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O amor nos tempos da inércia

Cristovão Tezza ficcionaliza, no romance ‘A Tensão Superficial do Tempo’, a atual conjuntura brasileira a partir dos ressentimentos pessoais de um professor

por Eduardo Ribeiro Atualizado em 4 nov 2020, 12h19 - Publicado em 4 nov 2020 01h02
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Clube Lambada/Ilustração

undador de uma abordagem literária definida por ele próprio como “realismo reflexivo”, Cristovão Tezza, 68 anos, surge com sua nova e perturbadora realização, saída pela Todavia, A tensão superficial do tempo. Natural de Lages, Santa Catarina, mas residente desde meados da infância em Curitiba, ele fez da capital paranaense campo marcante de seu universo criativo: um ambiente urbano que permite a instauração da atmosfera definitiva para que pessoas de todas as sortes vivam intensamente seus dramas. Na presente obra, não é diferente. O autor aproveita o momento histórico recente do país para construir uma instigante analogia entre os aspectos público e privado, política e vida pessoal, aspirações e solidão.

Neste, que é o primeiro título de solidez a ficcionalizar as reverberações do governo de Jair Bolsonaro, as verdades absolutas, ressentimentos e contradições da discussão política se expressam por meio dos atores sob variadas óticas. Cândido, o protagonista, é um especialista em piratear filmes que trabalha como professor de química em um cursinho. A história se passa ao correr de 272 páginas, em setembro de 2019, numa Curitiba reagente aos efeitos das operações policiais que colocaram a cidade no centro da polarização ideológica.

Com esse pano de fundo, sentado em um banco de parque, o personagem sente a vida abalada pelos acontecimentos políticos e sociais junto com o fim amargo do casamento, as pretensões profissionais esmagadas e a frustração de um novo afeto. No desenrolar da trama, um esquema de camadas justapõe a angústia pessoal de Cândido a uma angústia coletiva. Enquanto Cândido se encontra atado à ideia de rever a mulher que não quer mais nada com ele, os problemas de ordem nacional replicam a antiga novela da corrupção como regra do jogo e expurgam outras fantasmagóricas questões, como o conservadorismo negacionista, que abalam os pilares da lucidez e nos impedem de romper a fina membrana do tempo.

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Cristovão Tezza/Divulgação

Escritor com portfólio extenso, de refinamento progressivo, Cristovão Tezza escreve desde os 13 anos, quando iniciou na poesia. Seu primeiro romance, O papagaio que morreu de câncer, foi concluído em 1971. Tezza assina vários romances bem repercutidos, entre eles O filho eterno (2007), ganhador dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom, que expõe as dificuldades e superações de se criar um filho com síndrome de Down, e A tirania do amor (2018), que foi finalista dos prêmios São Paulo, Jabuti e Oceanos. Acompanhe o papo que tivemos com ele:

Em que medida o panorama histórico da política brasileira recente foi determinante para traçar os caminhos do personagem central?
Não sei dizer exatamente porque a presença, ou a intensidade, deste pano de fundo não estava nos meus planos. A ideia de escrever um romance de um pirata caseiro de filmes que vive com a mãe e que sofre uma fratura amorosa já amadurecia na minha cabeça bem antes da ascensão bolsonarismo. A figura do personagem Cândido veio em primeiro lugar. Mas, no momento da escrita, quando tomei coragem de começar o livro (é sempre um momento difícil para mim, porque é como se eu empreendesse uma viagem sem volta e meio sem conserto), o ambiente político era (e continua sendo) tão tóxico e grotesco que invadiu o livro. Como a história acontecia num tempo presente, imediato, e a linguagem era de substância realista, o ambiente político não podia ser ignorado. Comecei a escrever em janeiro, mas acabei por fixar o tempo da narrativa em setembro de 2019.

