devia usar lenço, peruca, porque… precisava. Ninguém sabia bem porquê, mas todo mundo sabia que precisava. Demorei a entender que era porque não tinha mulher careca em lugar nenhum – então, ser a única era muito estranho.

Em paz com o espelho

Eu não me achava estranha, mas devo confessar que também achava mulher careca estranho. Já desenhava, já arriscava fazer meus personagens e nunca tinha desenhado uma mulher careca, porque não cabia, não combinava. Até que, um dia, um moço que eu tinha achado interessante viu meu caderninho e disse para eu desenhar uma ciclope. Foi a minha primeira personagem careca, afinal, ela ia ter só um olho no meio da testa, claro que podia ser careca. Eu lembro como se fosse hoje o rapaz olhando o desenho e, olhando na minha cara careca, dizendo que mulher careca era muito estranho, que eu devia desenhar cabelo nela. Não consegui segurar as lágrimas e fui embora. E só nesse momento ele entendeu que tinha me ofendido.

Uma das sereias carecas de Lolla aproveitando tranquilamente um chá
Uma das sereias carecas de Lolla aproveitando tranquilamente um chá Lolla Angelucci/Reprodução

Fui acumulando histórias, lágrimas e umas risadas até que li um livro de autoajuda sobre como liberar todo meu potencial interior e ficar super-rica com a força do pensamento. Ele dizia que eu precisava de um objetivo de contribuir com o mundo além do objetivo de ganhar dinheiro. Eu, que já fazia trabalho voluntário desde criança, pensei: se eu fosse ter um projeto próprio, seria para ajudar outras mulheres carecas a trabalharem a autoestima. Escrevi isso num papel e esperei o universo e a força do pensamento me mostrarem o caminho e… funcionou! (Por que será que não funcionou com o negócio de ficar rica?)

Um dia, fui visitar o Hospital Federal da Lagoa, no Rio de Janeiro, por causa do meu trabalho. O diretor de voluntariado olhou na minha cara e disse que eu claramente não tinha câncer, mas que poderia ajudar as mulheres da oncologia a lidar com a calvície. Não é que o universo tinha mesmo dado um jeito? Eu precisava estruturar o projeto e escolher um nome. Como eu sou careca e gosto de sereia, escolhi Sereias Carecas. Chamei outras mulheres e fui lá no hospital contar umas histórias, mostrar como amarrar lenço e dizer que ninguém precisa ser gentil com quem está nos deixando desconfortável. É libertador mandar uma pessoa grosseira à merda – experimente!

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Ninguém precisa ser gentil com quem está nos deixando desconfortável. É libertador mandar uma pessoa grosseira à merda – experimente!

Lolla Angelucci

Na época, consegui fazer um levantamento de todos os projetos no Brasil que diziam que trabalhavam a autoestima de mulheres carecas e todos faziam a mesma coisa: davam perucas e lenços. Não existia um projeto que trabalhasse a aceitação, e era isso que eu queria, que as mulheres entendessem que elas são completas, não falta nada. Tinha sido um processo muito solitário para mim até aquele momento, mas ninguém precisava passar por isso sozinha.

Larguei o projeto no hospital depois de um tempo porque, como o objetivo de ficar rica com a força do pensamento não tinha dado certo, precisei priorizar o trabalho que pagava as minhas contas. Mas eu tinha o Instagram e a página no Facebook, e comecei a contar minhas histórias por lá. No começo, porque precisava muito tirar umas mágoas do peito e as histórias eram bem carregadas de ressentimento, eu até marcava as pessoas que já tinham me magoado nas histórias que contava sobre elas. Passivo-agressiva? Um pouco. Eu estava aprendendo a lidar com todo aquele sentimento guardado, mas, na verdade, só queria que as pessoas entendessem que aquela pessoa diferente que a gente aponta na rua é uma pessoa. E respeito é ponto de partida.

