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Música para todo o mundo

Um dos maiores expoentes do downtempo, o produtor Renato Rocha cria sonoridades que reverberam etnias globalizadas no projeto Kurup

por Artur Tavares 3 fev 2021 00h22
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Clube Lambada/Ilustração

o universo cada vez mais popular da música eletrônica, suas vertentes bem definidas fazem a cabeça dos fãs e a alegria nas pistas de dança. Quem gosta do estilo sabe listar exatamente suas vertentes favoritas: do techno ao psytrance, conhecemos os principais produtores musicais e DJs, batemos carteirinhas nas festas, curtimos o som até amanhecer.

De todos os gêneros da e-music, um deles tem um guarda-chuva musical tão vasto que sua denominação parece vaga, o chill out. Nas pistas de chill, você ouve desde batidas mais orgânicas, como o reggae e o dub, até vertentes um tanto mais sintetizadas, como o trip-hop e o ambiente. Se chill out significa, em tradução mais ou menos literal, um lugar para relaxar – ou “baixar a brisa” –, a verdade é que se trata de um ambiente de maior encontro, risadas, de comunhão entre as pessoas.

Embora seja tratado como um ambiente secundário na maioria dos festivais brasileiros, como um “palco alternativo”, o chill out é respeitado em todo o planeta. Alguns dos maiores artistas de house, techno ou trance têm projetos paralelos em vertentes do chill – alguns deles tão bons ou até melhores que seus projetos principais –, enquanto outros dedicam sua carreira inteiramente para realizar bons sets matinais ou ao entardecer, os sunsets.

Aqui no Brasil, e também em outros lugares do mundo, existem festas dedicadas às vertentes do chill out, mas fora dos festivais eles recebem um outro nome técnico, downtempo. São denominações, apenas, mas que ajudam a entender mais esse nicho sonoro. Em São Paulo, festas como Sonido Trópico, Quack e Calefação Tropicaos são algumas dedicadas ao downtempo. E, também aqui no Brasil, temos um dos principais nomes da cena, o brasiliense Renato Rocha, que toca sob a alcunha de Kurup.

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Renato Rocha/Divulgação

Artista plástico de formação e garoto prodígio, Kurup tem uma sonoridade que reverbera sons de todo o planeta. Com apenas 27 anos – ele completa 28 agora em abril –, já rodou o mundo todo tocando, e em cada uma de suas passagens pela Ásia, Europa e por todo o continente americano, aprendeu um pouco sobre compassos, batidas, detalhes musicais que se reúnem em um grande pastiche étnico hipnótico e dançante.

Hoje, Renato mora em Portugal com Fernanda Cortês – que se apresenta sob o nome de Jaçira –, uma parceria que vai além da casa e desemboca na música. Eles têm criado juntos apresentações performáticas a quatro mãos, nas quais eles tocam sintetizadores, beats, instrumentos analógicos como a flauta, com Fernanda também se arriscando nos vocais. E tudo acompanhado de belos figurinos, pinturas corporais, uma cenografia própria e imersiva no som.

Fã confesso do som de Kurup, convidei-o para bater um papo comigo. Nós conversamos sobre sua formação, sobre o estado da arte, a importância do downtempo na música eletrônica e, claro, como anda a vida do artista em tempos de pandemia. Confira:

Você é um cara jovem, despontou cedo na cena da música eletrônica. Como você começou a tocar e a produzir sons? O que te levou a isso?
O universo da música começou dentro de casa, o interesse veio mesmo como ouvinte. Nunca pratiquei muito a ideia de fazer música. Quando tinha uns 16 anos, fiz um cursinho de DJ com uma amiga, por ideia dela. Caí meio sem querer, mas curti desde o início. Encontrei naquele universo da discotecagem, ainda muito novinho, uma maneira de me divertir selecionando músicas. Tocamos juntos por um tempo em um projeto chamado Vice Versa, ainda menor de idade, até que em determinado momento ela abandonou e eu continuei.

