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A pista como palco

Há 14 anos na cena, L_cio se prepara para seu salto mais ambicioso, o lançamento de “Algo”, enquanto reflete sobre sua vida e carreira em ascensão

por Artur Tavares Atualizado em 19 jun 2020, 19h36 - Publicado em 19 jun 2020 19h12
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Clube Lambada/Ilustração

ma sensação de paz invade subitamente a pista de dança enquanto as luzes e os flashes neon ficam menos intensos. No escuro que cai momentaneamente, a harmonia toma conta dos corpos inquietos. Naquele lugar tão improvável para a manifestação divina, as melodias se tornam angelicais, doces, etéreas. O tempo e as pessoas param em transe, poucos minutos que poderiam ser a eternidade. E, então, potência, explosão. Em um ambiente tão propício para externar anseios e esvaziar a mente da rotina cada vez mais massacrante que vivemos, a música produzida por L_cio é das poucas que tem a capacidade de ser verdadeiramente transcendental.

[Essa reportagem vai muito bem acompanhada pelas músicas do próprio L_cio. Dá um play e boa leitura]

Entre os grandes expoentes da música eletrônica atual, L_cio se destaca por ser um contador de histórias sonoras. Compositor que teve uma intensa formação erudita, o paulistano abusa de elementos orgânicos para construir um live act calcado no techno, que transita também por compassos do deep e da house music. Os beats importam, mas seus trunfos são as notas de piano e violoncelo que sintetiza e a flauta transversal que toca ao vivo em momentos pontuais de suas apresentações, viagens sensoriais capazes de levar ao além.

Hoje com 43 anos e prestes a lançar seu novo espetáculo audiovisual, chamado Algo, Laércio Schwantes conviveu desde pequeno com a música, mas nunca imaginou que viveria da noite. Nascido em uma família bastante cristã – adventista, para ser mais exato –, e filho de uma das principais organistas que São Paulo já teve, ele teve uma infância bastante rígida: “Toquei flauta transversal na igreja desde os sete anos de idade, e aos 14, quando estudava para prestar concurso e entrar em orquestras, decidi abandonar o conservatório. Eram seis horas diárias de dedicação, que sacrificava as brincadeiras, meu tempo para jogar bola, ficar com os amigos.” Era 1990 quando ele cometeu sua primeira subversão, o ano em que as pistas de dança explodiam com “Pump Up the Jam”, do Technotronic, e com “Personal Jesus”, do Depeche Mode.

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Foi neste ano que a mão do destino começava a agir para que o menino Laércio não abandonasse as melodias, mesmo que quisesse: “Foi a época em que surgiram os primeiros computadores pessoais, os PC XT. Na minha escola, fiz um teste de proficiência, que mostrou que eu faria algo relacionado à computação e à música.” Ainda tocando flauta por hobby, ele decidiu se enveredar para os esportes. Começou a praticar judô, taekwon-do, natação e ginástica olímpica. Seu verdadeiro amor, o basquete, o levou à faculdade de Educação Física, em Rio Claro, interior de São Paulo.

“Toquei flauta transversal na igreja desde os sete anos de idade, e aos 14, quando estudava para prestar concurso e entrar em orquestras, decidi abandonar o conservatório”

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L_cio/Arquivo

Longe das rédeas familiares e da igreja, experimentando uma liberdade até então desconhecida, Laércio começava a descobrir o mundo: “No segundo ano de faculdade, passei por uma das salas de dança e estava rolando uma aula de Capoeira Angola. Era algo novo na minha vida, porque, pela minha formação religiosa, eu não tinha acesso a essa cultura”, lembra. “Pirei nos velhinhos jogando, na música, nos rituais que aconteciam ali. A partir daquele momento, passei dez anos estudando isso e fiz meu mestrado relacionado à capoeira.” Dali em diante, trocou o cristianismo por religiões de matriz africana, se especializou em metodologia de ensino, tornou-se referência em concursos públicos para professores.

Trance: o início

“Teve um dia que uma ex-companheira, a Karine, chegou em casa dizendo que iria me levar em uma rave.” Os olhos de Laércio brilham e suas expressões corporais ficam mais intensas, enquanto ele narra a experiência. “Foi em um chapadão enorme em Campinas, um lugar alto, tomado por uma neblina no amanhecer, uma energia muito louca. Eu tinha 25 anos, foi a primeira vez que tomei ecstasy!” No line-up, artistas que hoje são lendas, como o australiano Raja Ram – um senhor de quase 80 anos que, golpe do destino, também toca flauta ao vivo –, a banda 1200 Micrograms, o espetacular GMS. “Pirei. Até então, eu só escutava reggae. Nunca tinha ouvido um sintetizador, um kick, e para mim aquilo não existia.”

