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“Como mulher, eu deveria aceitar um cargo de chefia desse naipe”

Laís Bodanzky reflete sobre cinema, política, Spcine e seu trabalho na periferia

por Rodrigo Grilo 15 jul 2020 10h21
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Clube Lambada/Ilustração

oteirista, produtora e diretora de filmes como Bicho de Sete Cabeças (2001), As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Como Nossos Pais (2017), entre outros, a multi premiada cineasta Laís Bodanzky pegou gosto pela política. Perto de completar 50 anos, ela resolveu dar uma chacoalhada na rotina ao aceitar o convite para comandar a Spcine. Nem mesmo o imperador Dom Pedro I – figura histórica cuja vida é figura central de seu novo longa-metragem, hoje em fase de pós-produção – deu conta de impedi-la de aceitar o desafio de assumir o manche da empresa pública de desenvolvimento da indústria audiovisual da cidade de São Paulo. “A política é muito legal mesmo, viu?”, afirma. “Quando surgiu a crise da Covid-19, pensei: ‘Que importante ocupar um posto que exige de mim a atitude de pensar em um setor todo’.”

Há pouco mais de um ano, portanto, Laís embarcou no desafio em meio ao desprestígio da cultura conferido pelo governo federal. Mesmo sem contar com o recurso do Fundo Setorial do Audiovisual, que ainda não foi liberado pelo presidente Jair Bolsonaro, ela tem muito a comemorar. Além de ampliar o catálogo de filmes da Spcine Play, única plataforma de streaming pública do país, o tornou gratuito em sua totalidade à população. E mais importante: ao formalizar a política afirmativa, a Spcine passou a ter metas a cumprir para garantir e buscar a diversidade de gênero e raça em todos os editais. “Com esse foco, estamos olhando para a periferia e observando onde estão as cineastas negras, o que precisam, se há falta de roteiristas, por exemplo, e como podemos estimular essas pessoas a se tornarem protagonistas no audiovisual, porque elas ainda não são”, diz.

Com esse compromisso e uma de suas duas filhas, Mariá, já experimentando a carreira de atriz, Laís divide, a seguir, como tem feito política em tempos nos quais o agente público é um personagem com filme queimado. 

Rodrigo Santoro no filme “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodansky.
Rodrigo Santoro no filme “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodansky. Arquivo/Divulgação

Como se sente depois de completar meio século de vida?
O número 50 chama muito a atenção. Mas estou muito feliz com a minha idade em todos os aspectos. Com muitas experiências e conquistas na vida. E ainda me sinto com um corpo e uma mente jovens. É um momento muito interessante da minha vida. Não sei como será daqui dez anos, mas até aqui está tudo ótimo. 

Fazer política vicia também uma diretora de cinema?
A política é muito legal mesmo, viu? Quando surgiu a crise da Covid-19, pensei: “Que importante ocupar um posto que exige de mim a atitude de pensar em um setor todo”. É muito importante, gratificante, ter essa responsabilidade, poder atuar e tentar fazer a diferença. Nesse sentido, é viciante, tentador. Mas uma coisa é trabalhar no poder público e, outra, ter um cargo de fato político, fazer parte de um partido político. A minha relação no poder público é técnica. Me sinto emprestada ao poder público, para promover o encontro entre ele e a sociedade civil. Ao término do meu mandato, daqui a um ano, a minha ideia é fazer o mesmo, só que na via contrária: levar ao setor o conhecimento adquirido na Spcine.


“Me sinto emprestada ao poder público, para promover o encontro entre ele e a sociedade civil. Ao término do meu mandato, daqui a um ano, a minha ideia é fazer o mesmo, só que na via contrária: levar ao setor o conhecimento adquirido na Spcine”

Quando assumiu, as pessoas olhavam para você, uma mulher no comando de um Boeing como a empresa de cinema e audiovisual de São Paulo, de maneira diferente? Deu de frente com o machismo?
Não sei dizer, porque isso é algo da vida como um todo. A gente sempre sente isso. Um dos motivos que me fez aceitar dirigir a Spcine foi que, como mulher, eu deveria aceitar um cargo de chefia desse naipe. Pesquisei, na época, quantas mulheres ao redor do mundo eram presidente de empresas. Apenas 15%! Era preciso melhorar esse número aí. Me dispus a entrar nessa provocação no sentido de ocupar esse espaço. Fiquei e me sinto muito à vontade dentro da prefeitura e com outras secretarias da capital.