Acho que depois de uns cinco anos discotecando, sendo convidado para sair de Brasília, conhecendo outras pessoas, me apaixonei muito pela ideia de produzir música eletrônica, fazer meu próprio som. Foi um momento em que vi outras pessoas misturando instrumentos na música eletrônica, e minha paixão foi crescendo. Comecei a estudar piano, passei a tocar flauta, tentei alguns outros instrumentos, e abracei totalmente a ideia de fazer música com hardware e de forma digital, combinando analógico e digital. Isso faz uns seis ou sete anos, a gestação desse projeto Kurup.

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Renato Rocha/Divulgação

O Vice Versa já tinha essa pegada que mistura downtempo, house e sons étnicos?
Comecei tocando indie dance e indie rock. Era uma cena que rolava muito em Brasília quando eu era novinho. Sempre tive um pé na música eletrônica em casa. Meus pais têm coleção de disco, eu ouvia desde pequeno Kraftwerk, Björk, Depeche Mode. Tive essas influências do início da música eletrônica mais pop. Quando eu entrei na cena club, em um espaço de festas, abracei muito. Mas, talvez seja mais recente essa minha entrada no uptempo. Sempre fiquei beirando o trip hop, post rock, música jamaicana. Sempre curti o tempo mais lento.

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Renato Rocha/Divulgação

Aqui no Brasil, temos muito techno, house, psytrance. O downtempo é extremamente nichado, a cena existe, mas não é gigante. Como foi pra você se desenvolver nesse espaço?
Tem bastante festa ao redor do Brasil, mas é uma cena muito fragmentada. Acho que o downtempo é uma categoria muito abrangente para esse tipo de som que é mais lento, ou que não se encaixa nessa temática da música que veio de Chicago, de Detroit, no caso do house, ou que veio da Europa, no caso do techno.

Quando comecei a tocar o que se encaixa nessa cena de downtempo que a gente vive hoje, foi uma coisa meio palco de chill out em festival de psytrance, que, no final das contas, é um palco alternativo. Toca música brasileira, reggae, rock, hip hop, rap. O Brasil é muito plural, né? Difícil de engavetar as coisas. O país é muito grande, com muita diversidade sonora. Nessa loucura de escutar um pouco de tudo, e de ter circulado em tantos lugares diferentes, quis fazer um som que é um pouco de cada coisa, uma grande mistura. Acho que é bem comum entre artistas brasileiros em geral.

“Brasil é muito plural, né? Difícil de engavetar as coisas. O país é muito grande, com muita diversidade sonora. Nessa loucura de escutar um pouco de tudo, e de ter circulado em tantos lugares diferentes, quis fazer um som que é um pouco de cada coisa, uma grande mistura”

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Renato Rocha/Divulgação

Eu tenho a impressão de que, fora do Brasil, você é um cara que poderia tocar em qualquer tipo de pista. Seja em um mainfloor de um festival de trance, abrindo uma tarde, seja em uma pista de low. Como tem sido agora que você mora em Portugal e está no circuito europeu?
Acho que, sobretudo hoje em dia, rola com certeza. Mas, no começo, minha linha de som era um pouco mais bem definida. Eu pensava que, com o tempo, eu afunilaria minhas possibilidades, mas o que aconteceu foi o contrário, eu alarguei muito meu som. Essa coisa esquisofônica do meu processo ficou pior, estou muito mais perdido. Acabei indo para um caminho multifacetado, que podem me soltar em qualquer horário, e eu vou pensar na música pra aquele momento. Seja às três da tarde ou seja de noite, acho que esse é meu caminho.