“Quando tomei coragem de começar o livro, o ambiente político era (e continua sendo) tão tóxico e grotesco que invadiu o livro. Como a história acontecia num tempo presente e a linguagem era de substância realista, o ambiente político não podia ser ignorado”

No seu processo de composição, é comum que personagens e suas relações previamente imaginadas se transformem ao longo da escrita?
Eu diria que a minha norma é sempre a transformação progressiva do projeto original. Para começar um romance, eu preciso de três elementos, nesta ordem: primeiro, uma imagem, quase que um fotograma na cabeça; segundo, um roteiro, ou um rascunho de roteiro, do que vai acontecer; finalmente — quando eu enfim decido começar — uma linguagem, um ponto de vista narrativo que se articula numa frase de partida, e que é para mim o mais importante: uma voz original que não se confunda com a minha própria voz, embora tenha pontos de contato comigo. Pois bem, todos os livros que escrevi desobedeceram o segundo tópico; o enredo jamais se mantém como eu imaginava antes. Quanto aos personagens, é uma situação engraçada, porque no início nunca sei muito sobre eles (exceto a ideia do que eles vão fazer, uma vaga sucessão de acontecimentos); é o ato da escrita que acaba me revelando quem eles são. E a maior parte dos personagens secundários surge apenas ao longo da escrita, para resolver problemas narrativos específicos. Exemplos do meu último livro: o Batista, como o interlocutor mental de Cândido, é uma âncora narrativa fundamental do romance, mas eu fui construindo a imagem dele aos poucos. Ou o Hildo, o fotógrafo que Cândido encontra na festa: em toda aquela longa sequência eu precisava de um ponto de vista de fora que dissesse ao Cândido quem eram as pessoas presentes, porque o narrador do livro não é onisciente; o narrador só sabe o que o Cândido sabe, ouviu, imagina, deseja ou se lembra.

De onde veio a inspiração para um protagonista de caráter tão singular e ao mesmo tempo tão comum?
A minha literatura está povoada de professores: o Matozo, de A Suavidade do Vento, o Rennon de Uma Noite em Curitiba, o Duarte de O Fotógrafo, o Heliseu, de, justamente, O Professor etc. Fui professor durante 20 anos. Quase todos os meus amigos são professores. O professor é uma presença universal da vida moderna, transita em todos os lugares e atividades e atravessa todas as classes sociais. Do ponto de vista da civilização, é uma figura fundamental (sem ele estaríamos completamente perdidos, em estado de regressão permanente), mas ao mesmo tempo irrelevante, em geral mal pago ou descartável. De modo que o professor se tornou um coringa literário para mim, até porque ele é, simbolicamente, o para-raios do encontro traumático entre a fria abstração da ciência, que está na natureza do seu trabalho, qualquer que seja a área, e o caos emocional da vida. Quanto ao pirata da internet, teve outra fonte: nos velhos tempos das fitas de VHS eu costumava abastecer minha mãe, que morava sozinha, de filmes gravados da TV a cabo, dois ou três filmes por fita, porque ela era insaciável. Para ela era um sistema simples e funcional: ela apertava o play e via um filme atrás do outro. Toda semana eu renovava o estoque da minha mãe levando-lhe uma sacolada de fitas BASF recheadas de filmes. No romance, eu modernizei o sistema ao pesquisar o incrível mundo do torrent, que promoveu em silêncio e à sombra o mais impressionante canal de circulação de filmes do mundo. Imaginar o Cândido como um nerd da pirataria caseira foi instantâneo: tudo batia com o perfil do personagem. Imagino que minha mãe acharia o máximo a ideia de apenas espetar um pendrive na TV para ver um filme. Bem, relembro que, tirante o ponto em comum do amor aos filmes, a dona Lurdes do romance é pura ficção.

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Cristovão Tezza/Divulgação

A questão da tecnologia de pirateamento e reprodução de arquivos de vídeo baixados da internet foi muito bem esmiuçada no livro. Você pesquisou tudo isso ou também é adepto de assistir coisas achadas em torrents?
Anos atrás, ainda no tempo da internet discada, fiquei impressionado quando um amigo me mostrou como baixar uma música de algum computador do outro lado do mundo. O nome do programa era Audiogalaxy, algo assim. Não parecia mais que uma curiosidade, uma brincadeira, e no entanto aquilo destruiu e transformou a indústria tradicional da música. O torrent, que surgiu depois, sempre me pareceu bem mais complicado, quase de especialista. Para o livro, precisei pesquisar bastante, uma coisa levando a outra, dos programas de download aos formatos de vídeo. Uma das coisas que impressionam é a legião de “legenders”, pessoas que traduzem legendas de graça e as colocam nas redes para acompanhar os filmes baixados, e isso no mundo todo. O espantoso é que se encontra praticamente tudo na rede. Bem, imagino que, do mesmo modo como aconteceu com a música, o sistema de streaming, cada vez mais acessível, mais diversificado e mais barato, dará a volta por cima da pirataria caseira, que deve sobreviver apenas como um nicho de raridades.

