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Já ouviu falar em LipoLad ou LipoHD? A nova "moda" das cirurgias plásticas é banalizada nas redes sociais com permutas e propagandas – muitas vezes ilegais

por Giuliana Mesquita Atualizado em 14 dez 2020, 12h19 - Publicado em 14 dez 2020 04h03
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Clube Lambada/Ilustração

uito se discute e se estuda sobre a influência das redes sociais na percepção da beleza das mulheres. Além de pessoas com peles e corpos considerados padrão, agora temos filtros que transformam os traços do rosto, aplicativos que modificam as silhuetas, milhares de fotos de ‘antes e depois’ e relatos de mulheres que tratam cirurgias plásticas como se fossem uma necessidade ou um procedimento estético qualquer, cegando e embaçando a visão de milhares de garotas e mulheres sobre seu próprio eu. Em um estudo de 2019, registrou-se que o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) – distúrbio de preocupação compulsiva com a aparência – atinge 4,1 milhões de brasileiros, cerca de 2% da população. Nos é ensinado, desde cedo, que o corpo perfeito é a solução para todos os nossos problemas e algo que devemos almejar e conquistar quaisquer que sejam as consequências. Ter um corpo escultural – muito mais que a saúde associada a ele – é uma das maneiras que o patriarcado encontrou de deixar mulheres insatisfeitas por conta da eterna busca do impossível. E as redes pioraram muito esse quadro. 

Os meios utilizados para atingir esse tal corpo perfeito parecem estar cada vez mais absurdos. A lipoaspiração, cirurgia plástica em que se aspira, com uma cânula, a gordura localizada da camada mais profunda – que é respeitada para que a cicatrização fique regular – pode não ser novidade. Mas a LipoLad ou Lipo HD, é. Nessa nova modalidade do procedimento, usa-se cânula menor para agredir de forma intencional a camada de gordura superficial, criando uma cicatriz interna e a impressão de uma barriga musculosa. “Esse tipo de lipoaspiração foi, inicialmente, pensada para atletas de alta performance que, mesmo malhando, queriam mais definição, para deixar essa capa de musculatura superforte mais visível. Ela foi criada para esse tipo de paciente, que é quase ninguém”, pontua a Doutora Renata Vidal, cirurgiã plástica que se posiciona contra a modalidade – e que explicou as diferenças entre as lipoaspirações para a reportagem.

“Esse tipo de lipoaspiração foi, inicialmente, pensada para atletas de alta performance que, mesmo malhando, queriam mais definição, para deixar essa capa de musculatura superforte mais visível. Ela foi criada para esse tipo de paciente, que é quase ninguém”

Dra. Renata Vidal

“Na minha concepção, são sequelas cicatriciais. Eu acho um absurdo. E o mais grave é que praticamente não é reversível. Para reverter, você teria que enxertar gordura no local, mas você não consegue o contorno regular”, continua a cirurgiã de Recife, que acredita em um atendimento mais humanizado no setor. Nesse tipo de cirurgia, mais agressivo do que a lipo comum, a agressão à camada mais superficial de gordura pode causar necrose, além dos outros riscos envolvidos na operação, como a perfuração de órgãos internos. Seguindo essa mesma lógica, há também a “Mirian Definition” que, em vez de emular os gominhos na barriga, faz a lipoaspiração na linha alba e nas linhas semi lunares, que são linhas laterais da barriga, deixando os ossos do quadril mais aparentes. “A lipoaspiração tem várias nomenclaturas, a maioria com finalidade de marketing, como se todo ano tivessem que lançar algo novo”, continua Renata.

Como tratamento, a lipoaspiração foi criada para eliminar gordura localizada e, inclusive, não é indicada para pacientes que querem emagrecer ou diminuir a flacidez – muito menos para mulheres que já são extremamente magras. “É um tratamento médico, que depende de uma avaliação, de um diagnóstico e de uma indicação adequados. Isso que faz da cirurgia plástica um procedimento seguro”, explica Dênis Calazans, presidente da Associação Brasileira de Cirurgia Plástica. Entender sua indicação médica é essencial para começar a entender o problema que vamos explorar aqui.

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Jean Baptiste Regnault / wikicommons / reprodução / intervenção/Redação

Perfeição a qualquer custo

Nos últimos meses, várias mulheres se submeteram a essa cirurgia de ‘definição’ do corpo. Em stories no Instagram contando o porquê da decisão de fazer uma intervenção invasiva como essa, muitas dizem ter preguiça de fazer exercícios e dietas e que querem a tal da ‘barriga perfeita’ a todo custo. Sob o pretexto (feminista até) de que ‘cada mulher pode fazer o que quiser com seu corpo’, essas mulheres – muitas delas com 18 anos recém-completados – clamam que, se elas podem fazer algo para se sentir melhor, por que não? 

Em um dos exemplos investigados pela reportagem, a atriz e cantora Giovanna Chaves (que soma 11 milhões de seguidores na plataforma) comunicou sobre sua cirurgia com um vídeo-meme do TikTok – por causa das críticas, o vídeo foi deletado tanto da rede quanto do Instagram. Em outro, a criadora de conteúdo Alessandra Prado (1,6 milhões de seguidores) filma uma amiga na clínica falando que ela já fez a LipoLad e conseguiu praticar exercícios no mesmo dia. Ambas têm destaques em seus perfis chamados LAD e fizeram o procedimento na JK Estética Avançada. O perfil da clínica tem 980 mil seguidores e publicações que evidenciam as “cicatrizes” que transformam a barriga. A sensação é de estar olhando para um cardápio modificado no Photoshop ou no FaceTune – ainda que aquelas fotos sejam reais, há um jogo de luz que confunde a mente.