“Eu pensava que, com o tempo, eu afunilaria minhas possibilidades, mas o que aconteceu foi o contrário, eu alarguei muito meu som. Essa coisa esquisofônica do meu processo ficou pior, estou muito mais perdido”

Kurup
Kurup Renato Rocha/Divulgação

E, também gosto de tocar muita música acústica. Tem vezes que faço set sem nada de música eletrônica. Eu escuto muita música acústica, tradicional, popular. Muita coisa antiga também. E, eu toquei muito em festivais de trance, seja discotecando dub no chill out, seja tocando um pouco do estilo mesmo. Eu me apaixono fácil por música, então tento pingar um pouco em vários lugares.

A primeira vez que vim tocar na Europa foi em 2017. Naquela época eu já morava em São Paulo há um ano, e estava apostando todas as minhas fichas na música. Começou a pintar esses convites de fora, e eu decidi passar uns três meses aqui pra ver o que acontecia. Senti nessa experiência que é tudo meio parecido, mas na Europa existe um nível de oportunidade muito maior. As pessoas têm chances de fomentar quaisquer espaços da cena de maneiras muito mais fáceis do que no Brasil. E isso da cena underground até o mainstream.

Mas, quanto mais longe eu vou do Brasil, mas sinto que nasci em um lugar incrível e super diverso, e o que falta aqui é fomento, dinheiro. Mas tudo acontece no Brasil, ainda que em pequenos grupos ou nichos.

Um pouco de falta de valorização, também. Aqui no Brasil ainda tem muito preconceito, enquanto por aí existe inclusive mais apoios de marcas, da iniciativa privada…
Acho que sim. Sobretudo agora, na segunda década do novo milênio, pensar na música eletrônica, a valorização… vi um documentário breve esses dias sobre a indústria do K-pop, o pop coreano, que mostrava exatamente como o governo sacou uma grande febre que já estava acontecendo dentro do país, e viu ali um potencial de lucro, de indústria e de potência de exportação. O governo coreano colocou muita grana, ajudou, criou financiamento público, editais, tudo para colocar esse som ao redor do mundo. Isso fez com que o mundo parasse e olhasse para a Coreia do Sul. Isso tem a ver com projeto de governo, com a maneira que o estado vê sua própria cultura. Se o Brasil olhasse o funk, o rap, essas coisas que acontecem com grande pluralidade a nível nacional, poderíamos estar exportando mais.

Existem enormes canais no Youtube só pra divulgação de música eletrônica popular brasileira, o funk, o rap. A iniciativa privada montou uma grande indústria, muitas vezes grupos de dentro das próprias comunidades que criam essa cultura. Isso é bom. Existe essa potência, mas de que forma o Estado lida com o baile funk? É uma das maiores vertentes culturais do momento. Podia ter mais apoio e incentivo para música popular. Existe uma confusão, que nos faz entender um pouco sobre as nuances da música. O funk é uma plataforma para muitos tipos de discursos e vozes de dentro do Brasil. Atinge todas as classes sociais, o público infantil. Devia existir mais políticas públicas para dar mais atenção e carinho a essa e outras manifestações culturais.


“O baile funk é uma das maiores vertentes culturais do momento. Podia ter mais apoio e incentivo para música popular. O funk é uma plataforma para muitos tipos de discursos e vozes de dentro do Brasil. Devia existir mais políticas públicas para dar mais atenção e carinho a essa e outras manifestações culturais”

Comparo com isso com a origem do house. Em Chicago, também começou como movimento de grupos marginalizados. No começo muita gente se irritou com o movimento e hoje temos que ir atrás dessa história para saber o que é house music na sua origem, porque se tornou a música que toca na rádio ou na academia. A coisa foi tão absorvida pela indústria que toca-se esse som hoje pelo mundo inteiro. No Brasil o Samba também tem uma história parecida. É importante entender o potencial econômico na música, no baile, na festa, mas também temos que buscar maneiras de preservar suas histórias e origens.