Ninguém marcado nas histórias veio me pedir desculpas ou reconhecer que podia ter sido diferente, mas acho que não precisava disso. Colocar essas histórias no mundo me curou desse ressentimento, porque consegui lidar com elas. E consegui ver graça até naquele cara que queria sair comigo em segredo e ainda fez pouco do meu trabalho como artista. Contando assim, não é, claro, nem um pouco engraçado. Mas, se você ler a história, vai ver que eu tenho bom humor até nessa hora.

E o trabalho alcançou pessoas fora da minha rede, gente que precisava descobrir que não era a única a quem gritavam “câncer” na rua. E gente que aprendeu nas minhas histórias que não precisa abordar gente desconhecida na rua para perguntar se tem câncer (se for para oferecer dinheiro, tá liberado, pode me abordar também).

Auto-retrato
Auto-retrato Lolla Angelucci/Reprodução

Ainda recebo críticas, tem gente que acha que eu preciso, sim, ser gentil com quem me grita câncer ou me abraça de surpresa, que eu deveria olhar essas pessoas nos olhos e explicar o que é alopecia. Quando quero saber algo que não sei, procuro no Google em vez de abordar pessoas desconhecidas grosseiramente. Acho que todo mundo pode fazer o mesmo.

Eu nunca quis ser a “ativista raivosa”, embora entenda que quem tem raiva dessa sociedade desigual tem motivos de sobra para isso. Eu sempre ri de situações que são desconfortáveis e isso acabou refletindo na forma como eu conto as coisas. E comecei a me desenhar para ilustrar essas histórias, e depois a me desenhar sereia e até sereia-princesa-Mulher-Maravilha (minha favorita!). Eu tinha decidido que, se não me via representada em lugar nenhum, eu seria essa representação. Nas palavras do filósofo Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”.

A dona de uma marca de bonecas artesanais e inclusivas começou a ler minhas histórias e criou uma boneca que se chama Lolla, que é uma sereia careca porque sou eu. Agora eu, a Sandy e a Xuxa temos uma coisa em comum: viramos boneca. Quando peguei a minha, passei uma semana andando com ela na mochila e mostrando para as pessoas na rua, coisa que chamaram de loucura na época. Mas, você sabe qual é a emoção de ser finalmente vista?

As sereias abraçadas por sua criadora
As sereias abraçadas por sua criadora Valda Nigueira/Divulgação

Eu, além de virar boneca, virei embaixadora da marca, contando minhas histórias lá na página dela durante um tempão. Cada dia tenho mais coisas em comum com a Xuxa e a Sandy, podem reparar! É bom porque, sempre que perco o gás, alguém diz que é um trabalho importante e eu volto dar atenção para as Sereias. Desenvolvi minhas próprias bonequinhas/almofadas, meus bottons e imãs de geladeira e vou levando o projeto do jeito que dá: contando as histórias, fazendo os desenhos, promovendo encontros e, principalmente, conversando com quem nunca achou que encontraria alguém na mesma condição para conversar. Uma dica: ninguém quer ouvir um “é só cabelo”.

Hoje, depois de produzir muitas fotos, fazer muitas sereias carecas e, principalmente, conviver com outras mulheres carecas, não acho mais mulher careca estranho. Aliás, acho bonito, normal e acho que não é preciso ter uma certa aparência para segurar o visual. E acho que eu quero é que todo mundo entenda isso, quero que as pessoas conversem comigo normalmente sem me perguntar porque eu não tenho cabelo. Assim como minha amiga que tem dread quer ter uma conversa sem ninguém perguntar se ela lava. E meu amigo que não tem uma mão quer ter conversas sem que ninguém pergunte se ele nasceu assim ou foi acidente.

“Quero que as pessoas conversem comigo normalmente sem me perguntar porque eu não tenho cabelo”

Lolla Angelucci
Obrigado pela leitura, e até a próxima!
Obrigado pela leitura, e até a próxima! Lolla Angelucci/Reprodução
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