Sem saber se era a bala que tinha deixado Laércio um tanto transtornado, os amigos ficaram preocupados, queriam saber se ele estava bem: “Eu respondia que sim, mas que também estava puto porque não sabia de onde vinha aquele som. Me explicaram que a música saía de um disco, normal, mas o que eu queria entender era como aquilo funcionava.”

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Karine foi providencial na vida de Laércio. Quando ele se mudou para São Paulo para dar aulas de Educação Física dois meses depois, ela aproveitou a oportunidade e pagou um curso de produção musical para o companheiro – anos depois, também seria ela quem batizaria o projeto solo do artista de L_cio, e que sugeriria que ele remixasse “Construção”, de Chico Buarque. Era 2003, quando poucos brasileiros tinham acesso a softwares de composição eletrônica, e a cena era feita de uma leva de grandes DJs, como Marky, Patife, Mau Mau. Em uma portinha da Rua Cardeal Arcoverde, o jovem encantado com as pick-ups conheceu Yes América, um dos principais djs de jungle brasileiros, o estilo que antecedeu o drum and bass.

“Eu não acreditava quando ele me mostrou o Reason, programa que me permitia tocar qualquer instrumento no computador. Eu anotava tudo que ele dizia em um caderno, fui o primeiro aluno dele a ter esse rigor”, lembra, com bom humor. “Ele me deu o programa em sete DVDs, instalei no meu computador, comecei a fazer as músicas nas minhas caixinhas de som mesmo, enquanto aprendia e frequentava mais festas. Me tornei assíduo de casas como a Torre do Dr. Zero, o Tostex, a D-Edge.”

“Estava puto porque não sabia de onde vinha aquele som. Me explicaram que a música saía de um disco, normal, mas o que eu queria entender era como aquilo funcionava”

O tempo foi passando e o universo sonoro de Laércio continuava se expandindo para muito além do trance. O garoto que não tinha referências deu lugar a um pesquisador incansável, e, acima de tudo, um batalhador que não desistiria até colocar em ondas sonoras próprias aquilo que sentiu quando esteve pela primeira vez em uma pista de dança. Em 2007, tornou-se aluno de outro grande produtor paulista, George Alveskog, que tocava live na dupla Einstein on the Beach, em uma troca que foi valiosa para ambos: “Ele queria dar cursos de formação, e como meu mestrado foi em metodologia de ensino, fui um aluno cobaia enquanto dava meus feedbacks para ele.”

Não demorou muito para que as primeiras composições de L_cio fossem notadas na cena – mas isso aconteceu de maneira bastante incomum. Ele não foi descoberto por nenhum dono de casa noturna, nem apadrinhado por outro grande produtor: “Eu ia semanalmente no D-Edge assistir a coisas novas, e naquele dia levei um CD com as minhas músicas, que dei para o Johnson, iluminador da casa. Ele ficava ali no cantinho iluminando e eu do lado fumando, conversando com ele. Duas semanas depois, ele me disse que tinha curtido o som e convidou para aparecer no clube uma hora antes de abrir.” Por um ano, o produtor tocou para uma plateia vazia na balada mais importante de São Paulo, a primeira vez que conseguiu ouvir suas músicas em um soundsystem digno de respeito. “Minha vontade era dar som lá, obviamente, mas por todo esse tempo eu só ficava em cima do palco uma hora antes, e quando a casa abria eu desligava tudo”, ele lembra.

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Sua estreia por lá foi na noite CIO, comandada por Glaucia++ e Magal. Depois, foi convidado para tocar na Mothership. Na D-Edge, acabou se tornando residente com três projetos diferentes: seu live solo, L_cio; o Lacozta, em parceria com Daniel Costa; e o Gaturamo, com o também genial Pedro Zopelar. Nesse meio tempo, passou a figurar também nas noites Oldschool Friends e Caravana da Coragem, do Vegas; na Eclipse, do Lions Club; e na Subcut, do Tapas. Começando a se projetar para o sucesso, tocou na décima edição do megafestival Universo Paralello, que acontece bienalmente em Pratigi, no sul da Bahia.

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L_cio/Arquivo

Independente e underground

A vida de quem toca música eletrônica pode ser bastante complicada em termos financeiros e, por isso, Laércio ainda era professor universitário quando fundou um dos primeiros coletivos eletrônicos de São Paulo, o Under_Line, em 2010. Naquela época, a cena ainda engatinhava sobre a fórmula bem-sucedida na qual se sustenta hoje, quase uma década depois. Ao longo de 51 semanas ininterruptas, ele tocou com amigos como Max Underson, Ney Faustini e Rafael Moraes, sempre às quartas, também no Tapas. A Rua Augusta naquele tempo era vibrante e as pessoas experimentavam um misto de liberdade e libertinagem enquanto desciam e subiam por lá durante as madrugadas.