Isso é uma que acontece muito nos Estados Unidos, de perceber que há uma indústria em espaços ainda undergrounds. A indústria come, faz esse jabá, essa imitação da coisa com a intenção de comercializar, e de repente o mundo inteiro está ouvindo isso, querendo ir para uma pista ouvir house. É uma questão econômica.

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Renato Rocha/Divulgação

Você é um cara que fala muito sobre diversidade, defende essas bandeiras. Como você vê essa relação entre a música eletrônica e o underground no debate dessas pautas?
Acho que, antes de tudo, não tem como separar uma coisa da outra. Se você acha que não tem pauta nenhuma na música que você faz, isso é escolher alguma coisa. É escolher se isentar de uma coisa que está ali no seu trabalho sempre. A carga política sempre existe dentro da expressão artística. Tomar consciência desse processo é algo muito importante. Cada escolha que o artista faz enquanto músico, ou em qualquer tipo de arte, ela tem uma origem. A escolha estética também tem um significado político. Não acho que o objetivo do artista é sempre fazer uma obra panfletária, dizer sempre explicitamente o que a sociedade precisa ouvir. Mas, acho que a música vai estar sempre envolvida em um lugar, precisa acontecer em um local. Sempre temos que manter na cabeça que, se não está implícito nas suas letras ou nas suas composições, você tem que pensar em que lugar está tocando, onde você está colocando sua música.

“A carga política sempre existe dentro da expressão artística. Tomar consciência desse processo é algo muito importante. A escolha estética também tem um significado político”

Eu vejo isso de forma incrível, porque precisamos criar lugares para as pessoas se encontrarem. Afinal de contas, a música é um espaço onde a cultura está acontecendo. É o grande foco da vida. Trabalhamos para conseguir viver, respirar, e no final das contas precisamos nos encontrar, partilhar ideias, pensar em novas ideias para um mundo novo. A música, a apresentação, o teatro, está nesses lugares.

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Renato Rocha/Divulgação

Inclusive, você um cara que sempre toca adornado, pintado, faz seus próprios figurinos. Como você pensa nessa construção visual, esse aporte que acompanha a música?
A minha área de formação é nas artes plásticas. Enquanto adolescente, eu desenhei muito, e depois ingressei na faculdade. Meu estudo foi na visualidade, enquanto a música era um hobby, até chegar um momento que abracei de vez. Nunca larguei a visualidade, mas diminui bastante minha pesquisa com artes visuais. Porém, há uns três anos, comecei a sentir falta, e tentei rebalancear as coisas. Acho que era um pouco de teimosia, lutar contra essa coisa de fazer carreira, ser super especialista em alguma coisa. No momento, vivo um pouco de balancear as coisas. E, isso acabou entrando na minha música.

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Alguns anos antes de eu sair de Brasília, montamos um coletivo de festas chamado Limbo. São outro quatro amigos e mais uma grande equipe. Gostamos de chamar a Limbo de festa-espetáculo, porque a maioria das pessoas que trabalham conosco vieram do teatro, a galera que eu conheci na Universidade de Brasília, um lugar em que os cursos visuais são todos juntos. Sempre foi uma festa muito visual, com performance, instalação, cenografia. Ali nasce um pouco a coisa do figurino, do personagem, e desde então tendo desdobrar um pouco disso.

A Fernanda, Jaçira, passou a trabalhar muito comigo, e me trouxe muito essa bagagem performática, para não ficarmos no lugar comum. Adoro a figura do DJ que quase não aparece, toca de cabeça baixa, que passa a noção de que é sobre a música, sobre olhar uns para os outros na pista de dança. Mas, ter trazido outra pessoa para dentro do trabalho, tocar nosso próprio som, fez com que a Fernanda notasse: “será que isso não é um show? Será que não somos uma banda? Será que não poderíamos pensar nesse lugar?” Desde então, nos últimos dois anos, temos feito bastante figurinos.