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Como foi o seu empenho para conseguir consolidar um texto que refletisse, na estrutura, a dualidade entre o racional e o emocional?
Não é exatamente empenho; minha escrita não tem esse grau de racionalidade ou objetividade. É uma espécie de instinto. Sinto que a minha linguagem “sabe mais do que eu”, por assim dizer, não porque caia do céu em lances de inspiração, mas porque faz 50 anos que escrevo, e a escrita foi determinando minha cabeça. No desenvolvimento da trama, que funde tempos e espaços diferentes na mesma página e até no mesmo parágrafo ou mesma frase, gosto de trabalhar com a ideia gráfica de “equilíbrio de volumes”, em que quantidades de informação vão se contrapondo e se alternando de modo a manter o equilibrista — que é todo narrador — em pé, segurando o olhar do leitor.

“O professor se tornou um coringa literário para mim, até porque ele é, simbolicamente, o para-raios do encontro traumático entre a fria abstração da ciência, que está na natureza do seu trabalho, e o caos emocional da vida”

O que torna tão difícil rompermos a película do tempo em que se encontra o Brasil?
Não me pergunte, porque não sei. Já se tentaram todas as respostas; o Brasil parece um país que permanentemente se pergunta o que é, sem jamais saber. Com Bolsonaro, tentou-se claramente um golpe, que não foi adiante, mas a corrosão prossegue. Parece que ainda há uma pressão institucional estabilizadora no país, que é grande e complexa demais para a limitação intelectual, programática e política do governo. Tirando as cornetadas da pauta medieval de costumes, é um governo sem plano nenhum em área alguma, exceto destruir o que eventualmente funcione. Ao mesmo tempo, temos uma alma rural-arcaica perfeitamente viva e ativa no inchaço urbano brasileira e em bolsões poderosos da elite, o que se reconhece pela desqualificação educacional e ignorância cotidiana disseminadas (machismo, racismo, homofobia, fanatismo, um país subterrâneo que veio subitamente à tona). Além disso, é grande a estupidez do ideário político dominante hoje — imaginar, por exemplo, que militares são “solução” de alguma coisa é uma regressão histórica idiota e assustadora. A corrupção é algo que poderia se resolver, sem histeria e discriminação política, pela simples aplicação da lei. Já a corrosão institucional em curso é infinitamente mais grave, porque se entranha silenciosa no DNA das “moléculas culturais”, como diria o professor Mattos, meu personagem. Exemplo nítido dessa corrosão é o Estado paralelo das milícias, com o apoio praticamente ostensivo de políticas do governo, que vai tomando conta de áreas e instituições brasileiras como jamais se viu antes.

Considerando a presença do cinema na narrativa, você também foi buscar em movimentos cinematográficos ou diretores específicos sacadas como o jogo de diferentes perspectivas e planos temporais?
Cinema e literatura influenciaram-se profundamente desde o primeiro filme que se fez. Bem, o cinema sempre foi uma presença forte na minha vida — aliás, como é na vida de todo mundo, uma onipresença cultural inescapável —, de modo que, com certeza, ao escrever, a memória difusa dos milhares de filmes que já vi está presente. Mas no meu caso não se trata de uma influência localizada ou dirigida. Sempre fui apenas um cinéfilo amador, e não um especialista. Eu sou apaixonado pela fotografia, antes de mais nada, e talvez por isso a minha literatura tenha sempre uma âncora visual: escrevo o que eu vejo, e é daí que vem o resto. No livro, eu até procurei não centrar as referências em grandes filmes ou diretores, mas justo o contrário. A dona Lurdes vê uma grande quantidade de filmes B, ou simplesmente desconhecidos e esquecidos.