Entre casas noturnas e inferninhos restritos ao boca a boca de quem estava completamente inserido em determinadas galeras, Laércio tornou-se figurinha carimbada em festas undergrounds, como a Voodoohop. Em uma dessas noites, conheceu Paulo Tessuto, fundador da Capslock e hoje seu melhor amigo, e em outra delas começou uma relação com a Mamba Negra, das artistas Cashu e Laura Diaz.

A partir desse momento, Laércio decidiu abandonar a Educação Física para se dedicar integralmente à música. O sonho estava, em partes, realizado: “Fui companheiro da Cashu por dois anos, tempo em que participei ativamente da Mamba Negra. Fundei o [grupo] Teto Preto com a Laura cantando e com o Bica tocando percussão. Na segunda apresentação, já chamamos o Zopelar, e a banda ganhou sua primeira cara. Com o Gaturamo, o Pedro e eu tocávamos tudo em máquinas, ao vivo. Sequenciávamos quatro drum machines, era bem louco. Foi nosso primeiro Boiler Room”, ele recorda.

Então, em 2017, Laércio decidiu que era hora de dar um break. Saiu do Teto Preto, encerrou suas colaborações, fez as malas e se mudou para Florianópolis, no mesmo ano em que tocou no maior palco da sua vida, o do Rock in Rio.

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Carreira solo

“Fui para Florianópolis em 2017 porque estava tretando muito com as pessoas. Sou mais velho do que o resto da galera, ariano. Teve um dia que o Tessuto chegou em mim: ‘mano, para de brigar, você tá mó chato’. Aí fui embora. É aquela coisa de se renovar mesmo.” Foi um ano sabático para o músico, que encarava a entrada nos 40 com a busca de se tornar algo ainda maior.

De volta a São Paulo, em 2018, entrou em um speed management com a empresária Monique Dardenne que resultou no lançamento do álbum “Poema”, e um inusitado remix para Pabllo Vittar. “Foi aí que percebi o quanto é importante se planejar, ter metas, e como isso traz convites. Depois que fizemos o evento de lançamento de ‘Poema’, passei a tocar muito mais”, conta. “Saí na revista Bravo! como um dos melhores discos do ano. Isso fez com que várias pessoas conhecessem meu som.”

Sem nunca ter perdido contato com Tessuto nem deixado de lado a residência na Capslock, intensificou com o amigo a administração do selo MEMNTGN. No ano passado, foi o único artista eletrônico a voltar aos palcos do Rock in Rio e um dos headliners da edição paulistana do festival alemão Time Warp, uma apresentação histórica aberta com um remix inédito da canção “Autonomia”, do sambista Cartola, na voz de Elizeth Cardoso.

“Teve um dia que o Tessuto chegou em mim: ‘mano, para de brigar, você tá mó chato’. Aí fui embora”

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Para esse ano, os planos de Laércio são ambiciosos. Em breve ele estreia via streaming seu novo live, “Algo”, que se tornará um espetáculo magistral, cuja experiência será completamente imersiva, audiovisual, quando a quarentena acabar. Trata-se de uma parceria com a equipe da Sala 28, que cuida da iluminação dos principais eventos de música brasileiros, e funciona da seguinte maneira: por meio de uma tecnologia chamada Touch Designer, todos os sons que saem do computador são mapeados, virando luz: “Meu live é duplicado em formato midi, e os iluminadores recebem todas as informações que transmito em formato digital. Geralmente, os audiovisuais são reativos ao master, ao som geral. No meu caso, o kick manda um sinal, o bass manda outro, a nota da flauta e a intensidade do sopro se tornam duas informações diferentes. Cada coisa tem sua reação própria, e isso sem latência nenhuma”, explica. Com dez faixas, “Algo” só será lançado em álbum após algumas apresentações ao vivo.

Sem fazer muito barulho, Laércio também se tornou sócio da Urban Jungle Records, agência que cuida da carreira de músicos como Otto, Céu, Edgar e das bandas Boogarins e Teto Preto – seu trabalho é fazer a curadoria e agenciar os novos artistas eletrônicos contratados: Érica Alves e Bad_Mix, que fazem live act, o DJ Maurício Lopes, e o projeto Vermelho Wonder, do produtor Marcio Vermelho com a drag Ivana Wonder nos vocais. “Vamos abrir esse espaço de cruzamento das cenas”, diz.

Para o futuro, Laércio promete lançar músicas em parceria com outro grande astro da cena nacional, o produtor Gui Boratto, até o início de 2021. Por enquanto, vão ser colaborações, que nós, por aqui, gostaríamos de ver ao vivo, é claro. Seu sonho não realizado? “Quero tocar no Theatro Municipal, ou então em uma igreja. Se eu pudesse tocar em qualquer lugar, seria na Catedral da Sé, ou no Templo de Salomão”, concluiu, entre risos.

L_cio toca na Ressonância
L_cio toca na Ressonância Cabra/Divulgação

Clique aqui para ler a segunda parte da nossa reportagem com L_cio.

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