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Renato Rocha/Divulgação

E, é bem voltado para a situação. Montamos os figurinos pensando nos lugares onde vamos tocar. Até hoje, não repetimos figurinos. A escolha passa por tocar de noite, de dia, se tem luz do sol, se tem projeção, e aí criar essa fantasia, colocar as pessoas mais perto ainda da história, trazer mais estímulos visuais e sensoriais para fazer com que as pessoas se sintam em um ambiente mais participativo.

Me lembra um pouco do que o Merkaba faz com a Eve Olution, um espetáculo tão imersivo que você está ali na pista de dança, mas quer ficar parado assistindo. E, é raro esse tipo de apresentação. Você tem a performance, mas o artista de fato que sobe caracterizado é raro na cena.
Ainda há muito para explorar esse lugar que mistura as coisas. A performance existe há muito tempo, o teatro também, mas é uma coisa da contemporaneidade misturar essas linguagens. Ao mesmo tempo, quando você começa a misturar, percebe que há muito o que se explorar. Acho que vamos ver muita coisa nova daqui pra frente. Sinto que, quando entro em um clube de dança ou em um festival de música, saco que tem muita coisa que está rolando ao meu redor. E, como você disse, quando o espetáculo é muito visual, dá vontade de puxar uma cadeira e prestar atenção naquela coisa, ter um tempo de imergir na música e no som. E, pra nós tem a ver ritualizar um pouco a coisa, por tocar músicas mais lentas, fazer muitos sunsets.

Me conta mais da Limbo. O coletivo foi super importante enquanto você ainda morava aqui no Brasil, né?
Muito do que sou hoje enquanto artista veio dessa vontade coletiva de juntar ideias e criar situações, ocupar espaços, interagir com a cidade. A Limbo surgiu em novembro de 2016 com objetivo inicial de fazer festas e eventos culturais em Brasília e isso acabou se desdobrando em um grupo que propõe instalações, propostas cenográficas, performances, showcases audiovisuais etc. Com o passar do tempo a gente foi entendendo que nosso objetivo era esse da festa-espetáculo, onde a música não fosse o mote principal mas sim toda a combinação entre som, imagem e corpo. Tanto da nossa parte como do público.

Em 2018 a gente teve essa ideia de nos reunirmos com mais 3 outros coletivos da cidade (Confronto Soundsystem, SNM e SUJO) e juntos fizemos o Beco Elétrico. Um festival que, nos dois primeiros anos, ocupou durante todos os sábados do mês de junho um dos becos do Setor Comercial Sul, no centro da capital, com eventos gratuitos de música eletrônica de diferentes tipos.

A gente se estruturou nessa ideia de que a festa é muitas vezes o espaço ideal para a manifestação e expressão humana. Ali a diversidade pode ter seu lugar de máxima experimentação. É uma situação de encontro onde nos descobrimos e nos organizamos. A Limbo é um coletivo pequeno mas que teve muitos artistas colaborando com a gente durante nossa trajetória. Para esse ano estamos planejando um curta-metragem com vídeos que fomos acumulando das nossas festas e um manifesto que estamos redigindo com diversas mãos, pra além de conteúdos digitais e umas propostas de merchandising como camisetas e afins. Dependemos muito uns dos outros para continuar levantando recursos para nossas atividades, mesmo em contexto pandêmico.

Falar em ritualizar, seu trabalho artístico no Cohra é muito místico. Como você encara essa temática?
Eu tenho uma influência estética grande do que seria o esotérico, o místico. Acho que isso vem um pouco por ser brasileiro. O brasileiro nasce nesse lugar que vive o sincretismo religioso. Todo mundo é pai de santo, mas católico, com pulseirinha da Bahia, que ouve rezos Huni Kuin. A gente vive essa mistura cultural ameríndia e afrobrasileira. Acho que somos muito ciganos, carregamos símbolos de vários lugares, não tem uma coisa do berço. E, sempre fui muito encantado com a ideia de religião, mesmo tendo mantido uma visão mais agnóstica, de não dar muito nome aos bois. Mas, mergulho muito na experiência estética do que seria esse lugar do mistério e do místico. Aí entra essa simbologia que me pegou o trabalho gráfico há algum tempo. A ideia do ícone é a ideia de levar ao mais abstrato possível para você conseguir entender.