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“O número de likes ou seguidores não é atestado de competência profissional de ninguém. Os pacientes são iludidos, se tornando meros objetos de mercância”, aponta Dênis sobre o problema que as redes sociais causam na indústria. O real problema, na verdade, é a banalização da cirurgia plástica, como se ela fosse um procedimento estético qualquer, que pode ser feito numa clínica, com poucas complicações possíveis e um tempo de recuperação pequeno.

Com milhares, às vezes milhões, de seguidores, essas mulheres fazem parecer que, para ser aceita na sociedade, é preciso mais do que ser somente magra. É preciso linhas e definições quase sobre-humanas – causando ainda mais insatisfação em quem não tem o dinheiro (ou o número de seguidores) necessário para lipoaspirar a barriga. Nos comentários dessas publicações, lê-se várias meninas dizendo que aquele é o sonho delas, que fariam tudo para ter um corpo assim. E é aí que mora o problema: “fazer tudo” para conseguir um corpo específico é bastante. “Isso é um reflexo dessa geração mega imediatista. Esses meninos e meninas querem tudo na mesma velocidade do celular. Eles não querem ficar mais saudáveis, querem a barriga perfeita para o ano novo em Noronha”, critica Renata.

Imediatismo é um bom adjetivo para descrever uma geração que prefere se submeter a uma cirurgia plástica complexa, com possíveis complicações, para ter um corpo que consideram perfeito, ao invés de fazer exercícios para atingir esses resultados – ou simplesmente aceitar seu corpo como é. E esse imediatismo faz com que muitas ignorem as recomendações médicas para realizar tal procedimento. “O que nós preconizamos é a lipoaspiração realizada por um cirurgião plástico, portador de um título de especialista e em locais com estruturas adequadas”, explica Dênis Calazans. “A lipo não é um método de emagrecimento, esse é o primeiro entendimento que devemos ter. O segundo é que nem todos os casos são passíveis de excelentes resultados como apresentados na mídia. Isso pode levar a frustração ou a complicações.”

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Perigo na palma da mão

Após um ano recebendo pacientes com complicações e cirurgias mal-feitas, a dra. Renata Vidal decidiu lançar a campanha “Não adote um unicórnio” em suas redes sociais, em que defende que as pessoas estão usando a internet para buscar procedimentos fáceis, rápidos e, se possível, baratos, que não tenham tempo de recuperação longo, e acabam se decepcionando. A maior parte dos relatos que vimos nas hashtags #lipolad e #lipohd – que somam mais de 92 mil menções no Instagram – e nos perfis de influenciadoras falam apenas das mil maravilhas que sentiram após a cirurgia. “As pessoas se decepcionam porque aquilo é uma ilusão”, explica a doutora. “‘Não adote um unicórnio’ é uma campanha de conscientização”. 

De acordo com o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), órgão que regula as propagandas de todos os caráteres e também as publicidades em redes sociais, em lei determinada em 1978, “as recomendações são as mesmas desde os anos 1970: informações honestas e verdadeiras, no sentido mais estrito dos termos, em publicidade claramente identificada como tal. Qualquer subterfúgio que disfarce que se trata de um anúncio é reprovada pelo Conar”. Segundo a lei, as fotos de antes e depois de procedimentos cirúrgicos também são proibidas. “Mas muitos médicos começaram a ficar revoltados com o fato de que agora outros profissionais, como dentistas, estão fazendo cirurgias plásticas e fazendo esse tipo de postagem, e acabaram chutando o balde”, comenta Renata. Apesar de regulamentar propagandas, o CONAR não tem regras sobre permutas, o ato de receber produtos e serviços em troca de divulgação. “Permuta para angariar cirurgia é uma prática terrível, de uma banalização da medicina e do ato médico absurdos. Infelizmente, tem quem se propõe a fazer isso. Não acho ético nem moralmente correto”, pontua Vidal. 

Segundo Dênis Calazans, a Associação Brasileira de Cirurgia Plástica tem policiado seus membros para que não executem publicidade médica antiética, além de lançar uma campanha que chama “Não Existem Milagres”, que pretende conscientizar a população para que parem de se guiar por mídias para escolher profissionais, já que é muito fácil ser iludido por fotos manipuladas. 

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Wikicommons / Reprodução / Intervenção/Redação

Por uma indústria (e pacientes) mais conscientes

”Posso afirmar que estamos investindo fortemente na humanização”, continua Dênis. “Estamos fazendo lives e dando orientações a todos os médicos da Associação. Esse espírito também tem sido uma crescente entre os médicos em formação, que tendem a trazer um futuro melhor”. Infelizmente, uma prática mais humana, que leva em consideração também aspectos psicológicos dos pacientes assim como as influências da sociedade em casos de dismorfia corporal e obsessão por uma perfeição que não existe, ainda não é regra. Ainda que fosse, os médicos defendem que há de haver uma conscientização da população, já que há quem faça cirurgias em locais clandestinos e com “profissionais” não formados em medicina. “Várias vezes, falo que não vou realizar a cirurgia, explico o motivo, mas falo que eles vão encontrar alguém que faça. Já aconteceu de eu contraindicar cirurgias, falar que há risco de morte alto, e mesmo assim a pessoa procurar um ‘médico’ que a opere”, explica a dra. Renata Vidal. 

Em um momento em que já batemos tanto na tecla do amor-próprio, da auto-aceitação e do parar de olhar para as redes sociais como se o que é postado fosse um exemplo de vida e felicidade, a banalização da cirurgia plástica em detrimento de um corpo irreal, que é vendido como fácil de atingir, é preocupante. As leis sobre o que pode e o que não pode ser feito, desde as redes sociais até a mesa de operação, infelizmente não conseguem controlar o boom de procedimentos estéticos sendo vendidos como soluções de todos os problemas – esse tipo de consciência tem que vir da população.

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