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Como foi a sua comunicação com as empresas privadas e os parceiros de longa data de setor?
Quando entrei, já havia uma crise estabelecida no audiovisual pelo fato de o nosso fundo setorial não ser liberado. A Ancine teve, então, de se reorganizar para resolver um passivo. O setor, então, estava assustado, em pânico. E o que era difícil ficou pior ainda com o coronavírus. O setor, que sempre foi politizado e organizado, agora é muito mais. As associações ganharam muita força e eu não sabia quem cada uma representava. Descobri, por exemplo, que existe Associação das Críticas de Cinema, das diretoras de fotografia, que não fazem parte da dos diretores de fotografia. Eu deveria, mas não conhecia esse mundo. Aprendi a me relacionar com todos ao mesmo tempo em que descobria que eles mesmos não se conheciam. Essa é a verdade. Foram as reuniões do comitê consultivo da Spcine que fizeram com que eles se olhassem pela primeira vez. Estamos, então, vivendo um momento bem interessante.

O que precisou ser aperfeiçoado e criado?
Aceitei o convite por admirar o trabalho da Spcine. Cheguei com segurança, concordando com os projetos e garantindo que tudo iria continuar ainda que o Governo Federal já acenasse com um descrédito à área da cultura como um todo. Nada irá se desmanchar aqui, pensei naquele momento. Claro, descobri que a Spcine é muito maior do que imaginava. Ela dá conta de todas as áreas do setor audiovisual da capital paulista. Havia pérolas aqui dentro que muita gente desconhecia. Resolvi, portanto, contar ao setor o que mais a Spcine faz. Reativei o comitê consultivo para estabelecer um diálogo com o setor, para que esse conhecesse e contribuísse com as nossas ações. Outro ponto importante foi a criação do Observatório, por meio do qual levantamos pesquisas, publicações e artigos sobre o setor para, também, serem divulgados. Isso é importante para que a transparência dos dados dê respaldo às nossas ações e discursos e para que tenhamos a real dimensão do audiovisual. 


“Estamos olhando para a periferia e observando onde estão as cineastas negras, o que precisam, se há falta de roteiristas e como podemos estimular essas pessoas para se tornarem protagonistas no audiovisual, porque elas ainda não são”

E também para vocês se enxergarem melhor.
Sim, para a gente se ver e reconhecer como uma cidade responsável por 25% do audiovisual do país. Outra grande conquista foi trazer um protagonismo em várias frentes à capital enquanto cidade audiovisual. Ações como a que fizemos junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com exibições gratuitas no Theatro Municipal, foram marcantes e trouxeram um glamour que a cidade e o cinema pedem. 

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A partir dessa mesma ação, houve uma sessão de gala de A Vida Invisível, no CEU Meninos, na zona sul. E o diretor do filme, Karin Aïnuz, esteve lá para um bate-papo. Como a Spcine atua para expandir o audiovisual nos grotões?
Foram depositados mais recursos na equipe de trabalho da Spcine Play, a única plataforma de streaming pública do país com sinal aberto a todo o território nacional. Cerca de 230 títulos, entre filmes, séries, shows e talks, estão disponíveis ali e 70% deles poderiam ser acessados gratuitamente, até abril. Aí conseguimos ampliar essa margem. Agora, até o fim do ano, então, a totalidade do conteúdo estará de graça à população. O problema é que, nas periferias, a internet não chega em alguns bairros e há casas sem wi-fi, telefone fixo, o que não permite que consigam acessar a plataforma. Infelizmente, em março, também tivemos de suspender as sessões do Circuito Spcine que ocorrem em vinte salas, quinze delas localizadas em CEUs, por causa da pandemia.   

Francisco Miguez e Fiuk durante gravação do filme “As Melhores Coisas do Mundo”.
Francisco Miguez e Fiuk durante gravação do filme “As Melhores Coisas do Mundo”. Arquivo/Divulgação

Enxerga uma efervescência na periferia em relação ao audiovisual?
Sim e digo como sabemos isso. Ano passado, formalizamos a política afirmativa da empresa, algo importantíssimo. Significa que, agora, temos metas a cumprir para garantir e buscar a diversidade de gênero e raça em todos os editais. A partir desse foco específico, estamos olhando para a periferia e observando onde estão as cineastas negras, o que precisam, se há falta de roteiristas, por exemplo, e como podemos estimular essas pessoas para se tornarem protagonistas no audiovisual, porque elas ainda não são. Há uma efervescência, uma produção rica, que dá para perceber no curta-metragem, de novos cineastas. Mas ainda não chegaram no longa. A gente aqui se sente responsável para que elas trilhem também por esse caminho. E estamos formando agentes cineclubistas.

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Como funciona essa formação e para que ela serve?
Assim que assumi, começamos a desenhar o projeto do Circuito Cineclubista, que prioriza a afirmação da diversidade da produção audiovisual, a pluralidade de ideias, estilos e gêneros em espaços com sessões seguidas de debate em Casas de Cultura e Centros Cultura. Há, hoje, dezesseis pontos cineclubistas na cidade, como o Cine Sabotage, no Centro Cultural Grajaú. Todas as ações que acontecem neles são organizadas pelos agentes cinbeclubistas, jovens das regiões periféricas que estamos formando. Selecionamos quinze após quatrocentos se inscreverem para a função. Nós damos a eles, a suplentes e a outros jovens monitores, trinta no total, uma formação com duração de sete meses. Eles recebem duas aulas por semana, participam de encontros com vários profissionais da área e discutem várias temáticas. E cuidam da programação das salas, divulgam e promovem os debates. 