Pega a figurinha do homem palito. Desenha um círculo e puxa umas linhas para baixo e você tem uma pessoa. Em qualquer lugar do mundo você sabe que isso significa um ser humano. A ideia do coração passa muito tempo até chegar ali. A abstração dos símbolos me interessa muito. Cria uma espécie de magia, de conseguir dizer muito com pouco. É minimalista, mas cheio de significado.

Ao mesmo tempo, tem essa ideia do tarô, sabe? Brincar com os arquétipos. Todo mundo consegue entender o rei e a rainha, o bem e o mal. Isso está nas histórias, nos contos, na nossa moral. É um assunto global. Acho que tento falar sobre coisas que vão falar com todo mundo do planeta Terra, ao mesmo tempo.

Como tem sido tocar com a Fernanda? Vocês têm tocado mais separados, juntos, ou é uma coisa bem meio a meio?
Acho que, desde que começamos a fazer isso há dois anos, tem sido bem meio a meio. Como focamos muito nessa live de músicas autorais, acho que fazer sozinhos perdeu um pouco o sentido. Depois de tocar a quatro mãos, ter só duas mãos parece pouco. Nosso setup costuma ser o computador, instrumentos digitais abertos, microfones para eu tocar flauta, chocalho, apito, e a Fernanda cantando, fazendo spoken word. De repente, a coisa de fato virou um show. Tem muita coisa improvisada e ao vivo acontecendo ali. E, sozinho, tenho feito mais DJ sets. Posso discotecar só minhas músicas, ou então uma mistura do que gosto de ouvir e tocar.

Você rodou o mundo, né? Tocou na Grécia, Alemanha, Rússia, Georgia, Tailândia. Como tem sido? Porque, vou te falar… Eu sou um apaixonado pela música, pela cena, te vejo rodar e acho que você é um grande expoente nosso hoje em dia.
Rodei! Dei um rolê. Essa coisa de ter rodado vem de ter focado meu tempo e meu esforço em tentar entender e construir minhas canções, e fazer uma coisa ao mesmo tempo brasileira e bem global. Acabou que meu trabalho veio em um momento em que as pessoas procuravam esse tipo de som. Junto com isso, veio um super privilégio de juntar uma grana e sair para a Europa pra ver se daria certo ou não. Me colocar nessa situação de risco, dar a cara a tapa, tem a ver com esse privilégio próprio. Acho que é meio estar no lugar certo na hora certa. E, com certeza ter vindo para cá na minha primeira turnê, foi fácil em termos de locomoção. Depois que voltei para o Brasil, fiquei pensando se não era o momento de aproveitar isso. E, agora estar em Portugal, facilitou ainda mais as coisas. Me sinto um puta sortudo, com certeza, e carrego muito essa experiência dentro de mim. Viajar me fez expandir a cabeça, perceber como a música como expressão artística pode ser diferente em vários lugares, e me fez reconhecer o lugar onde nasci, olhar para ele e dar valor de fato em um espaço fora da caixinha.

Kurup & Jaçira
Kurup & Jaçira Renato Rocha/Divulgação

Como foi interromper isso em 2020, esse processo tão efervescente de viagens e sucesso?
Foi super louco, na real. No começo do ano passado eu fui ao Brasil pela primeira vez desde que tinha mudado para Portugal. Minha ideia era passar dois meses a partir de janeiro. Eu tinha preparado uma tourzinha pelo Uruguai e pelo México, e minha agenda na Europa estava marcada até o final do ano. Seria um super ano. Quando deu março, eu cheguei a ir para o Uruguai, parei em Montevidéu, dormi uma noite no hostel, e quando acordei todos os eventos tinham sido cancelados. Nisso eu já estava recebendo e-mails do México, o pessoal cancelando tudo. Resolvi voltar para Brasília, achei que era a melhor alternativa naquele momento de caos total. E aí foi igual a todo mundo que trabalha com música, perdemos absolutamente todas as possibilidades de trabalho. O que não me fez desesperar completamente foi que tenho esse trabalho visual também, que estava aumentando desde antes da pandemia.