“É grande a estupidez do ideário político dominante hoje — imaginar, por exemplo, que militares são “solução” de alguma coisa é uma regressão histórica idiota e assustadora”

Como você chegou aos nomes dos filmes que são citados no livro?
Na verdade, pelo acaso. “A Nau dos Insensatos”, por exemplo, de 1965 — o personagem tem uma cicatriz no rosto, o que foi suficiente para eu amarrar com a cicatriz no rosto do Cândido, e vários outros ganchos foram aparecendo que batiam com os comentários da dona Lurdes. O fato de ela gostar de Simone Signoret, por exemplo, diz algo sobre a mãe de Cândido. No início do livro, a cena do filme com Jeanne Moureau me deu imediatamente um certo perfil transgressor para a Antônia, assim como suas referências culturais, e uma coisa foi levando a outra. Ao longo do ano, enquanto escrevia, cada filme que eu via parecia ilustrar algum aspecto do livro, mas sempre de uma perspectiva não intelectual ou especializada, mas como simples ilustração existencial, que é como quase todo mundo vê cinema.

Está claro que você foge ao discurso panfletário, mas que tipo de reflexão espera provocar nos leitores?
Não consigo ter essa objetividade. Digamos assim: considero meus livros como “hipóteses de existência”, que é mais ou menos como eu defino uma obra literária, uma criadora de hipóteses a partir de percepções pessoais e intransferíveis da realidade, que é sempre caótica e sem sentido autônomo. O escritor, pela linguagem, organiza o mundo de forma particular e oferece sua experiência singular ao leitor. Assim, vejo a leitura de um livro meu como o ato de partilhar uma percepção da realidade, que, pela natureza da literatura, não se confunde com nenhuma outra (filosófica, jornalística, religiosa, histórica, psicológica, científica…), embora se aproprie de algum modo de todas elas.

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Cristovão Tezza/Divulgação

O que tanto lhe atrai em personagens cerebrais, porém atrapalhados por inadequações sociais e existenciais?
Talvez porque eu seja assim. O sentimento perpétuo de inadequação é algo que me persegue como uma sombra desde a infância. Mas não é nada especial, de fato — acho que toda a literatura tem origem nesse sentimento.

“O Filho Eterno” é tido como um divisor de águas na sua trajetória. Além dos prêmios, da publicação em outros países e da adaptação para o cinema, você pessoalmente considera esta obra como um momento de transição?
Bem, como já passei dos 60 anos, vivi muitos momentos de transição. A gente vai mudando, felizmente, e a literatura reflete isso. Mas “O Filho Eterno” foi realmente um momento especial, não só pelo rompimento literário que significou — tomar minha vida pessoal diretamente como tema ficcional, o que eu jamais havia feito —, como pelo seu inesperado sucesso. Graças a esse romance, pedi demissão da universidade, quando meu projeto acadêmico já estava esgotado, e mudei radicalmente minha vida, para melhor. Literariamente, é um tanto presunçoso falar em causa própria, mas acho que os novos caminhos que “O Filho Eterno” me abriu acabaram por se refletir nos meus livros, da linguagem à visão de mundo.

“O sentimento perpétuo de inadequação é algo que me persegue como uma sombra desde a infância. Mas não é nada especial, de fato — acho que toda a literatura tem origem nesse sentimento”

O que há de melhor rolando na literatura?
Pois a reclusão da pandemia me permitiu algumas ótimas leituras recentes de prosa brasileira, tematicamente diversificadas, mas todas tocando nas feridas do Brasil contemporâneo. Lembrando em sequência, histórias ainda bem vivas na minha cabeça: “Verão Tardio”, de Luiz Ruffato, e “Apátridas”, de Alejandro Chacoff, tratam da fronteira do rural com o urbano, de adultos que revisitam a infância. “As Sobras de Ontem”, de Marcelo Vicintin, com as memórias de um corrupto de tornozeleira, essa figura brasileiríssima. Na urgente e sempre difícil temática racial do país, “Marrom e Amarelo”, do veterano Paulo Scott, e “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, que foi para mim uma bela surpresa. E acabei de ler “Suíte Tóquio”, de Giovana Madalosso, um outro Brasil, agora ilustrado por uma babá que sequestra a filha da patroa. Não tenho acompanhado a poesia brasileira (mea culpa!), mas sou fã de Paulo Henriques Britto, que é da minha geração, e de Ana Martins Marques, da nova geração. Dos estrangeiros, estou aproveitando a quarentena para a leitura de clássicos disparatados, “Robinson Crusoe”, o teatro de Harold Pinter, uma biografia de Pushkin. Mas é incrível como este isolamento deixa a gente dispersivo.

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Editora Todavia/Divulgação
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