Provavelmente, as temáticas locais pautam a programação.
Nesses lugares, os filmes exibidos, a programação escolhida, fazem sentido para as pessoas dali. Esses agentes são formados para compreender todo o mecanismo do circuito exibidor. No futuro, então, podem atuar como curadores, programadores, produtores de circuitos exibidores tanto online quanto presencial. Contamos, também, com outros cursos de formação técnica para jovens periféricos que não têm oportunidade de entrar no mercado audiovisual, de se aperfeiçoar. A gente oferece, ainda, aulas e cursos de médio e longo prazo por meio do programa Sampa Criativa, focado na formação empreendedora de jovens talentos do audiovisual e da economia criativa, uma iniciativa nossa em parceria com a Secretaria municipal do Trabalho e Desenvolvimento Econômico, para colocá-los no mercado de trabalho.

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Costuma visitar comunidades para interagir com esses jovens?
Vou pontualmente a alguns eventos específicos, porque há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo por aqui. O meu trabalho é, de fato, em equipe. Eu cheguei a dar uma aula para os agentes cineclubistas. Estava marcada para ser presencial, mas acabou sendo virtual. Foi incrível passar uma tarde com eles. Há muitas frentes aqui na Spcine. E a minha função é fazer uma costura de tudo, inclusive politicamente falando, a partir de articulações dentro da prefeitura e com a sociedade como um todo, provocando ações políticas, debates, discussões, como a regulação do VOD (Video On Demand), ou mesmo para estudar a situação do audiovisual no geral. São muitos assuntos ao mesmo tempo (risos). 

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais (20XX)
Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais (20XX) Arquivo/Divulgação

Ano passado, repercutiu bastante na capital paulista o fato de uma produção internacional da Netflix, que tem o ator Keanu Reeves no elenco, ter escolhido São Paulo como locação. Como isso foi possível?
Ano passado, seguindo uma proposta da São Paulo Film Commission, a segunda maior da América Latina, foi aprovado o Programa de Incentivo às Filmagens da Cidade de São Paulo. Ele tem como proposta apoiar produções internacionais a usarem a capital para produção e pós-produção por meio do cash rebate, que restitui entre 20% a 30% do valor gasto por produções que escolham São Paulo como locação. É a primeira vez no Brasil que essa forma de incentivo, já adotada mundo afora, foi implantada para a atração de filmagens. Confesso que fiquei surpresa que deu certo.


“A série Conquest, da Netflix, com Keanu Reeves no elenco, provou o retorno que a cidade pode ter com essa iniciativa. Em um mês, entraram aqui R$ 10 milhões e 2 mil empregos foram criados graças a uma única produção”

Tudo apontava para o contrário?
Não. Mas conseguir que vingasse em pouco tempo, sim. Dialogamos com várias áreas da prefeitura e fizemos que entendessem que o setor audiovisual é uma indústria, uma indústria criativa. Feito isso, o projeto foi abraçado pela cidade. E logo rolou, em setembro passado, a filmagem de uma série de grande porte, Conquest, da Netflix, com Keanu Reeves no elenco. Esse exemplo provou o retorno que a cidade tem a partir desse programa. Em um mês, entraram aqui R$ 10 milhões e 2 mil empregos foram criados graças a uma única produção.

Laís Bodanzky no set de filmagem de “Chega de Saudade”.
Laís Bodanzky no set de filmagem de “Chega de Saudade”. Arquivo/Divulgação

Este ano, você deve lançar um longa sobre Dom Pedro I. Em que pé ele está? Sente falta de filmar?
Pedro está em montagem e, nas horas vagas, me dedico a ele. Não sinto falta de filmar, porque, como estou em montagem, me sinto em um projeto em andamento. 

Qual saída enxerga para o audiovisual a partir das restrições impostas pelo Governo Federal?
Hoje, não há outra opção a não ser seguir batalhando pela liberação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O recurso ali parado, cerca de R$ 750 milhões, pertence ao setor e nos livraria da crise causada pela Covid-19. Enviamos um ofício ao comitê gestor que define as ações do FSA, dizendo que a Spcine se responsabilizaria pelo dinheiro relativo à cidade de São Paulo em relação a contratos, prestações de contas, acompanhamento dos projetos, uma vez que já os aprovamos. Em uma situação de crise grave como essa, é inacreditável que o dinheiro esteja parado. É de uma irresponsabilidade com trabalhadores de um setor que contribui significativamente para o PIB do país.

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