Ter o Cohra, trabalhar com ilustrações, foi o que segurou minhas contas nesse ano. Acho que dei essa sorte de estar ali com o mínimo de clientes, por mais que tenha sido um ano difícil, que tenha faltado dinheiro todos os meses. Mas, consegui me virar um pouco. Ao mesmo tempo que veio a pandemia, veio esse crescimento do conteúdo digital, da experiência digital. Fomos fazer festas onlines, lives na Twitch, criamos a Rádio Quarentena, e, ao mesmo tempo, vi que as pessoas estavam consumindo muito conteúdo visual. E as gravadoras não pararam. Eu faço muita ilustração pra label de música ao redor do mundo, porque acabei conhecendo tanta gente da indústria, e é um lugar que está sempre precisando de conteúdo visual.

Deu pra produzir mais sons?
Confesso que foi o ano que eu menos fiz música desde que comecei. Meu objetivo para 2021 é voltar a fazer. Também aconteceu que eu comprei novos equipamentos ano passado, uma máquina de bateria, um sintetizador modular, então acabei explorando outros lugares da música eletrônica por causa das ferramentas. É um pouco da vontade de sair do computador para fazer música, que já vinha com os instrumentos acústicos, de convidar amigos músicos para gravar. Quero mergulhar no hardware. Então, como não tem o objetivo final, que é encontrar com as pessoas e compartilhar a música com elas, acho que isso fez com que meu processo se transformasse. Não cheguei a concluir ideias mas iniciei muitas. Ano passado foi um ano que resolvi fazer tudo que eu tinha vontade, mas talvez não tivesse tempo para realizar. Agora quero organizar toda essa bagunça que fiz ano passado e criar algo mais consistente.

“Ano passado foi um ano que resolvi fazer tudo que eu tinha vontade, mas talvez não tivesse tempo para realizar. Agora quero organizar toda essa bagunça que fiz e criar algo mais consistente”

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Renato Rocha/Divulgação

Você já tem datas para esse ano?
Não. Zero datas. Acho que pode acontecer, mas por enquanto as pessoas estão segurando. E, na minha cabeça, estou tentando manter uma ideia de que esse ano vai ser parecido com o ano passado. Vou esperar pelo pior, manter essa ideia do confinamento, me preparar emocionalmente. E, também em questões de trabalho, para fazer coisas remotamente. Porque não sabemos como vai ser com a vacina, como vai afetar a imunização da sociedade. Então, no momento, tenho tentado ao máximo não criar muita expectativa, e montar um espaço de conforto e sanidade dentro de casa. Porque, acho que foi uma grande avalanche emocional e de estresse que as pessoas passaram no ano passado, e eu passei também. Foram muitas dúvidas, mas que nos fizeram repensar um monte de coisas. E, mudar os planos é bom para cairmos na real.

Então, acho que vou ficar mais um ano retraído, porque quando for conquistada essa imunidade, as pessoas vão voltar com força total. Até quem não ia para a festa, vai. Porque depois de tanto tempo fechados, vamos lembrar que o objetivo final é a aglomeração. Não consigo nem falar sobre isso porque a coisa que mais gosto na vida é aglomerar. É o maior objetivo. Gosto de estar no meio de um monte de gente que eu já vi, e que nunca vi. Acho que essa experiência do espaço de celebração, de aglomeração, é insubstituível.

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